Capítulo 9 – The Ironic scientist
Shun não conseguiu se manter de pé por muito tempo. Seus pés não conseguiam dar nem um passo a mais para frente, seus membros formigavam. Estava cheio de vergonha pela noite que tinha passado. Nunca sentira uma dor como aquela. E ele desejou morrer.
Encostou a testa na porta do quarto, sentindo o a textura áspera de carvalho e o cheiro almiscarado do óleo de polimento que ainda estava ali. O contato com a superfície era agradável, talvez a única coisa agradável no momento, ainda mais quando ainda ouvia Hyouga chorar atrás daquela mesma porta.
Andrômeda estava desolado. Ouvia as batidas do seu próprio coração descompassado. Sentia uma imensa dor. Dor por tudo aquilo estar acontecendo, dor por saber que desde que deixara Joey no quarto, estava errado.
Mudamente desejou que as ondas o tragassem e que o monstro mitológico que ameaçava a deusa de sua constelação protetora o despedaçasse. Definitivamente, as mandíbulas afiadas do monstro seriam um antídoto bem melhor para dor que sentia do que reencontrar Joseph depois de tudo que tinha feito ao homem.
Os joelhos fraquejaram. Enfraqueceram. Shun caiu prostrado no corredor. E foi nesse momento que ele ouviu passos virem em sua direção.
Afrodite simplesmente o segurou firmemente pelo braço. Olhava para ele com um misto de raiva, incompreensão. Desespero. Shun não saberia precisar ao certo, caso ousasse levantar os olhos. O sueco estava furioso. Segurou Andrômeda com força pelos ombros o erguendo, enfiando as unhas em sua carne branca. Mas Shun estava tão magoado, tão destituído de qualquer sentimento de dor ou prazer, que simplesmente ignorou o fato. Sabia que Afrodite o sacudia, praticamente o jogaria de encontro ao teto para que suas costelas se quebrassem, e realmente não estava se importando, uma vez que ele mesmo estava buscando a autodestruição.
- Me diz que quem está aí dentro com você é o Joey, Shun! – O pisciano gritou repleto de raiva - Não posso aceitar que você estragou sua vida assim! Não posso acreditar! – O homem berrava – Não depois de tudo! – O sacudiu.
Shun não deu resposta. Tomou uma bofetada do pisciano.
- Você passou a noite com o Cisne?! – Afrodite saiu de si completamente. – Você... Ah Shun! Ah Shun! – Afrodite berrava em um tom descontrolado, enfiando a mão com tremenda força na cara de Shun. Tapas e mais tapas eram desferidos com violência, lacerando os lábios, marcando a face do garoto sem piedade. Afrodite parecia uma mãe traída pela própria filha. Também tinha lágrimas nos olhos enquanto batia, mas não parecia sentir misericórdia.
Shun não reagia. Acuado contra a porta do quarto de Hyouga, estava tomando uma surra. E estava gostando.
- Dido! Dido! – Sheena gritou quando ao passar pelo corredor viu o pisciano atacando Shun. Parecia fora de si. A amazona agarrou as mãos de Afrodite como pode, mas não pode evitar levar alguns tremendos tapas e socos. Afrodite parecia cego.
- Tanto sofrimento para nada! Tantos conselhos para nada! – Afrodite gritava. – Você é um idiota Andrômeda, um completo imbecil. O Joey deveria ter matado esse pato quando teve a chance! Olhe essas marcas no seu corpo, esses chupões! Meu Deus, seu idiota! – O cavaleiro de peixes gritou. Levantou a mão mais uma vez, mas quem a segurou foi Sheena. A mulher estava tão chocada que não sabia o que fazer a não ser desferir um violento soco na face de Afrodite que sem esperar rodopiou e caiu desequilibrado sobre as próprias pernas.
- Já chega Afrodite! Onde o Carlo se mete quando você fica assim! Você está desorientado. Vai matar o Shun dessa maneira!
- Palmadas não fazem mal a ninguém Sheena!- Afrodite respondeu - E quem está desorientado é este idiota a minha frente! – Afrodite disse chorando de ódio, não se importando em manchar a maquiagem nem o batom que se mantinham intactos mesmo após uma noite inteira de festa. - Eu estou decepcionado. Estou frustrado. Parece que nada entra na cabeça de Shun quando se trata de Hyouga. Eu vou matar esse pato! – Afrodite berrou.
Sheena perdeu a cautela inicial, e agora o segurava pelos braços. Olhou para Shun que parecia estar em transe, com o rosto cheio de hematomas, a boca sangrando e o nariz também, de joelhos, bem seguro nas mãos de Afrodite. O rapaz não se movia, parcamente respirava, e tremia. Estava, ou parecia estar em choque.
A amazona ao ver que o rapaz não reagiria, alertou:
- Saia daqui Shun. Saia daqui agora menino!
Mas Shun não se moveu.
Não deu um passo. Permaneceu letárgico, pronto a receber mais tapas, ou até mesmo uma facada. Pouco lhe importava o que fosse ou o que lhe aconteceria se Afrodite continuasse avançando sobre ele.
- Ele está tão consciente da sua própria culpa que nem viver ele quer mais! Nem se defende! – Afrodite falou raivoso. - Solte-me Sheena. Eu já o puni como podia. Agora me deixe cuidar dele enquanto o remorso ou sei lá o que ele está sentindo, faça o resto do trabalho. – O pisciano falou se soltando dos braços da amazona de Ophiocus e segurando um Shun completamente indefeso e entregue aos fatos, firme em seus braços fortes.
- Seu bestinha. – Afrodite falou ao ouvido de Andrômeda enquanto o carregava. – O que eu vou fazer pra você entender que eu não quero que você acabe do mesmo jeito que eu?- sussurrou no ouvido de Shun de maneira carinhosa, e prosseguiu. – Eu sou escravo de Carlo. Sei que ele neste momento está me traindo, mas não consigo o abandonar. E você arrisca tudo, tudo que Joey te dá, por uma noite com o pato? – Afrodite falou e depois meneou a cabeça loira, entrando no próprio quarto com Shun no colo. Sheena vinha no seu encalço.
- O que você vai fazer com ele? – Sheena perguntou temerosa parada a porta do aposento de Afrodite:
- Já disse que vou cuidar dele. – Afrodite respondeu impaciente – Ele está em choque, transe, ou sei lá o quê provocou essa letargia. – O pisciano falou – E a não ser que você pretenda me ajudar, é melhor você ir embora.
Sheena olhou bem para Afrodite o medindo de cima abaixo.
Que tipo de homem pune alguém para lhe dar uma lição, e depois cuida desta mesma pessoa com extremo carinho?
Sorriu ao perceber que a resposta era mais que óbvia.
Um pai.
Afrodite parecia amar a Shun como um filho. Era mais do que transparente isso agora. Demorou a compreender que Dido se via no rapaz. Ambos eram frágeis, suscetíveis demais aos sentimentos por homens que nada valiam. Afrodite tinha um passado romântico tão conturbado que se assemelhava a um folhetim de Pedro Almodóvar, ou uma história de Nelson Rodrigues. E tudo que ele queria era que Shun se mantivesse fora dos mesmos problemas que ele tinha passado, mesmo sabendo que as Horas fossem tão difíceis de manipular ao nosso favor.
E agora que tinha percebido, Sheena entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.
Estava na hora de cuidar daquele menino. Do menino que cativou todos os cavaleiros do Zodíaco. Era a hora de reconstruir Andrômeda.
Cinco horas ou mais tinham se passado e Shun sabia que eles todos estavam ali.
Seus fieis amigos estavam sentados do lado de fora do quarto em uma pequena ante-sala; E até Hyouga se encontrava por perto, mas não perto demais dos outros cavaleiros que o aguardavam levantar da cama.
Shun percebeu que estavam preocupados com ele. Mas não sentiu a presença de Joey, e isso o magoou.
A porta estava fechada, e ele sentia o nervosismo de Afrodite do outro lado. Tinham o deixado descansando após terem cuidado dele.
Seu rosto ainda doía pelos tabefes que o cavaleiro de Peixes tinha lhe dado. Bem merecidos, ele bem sabia.
Da dor física ele estaria facilmente recuperado dali a poucas horas, mas da emocional ele não tinha nem sequer vislumbre de cura. Não queria conversar ainda. Não queria falar com ninguém. Ele queria que o chão se abrisse e que ele próprio fosse tragado pela terra. Sentia vergonha, humilhação e uma angustia profunda se elevasse seus pensamentos para Joey e Dádio.
Eles confiaram nele. Ele destruíra tudo em uma noite. Sentou-se na cama. Percebeu que estava limpo e perfumado porque Afrodite o banhara, o penteara e vestira com roupas leves. Uma calça de jérsei claro e uma camiseta larga. Colocara também um abrigo de frio com capuz. Shun considerou-se bonito demais por fora em comparação à feiúra que o tomava por dentro.
Fez-se de pé. Não poderia deixar que eles percebessem que estava desperto. Tinha que dar um jeito de sair dali antes que os outros invadissem o quarto e o enchessem de perguntas e cuidados que ele não merecia. Sentia o cheiro delicioso da sopa instantânea que Carlo estava preparando no forninho da ante-sala, e sentiu o estômago revirar de fome. Mas não se ateve a isso. Tinha de sair dali.
Percebeu que os cachos de seu cabelo flutuavam com a brisa que entrava no quarto,o acariciando a testa reta e as bochechas.E o jovem rapaz desviou o olhar para a janela. Estava no segundo andar do castelo. Seria fácil pular para o jardim e usar de velocidade sobre-humana para fugir. Para andar pela cidade. Se fosse o caso desaparecer.
E foi isso que o fez.
Colocando-se praticamente de pé na janela, Shun se lançou ao vento que o convidava a abraçá-lo. Sentiu o repuxão da gravidade conforme ia caindo. Acabou dando dois mortais no ar e caindo perfeitamente de pé na grama abaixo de si.
Alguns cavaleiros de Deméter nada entenderam quando o cavaleiro de Athena passara veloz pela arena de treinamento, e pulando praticamente de uma pedra para o alto de uma árvore, passou por cima do muro de azevinhos e ganhou as ruas de Montmatre.
Afrodite percebeu claramente o cosmo de Shun esvaecendo em distância. E não se permitiu hesitar antes de abrir a porta e constatar que Andrômeda tinha fugido.
Joseph ainda estava deitado de bruços na cama. Agarrado ao travesseiro, sem conseguir tranqüilidade desde que Shun saíra porta afora para se encontrar com o pato. Já tinha tomado uns dez banhos, tinha cochilado na banheira. Roído as unhas e gritado para as paredes. Isso amenizava temporariamente seu desespero, como se ele fosse um homem enclausurado em uma masmorra, somente com uma banheira.
Mas Joey era prisioneiro de si mesmo. Prisioneiro de seu amor por Shun. E odiava-se por isso. Prometera nunca mais se apaixonar. Afinal vinte oito anos de vida tinham lhe ensinado e imposto lições á duras penas. Muitas paixões, muitos casos, mas nenhum que se comparasse a este e que o consumisse com tanta força.
Não conseguia esquecer o sorriso. Os lábios, a voz, o carinho. Tudo que o fizera amar Shun. Socou a cama com raiva, estava desesperado. Em seguida a porta de seu quarto se abriu rapidamente. Rolou na cama de maneira a ficar de frente para quem tivesse entrado. Sussurrou:
- Shun?
Não obteve resposta. Quando se virou deu de cara com o epítome da ironia. Quem estava parado o olhando era o famigerado Hyouga.
Joey respirou fundo, e mudamente se obrigou a perguntar, de si para si, qual parte do corpo de Hyouga ele arrancaria quando o viu dentro do seu quarto, sem ao menos ele ter permitido.
- O que você faz aqui, seu filho de uma puta!? – Joey gritou olhando para o loiro que tinha invadido seu quarto.
Hyouga viu que o homem o mataria se continuasse mudo Erguendo seu pensamento em oração, para que caso o pior acontecesse, Athena tivesse condolência de sua alma, resolveu falar:
- Shun fez a sua escolha.
- Sim, e decidiu isso, antes ou depois de ter dormido com você? – Joey escarneceu se pondo de pé. Era em estatura bem maior do que Cisne. Era praticamente do dobro do russo, em largura também. Imponente. Gigante. Hyouga tremeu antes de prosseguir. Tinha invadido o quarto porque sabia que se batesse na porta o homem abriria e o lançaria aos ares sem nem lhe dar chance de abrir a boca.
- Se você amasse mesmo Shun, não estaria se perguntando isso! – Hyouga falou, sem esperar que a reação do homem fosse tão violenta. Joey simplesmente deu um soco tão certo no maxilar de Cisne que o projetou para dentro do closet. Hyouga bateu com tudo dentro do armário trazendo para cima dele uma montoeira de roupas e calçados.
- Não ouse medir o tamanho do meu amor por Andrômeda! – Joey gritou se contendo subitamente – Ele que deveria estar aqui e não você!
- Sim. - Hyouga falou tentando sair dos escombros que um dia foram um belo armário. – e ele estaria se não tivesse desaparecido depois de ter saído do meu quarto. - o loiro falou.
- Como assim, desaparecido?- Joey ficou sem sustentos. – O que você fez para que ele sumisse? – O cavaleiro de Deméter perguntava e acusava ao mesmo tempo. Hyouga gostou de ver que a simples noticia do desaparecimento de Shun tinha obliterado o peso da traição que ele sabia que o outro tinha muito bem conhecimento de ter ocorrido. Aquele homem amava o seu Shun, e isso era uma verdade dolorosa para ele.
- Responda-me! – Joey falou passando a mão na carteira e nas chaves de seu carro. Simplesmente mal olhava para Hyouga.
- Eu não fiz nada. Ele fez a escolha dele e desapareceu. Os motivos... – Hyouga fez uma pausa, estava tremendo, antes de prosseguir - acho que já são óbvios a essa altura. Mas ele te escolheu. Vá atrás dele, porque se ele tivesse me dado uma nova chance eu estaria aos pés dele agora. – Hyouga falou encarando Joey.
O homem estava com o rosto vermelho de raiva pelos "motivos óbvios" de Hyouga. Mas nada falou se falasse estaria sendo só um passo a menos que separava seu punho da goela do Cisne a sua frente. Empurrando Hyouga para o lado, Joey saiu pela porta.
Acharia Shun. Voltariam para o começo. Voltariam a ser como eram
.
Shun caminhava entre as ruas de Paris sem se preocupar com o tempo, nem com o olhar das pessoas a sua volta.
Era apenas um rapaz a solta em Paris, cruzando a cidade dos amantes com o coração apertado. Permaneceu vislumbrando a margem do Rio Sena brilhando sob o céu vermelho do inicio de tarde.
A River Droite, a direita do Rio Sena, estava atabalhoada de pessoas e casais, e Shun não estava sentindo dor por estar sozinho. Estava se sentindo sim, incompleto. Estava sentindo o desalento e o desespero querendo transbordar, mas não tinha mais lágrimas para chorar.
O jovem rapaz foi caminhando da Place de La Concorde a Rua do Louvre, que tinha como referência, obvia o palácio imponente de Luis XIV. O hoje museu do Louvre.
Realmente a região das Tulherias era o que mais lhe fascinava em Paris, fora o que mais estudara enquanto estava na Fundação Kido, e até mesmo nas páginas de revista de viagens.
Era um pedaço fascinante de Paris que todos conheciam. Afinal de contas, como ir a Paris e não entrar no Louvre, não tirar fotos no Arco do Triunfo e não passear pelo jardim das Tulherias aos domingos como dizia no folheto que tinha pego mais cedo quando passara por uma agência de viagens. E pelo jornal Lê Mond, que estava carregando debaixo do braço, e tinha achado em uma lixeira na rua.
E Shun percebeu que era domingo! As famílias e grupos de amigos se espalhavam sobre as sombras do Jardim das Tulherias.
Sabia que se voltasse ao palácio de Deméter teria que encontrar com Joey. Teria que encarar Dádio, a quem ele realmente não teria o que dizer caso a criança já estivesse sabendo de tudo que ocorrera a sua volta. Preferia acreditar que alguém de mente sã tenha mantido a criança em sua vã ignorância para o bem de todos.
Mas tinha algo pior do que Dádio saber de tudo. Ter que suplicar para ter de volta a confiança e o amor de Joseph, e para isso, ele não estava preparado. Não estava se sentindo apto para ouvir as acusações de Joey, ou dar explicações a quem quer que fosse.
A lembrança da ultima noite com Hyouga o causava desespero e angústia. Por que ela tinha começado? Por que ele tinha permitido que os fatos se desenvolvessem daquela maneira?
Traição. Traição fora o que ele mais condenara no amante de outrora. Trair foi o que ele tinha feito com Joseph.
Shun levou as mãos ao rosto, envergonhado, como se estivesse prestando contas para alguém mais além dos raios de sol que abandonavam o dia cedendo lugar a uma bela tarde. E pela brisa agradável que Shun sentia acariciar seu rosto; seria uma bela tarde de primavera em Paris.
Andrômeda ergueu-se. Tinha que caminhar mais um pouco. Tinha que permitir se perder naquele clima de romance de Paris. O abrigo de frio que Afrodite tinha colocado nele era fino demais, mas permitia-o deliciar-se confortavelmente na tarde de domingo parisiense. Era realmente uma pena que tudo tivesse daquela forma. Andrômeda adoraria estar passeando pelo jardim das Tulherias com Joseph e Dádio. Terminar a tarde com um belo almoço no Lê Grand Véfour, onde o próprio Napoleão Bonaparte e Victor Hugo fizeram grandes refeições segundo dizia a placa em francês na porta do estabelecimento elitista. Com certeza não o deixariam entrar nem para comer uma fondue da maneira que estava vestido. Shun ignorou o fato, e continuou andando a esmo pelas ruas apinhadas de parisienses e turistas. Foi quando ouviu uma melodia que veio do nada, e do canto nenhum, ecoando em sua mente. E uma voz que obviamente não era a língua materna de quem estava cantando, tomar sua mente.
Come up to meet you, tell you I'm sorry
You don't know how lovely you are
I had to find you, tell you I need you
And tell you I set you apart
Tell me your secrets, and ask me your questions
Oh let's go back to the start
Shun rodou sobre os calcanhares. Precisava ver de onde estava vindo a voz. Ele sabia quem era o cantor, mas não conseguia estabelecer um elo visual com ele, assim como da primeira vez que ouvira sua voz. De fato, nem sequer sabia se queria mesmo ver o homem. Mas girando a cabeça em direção ao firmamento, Shun vislumbrou uma sombra em cima de uma árvore e percebeu que lá estava ele.
Encostado em um galho frondoso, soltando a voz como se estivesse de fato falando. Era a mesma eloqüência da fala, mas só quem prestasse muita atenção perceberia que a fala estava musicada.
De onde Shun estava, sua visão só alcançava, uma massa de cachos cor de café, emoldurando um rosto que pelo efeito da luz do sol sob a copa das árvores, só deixava a vista a base do nariz de Joey para baixo. E quando Shun prestou atenção pode ver a boca carnuda que tanto beijara fazendo os costumeiros biquinhos do dialeto francês que ele tanto apreciava, ainda mais quando falado por Joey. Mas o timbre da voz acabou ficando mais suave e rouco, com uma dureza quase metalizada. Como se a silaba tivesse que ecoar e não ter uma sonoridade como o dialeto francês costumeiro. Joey cantava agora em inglês. E assim que percebeu que Shun já o tinha localizado ali, o homem pulou da arvore, ignorando o que os transeuntes iriam pensar para cair de pé poucos metros a frente de Shun.
Deixou que os olhos do rapaz corressem seu corpo e perceberem que ele ainda estava vestido com a mesma roupa da noite anterior. Os cabelos pareciam ter sido lavados, mas não penteados, assim como todo o corpo que exalava a inesquecível mistura de Alecrim e Bergamota. Os olhos de Joseph apresentavam olheiras profundas de quem uniu insônia e lágrimas numa mesma noite sem tempo para descansar e os lábios ao vê-lo formavam uma completa linha reta sem dar a oportunidade de demonstrar emoções. E Ele parecia exausto quando começou a andar na direção de Shun. O corpo balançando displicentemente de um lado para o outro conforme dava as passadas no terreno irregular repleto de folhas secas.
Assim que Joseph se encontrava a meio metro de distância dele, Shun colocou a mão sobre os olhos, tapando-os com vergonha. Sabia que era inevitável olhar para Joey, mas ainda não se sentia apto a para isso.
- Running in circles, coming up tails. Heads on a silence apart...
O homem cantou.
E Joey tinha uma particularidade a mais quando cantava, por ser cavaleiro. Ele simplesmente enviava a musica para a mente de Shun, com a sua própria voz melodiosa, sem de fato estar movendo os lábios. Passava então a cantar dentro da mente de Shun. O que significava que antes, quando ele e Shura ouviram o violino no canal, somente eles dois estavam ouvindo. E até ali mesmo, quando Shun começara a ouvir, ninguém mais ao seu redor estava escutando.
Andrômeda simplesmente tremeu ao ouvir a ultima parte da melodia que Joey cantara em sua mente. Era algo que ele conhecia. Algo que estava tocando nas rádios quando ainda estava no Japão. Uma banda Inglesa chamada Coldplay. Ikki tinha lhe dado o CD quando fora visita-lo na Inglaterra nas férias de Verão.
- Tire as mãos do rosto. Não vai conseguir se esconder de mim assim. – Joey falou parando bem a frente de Shun. – Eu já estava aqui há uma meia hora te olhando pensar na vida e chorar. Localizei você em frente ao restaurante que você não entrou na Rua do Louvre. - O moreno falou com a voz carinhosa. – Então não tem porque se esconder de mim, pequeno, já vi seu rosto.
Shun ficou parado no mesmo lugar. Suas pernas não obedeceriam ao seu comando nem se usasse de toda força de vontade que possuía.
Shun destapou a face, mas se pegou outra vez olhando para o chão. Não tinha como sustentar o olhar para aquele homem que ele sabia que possuía todas as razões para odiá-lo, mas que ao invés disso fora atrás dele.
Joseph estava ali, na sua frente esperando que ele falasse que se abrisse, que dissesse alguma coisa, mas as palavras fugiram aos lábios de Shun. Simplesmente não conseguia achar uma desculpa, algo que pudesse falar para Joey. Na sua própria concepção não havia mais o que se falar em uma situação como aquela.
O rapaz de cabelos castanhos sentia seu rosto afoguear. Estava se sentindo nu na frente de uma multidão, mas mesmo que levantasse o olhar para encarar a todos aqueles demônios imaginários só veria o rosto de Joey. Não obstante, o moreno se aproximou ainda mais dele e o chamou pelo nome novamente; Como que o incentivando a olhar para ele. A voz de Joey não soara de forma alguma agressiva, nem tampouco acusadora. E esse fato só parecia uma coisa a Shun. "Ele não sente nada por você. Você conseguiu com que ele te odiasse. Você o perdeu. Ele só quer que você volte para casa com ele".
- Shun, o gato comeu sua língua? – Joseph falou por fim impacientando-se com o silêncio entre os dois e se acercando ainda mais de Shun, fazendo menção de que a qualquer momento fosse toca-lo, mas o rapaz se afastou bruscamente. E dando um suspiro infeliz, diante da estupefação de Joey por ele ter se afastado, Shun reuniu coragem para começar a falar:
- Por favor, não toque em mim. - pediu se afastando ainda mais. - Fale o que quiser, mas não me toque. Não me acarinhe, não me afague. Não mereço seu carinho. Fiz a única coisa que você me pediu para não fazer quando saí de seu quarto hoje de madrugada. - Shun falou desta vez erguendo o olhar pra Joey. Ao ver o olhar magoado o perscrutando segurou um soluço seco que já subia por sua garganta conforme suas palavras chegavam ao ouvido de Joey, e o rosto do moreno esboçava sinais claros de dor. Mas tinha que ter coragem e pedir até o final - Então não me toque Joey. Nunca mais!
Nobody said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start
Joey não permaneceu mudo. Sentiu as próprias lágrimas tomarem seus olhos cor de café, mas não as permitiu transbordar. Como uma defesa inconsciente contra as palavras que o feriam,caminhou três passos ou mais para longe de Shun, até se apoiar em uma árvore próxima. Ofegou quando jogou as costas largas de encontro ao tronco do enorme vegetal e afastou as pernas, agachando um pouco, com as mãos sobre os joelhos, como se estivesse exausto, ou acabasse de tomar um soco no estômago. Estava sem ar.
Shun permaneceu no mesmo lugar, viu-o se afastar dele com o olhar confuso correndo do vácuo para Joey. Sua visão se embaçava com as lágrimas que já deixava correr por seu rosto, fazendo com que tudo nas proximidades deles se assemelhasse ao quadro primavera de Monet, quando visto bem de perto. Borrões de perfeição. Borrões coloridos.
Tudo saia de foco. Tudo, menos Joey. Sabia que tinha pessoas olhando para os dois. Um casal que estava por perto parara simplesmente de comer seu lanche para prestar a atenção na sua pequena discussão. Mas Shun os ignorou. Voltou o olhar para o homem encostado na árvore e quis abraçá-lo. Mas Joey agora tinha se virado para a árvore, que estivera encostado, e de costas para ele. Andrômeda teve que controlar a sua vontade.
Acabou que tomou coragem para se aproximar, mas foi a voz de Joey, que agora saia em francês, rápido, completamente cheia de mágoa, que o fez estacar no mesmo lugar como se tivesse tomado um tiro no peito, ou um tremendo susto.
- Eu já sabia disso quando vim te buscar. Sabia que você tinha me traído com Hyouga. Seu próprio amante me disse. E foi ele mesmo que me falou que você tinha fugido. – Joey revelou.
Shun estava incrédulo com sua própria imbecilidade. Era mais do que obvio que Joey já tivesse conhecimento da traição. Mas sentia que mesmo assim estava lhe omitindo alguma coisa. E esta coisa era o que criava o hiato entre o medo de Shun perde-lo de vez, e da raiva e frustração que Joey supostamente deveria estar sentindo dele.
I was just guessing at numbers and figures
Pulling the puzzles apart
Questions of science, science and progress
Do not speak as loud as my heart
And tell me you love me, Come back and haunt me
Oh and I rush to the start
Shun gostaria de perguntar por que o homem não o xingava e terminava logo com ele ao invés de permanecer o encarando com aquela expressão indefinida na face,o auto- avaliando, se auto-avaliando. Mas não conseguiu falar isso, e ao invés de falar algo plausível, simplesmente berrou a plenos pulmões, ignorando o parque cheio de pessoas a sua volta:
- Se sabe que eu te traí, por que então você se abalou do palácio de Demeter e veio aqui me buscar? Por que simplesmente não me deixa em paz com a minha angústia, e segue sua vida, para que prolongar isso tudo?
Joey ficou atônito. Olhando para Shun sem ação. Era tão fácil assim terminar um relacionamento, ou Shun desejava que o deles acabasse assim, rápido, sem mais dores para ambos. Joey não conseguia precisar. O rosto de Shun era uma máscara de dor de teatro grego. As sobrancelhas formavam um arco invertido. A os lábios displicentemente tombados para baixo. O rapaz não conseguia disfarçar, os olhos vulneráveis demais indicavam seu sofrimento em escala ímpar, e tudo isso feria ainda mais a Joey.
O homem gostaria de conceber palavras que pudessem humilhar Shun pela conduta que tivera com ele, mas também gostaria de proferir palavras de alento, mas decidiu nada falar, Shun tampouco. Ficaram um minuto ou mais calados. Shun parado, com as mãos espalmadas para cima, os olhos vidrados no rosto de Joey repletos de sofrimento. Esperando uma resposta que tardava em vir. Esperando uma agressão física, ou verbal por parte do moreno. Mas quando enfim o homem começou a falar não estava o agredindo:
- Não me julgue um idiota Shun, tampouco um corno manso. –falou andando até o rapaz. – Meu único erro foi aceitar que você entrasse na minha vida carregando o Hyouga no seu coração. Esse sim este foi meu único erro. – Joey falava com o olhar fixo em Shun. Prosseguiu - E não há outro motivo para eu estar aqui, senão o fato de que eu não desejo que você saía da minha vida. Não por um motivo tão pequeno como o meu orgulho.
O queixo de Shun começou a tremer. Os olhos vacilavam sem se fixar em um ponto certo, indicando que o rapaz não sabia se corria até Joey e o abraçava. Ou se ele se jogaria aos pés do moreno agradecendo aquela chance, agradecendo a compreensão e o perdão dele. Acabou ficando parado no mesmo lugar. O sofrimento de Joey por estar passando por cima de seu próprio orgulho ferido, era um sentimento tão palpável e visível que estava se tornando uma extensão dele mesmo. Shun não suportava mais olhar para o rosto transtornado do homem e saber que foi o causador de seu sofrimento.
- O que eu fiz pra você... O que eu fiz com você...? - Shun choramingou, condoído, e por fim se aproximando do homem que estava a frente dele. Tocou-o de leve no rosto – Você nunca mereceu sentir isso, nunca mereceu que eu traísse você, que tivesse deixado você me esperando voltar, me esperando decidir entre você e Hyouga. – O rapaz falava ao mesmo tempo em que acariciava a face de Joey. O moreno não estava até o momento se entregando as carícias. Pelo contrário, estava com os músculos todos retesados, custando a ceder, mas querendo.
- Eu sei que não merecia passar por isso. Mas passei. Paciência. Foi o preço para ficar com você. – Joey sussurrou se afastando. – Mas agora, já paguei o preço. - suspirou fundo antes de prosseguir - Só me restou ficar com você, porque ainda restou o amor. Você arrancou do meu peito a confiança. – Joey falou tristonho por fim abaixando a cabeça e se sentando no chão.
- Eu errei Joey. Eu sei que errei. Não tenho como lhe pedir perdão. - Shun falou caminhando atrás dele, se agachando a ponto de ficar com o rosto na altura do dele, com um joelho afundado na grama do jardim - Joey, sei que não tenho como demonstrar o quanto eu sinto muito por tudo isso fora as minhas lágrimas. Mas eu me arrependi, falo isso de coração, ainda mais, acho que tudo que se passou, não valeu de nada a não ser para me dizer que você é tudo que eu sempre quis, e que eu estava ferrando com tudo. Sei que ter a certeza, ou ter descoberto isso há duras penas não vai diminuir a minha traição, isso não vai fechar a ferida que eu abri em você, nem limpar essa lama que eu joguei no nosso amor, mas eu percebi. Eu percebi que eu amo você. – Shun falou se abraçando como podia a Joey. O homem se levantou empurrando Shun para trás na grama, e se distanciou.
- Mentiroso! – Joey falou se afastando dele á passos largos. Estava se entregando novamente a ladainha de Shun. Tinha de se afastar. Tinha de sair de perto dele.
Shun levantou-se e foi atrás dele gritando, as lágrimas que derramava criando uma cortina cristalina sobre sua face conforme caminhava na direção de Joseph.
- Eu percebi que eu preciso de você, Te dizer eu que sinto muito. Você não sabe quão adorável você é, tive que te perder, para te encontrar novamente e dizer o quanto preciso de você. E dizer também, que sinto muito por ter te deixado de lado. – Shun falou o alcançando e agarrando o rosto do homem, ficando na ponta dos pés para que seus olhos verdes ficassem na altura dos olhos dele. Encaravam-se, As bocas quase coladas uma na outra. – Me conte seus segredos, me pergunte suas dúvidas, por favor, Joey, vamos voltar para o começo, se você permitir, se me perdoar. Não fuja de mim!
Running in circles, Chasing tails
Coming back as we are
Joey olhou para Shun. Os olhos marejados. Ele não saberia explicar racionalmente o quanto o contato da pele do rapaz com a sua o fazia bem. Não conseguia também tirar da mente que Hyouga tinha tocado em Shun, e Shun tinha gostado do contato. Não conseguia parar de pensar no quanto era bom abraçar Andrômeda, o quanto era bom estar com o rapaz. O vento açoitava o rosto de ambos agora. Fazia com que a bochecha de Shun ficasse mais vermelha, os olhos piscassem tanto, tentando liberar a íris do pólen que caia das árvores frondosas do jardim de Luis XV.
Joey sabia que adorava conversar com aquele rapaz, e depois de tê-lo feito pela primeira vez, ouvi-lo cantar. Atinha-se ao que realmente importava naquela ultima semana com Shun, pré Hyouga. Coisas simples que naqueles três dias que se passaram ele pode perceber. Percebeu a infinidade de tons verdes que a íris do garoto continha. Que quando ele sorria tinha covinhas lindas na face. E Joey sabia que se de um dia para o outro, após conhecer Shun, ele tivesse que se privar da presença do rapaz, ele morreria aos poucos. Shun mudara sua vida desde o momento que se cruzaram em Veneza. Desde o momento que ele tocara a primeira vez seu violino para ele. E quanto, Shun, ali, dedicado, sofrido, temeroso de feri-lo, fez com que sua voz chegasse aos céus, comungando com a de seu filho, ele regojizou-se por completo. Era um ponto sem retorno o que Shun tinha alcançado quando enfim fizeram amor a primeira vez. Joey sabia que por mais que recorresse a traição e ao desespero era quase impossível que um ou outro tivesse o poder de eclipsar seu sentimento por aquele rapaz a sua frente. Mesmo que seu orgulho, e uma parte mais machista ainda, gritassem aos seus ouvidos a ponto de estourar sua consciência que Shun tinha o feito de palhaço, que tinha se dado ao luxo da dúvida de ponderar com quem tinha de ficar quando já namorava com ele e foi para cama com Hyouga. Enfim, era doloroso demais pensar naquilo tudo, na traição e tudo que precedera e descendera dela. Mas definitivamente seria muito mais doloroso seguir sem Shun, e para isso ele não se daria ao luxo de arriscar. Não poderia simplesmente virar as costas para o homem que amava como Shun tinha feito com Hyouga.
Não deveria permitir que aquilo se repetisse como um círculo vicioso para acabar que toda vez que cruzasse com Shun no futuro se erguesse entre eles a barreira do desejo carnal incandescente, a paixão fulgaz e a mágoa do passado.
Não. Estava velho demais para alimentar mais mágoas, de mais um amante. E Era sábio demais para julgar Shun por uma fraqueza. Só teria que garantir que a mesma não se repetiria. Nunca mais.
- Então Joey. Aceita voltar para o principio de tudo? Agora sem Hyouga? Sem ninguém a não ser, eu, você e o Dádio? – Shun perguntou abraçando o homem. Seu rosto branco parecia ter recuperado um pouco do viço, mas os olhos continuavam embaçados. Joey fechou os seus próprios olhos para não ver os olhos verdes se animando com fagulhas de desespero e insanidade. Os lábios que o homem adorava tremiam tanto que Joey quase não pode suportar olha-los. E Shun, ao perceber que o homem evitava o encarar nos olhos colou-se ao peito de Joseph, em uma atitude desesperada, sussurrando antes de cair em um choro suplicante:
– Por favor... Não me puna com a sua ausência, meu querido... Você não imagina o quanto eu estou sentindo pela injustiça que cometi com você. Você não sabe o quanto eu corro o perigo de sumir sobre o peso da minha própria culpa e vou acabar por desejar morrer se você me deixar aqui, sem poder compartilhar novamente o pouco da vida que comecei a compreender quando encontrei você Joey. Sua ausência me faria permanecer nas sombras do que um dia já tivemos, e da alegria que um dia já conheci, para sempre. Isso você não pode. Não pode permitir. Estou lhe pedindo pela última vez, que me salve - Shun falou e pediu, sem mais conter o ímpeto de agarrá-lo. Na verdade o necessitava.
Agarrar-se-ia a Joseph como uma tábua de salvação em um mar revolto se fosse o necessário. Não tinha mais palavras, justificativas, invencionices ou o que quer que fosse, para convencer Joey a simplesmente ficar com ele.
- Acalme-se Shun. – Joey falou acariciando a cabeça do rapaz. – Eu não viria atrás de você, se achasse que você não era digno de uma segunda chance, e tampouco se tivesse a certeza de que você não sentia nada por mim. Eu te amo. Estou muito, muito decepcionado, mas te amo, e sei que podemos consertar isso. Podemos voltar para o início de tudo, quando você derrubou meu violino. Quando eu me apaixonei. Quando te reencontrei no palácio de Deméter. Podemos voltar a esse início, e consertar os erros. Sei que agora daremos valor a isso tudo. Daremos valor ao tempo que perdemos. Eu te permitindo errar, e você errando. - Joey falava tristonho.
Shun percebia que sua velha convicção estava voltando. Ou o homem estava obrigando-a a voltar. Sentiu que ele tinha que acreditar naquelas palavras, sentiu que era obrigado a fazê-lo ou perderia tudo. Tudo que sempre sonhara. E neste novo sonho não tinha lugar para Hyouga assombrar, ou participar.
- Eu te amo. – Shun falou olhando para o homem. Colando seus lábios aos dele para tornar a se afastar e repetir. – Eu te amo, sinto muito por tudo isso, eu te amo. – Shun confessou pousando suas mãos em cada lado da face de Joseph, segurando-as firme e carinhosamente. Tornou a pousar seus lábios contra os lábios macios dele, e os lábios de Joseph estavam rijos.
O violinista cessou o contato, chegando a cabeça um pouco para trás e pendendo-a para o lado, alcançou o ouvido de Shun e sussurrou:
- Eu sei que você me ama. - Joey falou abraçando a Shun. - Eu sempre soube, por isso estou aqui contigo. E contigo, eu ficarei, acredite. Tudo não passou de um sonho ruim.
Nobody said it was easy
Oh it's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be so hard
I'm going back to the start
Shun olhou para ele incredulamente e repetiu o seu nome de maneira carinhosa somente para se certificar, ao sentir a respiração do homem suavemente em sua face, de que realmente Joey estava ali. Estava com ele e tinha o perdoado.
Acabou agarrando-se a ele com mais força ainda. Queria afundar o rosto em seu cabelo anelado cor de café, e lhe pedir novamente perdão. Pois é, Joey estava certo, apesar de amá-lo,de estar ali chorando, implorando e sendo aceito de volta, o que ele tinha fazer a partir de agora era não mais permitir que se encontrassem no futuro em uma situação como aquela. Não queriam nem poderiam suportar aquela dor e angustia novamente. E para isso teriam que não permitir intrusos entre o amor deles.
Não era necessário mais ninguém entre eles para testar nem provar nada. O amor deles era, e sempre fora, galgado e suportado pela compreensão, pelos momentos simples, e por aqueles abraços. Abraços que por si só falavam "eu te amo" sem dar chance para exceções.
E como se novamente fosse a primeira vez, Andrômeda beijou seu violinista, docemente, possessivamente, se abandonando em sensações de excitação e carinho, doação e volúpia. Sentia os cílios compridos e negros roçando em suas pálpebras, e permitiu se deliciar novamente como da primeira vez. Sentiu as mãos de Joseph se aferrar a suas costas, o puxando para frente, o colando em seu peito. O coração de ambos disparando, acelerando como um motor de carro novo como tambores rufando para anunciar um novo dia, um novo recomeço, dando inicio assim a uma nova fábula, a fabula de Andrômeda e seu violinista.
Duzentos metros, próximos dali. Hyouga se afastava. Shun ficaria bem enquanto estivesse com um homem de verdade. Um homem como Joey, um homem completo, compreensivo, polido cúmplice e, sobretudo justo, Joseph era o exemplo de homem que Hyouga seguiria e o qual se esforçaria para ser a partir de agora.
Kamus estava graciosamente sentado em sua poltrona de couro escuro quando o loiro entrou no seu quarto. Milo desviou quase que instantaneamente os olhos do livro que lia para olhar o intruso. Deu de cara com Hyouga vestido com esmero e uma mala nas mãos. Sem que o outro precisasse abrir a boca, o escorpiano compreendeu que tinha que deixar mestre e pupilo a sós.
- Continuarei minha leitura e te esperarei no jardim de inverno Kamus. – o loiro falou para o ruivo tentando ser displicente. – Creio que vocês tenham muito a conversar. - saiu.
Hyouga olhou para Kamus. Estendeu os braços. Não tinha nada para falar. Só tinha vindo até ele para se despedir.
- E então eu o vi se beijarem... E não tenho mais nada a fazer a não ser cumprir minha promessa a Shun, irei viver a minha vida, ou o que restou dela Kamus... – Hyouga falou encarando o mestre.
- E faz muito bem. Você despertou uma animosidade entre os cavaleiros, e muitos dele ainda não o compreendem, eu mesmo, mal compreendia o que lhe fez voltar a ver Shun e tudo o que se passou. Mas lhe vendo tão decidido a seguir seu caminho, sem rancores, não posso lhe desejar nada a não ser boa sorte meu filho. Toda a sorte do mundo. – Kamus falou o abraçando. Hyouga correspondeu ao abraço.
- Bem Kamus, eu me vou. Não vou me despedir de todos, alguns ainda não querem me ver e não me darei ao luxo de me por a frente de Afrodite novamente. Tampouco falarei com Athena ou Deméter, espero que você possa passar para elas o que lhe confidenciei.
- Certamente, o farei. - Kamus falou tomando as mãos do pupilo entre as suas.
- Então me apressarei. Quero sair do palácio antes que Shun retorne com Joseph. Não quero despertar mais sofrimento. - Hyouga falou soltando as mãos de Kamus e caminhando para porta. – Deseje-me sorte mais uma vez, mestre.
- Cada dia em que viver. – Kamus respondeu com os olhos marejados – Me escreva Hyouga. Não vá se perder pelo mundo sem me dar paradeiro.
- Será fácil me achar Mestre, eu tenho filhos... – O loiro falou sorrindo tristemente. – Eles saberão sempre, onde eu estou, porque eu não os abandonarei nunca.
- Compreendo meu filho. - Kamus falou, mas a porta já tinha batido, e o cosmo de Hyouga desapareceu do palácio.
Mais um outono chegava a Toscana, na Itália, e ali estava Shun Amamya Fatone para vê-lo. Sentado na varanda da frente de uma casinha de tijolos brancos, com parede de alvenaria e chão de madeira. Tomando seu costumeiro chá de maçã verde e canela. Ele imaginava o que faria em seguida, se iria preparar o banho para seu querido marido, ou se prepararia as provas que aplicaria na faculdade na segunda feira. Mas infelizmente o homem não pode se ater ao que faria quando um Mondeo verde musgo entrou a devagar na sua rua, deslizando tranqüilo pelo asfalto liso, até parar em frente a varanda de sua casa, e de dentro dele saiu um homem enorme, muito mais alto do que ele, vestindo jeans e camiseta, com os cabelos cor de café balançando ao sabor do vento que soprava por ali fazendo as folhas das arvores cair com mais rapidez no solo. O homem também possuía lindos olhos puxados, e trazia um velho violino nas mãos.
Shun largou a xícara com o chá na balaustre da varanda e foi ao encontro do homem. Deteve-se no segundo degrau antes da rua, onde foi agarrado para um abraço.
- Ora, ora, o que o mocinho faz por aqui? Não deveria estar se apresentando no teatro municipal Daniel?
- Ora, você conhece papai melhor do que eu, quem o convenceria a me manter trabalhando no Municipal quando estou em semana de testes! – Dádio falou rindo-se e abraçando a Shun. – Ainda tenho muito que estudar para conseguir ser aceito ainda este ano para Oxford. – o rapaz falou passando a mão branca no rosto de Shun carinhosamente. - Tem chá para mim?Adoro o seu chá.
- Não sabia que você chegaria mais cedo, mas tem um pouco no bule que está no fogão. - Shun falou entrando em casa. Invadiu a sala grande e atulhada de objetos de arte, livros, estantes, e poltronas confortáveis que ficavam estrategicamente viradas para a varanda dos fundos, que lhe permitia ver com clareza quando Joseph chegaria e estacionaria o carro na garagem.
Shun seguiu Daniel. Era uma cópia fiel do pai. Alto, robusto, os mesmos cabelos anelados e escuros, os mesmos olhos rasgados como os de um gato. Mas apesar do tamanho, seria para sempre o mesmo doce de menino que tinha a alma de um Deus e que cantava tão perfeitamente como um Andrea Botticelli, ou Caffareli. Estava agora com dezenove anos, e estava vivendo tudo que Shun tinha vivido na idade dele. Os amores, as dúvidas, os temores. Shun tentaria ajuda-lo a passar por tudo de forma mais fácil do que fora para ele. Tinha Daniel como filho. Afinal dez anos tinham se passado desde que saíra do templo de Deméter e fora morar com Joseph na Toscana. Fazia dez anos que tinham começado a viver normalmente, como uma família, como Shun sempre sonhou.
Lilith de Rose permitiu que Daniel fosse morar com ele dois anos depois de terem comprado aquela casa, e agora Daniel estudava para passar para a imponente faculdade de Oxford, não que fosse necessário passar, já que o que ele considerava um teste era na verdade a carta de apresentação para ser aceito. Suas notas sempre foram excelentes a vida inteira, o rapaz era um prodígio, mas inseguro como ele só.
Shun sorriu quando percebeu que Dádio tomava o chá olhando para ele fixamente. Encarou o rapaz. O mesmo deixou sua letargia, ou abandonou o pensamento no que quer que estivesse pensando e se voltou para Shun:
- Sabe Shun. Nunca pensei que dez anos passariam tão rápido. – perguntou – Deve ser porque somos felizes não é?
- Sim. Acho que é por isso. – Shun respondeu ajeitando o cachecol preto que lhe escorria pelos ombros. – Quando estamos sofrendo o tempo demora a passar demais. Irônico isso não, mas como diria o poeta, não há felicidade que sempre dure, nem tristeza que sempre perdure... - Shun fez uma pausa para encarar o rosto de Dádio – Mas porque está me perguntando sobre isso, felicidade, tristeza... está passando por algum problema Dádio?
O moreno corou. Olhou bem para o rosto de Shun. Conheciam-se há uma década. Eram amigos, eram cúmplices. Shun era muito mais do que sua mãe um dia o fora para ele, gostara de Shun no momento que o vira. Shun entendia sua alma. Shun amava-o, e ele sentia aquele amor toda vez que olhava nos olhos verdes do homem a sua frente. Olhos vulneráveis e belos, verdes como o mar, incapazes de esconder as emoções, um fato admirável no mundo em que viviam onde todos escondem um pouco de si só para criar uma atmosfera de mistério que os envolve, para revelarem-se na verdade tão comuns como qualquer outra pessoa quando as cortinas caem.
Daniel se ateve ao rosto de Andrômeda, o homem tinha mudado bastante. Não tinha sequer um traço do antigo rapaz que ele conhecera ali. Os cabelos de Shun agora eram uma massa de melenas onduladas e castanhas que pendiam até o meio das costas, e estavam sempre presas por um elástico. A pele, tinha tomado uma tonalidade mais pálida, porem estava mais espesso como se uma pedra de mármore pudesse ser maleável. Os olhos acumulavam toda a experiência de um homem de trinta anos, era admirável também o fato de que ele estava ainda mais bonito. Daniel permaneceu fitando o padrasto.
- Hum... vai me contar ou não? Daqui a pouco tenho que buscar o Lauro e a Gennie na creche. – Shun falou se referindo ao casal de crianças que ele e Joey tinham adotado. Lauro era um menino moreno de riso frouxo de 5 anos, e Gennie uma loirinha de cabelos cacheados de 4 que parecia muito mais inteligente do que a idade que tinha e nem aparentava ser deficiente visual como de fato era. Eram seres adoráveis que enchiam a casa de alegria e de vida. Shun e Joseph Tinham resolvido os adotar depois que Daniel simplesmente ficou grande demais para ser chamado de "criança" e parou de passar os dias em casa, sempre na correria de lecionar musica no teatro municipal, estar ajudando Deméter em um assunto ou outro, e levar a vida de um adolescente normal.
As crianças preenchiam o tempo de Shun, principalmente Gennie que por não enxergar lhe exigia maiores cuidados. Mas Shun os amava. Amava os três, amava a família que tinha construído com muito amor, com uma dedicação de quem divide o seu salário de professor igualmente entre contas, presentes e poupança, só para oferecê-los um futuro melhor.
- Ahhh, deixa que eu pego os pirralhos na creche. - Daniel mudou de assunto.
- Sei... – Shun sorriu benevolente – Sem rodeios, me conte logo, quem é a sua namoradinha, e o que ela fez com você para você pensar nas tristezas da vida em uma bela manhã de outono como essa?- Shun riu-se.
- hunf... não posso esconder mesmo não é papai? – Daniel falou tristonho.
- Não. Agora pegue esta lata de biscoitos amanteigados, o bule com o chá e vamos sentar na varanda da frente. Deixe que seu pai pegue as crianças na Creche. Vamos conversar e você vai me contar tim-tim por tim-tim o que essa mulher está fazendo com você.
- Credo Shun, você está parecendo a minha mãe.
- Ah querido, sou quase isso. – Shun retrucou colocando as mãos nos ombros de Dádio e o conduzindo para varanda onde se encontrava quando o rapaz chegou, e os dois sorriram antes de se sentar.
- Então me conte o que está lhe deixando com essa carinha preocupada, o que a Stella fez dessa vez com você?
- Ah, nada Shun, nem estou mais saindo com a Stella. O problema mesmo é o papai. - Daniel falou segurando as mãos de Shun entre as suas. O chá descansava sobre a balaustrada, o vapor subindo contra o ar frio.
- O que tem o seu pai? – Shun perguntou aturdido. - Não me esconda nada Daniel! É sobre os exames que ele foi fazer com você na França? É alguma noticia ruim?- Shun falou se levantando da cadeira. Sua mão começou a tremer quando ele tentou pegar a xícara novamente em suas mãos, conseguiu segurar a alça, mas ao desviar o olhar para Daniel viu que o rapaz estava chorando, e deixou a xícara cair no chão.
- O que é, meu Deus do céu! Fala Daniel! – Shun pediu em desespero. A xícara de porcelana esmigalhada a seus pés. O seu filho mais velho tremendo dos pés a cabeça na sua frente, guardando dentro do seu peito uma notícia ruim sobre seu marido.
Daniel levantou-se deixando Shun parado na varanda. Descendo as escadas entrou no Mondeo e voltou carregando um envelope branco nas mãos. Entregou na mão de Shun e o abraçou com carinho extremo. E como se ele fosse o mais velho e não Andrômeda, ele sussurrou entre as lágrimas que chorava:
- Temos que ser fortes. Por ele. Pelas crianças.
A cor fugiu do rosto de Shun. O coração disparou. Ali estava a resposta para as dores de cabeça de Joey, para os desmaios constantes do homem.
O envelope ainda estava fechado, mas Shun já sabia que não queria abri-lo.
Foi quando ouviu o carro de Joey estacionando na garagem da cozinha, e junto com ele também vinham Gennie e Lauro. Este primeiro saiu correndo em direção a varanda da frente, enquanto Gennie vinha atrás tateando os móveis a sua volta. Joseph veio correndo e pegou a menina no colo.
- Olha quem papai pegou mais cedo na escola e vai levar para tomar um sorvete!- Joseph falou chegando na varanda. Shun mais do que depressa escondeu o envelope dentro do suéter que vestia.
- Sim, sim... e papai não ia dar aula até mais tarde no Municipal? – Daniel falou beijando o rosto do pai. Joseph estava com trinta e oito anos. Os cabelos grisalhos já começavam a pincelar o negro de seus cabelos cacheados que se encontravam cortados bem curtos agora.
- Sim, mas papai sentiu dores de cabeça muito fortes e resolveu vir para casa mais cedo.
- Você está louco Joseph, como pôde vir dirigindo com as crianças do centro da cidade até aqui, com dor de cabeça! E se você tivesse desmaiado. Se...
- Se um elefante tivesse atravessado o caminho Shun! – Joey cortou rindo-se, e ao mesmo tempo escarnecendo. – Estou bem, estou aqui, nem estou mais com dor de cabeça!- Joey falou sorrindo. Continuava um homem lindo, mas muito mais charmoso agora. O corpo não era mais o de um atleta, mas era bem torneado e firme. Tinha aparentemente uma saúde de ferro. Mas Shun não achou graça naquela brincadeira:
- Muito engraçado... Muito engraçado que você pudesse ter batido com o carro e matado nossos filhos! –falou tremendo dos pés a cabeça. – Poderia ter me ligado, ligado para o Dádio para ir te buscar, para pegar as crianças... Você poderia estar morto Joseph! Morto! – Shun berrou descontrolado - O que seria de mim sem você?- sussurrou levando a mão aos lábios. Daniel precipitou-se e o abraçou.
Joseph simplesmente ficou atônito olhando para o marido, segurando a pequena Gennie no colo enquanto Lauro abraçava-se a perna dele. Não estava entendendo nada do que se passava.
- Shun, não é para tanto. O que está acontecendo aqui? Você esta tremendo...
Shun não respondeu.
Simplesmente sentou-se na cadeira em que estivera sentado conversando com Dádio. Este se aproximou e o abraçou por trás, os olhos também vacilando ao encarar o pai.
O homem de Andrômeda colocou a cabeça entre as mãos, e cerrou os olhos. Depois tornou a abri-los e ergue-los para a família a sua volta.Ele não tinha aberto o envelope com o resultado do exame e não sabia o seu conteúdo, mas já sentia dentro de si que teria que rezar muito para que aquela cena , de ter todos os seus amados naquela varanda conversando durante o outono pudesse durar muitos anos mais. E Joey voltou a perguntar, desta vez, impaciente:
- O que vocês estão me escondendo?
Stuward estava radiante no topo da escadaria do seu palacete, tão radiante que mal esperou Stan para descer as escadas de encontro ao portão de ferro fundido assim que avistou a cabeleira loira do pai.
- Papa! – o menino de doze anos gritou descendo desembalado a escadaria. – Papa! – repetiu praticamente voando em cima de Hyouga assim que o mesmo pisou no jardim.
O loiro abraçou o filho com força contra o peito. Cambaleou e caiu na grama sob o peso do filho.
- Stan ou Stu? – Hyouga brincou, sabendo que era Stu, assim que viu o jeito do menino. Stu sempre fora mais comedido mantinha os cabelos sempre bem penteados e preferia costumes clássicos. Stawdsen era o oposto, tanto que descia as escadarias somente agora, com a cara cheia de sono e os cabelos loiros em pé.
- Desculpe Pá, mas eu tava dormindo. - O menino falou abraçando o pai. Hyouga o abraçou sorrindo.
- Foi uma ótima idéia você passar um tempo conosco este ano pai. Afinal de contas sempre recebemos cartas suas do mundo inteiro, Amsterdã, Rio de Janeiro, Portugal, Noruega... – Stuwsen falou. – Já estava na hora de ficar um tempo na França.
- Sim, sim... Passar um tempo com os filhos dele para ver as pestes que são! – Fleyr falou se aproximando – Já estou cheia de fios brancos na cabeça e nem tenho trinta anos ainda! – a loira falou se aproximando de Hyouga. – Fez boa viagem?
- Sim, Sim Fleyr. – Hyouga falou enquanto era conduzido para dentro da suntuosa propriedade. – Fiz uma ótima viagem, os negócios estão ótimos. Prosperei bastante.
- Percebi, mas afinal não se tem como dar errado trabalhando para Julian Solo, não é? Pelo que sei, ele é um exemplo em hotéis náuticos. E construção de Porta Aviões. - A loira falou chegando enfim no salão da casa. Stan e Stu vinham atrás carregando a mala de Hyouga. E uma bela senhora de formas voluptosas, com os cabelos bem tingidos veio até eles com uma bandeja de suco de laranja nas mãos.
- Ah obrigado! Estou com a garganta seca – Hyouga falou sorrindo para a mulher e provando do suco. - Está uma delícia.
- De nada, senhor Schevchenko. – Becca falou sorrindo. – Seu quarto também está pronto para o uso como no verão passado.
- Obrigado mais uma vez. - Hyouga falou sorrindo. - E então Fleyr, será que me suportará até o natal, ou vai me expulsar na festa de Todos os Santos?- Ele falou rindo-se, passando a mão sobre o ombro da mulher. Fleyr jogou a cabeça para trás e sorriu para ele.
- Se der sorte, eu viajo para a Alemanha e te deixo sozinho com estes pestinhas - ela falou rindo olhando para os gêmeos que agora estavam atrás de Hyouga o imitando em todos os gestos e poses. Cisne começou a se mover muito mais rápido que eles e os garotos se embolaram.
- Poxa pai, não vale, você tem que fingir ao menos que é normal. – Stu falou entre gargalhadas.
- Ah, isso é tudo que ele não é... – Fleyr falou e todos caíram na gargalhada. Hyouga estava feliz. Estava com seus filhos, e nada nem ninguém poderia falar para ele que existia amor maior do que aquele.
A casa estava toda decorada para o natal. O pinheiro de mais de dois metros de altura encostava-se ao teto, e cintilava totalmente envolta em luzinhas coloridas de pisca-pisca, bolinhas de natal e pingentes diversos. Os presentes todos dispostos embaixo da árvore só esperavam a badalada da meia noite para serem abertos.
Natal era uma época mágica para família Fatone. Era o tempo de reencontrar os amigos, colocar o papo em dia, orar para um ano melhor e pelos que perderam no ano que se passou. Shun adorava o natal em família especialmente.
Lauro e Gennie estavam brincando sentados no chão da sala enquanto Daniel se empoleirava com Stella no sofá, entre beijos e abraços.
Shun e Afrodite estavam na cozinha temperando o chester enquanto Carlo conversava com Shura e Sheena na varanda dos fundos. Ikki, Aiolia e Aldebaran ainda não tinham chegado, e já eram mais de sete da noite.
- Acho que em pouco tempo esse treco assa, Shun. Porque não coloca no microondas?- Afrodite perguntou olhando apreensivo para o chester ainda branco e com o termômetro enfiado na carne rosada.
- Hunf, não sei se ficará tão crocante como as crianças gostam se eu colocar no microondas. Ikki também não comerá se ficar com aparência de crua.
- Logo se vê que esse povo nunca passou fome ou comeu mal! – Afrodite riu-se olhando para Shun – Todos ficaram mal acostumados tendo você o tempo todo na cozinha. – o pisciano falou.
- Ah Dido... O Joey me ajuda bastante. Já viu o tamanho desta casa e a bagunça que essas crianças fazem o dia todo? – Shun comentou saindo da cozinha e indo para sala. Afrodite o seguiu maneando a cabeça positivamente. A casa realmente parecia muito bem arrumada levando-se em consideração que era habitada por duas crianças.
- Falando em Joseph, como ele está reagindo aos medicamentos? – O pisciano perguntou cautelosamente.
- Parece uma criança. Diz que não sente nada, que é exagero tomar tantos remédios, mas está se cuidando. - Shun falou com o olhar triste.
- E você, como está reagindo? E o Dádio? – Dido perguntou sorrindo tristemente.
- Estou bem, sendo forte, mais do que esperava. Ele já teve duas internações depois do resultado do exame. Eu nunca sei quando ele vai estar caído em algum lugar da casa. Mas pretendo continuar cuidando do que é meu. - Shun falou olhando a sua volta. Os olhos marejando – Mas Dido, eu não quero falar sobre isso na noite de natal. Olhe como Joey está feliz! – Comentou apontando para o moreno que ensinava Lauro a segurar o violino nas mãos.
- Ai, mais um violinista na família! – Sheena sorriu ao ver Lauro com o violino nas mãozinhas, completamente empolgado tirando sons horríveis do instrumento enquanto Sheena sorria e batia palmas, e o menininho balançava o corpo imitando a Joey e ao irmão mais velho.
Shun e Afrodite estavam olhando para Lauro, quando Gennie vinha tateando o ar até encontrar sua perna. Sorriu, e Shun a pegou no colo.
- Aqui está minha princesinha Dido. Minha princesa! – Shun sorriu.
- O papai leu a princesa e o plebeu pra mim ontem. Ele leu sim! – Gennie falou tateando o rosto de Afrodite com as mãozinhas. – Eu gostei, tio Afrodite.
- Eu imagino como você gostou! Também lerei histórias para você minha linda! - Dido falou rindo e pegando a afilhada nos braços. Os olhinhos azuis e cegos revirando-se nas órbitas sem ponto para fixar-se, mas o sorriso, o sorrisinho da menina, quase sem gengivas á mostra, com dentes pequenos cor de pérola indicava que ela era muito feliz. O pisciano a abraçou junto ao peito emocionado.
- Você sabe que você e o Joey são especiais, não sabe? Sabe que criar uma criança como essa... meu Deus... é uma dádiva. – Afrodite falou.
- É nossa filha Dido. Não há nada de especial nisso. – Shun respondeu sorrindo. Acabou por ouvir a buzina do carro de Aldebaran ecoando do lado de fora da rua. Com a nevasca que tinha caído pela manhã, com certeza ele e Aiolia estavam esperando que alguém fosse lá fora ajudá-los com os presentes antes que os mesmos caíssem na lama que cobriu o jardim depois da neve ter derretido. Shun lamentava profundamente esse fato, a neve derretida enlameara tanto o jardim que era praticamente impossível colocar as mesas para o lado de fora.
- Alguém ajude os dois lá com os presentes... Tenho que ver o chester no fogo! – Shun falou entrando na cozinha. Acabou esbarrando em Joey que se precipitava para a porta. Os olhares dos dois se cruzaram, felizes. Sorridentes. Joey enlaçou os dedos nos de Shun e o puxou para um beijo sem nada dizer. Shun correspondeu, as mãos procuraram o cabelo de Joey e afundaram-se ali.
- Eu te amo sabia? – Joey falou entre os dentes. - Shun estremeceu. Sorriu. Sentiu o peito apertar de felicidade e excitação, como sempre ocorria quando Joey o agarrava sem aviso. – Adoro o natal. – o homem comentou abraçando-se a ele. - Adoro passar o natal com você.
- Eu também te amo grandão – Shun sussurrou no ouvido do marido. Beijou-o novamente. - E eu também adoro o natal que passo com você. – Shun falou o beijando novamente. Joey o enlaçou pela cintura possessivamente.
- Aeeee... quem me dera que o Carlo me pegasse assim depois de dez anos! – Afrodite falou rindo, e Mascara da morte mandou-o para algum lugar com palavras de baixo calão que fez Stella e Dádio começarem a rir no sofá. Joey e Shun também riram.
- Bem, eu vou ajudar Aiolia e o touro com os presentes. Vamos comigo Lauro? – Joseph falou pegando o filho no colo.
- Cuidado para não cair hein Joseph, está tudo uma lama só lá fora. Coloca o casaco no Lauro antes de ir lá pra fora e se agasalhe também! – Shun alertou indo para cozinha.
- Okay meu bem. – Joey falou saindo para a escuridão. Virou-se ainda a tempo de Shun mandar um beijo para ele da cozinha.
A musica que estava baixa até então, tocando algum musical no DVD, aumentou de volume quando Dádio e Stella resolveram fazer coro com Alanis Morissette cantando Ironic e se tornou alta tomando toda a casa
An old man turned ninety-eight
He won the lottery and died the next day
It's a black fly in your Chardonnay
It's a death row pardon two minutes too late
Isn't it ironic... don't you think?
Shun começou a cantarolar também e foi ver o Chester no forno.
It's like rain on your wedding day
It's a free ride when you've already paid
It's the good advice that you just didn't take
Who would've thought... it figures
Ainda daria tempo de arrumar a mesa antes de Ikki chegar. A carne estava ficando tostadinha como os filhos gostavam.
Sorriu. Seria mais um natal perfeito. Continuava ouvir a musica tomando conta dos lábios de todos na sala. Até a pequena Gennie, de tanto ouvir o DVD também estava cantando.
Mr. Play It Safe was afraid to fly
He packed his suitcase and kissed his kids good-bye
He waited his whole damn life to take that flight
And as the plane crashed down he thought
"Well, isn't this nice."
And isn't it ironic ... don't you think?
Saiu de perto do fogão e foi para perto da cristaleira com a intenção de polir as taças de vinho antes de colocá-las na mesa, alcançando o móvel que fora presente de casamento de Saori e Seiya, Shun pegou uma taça na mão e se encostou á porta dos fundos da cozinha.
Começou a polir com movimentos rotativos e monótonos o interior da taça enquanto ainda cantarolava a música que estava tocando no DVD quando pareceu ouvir o choro desesperado de Lauro vindo do jardim, e junto com ele uma confusão de vozes.
Well life has a funny way of sneaking up on you
When you think everything's okay and everything's going right
And life has a funny way of helping you out when
You think everything's gone wrong and everything blows up
In your face
Largou a taça no ar que logo alcançou ao chão espatifando-se.
O coração de Shun acelerou, conhecia o choro do filho, e este estava desesperado. Joey deveria ter escorregado com Lauro no colo e o menino deve ter se machucado, Lauro odiava ver sangue, tão ou mais que ele próprio. Bem que ele tinha avisado a Joseph para tomar cuidado com a lama!
Sem se preocupar com o frio que fazia lá fora, vestindo apenas uma camisa canelada de manga comprida e calças jeans, Shun saiu na noite escura e acinzentada. Não se preocupava com sua pele rachando sob o frio, ou os cabelos despenteando-se. Somente queria ver o filho e discutir com o marido, saiu pela porta da cozinha, e começou a dar a volta na casa, sentindo seus pés afundando na lama deixada pela neve. O coração quase saindo pela boca a medida que Lauro gritava cada vez mais alto e Aldebaran parecia gritar por seu nome urgentemente junto com palavras em português rápidas. Pareciam as mesmas palavras só que em línguas diferentes. Eram ambas chamadas urgentes na língua materna de ambos.
Shun apressou o passo.
A traffic jam when you're already late
A no-smoking sign on your cigarette break
It's like 10,000 spoons when all you need is a knife
It's meeting the man of my dreams
And then meeting his beautiful wife
And isn't it ironic... don't you think?
A little too ironic., and yeah I really do think...
A sua maldita casa nunca parecera tão enorme para se dar uma volta completa, mas como estava nervoso cada centímetro a ser passado parecia um metro quadrado. Sentiu os cabelos lhe açoitarem a face e o cachecol voar contra seu rosto atrapalhando. Correu, que se danasse o cabelo e a roupa.
Assim que chegou ao lado da casa já conseguia avistar os faróis do carro de Aiolia brilhando no escuro enquanto flocos de neve começavam a cair bem na hora em que chegou ao lamaçal que estava o jardim da frente. A escuridão ainda era bastante por causa das arvores da rua repletas de neve em seus galhos frondosos, e estes acabavam cobrindo a luminosidade dos postes.
- Maldita hora para nevar. – Shun falou olhando para o céu e se aproximando do gramado mais iluminado pelas luzes do pisca-pisca que estava colocado na varanda da frente provocando várias luzinhas coloridas na escuridão como se os vagalumes tivessem saído no frio e piscassem multicolores.
Mas Lauro gritava muito alto ainda. Shun se precipitou de encontro a voz do filho ao mesmo tempo em que as pessoas da casa pareceram ouvir os gritos da criança e começaram a sair aflitos para a varanda.
Well life has a funny way of sneaking up on you
And life has a funny, funny way of helping you out
Helping you out
Os olhos de Shun imediatamente correram pela escuridão e da mesma para Lauro que estava caído no chão.
Joey estava por cima, com o braço flácido como se tentasse amparar o menino na sua queda. Seu marido estava de costas para cima, caído de bruços. A mão esticada para Aldebaran e Aiolia.
Joey estava tremendo e Shun logo percebeu que não era de frio, Laurinho estava apavorado vendo o pai daquela forma e por isso sim parecia estar gritando, o pai estava tremendo muito. Da boca escorria uma secreção estranha. O menino começou a gritar em francês.
Shun disparou gritando o nome do marido, ao vê-lo não sabia se queria mesmo se aproximar e constatar o que acontecia. Aquilo não poderia estar acontecendo...Não na noite de natal.
Ganimedes, Cardozinha e Zienma... obrigado pelo apoio. Agora só falta 1 cap e o epílogo.
Bjos a todos.
