Capitulo 10
-Acho que você ficaria bem com este aqui – Shun falou estendendo a mão para o homem a sua frente oferecendo um suéter de lã escura com bordados caramelo. Evitou olhar para a face tão conhecida, tão amada em sofrimento. – Afinal de contas estará fazendo muito frio lá em Manchester também. E acho que seu pai ficaria feliz que você usasse um casaco dele ao menos. –Andrômeda falou para o homem de cabelos cacheados cabisbaixo a sua frente, mas não obteve resposta. – E esta neve. Esta maldita neve que não para de cair há uma semana! - Shun subitamente irritou-se e comentou tristonho, mas o rapaz estava com os olhos fixos na neve que caía lentamente, junto com as lágrimas que escorriam por sua face jovem.
- Sinto tanto a falta dele. - Daniel falou pegando o casaco. - Sinto tanto a falta de papai. – falou chorando. Abraçou-se a Shun puxando-o pelas vestes escuras. - Nem parece que ele foi enterrado há três dias. - Não queria me ausentar agora, te deixar sozinho com as crianças, sem ele... Mas você conhece minha mãe, não é... – Daniel falou enterrando o rosto no vão entre o pescoço e o ombro de Shun. O homem mais baixo acarinhou a cabeça do filho.
- Eu também sinto a falta dele. - Shun limitou-se a dizer. - E Lilith está certa, passar as férias com ela lhe fará um bem enorme depois de tudo isso. – Shun falou também chorando. Os olhos percorrendo lentamente o quarto que dividira com Joseph. Cada quadro, cada peça da mobília, cada pedacinho do carpete cor de marfim a seus pés continham um pouco de sua história. Guardavam um segredo que foi compartilhado entre quatro paredes.
"As luzinhas estão piscando Lauro... você está vendo? Estão piscando... e olhe a neve, tão branca... tão branca... Não chore filho, não chore... papai está segurando sua cabeça... você se machucou? Olhe a neve está pousando em seus cílios. Shun, Shun... você está chorando... por quê? Por quê... Estou vendo uma luz... é linda Shun... é linda...".
Andrômeda não tinha mais palavras a dizer quando se lembrava das ultimas palavras de Joseph, ele gritou para que Joey não fosse para a luz, pediu para que ficasse com ele, pediu... Ele pediu tanto... Ainda assim, lhe sobravam lágrimas para chorar toda vez que olhava para Dádio e se lembrava do ocorrido.
Estava claro em sua mente todo o sofrimento que se passara desde que vira Joey ali no jardim de casa, na noite de natal, sofrendo um acesso terrível em seguida a correria para erguê-lo do jardim e leva-lo para o hospital, onde em desespero percebeu que o corpo do homem que amava não tinha mais vida. Lauro e Gennie não entendendo nada do que se passava, só queriam saber dos presentes e porque o pai não levantava da cama do hospital.
- Já são quase meia noite pai, quero os meus presentes... – Lauro falou choramingando, o médico tentando segurar a criança para que ela não se aproximasse do leito onde Joseph jazia morto. Mas ninguém, ninguém separaria seus filho do pai. Nem mesmo morto. Shun abriu os braços e os dois se aproximaram do corpo de Joseph. Gennie ainda mais perdida porque não enxergava nada a sua volta, pobrezinha. Só ouvia os gritos e lamentos dos adultos em volta dela.
E ele chorando, chorando abraçado a Afrodite, abraçado a Carlo, a Aldebaran, Sheena, a todos os braços que se ofereceram a ele. Preocupado com Dádio, preocupado com Joey.
Afinal ele tinha sofrido? Seu amor tinha sofrido? Oh, ele não merecia. E finalmente duas horas mais tarde Ikki que chegou tão confuso que só entendeu tudo quando viu o corpo de Joseph em cima da cama. A dor em seus olhos era tão genuína quando olhou para o corpo do cunhado e para os olhos do irmão, que todos os átomos de seu corpo estavam em choque. Shun não sabia como poderia suportar aquela dor. Queria morrer, queria ir com Joey. Mas também queria ficar. Ficar com os seus filhos.
Não imaginava que aquela noite de natal seria tão horrenda. O filho de Deus nascendo e seu marido morrendo. Nem em seus mais bizarros sonhos imaginaria o que acabou acontecendo na sua noite de natal. Afinal de contas Joseph estava se cuidando, estava feliz... Não era justo. Estava a ponto de desmaiar. Queria desmaiar e acordar nos braços de joey, como acordara naquela mesma manhã. Tinham feito amor, tinham conversado enquanto decoravam a casa. E ele se culpou por ter reclamado que Joey esqueceu de limpar a adega. Será que ele partira magoado com isso?
Não. O médico disse que ele partira sem dor, não sofreu, não sofreu nada. Foi carregado pelos anjos direto para o céu, Shun queria acreditar. Tinha que acreditar. Nada de Hades, nada de inferno.
Ele era um anjo. Um anjo. Ele acreditava ter berrado agarrado ao cadáver de Joey.
Não. Não era um cadáver. Era o homem que amava. Era o homem que ele amava. Meu Deus. Não! Era o homem que ele amava! Acorde Joey. Acorde! – Ele gritou. As crianças gritando também agora. Alguém o tirou de cima do corpo inerte. Era Dádio. Bateu em Dádio na face, com força. Agarrou-se ao casaco enlameado que seu homem vestia. Agarrou-se a aquele corpo gelado pelo frio da neve, gelado, sem vida. Inerte. Beijou-lhe os lábios, agarrou os lados da face, frio. Frio, muito frio. Lágrimas. Pelo amor de Deus que o deixassem ficar com ele. Que permitissem... Oh Deus... Oh Deus!
Tiraram-no de cima de Joey novamente. Afastaram as crianças. Dádio tentava abraça-lo. Agarrou-se ao menino ao mesmo tempo e ambos caíram em choro descompassado.. Os olhos queimando. O coração esmagado no peito. Dor, falta de ar. Alguém o matasse agora. Não tinha mais porque viver.
Shun chorou. A boca emitindo sons, preces, palavrões, amaldiçoou a tudo tentando conceber o porquê de tanta gente ruim ainda caminhar pelo mundo e Deus estava chamando um homem de bem como Joseph. Estava lhe arrancando seu amado de seus braços com tanta rapidez, tão rápido. Ceifando os sonhos, ceifando os dias, era muita crueldade.
Era muita crueldade que todo dia ele pudesse ver nos noticiários terroristas explodindo escolas, cometendo assassinatos brutais, chacinas em todo o mundo, e os assassinos continuarem vivos de pé. Prontos a cometer uma nova barbárie, e provavelmente estariam ceifando vidas ou jantando animadamente pouco preocupados com o cadáver que tiraram a vida na esquina há menos de uma hora. Ceiando na noite de natal. E Joey, o seu Joey, estava indo embora, para sempre.
Nunca mais teria que o esperar se arrumar para ir trabalhar brigando para que o deixasse sair da banheira. Não haveria mais o roçar de pés sobre o edredom antes de cair no sono, abraçados como uma conchinha. Não teria mais beijos de boa noite apaixonados. Ou até mesmo as brigas bobas por coisas corriqueiras como trocar o canal de televisão. Ninguém mais cantaria somente para mente dele, conversaria com ele sem abrir os lábios. Ninguém mais o entenderia em todas as suas partes, aceitando seus defeitos, aceitando seus erros, vendo toda sua luz e amando toda a sua escuridão, permanecendo mesmo, ainda assim, do seu lado, construindo uma vida.
Lágrimas, lágrimas amargas desciam do seu rosto enquanto ele via caixão ser baixado. Não conseguiu falar. Desmaiou.
Lembrou-se de tudo enquanto via os amigos ao seu lado. Sendo bem seguro nos braços de Ikki e de Dádio. As crianças... não queria que as crianças vissem o pai entrando na terra. Deus, graças a ti, Saori estava cuidando deles em casa.
Shun estava com os pensamentos embaralhados. Queria ficar só com si mesmo, achava que somente Joey poderia ser o resort perfeito para cuidar dele, mas Joey não estava mais lá, e ele desejou que pudesse manter a inexplicável conexão que ele tinha com o homem desde que se conheceram. E sim, Shun estava em choque, da mesma maneira que estava em pânico. Joey estava acabando com sua fábula o deixando somente com o drama, e a morte estava o deixando desiludido.
Ainda se recordava vividamente de um dia, anos atrás. Eles estavam no jardim, justamente onde Joey caíra. E eles sabiam mais um do outro do que um dia pensaram saber. E Joey disse "Eu não quero nunca ter minha memória apagada". E estava falando a verdade, no meio de sua confusão mental ele ainda era intenso, mesmo que se sentisse desconfortável debaixo de sua própria pele. Ele em toda a sua maturidade ainda era sedento pela vida e mesmo com essa sede inexorável de saber ele continuava belo.
Quando estavam juntos parecia que voltavam a ter quatro anos de idade. Queriam sempre saber por que e como as coisas aconteciam, inclusive tinham conversado sobre a morte, e concordado que ela era injusta, mas necessária. Estavam sempre revelando para eles mesmos seus desejos, e falavam de mente aberta, e mesmo quando apenas trocavam idéias sem pensar se o outro o condenaria por isso. Eles confiavam em sua intuição e ela alimentava a vida.
Com quem mais Shun conversaria sem que necessitasse acreditar na existência e na inexistência de Deus ou do diabo, ou a razão por estarem ali, vivos, partilhando da experiência única do amor de verdade?
Shun estava enterrando não só o seu marido, mas sim a sua mente. Ele precisava refletir, precisava guardar tudo na memória. Se sentir livre para conversar com as paredes como se estivesse conversando com Joey.
Três dias. Três dias sem ele. Parecia mais tempo do que os dez anos que passaram juntos construindo a família. Agora Sheena e Afrodite permaneciam na casa para ajudá-lo com as crianças. Ele estava tão desorientado, tão fraco. Mas a vida tinha que continuar. Dádio decidiu ir para Inglaterra com Lilith pelo menos até ser aprovado em Oxford. Ikki permanecia ao seu lado, assim como todos que vieram ao enterro. Todos eles, todos eles choraram junto com Shun, mas só Shun sentia que sua alma tinha sido enterrada ali, junto com seu anjo do violino.
Já tinham se passado dois meses quando o Sedan prateado parou em frente a sua casa e Shun viu uma mulher loira e dois adolescentes parados a sua porta pelo vidro da varanda da frente.
Ele estava sentado no alto da escada de madeira, terminando de pintar o teto. Desde que Joseph morrera, Shun resolveu ocupar sua mente pintando a casa. Já tinha chamado um torneiro mecânico, marceneiros, pintores e um reformador para fazerem pequenos concertos. Aproveitava-se do fato que as crianças estavam passando um tempo com Afrodite e Carlo em Veneza.
Estava sozinho desde dois dias depois Dádio ter partido para Manchester com Lilith, ou seja, exatamente uma semana após a morte de Joey. No inicio o silencio sepulcral da casa tinha o incomodado. Agora não doía tanto. Já tinha mandado grande parte das roupas e objetos de musica de Joey para a doação. Um advogado muito eficiente chamado Pedro Abreu estava cuidando do inventário. E ele estava tomando fôlego para recomeçar.
Pintar a casa foi realmente uma terapia.
Estava se divertindo coberto de tinta dos pés a cabeça pela maior parte do dia, somente para no fim da noite entrar na banheira de sua suíte, com uma garrafa de vinho tinto ao seu lado e duas taças. Colocava o porta-retrato com a fotografia de um Joey sorridente ao lado da segunda taça que ficava completamente cheia até que ele saísse do banho , enquanto Shun esvaziava lentamente a sua própria taça, sentindo o vapor da água lavar a tinta de sua pele e as lágrimas de seu rosto.
Era doloroso, mas aplacava a solidão com nostalgia. Conversava com as paredes. Dormia na banheira a ponto de acordar com a pele enrugada de madrugada e somente se arrastar para cama.
Tinha decidido mudar o quarto das crianças para onde ele e Joey dormiam, e para isso pintou um fundo do mar gracioso nas paredes com ajuda de alguns alunos seus de história da Arte, deixando para trás completamente as paredes cobertas pelo papel de parede com temas outonais.
No quarto das crianças que agora lhe pertencia, colocou a cama de casal que dormia com Joseph e pintou as paredes de branco. A luz entraria pelas janelas e iluminaria ainda mais de dia, ou de noite. Colocou ali também a espineta e o violino, que repousava dentro de uma caixa de vidro.
Deu cabo dos outros ambientes da casa, colocando sempre cores claras. Vendeu os móveis para um antiquário e comprou novos, mais modernos, menos clássicos.
Queria que as crianças quando retornassem da casa de Afrodite, vivessem em uma casa que não lembrava em nada a casa em que Joey morreu. Muito menos a cena fúnebre que foi ter o caixão em cima da mesa da sala no funeral.
Agora a mesa estava à venda em algum antiquário, e uma mesa de tampo de vidro e base jônica de gesso estava em seu lugar.
Estava fazendo uma revolução na casa da mesma forma que a morte de Joseph revolucionara seu modus vivendi.
Shun desceu das escadas e foi abrir a porta, já que seus ajudantes tinham saído para almoçar. Jogou os cabelos para trás ajeitando-os como podia. Sabia que tinha muitos respingos de tinta sobre o rosto, mas não se importou.
Abriu a porta. E viu Fleyr e os filhos de Hyouga. Ficou mudo por um momento, ao mesmo tempo em que a mulher lhe abria um sorriso sem jeito.
- Oi, Shun... será que posso falar com você um minuto? - A loira perguntou.
Shun percebeu que ela estava nervosa pelo modo que torcia as mãos. Desnecessário. Não sentia por ela um terço da raiva que um dia sentira.
- Sim, entre. Por favor, não repare a bagunça. Estou reformando. – Shun falou batendo com as mãos na capa do sofá para que a mulher se sentasse. – Bebe alguma coisa, suco, água, chá? A única coisa que mantenho sempre cheia é a geladeira. – Shun sorriu.
- Ah, obrigada. Não quero nada não, Shun.
- Crianças?- Shun perguntou para Stan e Stu, que não sabiam nem porque estavam ali. Shun percebeu que eles eram a cara de Hagen. Os olhos puxados e azuis, os cabelos loiros quase brancos. Mas também poderiam muito bem ser filhos de Hyouga.
- Não, obrigado senhor Fatone. – Stu falou polidamente – Poderíamos olhar o seu jardim enquanto conversa com minha mãe?
- Oh, claro que sim...
- Stuward, este é Stawdsen – falou Stu. - Se não se importa, deixaremos vocês a sós. – E eles saíram pela porta dos fundos, pulando as latas de tinta e móveis cobertos por lençóis brancos, manchados de tinta multicolores.
Ao se ver a sós com Fleyr, Shun perguntou:
- E então... depois de dez anos, o que lhe fez desejar me ver?
A mulher sorriu antes de responder:
- Soube que seu marido faleceu, vim lhe dar minhas condolências... Sei que poderia tê-lo feito por telefone, mas não. Tive que vir. Tinha que te ver Shun... – Fleyr falou nervosa.
O rosto de Shun era uma incógnita só. Não entendia a mulher mesmo, tampouco seus motivos.
- Sei que é estranho eu lhe perguntar o porquê disto tudo, sendo que você veio me prestar solidariedade, mas não compreendo ainda onde quer chegar...
- Não, não é estranho. Senti-me na obrigação de vir. Soube que você foi quem me defendeu de Hyouga quando tudo ocorreu com Hagen perante o parlamento de Athena. E acredite, sei o que você está sentindo Shun, eu perdi quem eu amava. E eu gostaria muito que você aceitasse o meu abraço, e o que mais eu possa te oferecer; me sentiria reconfortada se você aceitasse. - Fleyr falou com os olhos marejados. – Cometi tantos erros, tantos erros...
Shun olhou para a mulher. Ela tremia, com medo de ser rejeitada, escorraçada dali.
Mas não seria justo com ela. Não seria justo com Joseph que sempre lhe fizera refletir sobre tudo que tinha acontecido.
Eram todos vítimas do destino.
Abriu os braços para a loira.
- Aceito seu abraço Fleyr. Dez anos atrasado, mas aceito. Não estou em condição de negar abraços de ninguém. – falou abraçando a mulher. E Fleyr estava tão emocionada que suas pernas bambeavam.
Estavam encerrando um ciclo.
Já tinham renascido.
De fato Shun estava se sentido deslocado no meio daqueles jovens, era sempre assim quando começava mais um ano letivo na faculdade que dera aula durante doze anos, mas agora que tinha aceitado o convite da Libera Universitá di Lingue e Comunicazione – IULM di MILANO em Milão seria ainda mais difícil se adaptar. Tinha deixado sua a casa em que vivera com Joseph e seus filhos por dez anos, e reformara com extremo carinho, para se mudar para uma confortável residência em Milão. Tudo bem que era um amplo apartamento e não uma casa, ele possuía 4 quartos, três deles, suítes, fora dois banheiros e dependências de empregada.
Claro que Shun sentiu uma dificuldade de adaptação tanto sua quanto das crianças, que estavam acostumados a viver em uma casa enorme que imitava um pequeno chateau italiano, dotado de espaçosos cômodos, dois enormes portais por sala que realmente ajudava a ele e Joey oferecer grandes festas sem ninguém se sentir esmagado contra as paredes. Claro que Shun sentiria falta daquele lugar.
Afinal, fora muito feliz lá, mas também muito triste. O valor sentimental que a casa tinha era inestimável para todos que um dia pisaram nela, e por isso ele se sentiu tão satisfeito por não ter vendido, mas sim alugado para Fleyr e as crianças por uma quantia significativa por seis meses. Agora ele estava trocando toda a segurança de estar cercado por quatorze luxuosas residências, cada qual mais adorável do que a outra, e abrindo mão de ficar sentando entre as enormes, Magnólias francesas, Palmas de Rainha, arvores cítricas, e arvores de bambu gigantescas, escolhidas á dedo e profissionalmente instaladas pela companhia de flores de um amigo de Joseph. Enormes Gardênias, Camélias, Azaléias e Margaridas adicionavam cor e beleza a propriedade e ao jardim. E foi justamente no meio desta profusão de cores que Joey tanto adorava que ele acabou falecendo. Shun não podia cuidar do jardim, nadar na piscina, chamar para reuniões os amigos mais íntimos, sem se lembrar de quanto Joseph amava aquela casa, sem recordar-se de tudo naquela casa representava o amor deles.
Mas o que de fato pesou em sua decisão final foi a solidão de morar naquela enorme propriedade. Afinal, residir com duas crianças mesmo em um condomínio seguro, em uma propriedade gigantesca não era funcional para ninguém. Acabou aceitando o convite da faculdade em Milão, que lhe ofereceu um salário bem melhor do que a que lecionava em Toscana, e muito mais turmas. Em Milão também ficaria mais perto de Afrodite e Carlo. Não se sentiria tão sozinho.
Shun já estava com trinta e oito anos e os primeiros fios brancos começavam a lhe embutir um certo charme provinciano. Os cabelos castanhos claros continuavam bastos e compridos, mas não tanto, detinham-se na altura dos ombros.
Estavam no ano de 2018 D.C. Não havia mais batalhas que pudessem ser resolvidas por cavaleiros. Somente atentados terroristas, a sociedade tinha caído em uma utopia digitalizada, e os valores sociais e morais se perdiam nas maiores cidades do planeta. Não havia mais compaixão com nada, muito menos com a natureza. Amigos?
Comunicavam-se por e-mails, nem os telefones estavam utilizando mais. Marcar encontros familiares? Fora de moda. Cada membro da família tinha uma vida a viver, raramente tinha-se tempo para gastar com conversas descompromissadas.
Tudo uma correria. Má alimentação, pouco tempo para leitura e para os filhos. O mundo não parava. E de fato isso já era uma coisa previsível dez anos antes. O bicho homem não teria mais tempo para o Homo- sapiens simplesmente.
Shun pelo menos estava feliz neste aspecto. Seus dois filhos mais novos estavam entrando no ensino médio, enquanto o mais velho já estava formado e casado com uma bela italiana chamada Stella.
Seus amigos, Oh eles estavam bem, alguns ele nem tinha contato mesmo, mas na maioria tinham se estabelecido comercialmente na Europa ou no Japão. Ele preferiu a vida pacata de professor mesmo, era mais funcional, e podia viver tranquilamente da pensão de Joseph e de seu próprio trabalho.
Sua Deusa? Saori estava feliz com Seiya e seus três filhos. Estava grávida de uma menina e ainda vivia na Grécia, mais precisamente eu um pequeno palacete em Mikonos.
A vida seguia normalmente como deveria seguir.
Neste meio tempo, Shun conhecera homens interessantes, mas não tão interessantes que fossem dignos de irem com ele para cama ou fazerem parte de sua vida. Todos tinham a agenda corrida demais para um almoço, mas lenta de mais para uma noitada de sexo.
E isso não lhe interessava. Tentou uma, duas, três vezes. Nada. Os homens do tipo "pato" não mudavam. Então preferiu deixar que os romances se restringissem a salas de bate papo na internet, livros de bolso baratos e seriados norte-americanos do tipo o extinto Felicity. Quando não isso, preferia reviver seus momentos com Joey ouvindo Tori Amos, ou Celine Dion no Cd Falling into You com a música It's all comming back to me.
E neste meio tempo, se alguém lhe perguntasse se preferia conhecer alguém novo a ficar de pijama em casa lendo e pulando com seus filhos na ampla cama de colchão d'agua, a resposta seria cuidar das crianças.
Suas belas crianças. Lauro estava com 12 anos completos no ultimo dia 27 de julho, era um menino alto para a idade, cabelos castanhos lisos e fartos que sempre estavam cortados á maneira asa-delta. Os olhos eram estreitos e escuros como os de Joey um dia foram e mais claros um pouco do que os de Daniel. Era calmo e gentil.
Gennie tinha completado 11 anos no verão em 26 de novembro, e assim que chegou a cidade conseguiu o papel de prima-donna infantil no Municipal de Millano fazendo o papel de Christine Daae ainda criança na montagem de The Phantom of the Opera de Andrew Lloid Webber na primeira audição. Era uma menina loira com cabelos cacheados que pendiam em mechas de castanho claro e amarelo ouro, como um anjo. Era cega, obvio, mas tinha os olhos mais puros e azuis que Shun já vira. Em contraponto quando soltava a voz seria capaz de eclipsar a trombeta dos anjos. Estava cursando a escola para deficientes visuais de Milão. Era uma aluna perfeita. Uma filha dedicada e amorosa que cantava para ele quando ele estava triste, que queria descrever em detalhes o rosto de Joey sem nunca te-lo visto de fato. Era quase uma enciclopédia viva de tudo que Joey um dia fora, e isso dava orgulho para Shun. Já andava sozinha pelas ruas com seu cão-guia chamado George, um dálmata treinado dado a ela pelo padrinho Carlo di Angeli que muitas vezes fez a vez de pai para seus dois filhos uma vez que Joey não poderia aparecer em festas de natal, dia dos pais e outros eventos corriqueiros de uma vida infantil. Carlo inclusive mantinha uma conexão especial com as crianças e permanecia ligando para elas todos os dias e os pegando para passarem temporadas em sua casa em Veneza.
Esta era a vida de Shun agora. Professor universitário, viúvo, e pai de duas crianças adoráveis. Tudo bem que sentia falta de companhia, mas isso, se fosse o caso, mais cedo ou mais tarde chegaria.
Shun já vivia em Milão há seis meses quando Afrodite apareceu na portaria do prédio sem avisar. Estava vestido na alta moda Italiana, com seus habituais cachos loiros cortados na altura do queixo. Era lindo demais mesmo passando dos quarenta anos. Os olhos azuis com cílios compridos estavam completamente excitados, e ele estava acompanhado da jovem Belle – sua filha com Carlo de oito anos de idade – E do próprio Carlo.
Shun estava despreparado para receber visitas. O professor de piano não tinha aparecido na noite anterior deixando Gennie frustrada e com um tremendo mau-humor, ele mesmo tinha provas a corrigir, Tinha de levar Lauro para comprar roupas novas, e reabastecer a despensa.. E pelo amor de Deus, não eram nem sete da manhã o que Afrodite estava fazendo com a família inteira na sua porta?
- Bom dia Shunzinho... – O cavaleiro de peixes falou entrando na casa assim que Shun abriu a porta. – Inverno rigoroso esse de Milão, meu rosto vai ficar todo cortado com esse vento.
- Ah, oi bom dia, bom dia Carlo, esteja a vontade Isabelle. – Shun falou indo para a cozinha. Afrodite o seguiu a medida que Carlo foi acordar as crianças para a escola. O homem era tão ligado aos seus filhos que já sabia o horário de ambos.
- Carlo, por favor, lembre a Gennie que hoje ela tem audição na Opera mais tarde. – Shun falou colocando a mesa para o café da manhã. –E Afrodite, fale logo o que te tirou da cama antes do meio dia!
Afrodite sorriu. Caminhou graciosamente até a bolsa da DIOR que tinha largado em cima do sofá e pegou uma pasta tão negra quando o firmamento a noite, tirou de dentro algo que parecia um contrato. Colocou entre as mãos de Shun.
- O que é isso?- Shun perguntou abrindo o documento. Os olhos correndo rápidos por ele. - Um contrato de compra e venda. Hummmm, assinado por você... e?
- E que eu vou abrir um Cyber Café aqui em Milão. – Afrodite falou quase dando gritinhos de alegria - E você vai ser meu sócio Shunzinho!
- O quê? Eu? Afrodite, você está ficando senil antes dos sessenta? – Shun falou evitando rir da expressão de Afrodite. – Você nunca administrou nada na vida a não ser seus kits de maquiagem e seu cartão de crédito homem! – Shun falou rindo.
- Pra isso serve o Ikki! Já falei com ele, afinal administração em Harvard serve para alguma coisa né? Tem até príncipe que já estudou lá. E naquele filme legalmente Loira...
- Pára Afrodite, você vai me enlouquecer! – Shun falou rápido, cortando o entusiasmo do outro - Interessante Ikki vem para cá, trabalhar com você... Isso é quase inconcebível, mas pelo visto possível. - Shun respirou fundo enquanto sentia Lauro se imprensar entra a parede e as costas dele para alcançar seu assento na mesa. – Agora só me diz, o que eu faço com o meu emprego, com os meus filhos, e administração da minha casa? Jogo para o alto?
- É, seria uma boa idéia me alforriar pai! – Lauro falou com a boca cheia de cereal.
- Cala a boca e come menino! – Shun falou rindo – Você só se alforria de mim quando tiver condições de se manter, ou seja... coloca aí uns dez anos mais! – Andrômeda deu um tapa na cabeça do filho enquanto Belle e Gennie que vinham do quarto começaram a rir.
- Ai ai, Shun, eu vou abrir o Cyber na cidade universitária em que você trabalha, no seu Campus, ou seja, você pode me ajudar somente com a divulgação.
- Não posso fazer propaganda em sala de aula, e dou aulas por todo o período da manhã de segunda a sexta. – Shun falou – Carlo criatura divina, você não vai me ajudar a tirar essa idéia descabida da cabeça dele não?
- Pra quê papai, O tio Carlo sabe que no final o Dido sempre convence todo mundo! – Lauro cortou rindo – E ter uma lan-house pra jogar de graça sempre foi o meu sonho! – O menino falou com a boca cheia de cereal. E obvio levou mais um tapa na cabeça.
- Ô Shun, eu já falei, mas ele quer por que quer abrir a tal lan-house. E você sabe que quando ele mete uma coisa na cabeça...
De fato não foi tão horrível quanto Shun pensava. Trabalhar a tarde na Lan House acabou lhe facilitando a vida. Ele podia digitar suas provas, acessar a internet e reencontrar grande parte dos alunos para qual lecionava lá dentro mesmo. A solidão estava ficando para trás.
Lauro saía direto da escola e ia para lá, enquanto Carlo ou Ikki se incumbiam de levar Gennie para a ópera, balé ou aulas de piano. E para Shun a vida tomou mais cor.
Ikki realmente cumprira o que combinara com Afrodite e viera trabalhar com eles, administrava tudo do seu escritório fabulosamente bem decorado por Dido, no andar de cima da Lan House.
Afrodite tinha comprado a sede da antiga biblioteca do Campus, instalados I-Macs de ultima geração junto com uma a conexão Wy-fy que permitia aos clientes variedade de programas e jogos através do laptop caso fosse o desejo dele. Os clientes podiam também se alimentar em uma pequena lanchonete no terceiro piso, aonde Sheena conduzia com maestria o estabelecimento. Os dias por lá nunca eram iguais.
E foi em um desses dias incomuns, sentando no solar do terceiro andar comendo um dos deliciosos bolinhos de Sheena, que Shun abriu seu laptop e encontrou um convite de Afrodite para se unir a ele a um grupo de bate papo online. Era um grupo de homens a procura de um relacionamento com outros homens. Afrodite garantia por uma nota em seu i-mensenger que não tinha apelo sexual no grupo.
Com total desinteresse, Shun filiou-se ao grupo usando o nickname de Key. Visualizou a webpage e sorriu ao perceber que assim que entrou no chat, Afrodite com o nick Eros, veio lhe dar as boas vindas na sala reservada. Ficaram conversando trivialidades até que Shun recebeu uma mensagem privada no chat, vinha de um homem com o nickname Black.
Black: Hullo, Key, daria uma chance a um quarentão solitário?
Key: Hum, não estou a procura de relacionamentos no momento.
Black: Sério... você é o primeiro que entra aqui sem querer marcar um encontro.
Key: E você pelo visto está acostumado a achar presas fáceis por aqui.
Shun odiava aquele tipo de homem. O homem pareceu não responder por um minuto ou dois e Shun já estava adorando poder ouvir a melodia de Cater 2 you no i-tunes.
Black: Eu não. Entrei nesta sala hoje,mas relacionamento é o nome da sala não é?
Key: Sim, é ...my fisrt time por aqui, não sou uma pessoa muito receptiva mesmo. Talvez não seja uma boa idéia você perder seu tempo comigo.
Black: Não estou perdendo meu tempo. Estou conhecendo possivelmente a pessoa mais difícil de se chegar mesmo atrás da cortina da internet, isso me intriga.
Key: Não me considero um sujeito virtual só porque estou sentado na frente de um computador. E não costumo ser alvo de atenção de alguém há muito tempo. Nem preciso ser.
Black: Você é bem difícil mesmo.Estou com medo.
Key: lol, você não imagina o quanto. Mas, bem, o que você faz fora tentar seduzir desconhecidos?
Black: Vc não pega leve mesmo não é Key hehehehe.
Key: Vc não viu nada. Vai, me responda, não tenho o dia todo.
Black: Relações internacionais para uma grande companhia de navegação. E você?O que faz fora morder desconhecidos e sustentar um senso de humor ferino?
Key: Sou atualmente dono de Lan House e professor universitário de História da Arte. E não, eu não mordo ainda.
Black: Filhos?
Key: Três, um casado e dois adolescentes. E você?
Black: Dois, não moram comigo. Que bom que baixou a guarda.
Key: Por quê? Separado há muito tempo? E não,eu não abaixei a guarda. Estou apenas mais receptivo.
Black: Dezoito anos. Estou separado há dezoito anos. E obrigado por se tornar mais receptivo... heheheh
Key: hum, eu sou viúvo. Há oito anos. De nada.
Black: Sinto muito. Agora entendo porque de você não gostar de chat de relacionamentos...
Key: I'm over it, superei, mas sinto falta. Agora, e você histórico conturbado de relacionamentos?
Black: Você nem imagina. Mas foi uma fase, como estou cada semana em um país diferente prefiro não me fixar a ninguém. Atualmente ando sem me relacionar há pelo menos dois meses.
Key: Eu me dedico mais aos meus filhos, estou sem ninguém há oito anos.
Black: Podemos mudar isso?
Key: You bet. I don't think so.
E assim foi o inicio do relacionamento virtual de Shun com o homem de nickname Black. Em pouco tempo os dois já estavam trocando e-maisl, passando horas na internet. E Shun estava simplesmente sempre com o Laptop no colo. Até os filhos já tinham percebido que o pai tinha mudado de senso de humor. Estava sempre correndo de um lado para o outro na lan house com um novo ânimo. Os olhos brilhavam mais.
- Está apaixonado Shun? Finalmente! – Ikki falou assim que Shun correu para o escritório para imprimir mais um e-mail mandado por Black.
- Pelo amor de Deus Ikki, vira essa boca pra lá, estamos só nos conhecendo... E é uma paquera via internet. Não sei como isso funciona, ainda não vi a cara dele, muito menos a voz. Não posso estar apaixonado por alguém que nem ao menos vi o rosto.
- Acredite maninho, isso acontece. Mas é bom mesmo que arranje alguém, porque o tempo voa, daqui a pouco você vai acabar sozinho naquele apartamento gigante, Gennie e Lauro não vão ser crianças para sempre, seria bom você cuidar um pouco de si mesmo.
- Ora Ikki, você vive sozinho. Qual o problema nisso.
- Nenhum, eu sou sozinho mas não solitário. E não pense você que vou morar contigo depois que os pirralhos seguirem seu caminho. – Ikki falou saindo do escritório e indo olhar a seção de jogos da Lan House. Shun deu de ombros e pegou a folha que acabava de ser impressa. Nela havia a foto de dois rapazes loiros, de costas. Pareciam irmãos.
Embaixo vinha a legenda:
Meus filhos na Patagônia Chilena. Férias de Verão.
Shun suspirou fundo. Quando será que Black mandaria uma foto? Quando poderiam se encontrar? Até o Lauro tinha conhecido uma amiguinha na internet e já tinham se conhecido. E ele, com quase trinta e nove anos completos e tinha medo de tomar o primeiro passo para um encontro? Isso era inconcebível. Da próxima vez que tivesse oportunidade, ele mesmo convidaria o homem. Só faltava a oportunidade certa.
Estava justamente conversando com Gennie sobre isso no quarto da menina quando a campainha de seu apartamento tocou. Shun levantou-se de supetão e olhou pelo olho mágico da porta. O porteiro não avisou pelo interfone, então deveria ser alguém conhecido. Ao fixar a vista Shun reconheceu o corte de cabelo de Stella.
Assim que ele girou o ferrolho e ela entrou a mulher começou a falar em italiano tão rápido quanto um trem bala. Pelo tom acido da voz da nora, seria melhor se preparar para ouvir bombas sobre Dádio.
- Stella, recapitule. Não entendi nada querida.
- Como não entendeu Shun? Dádio simplesmente irá entrar em turnê com essa banda maluca que ele formou. Agora o meu marido largou o trabalho, jogou tudo pro alto para cair na estrada com essa banda maluca de amigos de faculdade. Eles vão ter um showcase em Londres! Você está entendendo agora? O Dádio me largar em casa para ficar correndo o mundo desta forma louca, voando de um lado para o outro com um bando de caras...
- Stop right there Stella, você não pode estar pensando que o Dádio é gay?
A mulher caiu em choro compulsivo. Shun já conhecia os ataques de Stella desde que era apenas uma adolescente franzina e peituda, e não a mulher sofisticada e de belas formas que estava chorando na sua frente.
- Stella, converse comigo querida, acho que foi por isso que você veio até aqui, não foi?
Ela maneou a cabeça e voltou a chorar, agora abraçada a Gennie que desde que o pai abrira a porta se sentou ao lado da cunhada.
- Não, eu sei que ele não é gay. Bem, eu quero acreditar nisso.
- Ele é meu filho Stella, eu sou gay e tenho toda a certeza que Dádio e Lauro são heterossexuais e que meu filho te ama. – Shun falou olhando a jovem. – Agora avalie bem se o que você está sentindo não é ciúmes dele. Da banda dele. Você sempre soube, mesmo quando ele começou a cursar Economia em Oxford que o caminho dele era a musica. E agora que ele conseguiu um contrato com uma importante gravadora você dá para trás?
A mulher o olhou como se tivesse entrado ali temendo ouvir isso. Mas conhecia o sogro e conhecia a si mesma. Sabia que era verdade. Estava se roendo de ciúmes do marido passar mais tempo na estrada do que com ela.
- Já pensou na possibilidade de segui-lo pelas turnês?
- Isso está fora de cogitação, e o meu trabalho? Vou largar meu escritório de publicidade? Nem pensar Shun.
- Então vai se divorciar por isso? – Shun exasperou-se. – Vocês têm que encontrar uma solução. Você está esperando um filho Stella! – Shun lembrou-se.
- Eu sei Shun, eu sei, mas seu amado filhinho não quer conversar. – A mulher praticamente falou essa frase com tanta raiva que parecia lixo tóxico á céu aberto, ninguém em sã consciência a tocaria naquele momento.
- Acalme-se Stella. – Gennie falou – Meu irmão te ama. Eu sinto isso, e olha que eu não posso enxergar.
- Ah Gennie, Deus queira que encontremos uma solução. Para mim e para ele. – Stella suspirou abraçando a cunhada.
- E onde está ele agora? – Shun perguntou pegando o celular.
- Saiu com a banda dele. Só volta agora lá pras três da tarde. - Stella suspirou se jogando no sofá. Gennie acarinhou os cabelos sedosos de Stella maternalmente. Shun sabia que precisaria dar um jeito naquilo. Tinha de falar com Dádio. Tinha de ajeitar aquilo tudo.
Black: Então é hoje o grande dia. Já estou aqui em Londres, não posso deixar de contar os minutos para te encontrar, meu querido.
Key: Eu também estou ansioso. Afinal de contas é o primeiro showcase do meu filho.
Black: fiquei muito feliz de você ter pedido para colocarem meu nome na lista VIP. Só que ele ainda é meu nickname. Joe Black.
Key: Acho que poderemos conversar e nos conhecermos finalmente durante o show. O som do meu filho é intimista. E o local do Showcase é uma velha casa de Ophera, mas famosa a Royal Opera House , na Covent Garden, London, na WC2E 9DD .Quem escolheu foi a mulher dele, a Stella, ela fez faculdade em Londres. Foi um sacrifício conseguir reservar a casa de show.É uma das mais famosas de Londres. A gravadora dele ajudou bastante.
Black: Que bom que se acertaram, você estava tão nervoso com os desentendimentos deles.E sim, eu conheço a casa de Ópera, era onde aconteciam as apresentações para a Rainha.
Key: Ela ouviu meu conselho. Agora a agencia dela é responsável por toda administração da banda dele. Estão trabalhando juntos. É mais gostoso assim. E os seus filhos, quando os verá, agora que está na Europa seria bom passar pela casa deles não é?
Black: Estive com eles quando passei pela França.
Key: Que bom. Agora vou indo, tenho que ir para a casa de shows e ajudar Gennie. Te vejo mais tarde. Um bj.
Black: Estou ansioso demais. Bjão.
Afinal a grande noite de Dádio tinha chegado. Shun estava mais ou tão ansioso que o filho mais velho. Sentado em um confortável puff de pele falsa, Shun observada Dádio passar a mão pelos cabelos nervosamente e andar de um lado para o outro no camarim.
O filho estava bem diferente do que um dia fora. Estava mais magro. Os cabelos que sempre foram cacheados e cheios, agora eram tosados bem curtos e ele estava prestes a arrancar os poucos que tinha.
- Daniel, pelo amor de Deus, acalme-se. – Shun falou abraçando o filho. – Vai correr tudo bem. Você como sempre vai ser estupendo! – falou ,acarinhado a cabeça do homem.
- Ai pai, puta merda, estou muito nervoso. Hoje é o dia D, todos os produtores e possíveis patrocinadores estão na platéia. Repórteres do El Mondo e do New York Tribune também. Se eu não for uma sumidade serei um fracasso completo. – o jovem falou olhando para Shun. – E ainda por cima o senhor me marca um encontro com um desconhecido logo hoje! Você acha que eu não me preocupo? Joe Black, isso não é nome de Whisky? – Daniel perguntou. – Como confiar em um homem com um nome desses?
- Não sei, eu não bebo whisky. Mas lembre-se que é um nickname apenas. – Shun falou rindo. - Mas não se preocupe. Depois do seu pai, não vai ser qualquer homem que vai balançar meu coração assim tão fácil.
Dádio meneou a cabeça negativamente mas tinha um sorriso zombeteiro nos lábios quando recomeçou a falar:
- O Ikki falou que você estava muito empolgado! Disse que não larga este laptop que está em baixo do seu braço por nada do mundo! Isso me preocupa pai. Não quero que você se magoe. Quero saber quem vai cuidar do seu coração...
- Dani, o Ikki fala demais. Eu já disse, estou empolgado, confesso, afinal não sei o que é ter segundas intenções com um homem há oito anos e por todo este tempo não precisei, mas não estou caindo de amor por um homem que sequer ouvi a voz, não sou mais um adolescente. Sei me cuidar, meu filho. – Shun falou colocando os cabelos para trás da orelha com uma mão. – Agora se concentre, vou para a área vip ver as crianças e aguardar pelo misterioso Joe Black. – Shun falou acarinhando o rosto do filho – E como sempre você vai ser fabuloso.
- Espero que sim. Meu pai ficaria contente com isso, não é? – Dádio perguntou vendo Shun se distanciar dele e ir para a porta. O laptop firme debaixo do braço. A postura muito ereta como sempre. Mas Shun voltou-se para ele novamente e respondeu:
- Ele sempre foi orgulhoso de você, assim com eu. Confiança filho, talento você tem de sobra. – Andrômeda falou e saiu do quarto, enquanto Daniel permaneceu andando de um lado para o outro ansiosamente. Aquele sentimento não sumiria enquanto não soltasse a voz e permitisse que ela explodisse os melhores sentimentos no coração das pessoas.
Shun já estava sentado na sua mesa reservada na área VIP. Era um lugar meio recluso com um corredor com uma escada que dava direto na rua. Ou seja, um local para encontros fortuitos, no máximo tinha duas mesas ali naquele espaço, e as duas eram romanticamente decoradas, com rosas vermelhas no centro.
Ele sabia que era coisa de Afrodite e Stella, que pareciam mais empolgados com o tal Joe Black do que ele mesmo.
Para se distrair enquanto o tempo não passava, Shun brincava com o gelo no copo de Whisky a sua frente.
Nunca bebera aquela bebida, tampouco tencionava beber, mas o contraste da cor caramelo com o gelo e a infinidade de luzes que o cercavam era encantador.
De onde estava sentado Shun podia visualizar o palco onde Daniel se apresentava. Não adiantava, mesmo com os cabelos tosados á maquina altura um, o que o deixava com uma aparência de quem prestava serviço militar, Daniel tinha o mesmo rosto de Joseph.
Sorriu amargamente. Ao mesmo tempo em que queria que Joey estivesse com ele, estava ansioso com a possibilidade de conhecer o tal Joe Black. Durante os seis meses que conversaram na internet e trocaram e-mails eles acabaram adquirindo uma falsa intimidade e isso tudo poderia desmoronar no mesmo instante que o homem cruzasse a charmosa porta de dossel dourado daquele lugar e se postasse a frente dele. Desejou poder escapar daquele encontro. Desejou não se sentir tão excitado como um adolescente.
Abriu o laptop em cima da mesa. Deveria se concentrar em outra coisa, não se remoer de ansiedade como se ainda tivesse quinze anos. Assim que olhou para tela de cristal líquido a sua frente Shun tomou um susto. Joe Black tinha mandado duas mensagens para ele na sua caixinha do chat. Ele dizia que estava a caminho, e que se tudo desse certo, estariam ainda aquela noite na suíte onde estava hospedado fazendo amor.
Como ele era pretensioso - Shun pensou – E claro, esquecido. Shun estava em Londres com a família inteira, já tinha se dado ao luxo de deixar os filhos com Afrodite e Carlo para ter aquele encontro que seria, e sim teria que ser, breve. Joe Black deve ter se esquecido realmente de que ele tinha filhos adolescentes e uma menina cega para cuidar.
Riu-se do inconveniente, ao mesmo tempo em que ouviu passos na escada atrás de si. Deveria ser o homem. Olhou para o relógio. Pontual. Isso era um ponto a favor, aos trinta e nove anos não perderia mais tempo esperando ninguém em sua vida. Mas o som que se aproximava era de um sapato de salto, e a não ser que tivesse marcado o encontro com uma drag-queen, inconcebíveis de ser usado por um homem, com exceção de Afrodite, claro.
Sem se virar para trás Andrômeda reconheceu a suave fragrância do perfume de Stella, e o inconfundível cheiro de Bergamota e Alecrim que Gennie sempre exalava quando estava presente.
- O homem está aí embaixo Shun. Ele acabou de chegar. – Stella disse sorridente.
- E ele é bonito pai. Muito bonito. Ele permitiu que eu o tocasse a face. Muito educado este homem. Sabia até meu nome! – Gennie falou animada. Exibindo em seu puro sorriso a genuína inocência. Seus cabelos cor de caramelo quente, refulgiam em um coque no alto da cabeça, e seu penteado remetia a Naomi Watts na releitura de King Kong, tipicamente anos vinte. Se sua filha pudesse ao menos saber que era tão linda. Que era tão encantadora.
- Realmente a sua filha não mente. É um homem muito atraente. E polido também. Pediu para ser anunciado assim que passou pela recepção. – Stella falou empolgada. Os olhos verdes faiscando a meia luz do ambiente. – Se ele for tão perfeito quanto aparenta ser fisicamente, acho que você ganhou a sorte grande. – comentou.
Shun a olhou, estava pasmo com os comentários. E excitado também.
- Sério, querido Shun. Ele é tão belo, e tem os olhos mais azuis que eu já vi na vida, pode acreditar. Tem um porte tipicamente europeu, pode ser austríaco, ou sueco como Afrodite, não sei. A pele é alva demais, parece uma porcelana de tão bem cuidada, e os lábios... Bem os lábios foram feitos para serem beijados. Uma descoberta este homem! Vocês fariam, sem sombra para dúvidas, um lindo par.
- Não conte com isso, não planejo facilitar as coisas para esse cara. – falou uma voz masculina, de timbre infantil que Shun não tinha sequer notado a presença. Era Lauro. Desta vez Shun girou completamente o corpo na cadeira de modo que ficasse de frente para porta, para encarar o adolescente. O rosto do filho estava púrpura, os lábios sibilavam em uma expressão de fúria reprimida. Os punhos cerrados.
- Lauro, o que significa isso? – Shun perguntou se pondo de pé de uma só vez.
-Ninguém vai ficar no lugar do meu pai! – o garoto respondeu alterado. – Ninguém vai ficar no lugar de papai, está me entendendo? – o rapazote falou cruzando os braços sobre o tórax reto. Obviamente uma ameaça. Obviamente se Shun falasse para ele "Ah, se eu o quiser vai sim". Lauro o mataria e só depois iria pensar no que tinha feito. Shun conhecia aquele jeito obstinado de olhar, e se Lauro não fosse adotado, ele juraria que era Joseph que estava a sua frente com o mesmo olhar furioso de quando Hyouga o fez fugir dos braços dele no palácio de Deméter.
Shun deu graças aos céus por Lauro não ser um cavaleiro.
- Ora Lauro! – Stella repreendeu, olhando o menino do alto de seus sapatos de salto. O pescoço longo como o de um cisne esticado ao máximo. – Que petulância.
- Stella, é a minha família. Eu sou o homem da casa! – Lauro falou batendo o pé. Um discurso orgulhoso e machista tipicamente adolescente, Shun sabia. Fácil de se vencer com a psicologia certa, mas virulento, e cruel. Mas o menino prosseguiu sem esperar que Stella formulasse uma resposta - E se me permite, quero falar a sós com o meu pai! – Lauro falou com uma petulância nunca vista por nenhum dos presentes.
- Mas o homem está lá embaixo Shun... – Stella lembrou, ignorando Lauro e se virando para o sogro. – Mande este moleque que nem das fraldas saiu calar a boca.
- Cale-se você Stella, você e sua mania insuportável de mandar nos outros. Não sei como Dádio te suporta!
A mulher ficou lívida. Chegou a perder a cor até nos lábios. Os olhos absorvendo a escuridão induzida do aposento e arregalando-se, como se ela sufocasse, ou como se estivesse fazendo um esforço sobre-humano para não enfiar a mão na face de Lauro. Mas o garoto não se intimidou. Olhou para a mulher disposto a mordê-la se fosse o caso.
Gennie começara a tremer, buscado com as mãos a esmo um lugar ao qual se apoiar. Shun estava sem ação. Seus olhos corriam do filho para a nora e depois para Gennie que mal abria os lábios. Lauro estava passando do tom de púrpura para algo acima disso. As narinas fremiam e os olhos estavam fixos em Shun.
- Lauro. – Shun falou sério. – Você quer conversar como homem, então primeiro haja como um. - falou se pondo de pé. – Sente nesta mesa. Agora! – Shun ordenou com o olhar duro em direção ao garoto. Lauro nem se mexeu, mas Shun caminhou até ele e o arrastou até a cadeira á sua frente. O garoto pareceu vacilar ao ver que o pai estaria disposto a dar-lhe uma surra na frente das duas mulheres.
- Pai...
- Sem pai, nem meio pai Lauro! Onde você estava com a cabeça quando entrou aqui desta forma me acusando de querer colocar alguém no lugar do seu pai e ofendendo quem quer que se oponha a sua vontade mesquinha e egoísta. – Shun falou o encarando.
Agora, bem próximo dos olhos de Shun, a coragem e revolta de Lauro pareciam estar escapando de seu corpo e os olhos cor de avelã do garoto vacilaram nas órbitas.
– Pois bem mocinho. Vou lhe dizer a verdade. Eu estou sozinho. Estou sozinho com duas crianças há oito anos. Há oito anos tudo que eu tive foi trabalho, dor, desespero. Você acha que eu não sinto falta do seu pai? Você pensa isso realmente? – Shun falou rapidamente em francês. Língua materna de Lauro. – Eu e seu pai nos amávamos tanto que tudo a nossa volta respirava nosso amor. Eu nunca, nunca colocaria alguém no lugar do seu pai. Porque seu pai é insubstituível. – Shun falou colocando a cabeça entre as mãos.
Lauro estava tão encolhido na cadeira que parecia uma aranha recém descoberta no fundo de um armário perante a ameaça de um enorme jato de inseticida lhe fulminar a qualquer instante. O adolescente mal respirava, e seus olhos encaravam os de Shun. Arrependidos. Derretendo-se em lágrimas vergonhosas.
- E mais Lauro. Eu nunca colocaria quem quer que seja acima da minha família. Tudo que seu pai me deixou foi você, a Gennie, e o Dani. Nunca, por homem ou qualquer outra coisa eu colocaria vocês de lado. Agora vá com Stella, que terminaremos essa conversa em casa. – Shun falou olhando bem os olhos lacrimosos do filho. - E em casa você talvez entenda.
Lauro demorou a se levantar da cadeira, e Stella praticamente o arrancou do lugar pelo braço. Enfiou deliberadamente as unhas esmaltadas e compridas na carne do garoto quando fez isso.
- Shun, pedirei ao homem para subir. – A mulher falou impaciente indo rumo a porta enquanto Gennie continuava muda a seguindo e observando Lauro resmungar algo em francês enquanto era arrastado por Stella. O garoto deu um empurrão na mulher do irmão e soltou o braço da mão dela, xingando alto para ela se danar.
Provavelmente desapareceu no fim da escada rumo às mesas colocadas em frente ao palco no primeiro andar que já estava cheio de repórteres e convidados.
Shun não viu o filho desaparecer ao pé da escada porque estava com a cabeça enfiada entre os braços. A cabeça latejando enquanto sua mente rodava. Estava agindo certo? Estava sendo coerente com sua idade? Já não sabia de mais nada. Queria e precisava tomar um prozac.
Estava justamente procurando o comprimido em sua bolsa que não percebeu que Joe Black começou a subir as escadas, que levavam até o mezanino. Muito menos quando o misterioso homem passou pelo farfalhar de seda que era o vestido rodado de Gennie - que ainda descia com dificuldade a escada.
Mas ele ouviu a voz potente e madura de Joe Black romper o ar em eco. Uma voz metalizada e fria, sem sotaque de canto algum, cosmopolita e adaptavelmente limpa, e ela falara algo para a menina cega enquanto subia em inglês. Algo sobre o quanto ela era encantadora. Gennie soltou uma gargalhada genuína de agradecimento e pelo baque surdo da bengala de cipreste no solo acarpetado, a jovem pareceu continuar o seu caminho.
Shun ergueu a cabeça a medida que ouvia os passos se acercarem da porta.Estava de costas para mesma, como sempre estivera desde que entrara ali. Neste mesmo momento as pequenas luzes do palco abaixo dele que eram avistados do camarote improvisado que se tornara aquele mezanino, se acenderam uma por uma e o violino de Dádio começou a chorar notas maravilhosas sem que o rapaz estivesse no palco. Toques de piano, urgentes, em um ritmo contemporâneo similar ao de Alanis Morissette ou de Joss Stones. Poderia ser até mesmo o blues de Alicia Keys. Mas tinha o toque sombrio de Andrew Lloid Webber e a doçura de Elton Jonh.
Lindo. Shun cerrou os olhos entrando na melodia. E foi quando os passos cessaram. O homem estava ali, a sua frente. O perfume era algo cítrico como limão e alguma outra coisa. Masculino.
Descerrou os olhos. A musica de Dádio subindo agora. Espiralando no ar. O piano estava mais urgente do que nunca antes. O violino ascendia e descendia em suas notas graves. Os olhos de Shun procuraram os de Joe Black. E Shun encontrou Cisne.
Hyouga. Hyouga estava na sua frente, não teria como confundir e estava tão aturdido quanto ele. Tão surpreso que nem em seus sonhos conceberia tal fato.
Shun levou as mãos à cabeça. Não sabia se sentia raiva, frustração, ou acharia irônico aquele reencontro por um meio tão improvável. Hyouga também parecia mais confuso do que nunca antes estivera.
- Meu Deus. Dezoito anos. Dezoito anos sem te ver - o russo sussurrou atônito, tirando os óculos escuros do rosto. Visivelmente tão chocado que chegava a tremer.
- Joe Black? – Shun repetiu como em transe. – Como isto pode ser possível?
- Sim, Joe Black, da mesma maneira que você era o meu Key. Era ou de fato é, não sei de mais nada perante a essa situação, estou realmente sem palavras. – Hyouga falou para em seguida acabar gargalhando nervoso.
Shun o acompanhou na gargalhada. Era enfadonho. Era hediondo também. Mas não podia negar que era surpreendente a vida os enredar desta forma.
- Posso me sentar? – Hyouga perguntou olhando para a cadeira vaga a sua frente. Shun aquiesceu ainda tonto. Sem pensar muito levou o copo de Whisky a sua frente aos lábios e bebeu tudo de uma vez. Sentiu o choque em seu paladar e garganta. Caso o garçom subisse mais uma vez, pediria aguardente. Precisava de alguma bebida forte naquele momento.
- Agora bebe? – Hyouga perguntou. A voz vacilando. Temerosa. Estava tentando sustentar o olhar para Shun, mas parecia vacilar a todo instante.
- Não. - Shun respondeu encarando o homem - Estou começando a beber neste momento. – Andrômeda riu de si para si. -Você sabe da minha vida Joe Black, lhe contei tudo, confiei em você. Como acho que, se você não mentiu, sei de tudo sobre a sua. - Falou analisando cada parte do rosto de Hyouga.
- Shun falou amargurado. – E acabamos aqui, frustrados. – Andrômeda cuspiu as palavras enquanto seus olhos passeavam pelo palco do primeiro piso onde Dádio começava a cantar alguma coisa de sua própria autoria.
- O nosso único problema foi não termos ditos nossos nomes. – Hyouga falou coçando os cabelos loiros que estavam cortados curtos. – Teríamos acabado com tudo assim que soubéssemos. – falou calmamente - E você não me veria nunca mais como parece que era o seu planejado.
Shun estava olhando para o palco quando ele disse aquilo. De fato não era de todo mentira. De tudo que podia acontecer naquele encontro, de tudo que ele tinha sonhado, encontrar com Hyouga era a realização de um pesadelo.
- Não é de fato mentira. Nunca imaginei que você fosse o Joe Black. O Joe que era tão encantador e ao mesmo tempo doce. Se você é mesmo de fato o homem com quem eu conversava na internet, então o Hyouga que eu conheci na adolescência morreu. – Shun falou seriamente.
- Da mesma forma que você me surpreende sendo este Key que estou vendo a minha frente. Não lembra em nada o menino indeciso, facilmente magoável, e dependente de sempre. Se hoje Hades tentasse invadir seu corpo você com certeza o mandaria se catar! – Hyouga falou rindo.
Os dois sorriram.
- Não posso dizer que eu não esteja admirado. – Shun falou olhando os belos olhos azuis. – Você amadureceu muito mesmo. Não tentou me agarrar ainda, estamos sozinhos há mais de cinco minutos.
- Você queria que eu tentasse? – Hyouga falou de maneira sedutora. - ainda há tempo para isso...
- Acho imprudente. - Shun cortou - E não, eu não queria. – Shun respondeu.
- Falou como o legítimo Key, que me fascinou tanto. - Hyouga falou com os olhos desmanchando-se de emoção. – Mas as palavras saem da boca do meu doce Andrômeda, e isso me assusta. Você é outra pessoa agora Shun.
- Você também. Isto é imensamente estupendo. – Shun falou exibindo aquela fileira de dentes alvos perfeitos. – Se eu não acreditasse nisso, teria lhe deixado aqui, sozinho no momento em que lhe vi. Você me permitiu conhecer mais de ti em seis meses do que pensei conhecer em toda a minha vida, e se este encontro foi firmado com a intenção de conhecer-nos pessoalmente, ele perdeu a sua finalidade. Conheço-te o suficiente Hyouga, Joe Black, ou não sei como me dirigir a você, agora.
- Sim, me conhece e se apaixonou por mim. Como eu me apaixonei por você. Novamente. Isso é mágico. Estou feliz Shun. Os astros conspiram a nosso favor. Agora não feriremos ninguém com o nosso enlace. E agora eu sei, eu sei que eu posso cuidar de você como você merece. Cuidar de você e de sua família adorável e...
- Hyouga. Pare. Por favor. – Shun maneou a cabeça sofrivelmente. – Não seja inconseqüente. Muita coisa pesa agora.
- Que coisas? O nosso passado? Achei que você já tinha passado sobre ele. Como eu passei. Somos homens agora Shun. E você não tem como negar que o nosso reencontro foi uma agradável surpresa. E estou louco pelo Key. Eu sonhava com o Key, eu queria fazer parte da vida dele, da família dele, que queria conhecer a linda Gennie e o impulsivo Lauro. Eu queria ter a chance de ser feliz como eu não fui com você. – Hyouga confessava, a medida que o queixo de Shun pendia. – Eu achei que eu poderia recomeçar, ajudando aquele professor universitário a ter uma vida mais feliz e menos solitária que era o que Key me pedia. Não passou um dia que eu não tenha lhe mandado e-mails. Tenha lhe escrito cartas. Deus, eu queria ter direito a ser feliz como soube que você e Joey eram quando me encontrava com Fleyr. E sim, eu senti muito a partida de Joey.
- Não... não toque neste assunto Hyouga. Você está quase me fazendo chorar me falando desses sonhos. Desses desejos que você tinha em relação ao Key. Eu também os tinha em relação ao Black, mesmo que eu quisesse negar. E agora que eu vejo que você é o Black ... por Deus, meu mundo virou de cabeça para baixo. Estou confuso demais.
- Shun eu esperei tanto para encontrar o Key. Dezoito anos sem me firmar com ninguém. Dezoito anos sofrendo sabendo que te perdi para um homem melhor do que eu. Dezoito anos sabendo que nunca você me olharia com os mesmos olhos, que nunca você iria se dar a chance de me conhecer novamente. E ironicamente agora você me conhece. Me conhece inteiro.Você sabe que agora eu posso e vou te fazer feliz se você me permitir uma chance.
Shun estava mudo. Hyouga estava com as mãos sobre as suas. O toque que ele conhecia, que ele não esperava provar nunca mais, muito menos naquela noite. Quis afastar a mão. Não sabia como separar Hyouga de Joe. Estava fascinado por aquele novo homem que Hyouga se tornara, mas também tinha medo, tinha desespero. Não tinha como simplesmente chegar para os amigos e reapresentar Hyouga com outro nome. Isso era enfadonho. Iriam taxá-lo de mentiroso ou hipócrita. Dádio com certeza teria um colapso geral. Já tinha sido uma sorte grande não ter sido Afrodite ao invés de Stella a recepcioná-lo.
- Shun fale alguma coisa. – Hyouga pediu – Ou me mande embora. – falou cabisbaixo – Você acha que eu não estou confuso? Quando resolvo abandonar minha obsessão por Andrômeda, me apaixono justamente por você novamente?
Shun ficou mudo. As palavras fugindo. A cabeça rodando. Aquele era Joe Black, não. Era Hyouga. Estava em choque. Era o mesmo garoto que ele se apaixonara e que o destruíra. Agora era o homem no qual ele galgara inconscientemente seu futuro. Não havia como negar que se apaixonara por Joe Black e sua atmosfera de maturidade e compreensão. Não havia como negar que seu coração ansiava por Joe. Mas era como ansiar pelo rosto de Cristo, e quando por fim o contemplasse, a pintura se tornasse o diabo.
Andrômeda levou as mãos à cabeça. Estava desesperado.
- Sinto muito Hyouga. Mas não posso. Me dê uma noite. Uma noite só para pensar. Sei que você vai ficar em Londres. Joe me disse. Desculpe, você me disse. Eu estou em um hotel no centro, não irei fugir, lhe asseguro. Mas preciso refletir. – shun falou se levantando da mesa. – Isso você não pode me negar, um tempo para pensar depois de tudo isso. – Shun falou se levantando da mesa.
- Shun, permaneça sentado. – Hyouga pediu gentilmente - É o Show do seu filho. Se alguém vai embora para lhe dar paz, este alguém sou eu. – Hyouga falou também se pondo de pé. Os rostos quase se tocando. Os olhos verdes conhecidos perscrutando os azuis tão adorados e odiados. – Perdoe-me ter jogado todo o meu desejo de recomeçar minha vida ao seu lado, ao lado de Key, no seu colo, em uma situação como esta. Minha vida é vazia. Só encontrava paz quando estava com meus filhos, e conversando com Key. - Hyouga falou com o olhar decepcionado.
Shun não conseguiu suportar aquele olhar. Beijou-o. Caçou os lábios de Joe Black, ele não imaginava Hyouga, mas sim o homem que o ouvira, o ajudara e ele conhecia a seis meses. Beijou aquele homem feito, maduro, cavalheiro, que agora sabia dar valor as coisas.
As mãos de Hyouga se aferraram a nuca de Shun. De seu Key. Era irônico que aquele fosse Shun.
Mas não era. Era o homem determinado, pai de dois filhos e de um homem talentoso, que embalava o primeiro encontro deles, dentro de muitos reencontros. O corpo do russo tremia.
- Eu te amo Key. – Ele disse se afastando. – Eu te amo Shun. - Disse o abraçando ternamente.
Shun desejou poder se abandonar no abraço, mas não se permitiu. Afastou-se de Hyouga. O loiro o olhou sem entender.
- Vou descer e ficar com meus filhos. – Shun falou colocando a mão no peito forte do loiro, que continuava muito rijo, como se o russo malhasse todos os dias. Agora Shun podia ver as sobrancelhas douradas perto demais dos seus olhos. E percebeu também que os olhos de Hyouga lacrimejavam. E ficou triste porque não estava somente ferindo os sentimentos de Hyouga, mas sim os de Joe Black, e arrancando a esperança do outro ser feliz.
Shun desviou o olhar de Joe Black ao mesmo tempo em que desviou o corpo do abraço de Hyouga. O loiro nada fez, apenas viu-o se afastar e pegar o laptop sobre a mesa.
- Foi nesse mesmo que você conheceu o Black? – Hyouga perguntou sem olhar para Shun. O outro não respondeu, somente maneou a cabeça positivamente.
- Você vai me mandar uma mensagem para que nos encontremos amanhã? – Hyouga perguntou novamente.
- Não. Vou deixar com você agora mesmo o numero do meu celular. Estou no Hotel Dorchester em Londres, na Park Lane Street W1A 2HJ. Acho que se fizer sol podemos dar um passeio pela manhã. Aí sim conversaremos. Você pode me pegar na porta? Estou sem carro. - Shun explicou.
- Tranquilamente. Estou no The Landmark London 222 na Marylebone Road London NW1 6JQ, não é tão longe. – Hyouga falou dando um sorriso genuíno. Era engraçado para Shun ver o rapaz por quem se apaixonara, se tornar o homem com o qual sonhara para partilhar o resto de sua vida, na falta de Joey. Os traços eram belos como sempre, isso não fazia diferença realmente. Mas a mente. A sofisticação. Realmente nunca imaginara que Joe Black seria Hyouga.
– Posso pedir mais um beijo? – o loiro falou se aproximando, roçando o nariz com o de Shun. Andrômeda aquiesceu. O beijo foi uma coisa rápida, mas gostoso.
- Até amanhã. – Shun falou se virando para porta e descendo as escadas. Dava para se perceber que estava quase sem firmeza nas pernas. Mas ele deteve-se na porta.
- Hyouga, posso perguntar uma coisa para você, antes de ir?
- Sim, Shun, claro que pode. Não há segredos entre nós e nem pretendo que haja. - o loiro respondeu pegando o copo de Whisky que ainda estava em cima da mesa e chamando o garçom com um gesto de mãos.
Shun aproximou-se alguns passos, somente para que Hyouga vislumbrasse todo o seu rosto, mesmo há chama das velas que flutuavam em um gel gelatinoso na luminária rústica em cima da mesa.
- Por que o nome Black?
- Ah, sou fã de Harry Potter, tirei de Sirius Black.
- Ah, sim. - Shun maneou a cabeça positivamente - Achei que fosse por causa do Brad Pitt naquele filme que ele interpreta a morte. – Shun sorriu. - Seria funesto, eu não gostaria de permanecer com alguém que usa tal nickname. – Escarneceu. – Mas então porque o Joe?
Hyouga sorriu abertamente e perguntou:
- Não é obvio?
Shun franziu o cenho. Encarou-o aturdido.
- É somente o nome de um homem que eu admiro, mesmo depois de morto. O homem que me incentivou a me esforçar para ficar com você. É uma homenagem ao Joey. E olha, eu nem sabia que o Key era você. Isto deve soar estranho para ti.
Os olhos de Shun marejaram na mesma hora. Sua garganta secou. Ele olhava para Hyouga/ Joe Black, incredulamente.
- Não creio, pensei que você o odiasse! – Shun exclamou levando a mão aos lábios em uma expressão que poderia ser teatral, mas de fato era muito honesta. Sentia um misto de estupefação e orgulho por Joseph ser admirado por seu suposto maior rival.
- Não, nunca o odiei, pelo contrário, se ele não fosse tão bom não lhe mereceria, e era um homem tão honesto, mesmo estando longe de você, eu recebia notícias por Kamus, e ele me disse que você era feliz. Muito feliz. O seu Joey, abençoado seja, era tão correto com você, que acabou me mostrando como um verdadeiro homem se comporta e trata quem ama, sem ele, talvez eu não fosse quem sou hoje, quando o conheci e vi você nos braços dele, meu Deus, eu vi como eu fui um tolo tanto com você quanto com Mime, e também percebi como foi merecido que você ficasse com ele naquela época. Se ele não tivesse falecido, é claro que hoje você ainda estaria com ele, e eu em busca do meu Key, se Deus permitisse. – Hyouga falava com os olhos fixos no rosto de Shun que parecia prestes a romper em lágrimas de tanto que seus olhos estavam úmidos e ficavam ainda mais lacrimejantes a cada palavra que ele dizia, mas mesmo assim o loiro prosseguiu. - Hoje sei que sou um pai bom, como eu via que ele era com o Dionísio. E sei também que faria muito bem ao Key, quem quer que ele fosse, um homem feliz se ele me aceitasse. - o loiro falou. – Mais alguma pergunta?
- Não Hyouga. – Shun falou sorrindo sinceramente. O coração leve. Estava feliz. Estava feliz por saber que se permitisse uma tentativa a mais com Cisne ele seria tudo que Joe Black sempre prometera ser a Key. E se não ficasse com ele, com certeza Hyouga encontraria alguém para ficar com ele, dignamente. - Boa noite para você. – Shun falou descendo as escadas. Os cabelos curtos flutuando no ar a medida que ele descia os degraus. E conforme ele foi sumindo rumo a pista principal, Hyouga se ergueu e foi para a sacada. Queria ver o show de Dádio. O jovem era praticamente a cara de Joseph. Os mesmos olhos, a mesma determinação e porte. Queria também olhar Shun admirando o homem que ajudara a criar. Andrômeda tinha descido para a galeria e ficou justamente em frente ao grande palco. Daniel tocava sublimemente. Hyouga ficou feliz por ter aceito o convite de Key. De fato, fora uma surpresa surpreendente. E ele rezou para que a noite passasse logo.
Quando Shun contou a todos quem era Joe Black, após o show de Dádio, Hyouga já estava dormindo há muito tempo no hotel Landmark em sua confortável suíte. O loiro tinha tomado um tranqüilizante para evitar a ansiedade que o ruía. Já Shun, mal dormiu. Afrodite gritou no seu ouvido por grande parte do tempo que não interessava se Hyouga se chamasse Joe Black ou Príncipe William, Hyouga seria sempre Hyouga como Judas Iscariotes seria sempre Judas Iscariotes.
Mas Shun não se importou. Só uma opinião contava para ele. E era a de Dádio. Foi por isso que assim que Afrodite parou de xingar e reclamar com Shun, pai e filho se trancaram na suíte do Hotel Dorchester onde Shun estava hospedado com Gennie e Lauro.
Era uma sala ampla com três suítes interligadas.
Gennie já tinha comido seu jantar, e agora lia algo em braile deitada na sua cama. Shun beijou a testa da menina e acarinhou seu cão guia George, o dálmata mais fofo da face da terra, antes de fechar a porta dupla da suíte da garota.
Lauro e ele já tinham conversado, e o garoto tinha combinado com ele que só aceitaria que ele namorasse se aprovasse o homem. Era obvio que Shun tinha concordado só para que ele parasse de ficar falando. Mas não tencionava seguir as idéias do filho mais novo, e tampouco receber ordens, uma vez que estava passando por cima de Afrodite a quem considerava uma mãe, para dar um voto de confiança a Hyouga. Acabou saindo do quarto do filho que ouvia algo no mp4 player.
Agora sim Shun deveria se preocupar. Daniel estava sentado dentro de sua suíte, aguardando que Shun colocasse os irmãos na cama. Assim que Shun entrou no quarto e fechou as portas duplas atrás de sim quase teve um infarto, pareceu-lhe por um segundo que Daniel era Joseph. Sentado na cama, esperando por ele, nos melhores tempos de sua vida.
Shun sorriu amargamente.
- Pensou mais uma vez que era meu pai. – Daniel falou tranquilamente. – Até eu mesmo me assusto quando me olho no espelho. Gennie vive tateando meu rosto quando quer se lembrar dele. – Dádio falou.
- Eu sei. - Shun disse se sentando ao lado do rapaz. A luz dos postes entrando suavemente pela janela do quarto, que se não fosse pela luz de dois abajures estaria na penumbra. – Eu também gosto de te olhar por isso. Dói, mas me sinto feliz em ver ele nos seus traços. - Shun confessou. – Mas não foi para te olhar que eu te chamei aqui, meu filho. Eu preciso saber...
- A minha opinião, não é? – Daniel cortou seriamente – Afrodite me falou tudo que eu tinha que saber a respeito deste tal Joe Black. Inclusive que ele foi o mesmo homem que entrou no palácio de Deméter naquele primeiro recital que fizemos juntos. Hyouga de Cisne.
Shun ficou calado. A cor fugiu de seu rosto. Suas mãos, mesmo no frio de Londres começaram a suar.
- Sim. Ele é o Joe Black. Ele é o homem que me pede uma segunda chance, e eu não sei se devo aceitar. Tenho medo que esteja sendo injusto com a memória de seu pai. Sendo injusto com você. - Shun confessou tristonho. Os olhos vacilando.
- Comigo? – Daniel riu se levantando – Pai, como seria injusto comigo? Você me criou praticamente Shun, eu sabia o quanto você amava meu pai, e meu pai te amava. E meu pai, meu Deus, meu pai sempre nos ensinou a perdoar, a passar por cima dos obstáculos e deixa-los para trás. – Daniel falou se aproximando de Shun. Segurou o rosto do pai entre as mãos como Joseph fazia quando queria acalmá-lo. Shun ficou com os olhos marejados.
- Eu não tenho nada contra Hyouga de Cisne, e se ele vai cuidar de você, se ele se acha apto a cuidar de você e te fazer feliz. Que você seja feliz pai. – Daniel falou o abraçando – Não se importe com o que os outros dizem siga seu coração. Eu lhe dou todo apoio, fosse o Joe Black Hyouga de Cisne, ou o próprio Hades encarnado.
- Oh Dádio, oh meu garoto! – Shun falou emocionado. - Você não imagina o quanto sua opinião conta para mim. De todos os amigos que tenho, você é mais do que isso, é meu filho, acompanhou tudo, viu o quanto seu pai é e nunca vai deixar de ser importante para mim... só que eu, eu estou tão só. Estou ficando velho Daniel... E eu, eu acho que gosto deste tal Joe Black que o Hyouga se tornou.
- Então encontre-se com ele amanhã e diga isso. – Daniel falou bocejando. Deveria estar exausto. Tinha cantado muito e tocado mais ainda. Foi realmente fabuloso o espetáculo que ele apresentara naquela noite, Shun tinha que assumir. – Só espero que ele se faça digno de você, porque senão eu o coloco para correr, e Lauro se incumbe de cuidar para que ele não chegue perto de você. – Daniel ameaçou rindo, mas era bem possível que estivesse falando a verdade, Shun sabia que com os filhos que tinha, se Hyouga ousasse magoa-lo novamente, talvez tivesse que mudar de planeta.
Shun sorriu.
- Seu pai me ensinou a me cuidar. E eu sei muito bem como devo ser cuidado. - Shun falou abraçando o filho – Obrigado. Obrigado por me apoiar.
- Eu te amo pai. Só quero que você seja feliz. Meu pai onde quer que ele esteja também está feliz por você.
- Quero acreditar nisso. Preciso acreditar nisso.
E Daniel saiu do quarto.
Naquela noite, enquanto orava aos deuses que aprendera a cultuar, e ao Cristo que aprendera a venerar com os europeus, Shun sonhou acordado. Sonhou com Joseph.
No sonho seu Joseph sorria, sorria feliz, sorria em paz. No sonho inclusive Shun estava na margem de um belo lago perto de um belo chateau, poderia ser nas terras Francesas de Auvergne , ou até mesmo no interior da Toscana, Shun não saberia precisar o lugar. E na grama macia á margem do lago, ele estava caminhando de mãos dadas com Joseph. Parecia ser um belo dia ensolarado de verão, e Gennie já era quase uma moça. Lauro estava lendo para ela, também já um belo e formoso homem, sentando sobre a sombra de um frondoso cipreste. Obvio que aquele não era o futuro, pois Joseph estava morto. Mas era um lugar especial, um lugar que não era nem a terra,nem o céu. Shun sentia seu corpo leve, se sentia pleno de felicidade.
Abraçou a Joseph e foi rodado no ar. Os olhos amorosos e escuros. Olhos cor de chocolate. Os cachos cor de café emoldurando a face alva. Ah o amava, nunca deixaria de o amar. Shun falou.
Joseph Sorriu e continuou a roda-lo no ar, segurando pela cintura. Depois colocou-o no chão e o beijou em ambos os lados da face. Em seguida carinhosamente na boca.
"Sei que você me ama, Sempre vou ser parte de você" ele disse. " Eu te amo Shun."
De repente tudo pareceu rápido demais para Shun acompanhar. Via que Lauro lia para a irmã em voz alta algo que soava como o livro das Virtudes . Repentinamente Joseph largou a mão de Shun e pulou dentro do lago, desaparecendo em suas águas profundas e escuras. Enquanto o chão parecia rodar e rodar.
Shun óbvio, exasperou-se, não podia acreditar que estava o perdendo novamente. Só que desta vez Joey ia embora por livre e espontânea vontade. Gritou por Joey. Pulou no lago sem pensar, mesmo ouvindo os gritos angustiados de Lauro e Gennie. Nadou até o ponto onde Joey tinha submergido e sentiu que algo o puxava para o fundo. Perdeu a consciência dentro do próprio sonho de maneira inexplicável. Depois começou a sentir raios de sol tocando sua pele.
Gennie cantava enquanto Lauro estava ali, do seu lado. Joey tinha realmente desaparecido. Ele estava na margem do rio novamente.
Shun sentou-se. Não entendia nada, mas quando olhou para o lago apareceu um gracioso e belo cisne branco que vinha em sua direção, saindo de onde Joey tinha sumido. E quando ele viu o cisne lágrimas vieram aos seus olhos, porque Shun soube que, tudo que Daniel lhe disse, era a verdade. Joey estava feliz por ele ter encontrado alguém.
EPILOGO
Este tempo, este lugar
Desperdícios , erros
Tão demorado , tão tarde
Quem era eu para lhe fazer esperar
Apenas mais uma chance
Apenas mais uma respiração
Apenas um caso que foi deixado de lado
Porque você sabe,
Você sabe , você sabe...
Sentado no local combinado, em uma charmosa pracinha de Londres, Shun aguardava Joe Black. Mal sentiu quando o homem apareceu por trás dele e tapou seu olhos.
- Hum, adivinha quem é?
- Hum, Quem poderia ser? Joe Black?
Que eu te amo
Eu te amei o tempo todo
E eu sinto sua falta
Estive afastado por muito tempo
Eu continuo sonhando que você ficará comigo
E você nunca irá embora
Paro de respirar se
Eu não vir você de novo
- Ohhhh, não. – Hyouga falou fingindo decepção - Resposta errada.Que tal o tentar "o homem que está disposto a te fazer feliz? Se você aceitar"- ele propôs.
De joelhos, eu pedirei
Uma última chance para uma última dança
Porque com você, eu resistiria
A todo o inferno para segurar sua mão
Eu daria tudo
Eu daria por nós
Eu daria qualquer coisa, mas eu não desistiria
Porque você sabe
você sabe, você sabe..
O coração de Shun disparou no peito. Como queria ouvir aquela frase. Como queria acreditar nela a partir daquele dia e para todo o tempo que pudessem compartilhar.
Tão longe
Estive afastado por muito tempo
Tão longe
Estive afastado por muito tempo
Mas você sabe você sabe, você sabe..
- Você tem certeza que quer isso? – Shun perguntou tremendo antes de se levantar do banco e encarar Hyouga.
Eu quis
Eu quis que você esperasse
Porque eu precisava
Porque eu preciso te ouvir dizer
- Sim, de todo coração, sim. Não há mais nada que eu queira mais na vida do que essa segunda chance. – Hyouga respondeu emocionado. Os olhos vacilando nas órbitas.
O coração de Shun acelerou quando fez a outra pergunta:
- E as traições?
- é uma palavra que não faz mais parte do meu vocabulário há muito tempo. Só tem um homem que eu desejo, e é o homem que está a minha frente. – Hyouga falou. – Aprendi isso, acredite e me dê uma chance.
"Eu te amo
Eu te amei o tempo todo
E eu perdoo você
Por ficar longe tanto tempo"
Então continue respirando
Por que eu não te deixarei mais
Acredite em mim,
Me abrace e nunca me deixe partir."
E Shun acreditou.
Levantando-se do banco de ferro negro e retorcido, Shun girou sobre os calcanhares Andrômeda contemplou a face de Hyouga. E o homem chorava com as mãos estendidas para Shun, repletas de rosas brancas.
- Sabe o que significa rosas brancas Shun? – Hyouga perguntou colocando uma nas mãos de Andrômeda. Shun maneou a cabeça. Já tinha estudado o significado romântico das flores, mas nunca se ateve a nenhuma delas. Hyouga então disse o olhando bem nos olhos.
- Bem vou te dizer o que significa antes que você aceite.
- Hunf ... este tal Joe Black é cheio de mistérios- Shun falou rindo e os dois sorriram juntos antes de Hyouga falar:
- A eternidade. Este é o significado dela. Você aceita Shun?Aceita o meu amor pela eternidade que ele durar?
Não houve resposta falada.
Muito menos as rosas foram para as mãos de Shun. Mas sim permaneceram nas mãos de Hyouga/Joe Black.
E o doce homem de Andrômeda simplesmente beijou Cisne.
Continue respirando
Me abrace e nunca me deixe ir
Continue respirando
Me abrace e nunca me deixe partir...
Shun simplesmente acreditou em Hyouga. Se deu ao luxo de acreditar dezoito anos depois, no momento que sentiu as lágrimas salgadas rolarem pela face madura do homem e repousarem entre os lábios que se tocavam urgentes.
Os dedos se ferindo nos espinhos da rosa branca, um beijo que era amor. Era dor.
Era verdadeiro, apaixonado e amoroso.
Um beijo que respondia pelo nome de Eternidade.
By Angell Kinney – 10 de abril – 2006. 01:12 am.
Bem, está aí o final... Espero que não tenha decepcionado ninguém.
Agradeço imensamente o carinho de todos que enviaram reviews e e-mails ao longo da fanfic.
Um beijo no coração de todos.
A.kinney
