CAPÍTULO IV
O calor quase insuportável lembrava aos três cavaleiros que, embora não parecesse, Las Vegas situava-se no meio de um deserto. Sentados na sala de embarque do aeroporto particular, Peixes, Escorpião e Aquario esperavam pelo avião que os levaria a New York e pela proprietária do mesmo, que estava realmente atrasada. Kamus fitava a pista de pouso e decolagem, enquanto sua mente não se conformava com a falta de compromisso de Elle. Não estava determinado que partiriam à tarde, para que tivessem tempo de se reunir com o advogado durante a noite! Pelo visto isso não seria possível, já passava das 5h, deveriam viajar às 3h. Aquela irresponsável! O jovem mestre tentava imaginar o que se passava na mente de alguém como Elle. Uma pessoa sem preocupações na vida, que sempre teve tudo o que quiz, suas vontades sempre foram prontamente atendidas. Deveria tratar todos como seus empregados e passar o dia em shoppings usando o estimado cartão de crédito do papai. Tentava recordar em que momento da noite aquela garota pareceu suficientemente interessante para que transasse com ela. Não podia negar, fisicamente, Elle era muito atraente, a primeira coisa em que Kamus com certeza reparou foram as curvas da garota. Qualquer homem adoraria se perder em todos aqueles atributos. Esboçou um leve sorriso, não precisou ir muito longe para perceber o que o levara àquela situação. Com certeza, se tivesse conhecido a moça em outras circunstâncias, teria colocado em prática seu discreto jogo de sedução e depois de realizado seu objetivo, Elle seria mais uma que passara pelas suas mãos:
- Olá querido! - Aquario foi arrancado de seus "doces" pensamentos pela voz do objeto dos mesmos. - Desculpe-me pelo atraso. Imagine que um casal de amigos da família resolveu me visitar acreditando que eu estivesse muito abalada com o meu suposto "acidente". É claro que fui obrigada a mentir descaradamente. - Elle cumprimentou Kamus com dois beijinhos na face e continuou a tagarelar. - Fui obrigada a atende-los. Além de estarem conosco a anos, são grandes colaboradores do papai. É claro que eu não poderia deixá-los abandonados ao vento não é mesmo! - e tomando um pouco de ar veio com a desculpa esfarrapada. - Eu tentei ligar avisando, mas seu celular simplesmente se nega a aceitar minhas chamadas. - Terminou o discurso com um sorriso muito político no rosto.
- Meu celular não tocou em nenhum momento Elle, e ele está funcionando muito bem. - Kamus respondeu friamente. Era óbvio que a garota nem tentara ligar.
- Então eu simplesmente não imagino o porquê de você não receber minhas ligações. - vendo que sua desculpa não surtira efeito, Elle rapidamente mudou de assunto. - Mas não vamos nos deter em pequenos detalhes, não é mesmo! E estes senhores? Quem são?
- Com licença senhorita. Permita-me que me apresente. Meu nome é Afrodite. E devo dizer que estou impressionado, Kamus deveria ter nos preparado melhor, ele não nos informou o quão bela a senhorita é. - Afrodite encerrou seu galanteio com um beijo na mão de Elle, deixando a moça derretida em suspiros.
Notando que Kamus pareceu não gostar muito da proximidade de Afrodite com a moça, Milo preferiu limitar-se a um cordial aperto de mão. Conhecia o amigo, quando se tratava de mulher, era melhor não provocar Kamus:
- Milo. Sou amigo de Kamus. Muito prazer.
- O prazer é todo meu, Milo. Agradeço por terem vindo e lamento por serem obrigados a abandonar seus compromissos por nossa causa. - Elle respondeu ao cumprimento do cavaleiro de forma educada.
Com um olhar cínico para Aquario, Escorpião rebateu:
- Que isso! Estamos sempre prontos a ajudar um amigo "necessitado"! - encerrou a frase enfatizando a última palavra.
Elle abriu um sorriso, empolgando-se e já se dirigindo para a pista, onde a aeronave os aguardava, falou:
- Ótimo! Então rapazes, é hora de partir. New York nos espera!
- Com certeza. - Milo completou num tom baixo, enquanto admirava o "caminhar" de Elle. Dirigindo-se à Kamus, falou. - Vem cá, você tem certeza que quer anular esse casamento? Cara! Ela é perfeita! Gostosa e rica. Preciso dizer mais alguma coisa?
- Também é educada. Embora acredito que isso seja irrelevante para você, meu caro amigo. - Afrodite comentou mais para Milo do que para Kamus.
- Que seja! Eu não acredito! Quem dera eu sair por aí bêbado e me casar com uma mulher dessas! Kamus, não me diga que você vai deixar ela ir embora desse jeito, sem tirar uma só casquinha! - Milo estava indignado com a vontade do amigo de se livrar tão rápido de Elle. Quando o assunto era uma linda mulher, os dois pensavam de forma completamente distinta.
Kamus dizia que conquistar uma mulher era uma verdadeira arte, exigia inteligência, esperteza, discrição, entre outras coisas que Milo não se lembrava. Já para o mesmo, bastava mostrar seu físico escultural que tudo se resolvia, e se a garota fosse interessante, um papo legal a segurava mais um pouco.
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- Champagne e caviar! Ah! Essa é a vida que eu pedi aos Deuses! - Milo estava devidamente acomodado em sua poltrona, degustando sua bebida, enquanto apreciava a viagem rumo a New York. Ao seu lado, Afrodite folheava uma revista sobre turismo:
- Se eu fosse você não me animaria muito com isso.
- Por que? - Escorpião agarrou a taça como se ela pudesse fugir a qualquer momento.
Afrodite apontou para Kamus sentado à uma incrível distância de Elle:
- Se o bom humor do nosso amigo continuar nesse rítmo, o máximo que a mocinha vai nos deixar ver é o quarto de empregados.
- Que nada! Ele só tá chateado com tudo isso. Você conhece o Kamus, todo certinho e coisa e tal. Quando faz uma besteirinha, fica desse jeito. Não é nada de mais, já já ele volta ao normal. - Milo dissipou a "preocupação" de Afrodite e logo mudou de assunto. - Vem cá! Você acha que tem chance de conhecermos a Casa Branca?
Peixes deu um suspiro, continuando a folhear sua revista:
- Santa ignorância. A Casa Branca fica em Washington.
- Eu sei! Mas Elle poderia nos levar lá. O pai dela deve ter uns contatos pra nos colocar lá dentro. - Os olhos de Escorpião brilhavam como os de uma criança com a possibilidade de entrar na Casa Branca.
- Bem, se for assim, eu gostaria de dormir no quarto de Lincoln. Dizem que é assombrado. - Afrodite se divertia com a conversa ao notar que aquilo realmente estava irritando Kamus, pois o cavaleiro não conseguia sair da página de dedicatórias do livro que supostamente lia.
Com um gesto rude, Aquario fechou violentamente o livro, chamando a atenção de seus companheiros de viagem:
- Já chega! Ninguém vai à Casa Branca e ninguém vai dormir no quarto do Lincoln. Agora será que vocês podem calar essas bocas?
Os outros dois cavaleiros gargalharam como crianças do gesto de Kamus, de fato, toda aquela situação tinha mexido muito com o mestre da casa de Aquario, em outras circunstâncias, ele responderia à tudo de uma forma inteligente e no seu tom frio habitual. Mas ambos admitiam que era muito divertido ver Kamus perder as estribeiras daquele jeito.
Antes que congelasse todo o avião com sua raiva, Kamus levantou-se de seu assento e caminhou a passos firmes pela aeronave, sentando-se ao lado de Elle e bufando enquanto afivelava o cinto de segurança. A moça sorriu para o rapaz fazendo uma pequena brincadeira com o aparente mau humor do mesmo:
- Parece que vocês estão se divertindo lá atrás.
- Hunf! Parecem duas crianças, isso sim. - O cavaleiro rebateu voltando à calma habitual. Estava tentando recuperar sua paz interior e nessas circunstâncias, parecia mais fácil ignorar uma história fútil de Elle do que as piadas maldosas de Milo e Afrodite. Aqueles dois sempre conseguiam colocar o dedo na ferida com seus comentários.
- Então Kamus. Quase não tivemos a oportunidade de conversar. Fale-me um pouco sobre você. O que faz da vida? Onde mora, ou ainda, com quem mora? - Elle chamou a atenção de Aquario, tirando-o de seus pensamentos.
Kamus, imediatamente, puxou pela memória a tradicional farsa que todo cavaleiro deveria ter preparada para momentos como esse. Por questões de segurança, a fim de manter o Santuário em sigilo, todo cavaleiro deveria carregar consigo um álibi, que também poderia ser usado como um bom disfarce em algumas missões. O seu consistia em dizer que era um arquiteto francês, especializado em restaurações, trabalhando à serviço do governo grego, na manutenção do patrimônio histórico daquele país. Para comprovar as histórias, o Santuário munia-se de uma verdadeira rede de ligações com diversos setores da sociedade.
- Bem, é isso que eu faço. - O rapaz concluiu seu relato bastante convincente. - E você? O que costuma fazer? - Pronto, agora era só se preparar para ouvir Elle falar sobre as muitas horas que deveria passar com suas amigas no shopping ou num salão de beleza, ouví-la falar sobre seus "compromissos" sociais e etc.
Com um sorriso no rosto, a garota respondeu:
- Eu passo meus dias num centro comunitário de assistência a jovens abandonados. Trabalho com adolescentes grávidas, sou assistênte social lá.
Com um olhar de espanto, Kamus encarava a moça. Aquilo não era exatamente o que esperava ouvir. Notando a reação dele, Elle perguntou:
- O que foi? Ficou mudo de repente?
Voltando à realidade, Aquário começou a formular algumas palavras:
- Não. Bem... Nossa! Isso é...- Com um sorriso amarelo no rosto, completou. - Isso é incrível. Eu jamais pensei que...
- Que eu fosse capaz de fazer algo assim? - Elle o cortou bruscamente. - Tudo bem, já estou acostumada com isso. Sei o que pensou. Que eu passava meu dia fazendo compras no shopping, gastando o dinheiro do meu pai, ou então em algum salão de beleza fazendo minhas unhas e falando da vida dos outros. É sempre assim, não é mesmo? A típica loira rica, burra e mimada! - O tom que encerrou a frase era de raiva, Elle sentia-se decepcionada. Kamus parecera tão culto, fora tão superior quando respondeu à sua mãe, sem rebaixar-se ao nível das acusações feitas por ela, e agora, mostrava-se tão preconceituoso. Estava surpresa por ele não manter a mente aberta com relação à quem Elle poderia ser realmente.
A partir daí, o clima que se instalou no ambiente assemelhava-se ao cruel frio siberiano, velho conhecido de Aquario, mas nem um pouco desejado pelo mesmo no momento. Elle simplesmente não trocara uma só palavra com o cavaleiro durante toda viagem, ignorando-o por completo e direcionando toda a sua atenção para Milo e Afrodite, numa amigável conversa. O mesmo aconteceu ao pousarem e encaminharem-se para a residência de campo da família Richards. Elle mostrava a casa com muita empolgação para seus dois novos amigos, fazendo questão de deixar para trás, o "marido" completamente abandonado.
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O comportamento de Elle estendeu-se noite adentro. O jantar com o advogado da família, tão apreciado pelos demais membros e convidados, foi uma verdadeira chuva de dardos sobre Kamus. A moça não perdera uma só oportunidade de enfatizar o quanto seu "querido marido" desejava ver-se livre de sua terrivelmente fútil esposa.
O senador Richards não gostou nem um pouco do oceano que se formara entre sua filha e o estrangeiro. Não era sábio demonstrar tanta hostilidade para com o rapaz, embora sua intuição mostrasse que Kamus não era do tipo que tentaria se aproveitar da situação e tentar extorquir dinheiro ameaçando manchar o nome da família. Era melhor cercar-se de todas as garantias possíveis, conversaria com Elle mais tarde e pediria para ser mais cordial com aquele homem.
Por outro lado, Jane Richards estava adorando a pequena guerra que se intalara em sua casa e, de acordo com a sua contagem, sua filha já havia marcado muitos pontos em cima do europeu pé-rapado. Em breve estaria livre daquele irritante incômodo e poderia retomar seus esforços a fim de reatar a relação entre Elle e o jovem Joshua. O que significava o pequeno deslize do rapaz no dia do casamento comparado à ambição do mesmo em se tornar um grande político? Faria de sua filha uma primeira-dama, assim como ela o seria em dois anos, e garantiria o futuro da família por muitas e muitas gerações.
Quanto a Kamus, este só conseguia pensar em uma única coisa. Conseguira estragar qualquer possibilidade de uma convivência amigável com Elle. Definitivamente, aquela semana prometia ser um inferno.
N/A: AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! Que vontade de gritar! Chutei o balde nesse capítulo! Só posso estar com TPM! Fiquei com tanta raiva dos homens, com tanta raiva do Kamus! GRRRRRRRRRRRRRRR! Por mais paty que a Elle seja, nesse capítulo, ela é quem manda! É isso ai! GRRRRRRRRRRRR! (espumando). Não tentem entender meus motivos, sei lá, baixou o santo por aqui e, por um capítulo, a Elle não é a Super Paty! GRRRRRRRR!...ok...o ataque passou...ai...ai...agora respirando fundo... Gostaria muito, mas muito mesmo, de agradecer os reviews de cinco ficwriters muito legais e corajosas. São pessoas que possuem a grande virtude da paciênica para ler o meu fic e, principalmente, estarem suportando bravamente minhas mudanças de humor que afetam visivelmente o que eu escrevo. Bem, Anjo Setsuna, Juliane Chan, Máxima, Ferry Girl e Lulu lilits, Muito obrigada pelo apoio de vcs. é muito bom que tenho o apoio dos comentários, críticas, etc. Um grande beijo e até o próximo capítulo...
