CAPÍTULO V
- Bom dia! - Kamus foi surpreendido com o enorme sorriso e toda a energia de Elle ao atender a porta.
Passavam das 8h da manhã, estava acordado e pronto a um bom tempo, mas preferiu esperar os outros ocupantes da casa levantarem-se. Não se sentia muito confortável andando sozinho por aquele lugar, todos os empregados dalí pareciam miná-lo com o olhar, como se ele fosse o pior dos monstros. Não era para menos, depois de toda aquela demonstração de carinho por parte de Elle na noite anterior, não era de se estranhar que, para eles, Kamus fosse o vilão que atacou a princesinha bondosa a quem eles serviam com tanto amor em seu maravilhoso palácio. Quanto a ela, parecia que a princesinha tinha acordado de muito bom humor hoje.
- Quanta disposição. Bom dia pra você também. - Manteve o tom frio ao responder o cumprimento da garota. Elle, por outro lado, esbanjava uma empolgação por cada um dos poros do seu corpo:
- Está preparado para o dia de hoje? Será bem cheio! - A garota dizia isso esfregando as mãos como se estivesse muito ansiosa. Já Kamus não apresentava um pingo se quer de qualquer sentimento que sobrasse em Elle naquele momento, acabando assim, por responder sem nenhuma emoção:
- Estou sempre preparado. E você? Parece que acordou bem disposta hoje não! Está até conversando comigo novamente. Admiro essa sua capacidade de mudar de humor e opinião sobre os outros tão rápido.
Com um sorriso no rosto e as mãos na cintura, Elle rebateu num tom de voz levemente provocativo:
- Senso de humor é um dom querido, que você obviamente não tem. E para seu governo, não mudei minha opinião sobre você. Mas com certeza vou mudar a sua a meu respeito. - E dando uma piscadela desafiadora para Kamus, a garota saiu em direção às escadas, eliminando qualquer possibilidade de contra-resposta do rapaz.
No caminho para a sala de jantar, Elle falava sem parar sobre os inúmeros planos que fizera para toda a semana, deixando Kamus zonzo com tanta informação:
- " Deuses! Como ela fala! Não consigo ouvir meus próprios pensamentos! Se eu posso me mover na velocidade da luz, Elle pode falar na mesma velocidade." - Este era o único pensamento que o cavaleiro conseguiu formular em sua mente bombardeada.
- ...depois vem a Estátua da Liberdade. Você nunca esteve em New York não é mesmo? Vai amar aquele lugar, tem uma vista incrível. Ah! - A moça soltava mais um de seus gritinhos histéricos que antecediam outro ponto turístico a ser visitado. - É claro que não podemos nos esquecer do local onde ficava o World Trade Center! Nenhum turista que se prese deixa de ir lá. Mas antes compraremos umas flores, é importante prestarmos homenagem àqueles que se foram. Catastrofe terrível não! Sabia que vão construir outro arranha-céu no lugar? É claro que sabia, está em todos os jornais.
- " Será que ela vem com um botão para desligá-la?" - Kamus teve um alívio ao chegarem à sala de jantar, onde o café da manhã estava servido.
- Bom dia rapazes! - Embora tenha interrompido seu relato turístico, Elle não perdera a empolgação, expressada no animado cumprimento.
- Bom dia Senhorita Elle. - Afrodite respondeu sorrindo para a garota, enquanto Milo limitou-se a acenar com a mão direita, que segurava uma xícara de chocolate quente, não podia falar pois estava com a boca cheia, sem contar o prato, que competiria sem problemas com a altura do Everest.
Devidamente acomodados à mesa, Kamus concentrava-se em comer, enquanto Afrodite se derretia em elogios para Elle quanto ao maravilhoso jardim com roseiras de diversas cores na parte de trás da residênca. O clima no ambiente tornava-se pouco a pouco, mais leve, uma vez que a moça, misteriosamente, havia apagado qualquer vestigio da raiva que sentia por Aquario, na noite anterior. No entanto, como tudo o que é bom, aquela deliciosa descontração durou muito pouco. Toda alegria que Elle carregava dentro de si esvaiu-se, assim que avistou sua mãe adentrando a sala.
Jane não se deu ao trabalho de cumprimentar os presentes à mesa, com uma expressão muito desagradável, chamou Elle:
- Podemos conversar um minuto? Me acompanhe até o escritório por favor.
Mesmo carregada de palavras educadas, a frase soou mais como uma ordem do que um pedido. A filha pediu licença aos presentes e levantou-se, dirigiu-se ao escritório de cabeça baixa, logo atrás de Jane, como se fosse um cachorrinho acuado:
- Alguém sentiu um cheiro de enchofre invadir esse lugar? - Milo comentou, largando o bolo que estava em sua mão.
- Se Hades precisar de um corpo para reencarnar, a Senhora Richards é a primeira da lista. - Afrodite também demonstrou não simpatizar muito com a dona da casa. - E do jeito que Jane te adora Kamus, essa conversa com Elle só tem um objetivo, fazer com que sua querida esposa não siga o conselho do papai.
Aquario dirigiu-se curioso ao amigo:
- Que conselho ela recebeu?
- O senador disse que Elle deveria te tratar melhor, não ser tão agressiva com você. - Milo intrometeu-se no assunto. - Sabe, por mais que você pareça confiavel, ele acha que não é uma boa idéia que você fique contra eles. Vai que você muda de idéia, não anula o casamento e começa a se aproveitar do sobrenome do senador. É por isso que a Elle tá te tratando tão bem. O Afrodite escutou os dois conversarem esta manhã, antes do Sr. Oliver viajar.
- Por que não me contou isso antes? E por que o Milo soube primeiro? - Kamus não gostou nem um pouco do que ouviu, por dentro remoía-se de raiva do senador, por acreditar que ele fosse um oportunista, de Afrodite, por não ter lhe contado logo tudo, e, por último, inveja de Milo, por saber algo tão importante antes dele.
O cavaleiro de Peixes defendeu-se imediatamente:
- Meu caro, foi a ordem natural das coisas. A primeira pessoa que encontrei foi Milo, e quando pretendia lhe contar, Elle já estava na porta do seu quarto. Só agora consegui conversar com você.
- Mesmo assim, por quê primeiro o Milo? - Uma veia pulsava na testa de Kamus, demonstrando seu desagrado com a língua solta do amigo.
- Porque eu peguei ele escutando atrás da porta. - Novamente Milo interveio, dessa vez com seu habitual tom divertido.
- Eu não estava escutando atrás da porta, só estava parado num lugar qualquer, que, por coincidência, era ao lado da porta do escritório. - Afrodite tentou defender-se com uma desculpa não muito convincente, o que fez Milo divertir-se mais ainda com o flagra de algumas horas atrás.
- Sei, e você costuma ficar parado, com o ouvido colado às portas. - Milo gargalhava enquanto Afrodite o fuzilava com o olhar.
A brincadeira cessou quando Elle retornou à sala de jantar. Vinha com o olhar baixo, um pouco abatido, mas assim que avistou os três cavaleiros, trouxe à face o sorriso costumeiro:
- Parecem estar se divertindo. E então? Já estão prontos? Não é bom demorarmos muito para ir à cidade.
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De fato, a ilha, vista do alto da Estátua da Liberdade, era uma visão incrível. No local, turistas do mundo inteiro se reuniam para apreciar a paisagem e conhecer um dos símbolos mais famosos da América, entre eles, encontravam-se três jovens deslumbrados, cada um à sua maneira. Milo posava de todas as formas possíveis e imagináveis, em cada parte do mirante, fazia questão de aparecer em cada pedaço daquela linda paisagem, sempre acompanhado de uma linda turista. Afrodite preocupava-se em conhecer a história da imensa estátua de cobre, dedicando sua atenção às explicações da guia e às placas. Já Kamus apreciava a maravilhosa vista para o oceano, nunca se cansava de admirar a imensidão límpida que ficava ainda mais bela, vista do alto da Estátua. Observar a forma como o azul do céu unia-se ao do mar, ao longo do horizonte, sempre lhe trouxe a paz de espírito da qual precisava, principalmente num momento como este.
Tivera poucos momentos para pensar no que tinha feito, desde que toda a confusão começara. Pelo menos teria uma lição a tirar disso tudo, quando acabasse, nunca mais encheria a cara sozinho, em outro país. Riu do próprio pensamento, era uma lição e tanto a ser aprendida e, estranhamente, ela vinha com uma professora tão bela. Elle podia ser um tanto quanto inconstante, ansiosa e até um pouco tagarela, mas também era tão alegre e animada. Não era agradável vê-la abatida daquela forma. Durante todo o caminho até a ilha e mesmo agora, Elle pouco falara, muito menos abriu aquele sorriso tão cristalino, que parecia ser uma marca da sua personalidade. Kamus a conhecia muito pouco, mas o suficiente para saber que se a garota não estivesse falando ou sorrindo, algo não estava normal. Resolveu ir até a moça e conversar um pouco com ela, talvez conseguisse descobrir o que Jane fez para deixar a filha tão triste.
- Elle. - Chamou a atenção da garota que fitava o horizonte.
- Hã? Ah! Oi Kamus. - Elle deixou seus pensamentos perderem-se, voltando sua atenção para o rapaz à sua frente. - E então? O que achou desse lugar?
- Realmente é muito bonito, como você havia dito. - Kamus posicionou-se ao lado dela, ficando de costas para a paisagem e mantendo seu olhar no rosto da garota. O gesto a deixou um pouco tímida, fazendo com que Elle preferisse encarar o mar novamente, enquanto conversava com o cavaleiro:
- Eu adoro este lugar! Vim aqui inúmeras vezes em excursões da escola, e mesmo depois de formada, continuei visitando. A vista é simplesmente maravilhosa, nunca me canso de apreciá-la.
Kamus tentou dirigir a conversa ao assunto que realmente interessava:
- Elle, aconteceu alguma coisa?
A garota o encarou, surpreendida pela pergunta:
- Como assim?
- Hoje, durante o café-da-manhã, quando sua mãe a chamou. Aconteceu algo entre vocês duas? Você está com algum problema?
Elle ficou visivelmente nervosa com o que o cavaleiro falara. Esboçando um sorriso amarelo, que não disfarçava o incômodo com aquela conversa, a garota tratou rapidamente de por um fim na mesma:
- Não há problema algum Kamus. Por que haveria? Está tudo bem! Tudo o que mamãe queria é que eu levasse umas coisas pra ela na volta. Só isso.
- Posso não te conhecer a muito tempo, mas sei que tem algo errado. - Aquario manteve-se sério, seu sexto sentido lhe dizia que Jane tentaria alguma coisa contra ele através de Elle, e estava determinado a descobrir o que era. - Quero que saiba que pode confiar em mim, estou tentando ajudá-la. - Buscou passar um pouco de tranquilidade à garota com suas palavras.
Elle ouviu tudo mantendo o olhar fixo no cavaleiro. Aquelas palavras realmente inspiravam confiança, mesmo assim:
- Obrigada pela consideração Kamus. É muito bom saber que se preocupa comigo. Mas já disse, está tudo bem, e se está tudo bem, é que não há problemas, não é mesmo! - A garota desconversou rapidamente, terminando com um sorriso, agora mais tranquilo.
- "Droga! Ela é mais esperta e escorregadia do que eu pensava." - Kamus xingou-se mentalmente, sua estratégia falhara, não seria tão fácil quanto pensara.
Um silêncio incômodo instalara-se entre o casal após a conversa. Elle preferiu deixar o olhar viajar pelo oceano do que encarar Kamus, quanto a este, já não conseguia pensar em nenhum assunto que remediasse sua tentativa frustrada de descobrir o que estava acontecendo. Sentia-se um tolo, realmente acreditara que se passasse a imagem de alguém em quem Elle poderia confiar, ela prontamente se abriria, mas, mais uma vez, enganara-se quanto ao caráter da moça. Concluiu que Elle não fazia o tipo carente, deixando-se levar pelo primeiro gesto de antenção. A situação constrangedora durou mais alguns segundos, até que Milo e seu espírito expansivo, acabaram com o embaraço:
- Cara! Esse lugar é demais. Têm mulheres do mundo inteiro, pra todos os gostos! - Os olhos do cavaleiro de escorpião brilhavam com o desfile de turistas à sua frente, Milo parecia uma criança, numa loja de brinquedos. - Olha só, acho que vocês podem continuar o passeio sem mim. Tá vendo aquela gatinha alí? - Dizendo isso, o rapaz apontou para uma ruiva, que acenava em resposta. - Austríaca, linda não? E doidinha para me mostrar as maravilhas da "Big Apple" (1), se é que vocês me entendem.
O comentário de Milo fez Elle segurar o riso, enquanto Kamus apenas balançou a cabeça, em desaprovação:
- Você poderia ter nos poupado desse seu comentário infâme. - Aquario falou sério.
- Não to te escutando! - Milo colocou as mãos no ouvido, para evitar qualquer possível sermão que o outro cavaleiro viesse a fazer. Conhecia Kamus, toda vez que pretendia ficar com uma garota, lá vinha ele com a mesma história sobre responsabilidade, como tratar uma mulher e blá, blá, blá. - Já conheço seus concelhos tá bom. E, cá entre nós - Escorpião passa a cochichar no ouvido de Aquario - atualmente você é a última pessoa no mundo que pode me falar sobre responsabilidade.
- Então pretende passar o dia com ela Milo? - Elle perguntou, chamando a atenção do rapaz.
- Pois é Elle, vamos dar umas voltas por aí. Olha só, não precisa se preocupar comigo não, tá bom! Nem me esperar. - Milo respondeu cheio de sorrisos.
- Tudo bem. Você pegou o meu endereço, tudo direitinho? Então bom passeio. - Elle despediu-se de Milo.
Já afastando-se do casal, Milo falou:
- Tá tudo certo Elle. Não me esperem para o jantar. Até!
Afrodite, que caminhava em direção ao grupo no mesmo momento, não gostou nem um pouco da saída de Milo. Agora teria que ficar sozinho com o casal? Ótimo, ninguém merece. Não estava disposto a figurar como vela pelo resto do dia. Era melhor conseguir uma desculpa rápida e deixar os dois sozinhos, sabia que Kamus e Elle tinham muitos assuntos mal-resolvidos, seria bom terem um tempo só para eles. Aproximou-se de ambos falando:
- Parece que Milo fez sua primeira conquista em New York.
- Ele parece ser bem...como posso dizer... ativo, nesse tipo de coisa. - Elle comentou.
- Você não imagina o quanto minha querida. - Disse Afrodite, meneando a cabeça, e, colocando em prática seu plano, continuou. - Senhorita Elle, eu estava pensado em fazer um passeio pela 5ª Avenida(2), quero fazer algumas compras e como sei que está com o seu dia completamente ocupado, não quero prejudicar seus comprimissos, portanto, vou para lá, enquanto realiza seus afazeres.
- Imagina Afrodite. Não tenho tantos compromissos assim. Posso adiar alguns e acompanhá-lo. Fazer compras é uma das minhas especialidades. Além disso, que tipo de anfitriã eu seria se abandonasse meu convidado sozinho nessa cidade. - Sem querer, Elle acabou prejudicando a desculpa de Afrodite, ao mostrar-se preocupada e solícita com seu convidado.
Tentando remediar a situação, Peixes rapidamente respondeu:
- De forma alguma senhorita, não estara me abandonando. E não há necessidade em adiar seus compromissos. Por favor, me sentirei culpado se fizer isso por minha causa. E não se preocupe, estou me sentindo em casa nessa cidade, não vou me perder, eu prometo.
- Bem, já que insiste tanto. Fique à vontade. - Elle resignou-se, não entendia o porquê de Afrodite querer tanto ir sozinho, mas já que ele fazia questão, não poderia fazer nada.
Peixes despediu-se, deixando um clima mais leve entre o casal. Assim que Afrodite sumiu de sua vista, Elle virou-se para Kamus com um brilho no olhar, deixando o cavaleiro um pouco assustado:
- O que foi? Por que está me olhando assim?
- Tive uma grande idéia! - A garota respondeu com um enorme sorriso no rosto. - Já que sobramos só nós dois, vou levá-lo a um lugar muito especial!
Dizendo isso, Elle pegou a mão de Kamus e o arrastou para fora do local, terminando por quase jogá-lo dentro do carro.
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O Centro Comunitário parecia um lugar aconchegante e receptivo, para todos os lados haviam espaços onde eram desenvolvidas inúmeras atividades, era possível ver crianças pintando numa sala e adolescentes debatendo algum tema em outra. As paredes coloridas, cheias de fotos de antigos frequentadores, entre eles, alguns jogadores de basketball conhecidos, incentivavam os jovens a seguir em frente, buscando ali dentro, uma nova oportunidade longe das ruas. Elle explicava a Kamus a filosofia do lugar e mostrava as fotos, com certo orgulho do trabalho que realizava. O cavaleiro deteve-se em frente a foto de um homem, comentando:
- Não sabia que esse rapper tinha frequentado o centro? Até que a música dele não é tão ruim.
- Você ouve rap? - Elle perguntou com uma expressão de espanto. Kamus não parecia do tipo que apreciava música popular. - Eu podia jurar que o único tipo de música que você ouvia era ópera, ou coisa parecida...mas rap?
Aquario esboçou um sorriso de vitória em seus lábios com a surpresa de Elle:
- Acho que você também terá que mudar sua opinião ao meu respeito.
Elle imediatamente tornou-se séria, não gostou nem um pouco de se sentir contrariada. Estava ali para mostrar a Kamus o quanto ela era diferente do que ele pensava, e não o contrário. Não dando o braço a torcer e buscando todo o orgulho dentro de sí, seguiu rapidamente pelo corredor, mudando de assunto:
- Estas salas servem para as reuniões que realizamos com os frequentadores, recebemos desde crianças até adultos que precisam de ajuda como o AA (alcólatras anônimos). Eu trabalho com alguns desses grupos, mas principlamente com adolescentes grávidas.
- E o que geralmente vocês conversam nessas reuniões? - O cavaleiro perguntou, mostrando-se interessado no assunto.
- Conversamos sobre as mudanças que ocorrem na vida das meninas, sobre os problemas que elas enfrentam. Tento aconcelhá-las, na medida do possível. - Elle respirou fundo, mostrando-se um pouco triste. - Não é nada fácil para elas, a maioria é muito jovem, mal saiu da infância. Poucas têm o apoio da família, encontram problemas com a escola. E quanto ao pai da criança, alguns são garotos que frequentam o centro também, jovens demais para uma responsabilidade como essa.
Elle parou em frente a um quadro, cheio de fotos de mães e seus filhos, alguns ainda bebês, outros um pouco maiores, todos felizes. Sorrindo com um brilho no olhar, falou:
- Infelizmente não é possível ajudar à todas, mas algumas conseguem. Concluem a escola, conseguem um bom emprego. Há meninas que foram até para a faculdade. Aqui estão elas. - Apontou para o quadro, onde também havia algumas mensagens de agradecimento, endereçadas a ela.
Elle baixou a cabeça, deixando o cabelo loiro encobrir seu rosto, enquanto tentava evitar que uma lágrima saísse de seus olhos. Vê-la daquele jeito fez Kamus sentir um certo desconforto, não gostava de ver Elle com a expressão triste, talvez por saudades daquelas a quem ajudou. Notou, pelas mensagens, que todas as garotas a consideravam uma grande amiga. Sentia que, para Elle, cada uma que ia embora, era mais uma amiga que partia. Não suportando mais, o cavaleiro rendeu-se ao instinto de proteção. Colocou uma das mãos no ombro da garota e com a outra, afastou o cabelo de seu rosto, levando-o para trás da orelha. Elle tentou virar o rosto, mas ele a impediu, segurando-o e fazendo com que a moça fitasse seus olhos, disse:
- Você deve sentir orgulho do que faz. Com certeza essas meninas são muito felizes por terem encontrado alguém como você, que deu o apoio e o incentivo de que elas precisavam. Não se sinta triste pela partida delas, sinta-se feliz, você lhes ofereceu uma oportunidade que ninguém mais daria e elas aceitaram, foram atrás de seus sonhos e os realizaram. Tudo isso graças a você.
Sem reação, a jovem deixou-se perder no olhar e nas palavras de apoio do cavaleiro. A forma como ele agira era tão reconfortante, sentia falta desses gestos, já que eles não eram tão comuns. Seu pai era seu maior incentivador, mas ele estava sempre viajando, envolvido em questões políticas, por consequência disso, Elle passava a maior parte do tempo com sua mãe e esta simplesmente abominava o Centro. Para Jane, Elle deveria preocupar-se com questões mais "relevantes" como o bom relacionamento com pessoas influentes, a formação de uma grande carreira, o envolvimento de seu noivo na política, e não com um bando de pirralhas que resolveram não usar preservativos. Sentiu uma vontade louca de abraçar o rapaz e extrair mais do carinho que ele estava lhe oferecendo, mas conteve-se, voltando a si, afastou-se do contato com as mãos e os olhos de Kamus. Um pouco sem jeito, falou:
- É melhor irmos lá pra fora...Há mais coisas para se ver...por lá.
Também voltando a si, Kamus seguiu Elle. Enquanto caminhava, sua mente tentou entender o que havia acontecido. Por um momento seus pensamentos se apagaram, tudo ao seu redor perdera a cor, os objetos, as pessoas, o mundo, eram apenas uma névoa branca e no meio dela só havia uma luz, o brilho dos olhos cor de mel da mulher à sua frente. Estavam tão próximos e sentia sua alma implorando para que a abraçasse, que lhe transmitisse todo o seu calor, todo o seu carinho por ela. Contudo, a razão, eterna companheira, a quem Kamus sempre se dedicou, voltou a tomar seu espaço e apagou com sua habitual violênica, o devaneio que o coração criou.
Do lado de fora do centro, cinco adolescentes treinavam arremeços numa quadra de concreto. O casal aproximou-se para observa-los e um dos garotos acenou para Elle, vindo cumprimentá-la:
- Ei Elle! - ambos bateram a palma das mão, uma contra a outra, depois, cerrando o punho, chocaram novamente as mãos. - Já tá de volta?
Meio constrangida com a pergunta direta, Elle deu um sorriso amarelo e respondeu:
- Pois é. Foi uma lua-de-mel bem curta. - e tratando de mudar de assunto rapidamente, apresentou Kamus. - Bob, este é o meu amigo, Kamus. Ele está visitando o país e eu o convidei para vir conhecer o centro.
- Muito prazer. - Kamus estendeu a mão para o garoto e recebeu o mesmo "cumprimento" que Elle. Virando-se para a moça, comentou baixinho. - Ele não conhece um aperto de mão?
Próximo a cesta de basketball, um dos garotos gritou para Elle:
- Ei! Elle, que tal uma partidinha?
- Agradeço o convite Jay, mas hoje eu dispenso. - Elle respondeu com um sorriso amável para o garoto.
Bob, que estava junto ao casal, teve uma brilhante idéia:
- E o Sr. K? Tá a fim de um jogo?
- Sr. K? - Kamus olhou com uma expressão de poucos amigos para o menino. De onde ele havia tirado esse "Sr. K"?
Ignorando a cara feia do "Sr. K", Bob continuou:
- Vai, só uma partidinha, jogo rápido, mano a mano! O primeiro a marcar 10 cestas, leva o jogo!
- Aceite Kamus, é só um jogo! - Elle incentivava o cavaleiro, divertindo-se com o olhar de raiva que ele lhe lançou.
Vendo que não conseguiria se livrar daquela situação, Kamus respirou fundo e entregou-se ao inimigo:
- Tudo bem então. Vamos lá. 10 cestas, não é! Não parece ser tão difícil.
Enquanto Aquario e Bob preparavam-se para iniciar o jogo, Elle gritou:
- Bob! Se você vencer o Kamus, eu pago um lanche para todos vocês!
Ao seu lado, os outros quatro garotos explodiram numa torcida animada para Bob.
N/A1: (1) Big apple é uma das formas pelas quais New York é conhecida...juro que pesquisei o porquê desse apelido, mas não achei...se alguém souber o significado, por favor, me informe.
(2) A 5ª avenida é uma das ruas mais chiques e caras de New York, onde ficam algumas das lojas mais famosas, como Armany, Chanel, etc.
N/A2: Capítulo sofrido, dele saiu muito sangue e suor...não que ele tenha algo de muito especial..é que quase não tive tempo de escreve-lo, por isso demorou...acho que como escrevi ele em vários dias, algumas partes ficaram um pouco soltas...na verdade, era para ser maior, mas resolvi dividir a outra parte em um outro capítulo e postar esta. Não queria q vcs ficassem tanto tempo sem atualização...já estava me sentindo culpada...pretendo aproveitar o tempo q tenho antes das provas da facul e vou postar mias uns 2 capítulos... Adorei todos os reviews. Continuem mandando, é a opinião de vcs que me inpira. B-jão pra todos e até mais.
OBS mt importante...meu micro está sem revisor ortográfico, então me perdoem por erros do tipo z e não s...esse tipo de coisa. Obrigada. B-jos.
