Capítulo 2: Tempo de qualidade com os Fords/ A pior mãe de todos os tempos

"Eu não acredito que você deixou ele sozinho," disse Sawyer, seguindo Kate pela porta de sua cabana.

Quase todo mundo da ilha tinha cabanas agora e quase nenhuma tenda. Elas eram mais espaçosas e contribuíam para uma sensação de assentamento que as habitações anteriores careciam. Sawyer construiu a nova moradia deles com espaço para um quartinho de bebê em mente e tinha um cantinho projetado para seu filhote.

Ele rasgou algumas fotos de umas revistas que tinha à mão na intenção de providenciar a seu filho um quartinho perfeitamente decorado. Kate, no entanto, o fez tirar as Playboys espalhadas assim que as viu. O garoto ia ter que se satisfazer com um anúncio de carro na parede em vez disso.

"Ele já tá bem grande pra ficar lá fora sozinho," respondeu Kate tentando acalmar seu filho que agora estava chorando.

"Unidade Lua ainda é pequeno!"

"Pare de chamá-lo de Unidade Lua, está aborrecendo ele."

"Ah, é, é por minha causa que ele está chorando. Não tem nada a ver com a fralda molhada."

Kate olhou ceticamente para Sawyer e daí fez o mesmo com seu filho, levantando-o um pouco para olhá-lo melhor. Ela apalpou seu traseiro levemente e, oficialmente derrotada, fixou Sawyer com um olhar humilhado.

"Então, ele está um pouco molhado. Eu teria descoberto eventualmente."
O fato de Sawyer ter que dizer a Kate - que estava segurando o bebê - que seu filho estava molhado meio que indicava que tipo de mãe ela era. Não que fosse uma péssima mãe, ela apenas não possuía um certo tipo de instinto materno que Sawyer acreditava que todas as mães tivessem de maneira inata. Para exemplificar, o maior instinto maternal de Kate era proteger seu filho de água-vivas (ela não queria Hurley mijando em cima dele). Isso e três balas.

"Você quer que eu troque ele?" se ofereceu Sawyer. Ele torcia que ela dissesse sim, por que a idéia de trocar fraldas de Kate era muito mais exaustiva do que a de Sawyer. E também por que geralmente resultava em ele ter que fazer tudo de novo.

"Não. Eu faço."

Ela sentou o bebê numa pilha de malas precariamente amontoada e foi buscar uma nova fralda. Sawyer seguiu Kate num passo largo e apanhou o bebê um segundo antes que a pilha de malas tombasse.

Kate voltou do canto do quartinho com um pano limpo e tomou o garoto das mãos de Sawyer, ignorando o perigo no qual tinha acabado de deixá-lo.

Sawyer podia apenas ficar olhando, cruzar os braços no peito e esperar que ela fizesse certo dessa vez.

Kate deitou o bebê num cobertor e começou a embrulhá-lo no grande pano. Embora ela tivesse começado muito cuidadosamente, determinada a dar os dois nós de praxe, ela já tinha conseguido contar oito nós e estava trabalhando no nono. Em pouco tempo havia mais fralda do que bebê e ela juntou todo o tecido que tinha em mãos até criar a maior de todas as fraldas. Foi só quando ela sentiu um leve repuxar na perna de sua calça que ela percebeu que o bebê não estava na fralda e sim engatinhando pelo chão em direção á Sawyer enquanto ela toreava com a fralda.

"Ups" sussurrou ela, rebocando o menino do chão e o colocando no lugar para tentar de novo. Ela pôs a fralda enrolada nos braços, na barriga e no ombro dele até finalmente atar as duas pontas em cada lado da cintura. Ela ficou olhando e sorriu ao ver seu trabalho pronto, embora mais sem fôlego e mais envergonhada do qeu quando tinha começado.

"Tá pronto."

Sawyer se ajoelhou ao lado do menino e o examinou atentamente. Ele colocou suas mãos embaixo dos braços dele e o suspendeu a distância de seu braço. Exatamente como Sawyer previra, a fralda escorregou rapidamente do traseiro do garoto sem nem mesmo precisar de uma brisa para sacudi-la.

Kate franziu a testa. "Ele está magrinho," deduziu Kate.

Sawyer abanou a cabeça, sem coragem de contradizê-la.

Estava ótimo para Sawyer, na verdade, já que ele, estranhamente, gostava de trocar fraldas. Sun tinha lhe dito uma vez que as meninas geralmente olham diretamente para você quando você as troca ao contrário dos meninos cujos olhos vagueiam pelo aposento. Então enquanto Sawyer se ajoelhava na frente de seu filho, ele alegremente aceitava o desafio de chamar sua atenção fazendo caretas engraçadas ou falando a língua universal dos bebês de gu-gu, dá-dá. Ele arregalava os olhos, estufava as bochechas com ar e colocava a língua pra fora, com os olhos vesgos. Ele só fazia tudo isso quando tinha certeza que não havia ninguém por perto além do bebê e de Kate. Ele tinha uma certa reputação a zelar em público.

Enquanto Sawyer cuidadosamente enrolava a fralda em seu filho, ele deu um tempo em suas caretas para dar uma olhada de rabo de olho em Kate. Ela estava dobrando as roupas espalhadas e ele imaginou que era uma boa hora para perguntar algo que já estava em sua cabeça por algum tempo.

"Bem, você não está pensando seriamente em meter Unidade Lua nesta olimpíada de bebês, né?"

Kate virou a cabeça e olhou Sawyer nos olhos com uma expressão seriamente séria. "Claro que estou. E pare de chamá-lo de Unidade Lua. Não queremos que as outras crianças debochem dele."

"Pode crer que chamar ele de 'Lesley' vai fazer o serviço, Torrão de açúcar."

"Ele tem que entrar," continuou Kate, trazendo de volta o tópico das olimpíadas do bebês com feroz determinação. "Ele pode facilmente derrotar qualquer um dos meninos de Jack."

"Isso nem precisa falar, mas em que eles iriam competir, afinal? Quem consegue rolar um côco até a linha de chegada primeiro?"

Os olhos de Kate se arregalaram ante a idéia. "Você acha que já devemos começar a treiná-lo nisso?" perguntou ela.

"Você tá ouvindo o que cê está falando? É uma olimpíada de bebês"

"Eu sei," respondeu Kate, excitada.

Ele tentou enfatizar o quão estúpido tudo aquilo parecia, mas ela pareceu só escutar a importância da coisa.

Sawyer suspirou, pronto para entregar os pontos na discussão.

"Eu só acho que encher a cabeça dele com competição não é muito saudável, só isso."

"Ah, vê se cresce, Sawyer! Lesley não vai crescer um mauricinho!"

Enquanto Sawyer tentava imaginar se Mauricinho era o novo nome de seu filho, ele lembrou que estava lidando com Kate, a mulher mais competitiva que ele jamais conhecera. Era provavelmente bem melhor deixar o assunto morrer até eles terem a oportunidade de conversar com uma profissional. O que lembrou a ele que já estava quase na hora de ir para a sessão semanal de terapia parental em grupo, de Libby.

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Antes que Sawyer e Kate pudesse ir se encontrar com os outros pais da ilha na sessão de terapia, eles tinham que deixar seu filho na casa da babá. A posição no momento estava sendo ocupada por Charlie. Certo, um viciado em drogas (e pior, um músico fracassado) não era o melhor candidato para o trabalho, mas as alternativas não pareciam melhores, também. Hurley costumava ser o babá designado até um dia em que um dos bebês sob seus cuidados desapareceu. Foi somente depois de algumas horas procurando por ele que finalmente o acharam perdido no meio do traseiro de Hurley.

De qualquer maneira, Charlie adorava ser babá. Ou como ele preferia chamar, treino de banda. Mais apropriadamente, treino secreto de banda. Ele estava planejando o maior e mais animal concerto que a ilha jamais assistira. O único concerto que a ilha jamais assistira, na verdade, mas quem estava contando? Ele estava pronto para iniciar os ensaios do Driveshaft 2 assim que o baterista aparecesse.

"Você o alimentou?" Sawyer perguntou a Kate, quando estavam se aproximando da cabana de Charlie.

"Sim. Mais cedo," disse ela.

"Sabe, muitos dos outros garotos estão começando com comida sólida agora."

"Ele gosta muito de leite. Então, é a única coisa que ele toma."

"Bem, eu sei que é a única coisa que ele toma, é a única coisa que você oferece a ele."

Kate deu de ombros e bateu na porta de Charlie.

Sawyer passou seu filho para o outro braço e o levantou ligeiramente para olhá-lo nos olhos.

"Você é um amigão do peito, hem? Igualzinho ao seu velho," disse ele, piscando.
Charlie pôs a cabeça para fora de porta no momento. "Meu baterista chegou!"
Kate e Sawyer olharam para o pequenino inglesinho suspeito e Charlie percebeu que tinha dado na vista. "Quero dizer, Billy Bob!"

"Na verdade é Unidade Lua, agora." Corrigiu Sawyer.

"Lesley" disse Kate.

"Certo," disse Charlie vagarosamente, pegando o bebê das mãos de Sawyer.

"Vamos chamá-lo apenas de Cabeça de dedão," e com um olhar distante nos olhos ele continuou dizendo, "por que a cabeça dele... tem o formato de um dedão."

Sawyer e Kate encararam Charlie por um momento. Talvez estivessem pensando que deixar seu filho entregue a tais cuidados não fôsse uma boa idéia. Mas, ah, tudo bem, eles tinham que ir.

"Se divirta com Charlie," sussurrou Kate na orelha de Lesley, beijando o alto de sua cabeça. Sawyer passou a mão nos cabelos de Unidade Lua.

Eles se dirigiram para a praia onde a sessão de terapia estava para começar.