Capítulo 6: Viva Brooklyn!/O Tao de Locke

"A gente consegue da próxima vez, Abraham," disse Kate, colocando uma laranja na frente de seu filho. Depois de testemunhar o garoto tentando tirar leite de um côco durante os jogos, Kate percebeu que provavelmente já era hora de começar a desmamá-lo. Ela deu uns tapinhas em sua cabeça e foi arrumar seu próprio jantar.

"O que, você quer que ele aprenda a rolar isso, também?" perguntou Sawyer.

"Estou lhe dando comida sólida. Não era isso que você queria?"

"Você sabe que ele não consegue engolir isso inteiro, certo?"

"É comida sólida," ela repetiu como se ele fosse um idiota.

Sawyer foi até o berço de seu filho - uma modesta entalhação feita num tronco de árvore formalmente conhecida como Rhonda - e descascou a fruta para alimentá-lo.

"Eu não gosto do nome Abraham," disse ele subitamente.

"Ótimo," respondeu Kate. "Por que eu não gosto do nome Rumor."

"Eu mudei. Ele é Brooklyn daqui pra frente."

"Brooklyn? Você já esteve no Brooklyn? Você odiaria."

"Você já esteve no Brooklyn?" perguntou Sawyer, surpreso.

"Sim."

"Mesmo?"

"Não," disse ela, "Mas, eu sei que você odiaria."

"E como você sabe disso?"

"Por que você é sulista."

"E?"

"E o Brooklyn é gueto. É casaco de peles. É a máfia. É avós judias. É assaltantes. É atitude. É cheio de gente louca, Sawyer! Eu sei- já estive lá."

"Você acabou de me dizer que não esteve."

"Oh," disse ela. "Certo."

"Talvez ele goste do Brooklyn," disse Sawyer, olhando seu filho.

"Bem, se puxou aos pais, vai odiar."

"Eu não odeio o Brooklyn!" gritou Sawyer. "Eu nunca estive lá!"

"Você odiaria!" Kate gritou de volta. "Eu estive lá!"

"Não esteve, não!"

"Droga, Sawyer!"

Era muito fácil para Sawyer e Kate discutirem algumas vezes pelas coisas mais idiotas.

Sawyer respirou fundo, não querendo continuar zangado. "Quem liga para um bairro estúpido," disse ele.

Kate sorriu submissamente, contente pela discussão ter acabado. "Na verdade, se não fosse um bairro, seria a 4ª maior cidade da América."

"Seu conhecimento sobre Brooklyn tá me deixando ligadão," disse ele, meio cafajeste para o lado dela.

"Está?" perguntou ela modestamente, levantando as mãos sobre os ombros dele para brincar com o cabelo de trás de seu pescoço. "Eu mencionei a parte das avós judias?"

Sawyer rosnou. Ele inclinou a cabeça para beijá-la quando foi interrompido por alguém na 'porta'.

"Avós judias? Parece que alguém tá pra ficar numa boa!"

Sawyer e Kate se viraram ao som da familiar voz aguda e anasalada. Charlie tinha enfiado a cabeça pela abertura da cabana deles e estava sorrindo de orelha-a-orelha, parecendo absolutamente deliciado por ter, sem querer, estragado o momento do casal.

"Oi, Charlie, chegou cedo." disse Kate.

Ela havia combinado de Charlie vir ser babá de Abraham/Brooklyn enquanto ela e Sawyer saíam para atender a um compromisso que tinham feito com Jack.
"Eu quase perdi a noção do tempo," disse ela. "Vamos, Sawyer, não podemos perder a festa de fogos."

"Festa de fogos?" Perguntou ele.

"É," disse Kate. "Jack me contou que ia botar fogo em um monte de coisas essa noite. Parece divertido."

"Ele me contou que ia ter uma sessão de tortura essa noite. Eu disse que não perderia por nada nesse mundo."

Enquanto Kate e Sawyer pensavam sobre estes compromissos conflitantes, Jack preparava um palco para seu seminário muito especial. Sabendo que ninguém mais viria, voluntariamente, escutar qualquer coisa que ele tivesse a dizer, ele preparou um cenário personalizado para cada náufrago, para atrair a todos. E era muito importante que todos eles viessem.

Explicando que "como um médico" ele tinha desenvolvido um "impecável paladar para urina" Jack tinha tentado beber a urina de Soon-Yi para determinar se o bebê estava ou não "bombado" com substâncias ilegais. Infelizmente para ele, Jin e Sun eram pais racionais que nunca permitiriam algo assim. Jack teve que decidir roubar uma fralda molhada jogada fora quando ninguém estava olhando. Para seu desespero, ele foi incapaz de detectar qualquer traço de droga na coisa.

Desconsolado com o reconhecimento de que um bebê tinha derrotado todos seus filhos por mérito próprio, Jack desenvolveu um novo plano para manter seus filhos superiores a todos os outros: eliminar toda e qualquer chance de bebês continuarem nascendo na ilha, para sempre.

Seu seminário "Paternidade Planejada/Prevenção de Gravidez/Ponto Final para o Florescimento da Epidemia de Bebês" estava para começar. Todos na ilha tinham se reunido na praia, curiosos para ver o que Jack diria.

"Bem vindos!" Ele anunciou, agora que todos haviam assentado.

"Cadê a tortura?" Perguntou Sawyer.

"E as coisas que íamos queimar?" Kate disse em seguida.

"E quando. Poderei. EXPLICAR. Minha nova religião para todos?" gritou Locke.

"Tem uma coisa muito mais importante para discutirmos!" Continuou Jack. Ele tomou fôlego, olhando como se fôsse dizer alguma coisa muito importante. "Eu acho que todos concordamos que toda essa coisa de bebês está saindo do controle." As cabecinhas de seus quatro bebês pularam por cima de seu ombro. Ele ajustou as tiras da mochila e continuou falando. "Precisamos de um plano. Nós não podemos simplesmente ter mulheres ficando grávidas o tempo todo."

"Por que você simplesmente não entrega a caixa de preservativos que o avião de resgate jogou pra nós?" Perguntou Sawyer, virando os olhos.

Jack sorriu amargamente. "Se alguém tem sugestões sérias eu ficaria feliz de escutá-los." Somente Locke levantou sua mão. "Menos John Locke. Aí eu não dou a mínima por qualquer coisa que tenha a dizer."

Ninguém mais levantou a mão, então Jack decidiu que provavelmente era melhor escolher as pessoas.

"Libby!" Disse ele. "Você é uma mulher! Qual é o seu segredo?"

"De ser uma mulher?" perguntou ela.

"De não engravidar. Você não é estéril ou coisa assim, é?"

"Oh, meu Deus, não," ela riu. "Eu até passei por alguns abortos no meu tempo." Sua risada morreu. "Só que eu prefiro a compania de mulheres, agora," disse ela, piscando na direção de Ana Lucia. "E por isso que tenho dormido com Charlie."
Todos se viraram para Charlie. "Por mais que eu tente, não consigo engravidar ninguém. Nem nada, para falar a verdade."

"Eu tenho. Algo. Para falar!" declarou Locke. Ele levantou uma coisa que parecia o revestimento interno de um intestino de porco. "Isto é o revestimento interno de um intestino de porco. De acordo com meus cálculos ele. Pode ser usado como preservativo. Com 39 de segurança!"

Ninguém ali tinha razão para suspeitar que ele estava secretamente dormindo com uma das mulheres. Mas, antes que alguém pudesse especular mais ele acrescentou, "Os porcos. Parecem gostar." E embora fôsse uma declaração vaga, ninguém realmente quis pensar no que aquilo significava. "E Charlie!" ele gritou.

"Tem uma textura muito suave, " disse o pequenino britânico, de algum lugar da multidão.

"Agora, há alguém. Querendo ouvir. Sobre minha. Nova religião?" continuou Locke. "Vocês só têm que me. Adorar. E aos porcos. E a escotilha!"

Jack não estava contente com o rumo que o seminário estava tomando. "Eu tenho algo melhor do que 39 de segurança. Eu tenho algo com 100 de segurança!" disse ele, retomando a atenção de todos. "Abstinência." E subsequentemente, perdendo a atenção de novo.

"Nos conte mais da religião!" gritou Charlie para Locke.
"É sério!" declarou Jack. "Eu não tenho tocado Ana Lucia por mais de um ano e tem realmente funcionado para nós."

"Adivinha, amor," disse Ana Lucia, fingindo pena. "Estou grávida de novo."
Jack cambaleou alguns passos para trás, como se alguém tivesse lhe dado um soco no estômago. Seu rosto se iluminou com uma mistura de choque, espanto e extrema felicidade. O engraçado era que Sayid estava passando pela mesma reação.

"Ouçam todos vocês, vou ser pai de novo!" gritou Jack cheio de regozijo. "Meu esperma deve ter uma sobre-vida acima da média! É um milagre médico!"
Ele correu a toda velocidade para onde Ana Lucia estava sentada e quase trombou com Sayid, que havia corrido para o lado dela também.

"Um pai!" Exclamou Sayid, pegando a mão da Ana Luca. "Finalmente."
Jack pegou a outra mão. "Você quer dizer de novo. Um pai de novo."
Sayid observou Jack com uma expressão irritada. Percebendo o olhar do outro homem fixado nele, Jack olhou de volta para Sayid. "É um milagre médico," ele enfatizou.

Sayid franziu a testa. "Sim, claro. Um milagre médico."

Enquanto Jack e Sayid celebravam separadamente a grande notícia, Kate pareceu ter percebido Charlie na multidão pela primeira vez, a despeito de seu consistente envolvimento no seminário. Ela coçou a testa enquanto pensava, se apercebendo que alguma coisa não estava certa e caminhou até ele.
"Charlie? Onde está Abraham?"