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Nós estamos no mês de novembro, e amanhã é Dia de Ação de Graças. O que quer dizer que, daqui a alguns dias, eu e David vamos completar um ano de namoro. Está bem, nós já brigamos duas vezes durante esse ano (1ª vez: David achava que eu ainda gostava do namorado da Lucy,o Jack. 2ª vez: eu o acusei de ser um chiclete, só por ficar me ligando 3 vezes ao dia só para saber se eu estava bem), mas cada vez que eu vejo aqueles olhos verdes, sinto que o amo mais.
Todo ano é a mesma coisa: eu sempre vou para a casa da minha avó para passar o fim de semana de Ação de Graças. Esse ano não vai ser diferente, eu acho.
A Theresa estava lá na cozinha assando uma (nojenta) torta de abóbora para a família dela, quando eu cheguei. E me encheu de felicidade quando mandou:
- Samantha,o David ligou aí avisando que vai passar a Ação de Graças com você, lá na sua avó. Ele quer conhecer o resto da... – queimou o dedo na panela – família – e despejou um monte de palavrões em espanhol.
Isso era bom, até porque eu nem precisava avisar minha mãe – ela aceitava tudo o que eu fazia com o David. Até daquela vez que eu fui numa festa da Kris Parks (eca!) e cheguei em casa às 3 da madrugada.
No dia seguinte, o David chegou em casa às 7 horas da manhã em ponto. No começo, minha mãe achou meio estranho ele deixar de ficar com a primeira-família para ficar comigo, mas depois ficou eufórica com a idéia dele conhecer o resto da família.
Ainda bem que o John que levou o David para casa. Porque,na mini van é que não ia caber eu, David, John (sim,ele vai para todo lugar com o David), pai, mãe, Rebecca (e seu notebook), Lucy, Theresa (que íamos levar até a casa do Tito, o filho mais velho dela) e um monte de malas. De modo que eu e David fomos no bando de trás do carro do Serviço Secreto, com o John dirigindo. A temperatura lá fora estava por volta dos 4ºC, mas no carro era quentinho. Mesmo assim, o David fez questão de me abraçar bem forte. E fomos assim até a casa da minha avó.
Avós, tios, primos. Todos ficaram eufóricos só de ver o "famoso namorado da Sam", mais conhecido como primeiro-filho ou algo do gênero. O David até que os tratou bem, mas ficou visivelmente cansado depois de 15 minutos de papo. Claro, porque ninguém agüenta a mesma pergunta "Como você conheceu a Sam?" 7 vezes.
Era muito estranho estar lá com o David. As coisas, de uma hora para a outra, se tornaram tão mais agradáveis, como nunca tinham sido antes. Ele parecia estar se divertindo bastante, também. Pelo menos ele estava com um sorriso muito bonito no rosto, um sorriso bastante alegre.
O que desanimou foi o almoço. Claro que tinha o tradicional peru e todas aquelas coisas que eu geralmente não como, mas o mais desconcertante foi quando me perguntaram quando David e eu íamos no casar. Eu meio que me engasguei e cuspi metade do copo de 7-Up que estava na minha boca. O David foi bem mais educado, e apenas sorriu. Tipo, tudo bem que nós éramos namorados,mas não a ponto de casar,sabe como é. Eu só tenho 16 anos e ele 18! E eu só quero casar daqui a uns 10,12 anos. Menos que isso não. Não mesmo.
O resto da tarde foi bem tranqüilo. Eu tive que ajudar a vovó a arrumar a cozinha, e até o David entrou na dança: foi guardar a louça. Ele até que se comporta bem diante de assuntos fúteis de mulheres na cozinha.
Depois daquilo,fomos dar um passeio numa praça que tem no outro quarteirão. E foi super romântico, porque não era sempre que eu saia com o David, já que somos do tipo superocupados e também fomos de mãos dadas. Eu nunca tinha me imaginado assim com o David, porque ele é tão mais alto que eu que fica difícil. Na pracinha, cada um sentou num balanço e a conversa simplesmente fluiu. E eu tive a prova de que aquele namoro era muito melhor do que qualquer outro, já que eu e David não ficávamos apenas nos beijando e nos agarrando como tantos outros casais por aí, até porque é constrangedor para quem está por perto.
- E aí, minha heroína? Sua função de embaixadora da ONU não está muito boa? Nunca mais reclamou do sr White nem nada... – ele estava com um daqueles sorrisinhos fofos no rosto.
- Ainda sou embaixadora, dãh. Como se você não soubesse!
- Foi só para introduzir o assunto – e me beijou. Sabe aquele beijo bem gostoso, no qual o garoto morde bem de leve o seu lábio inferior e você se sente nas nuvens? Era bem assim o beijo do David quando ele estava feliz.
- Ah,David... Vamos parar com isso. Cara,estamos num parquinho!
- Está bem, então. Que tal se nós déssemos uma de impressionistas e desenharmos alguma coisa?
- Do tipo um escorado no outro? – eu estava me animando com a idéia – Assim, você fica olhando para esse lado da pracinha e eu para este aqui. E depois, quando terminarmos, um mostra o desenho pro outro!
- Aham. Quer que eu vá com você para buscar os lápis?
- Pode ficar aí. Pensando na sua criação – e sorri.
Vai fazer um ano de namoro mesmo. Mas até hoje eu acho incrível que eu, Samantha Madison – ruiva, baixa, canhota, do tipo artista sensível, nem um pouco popular, com um cabelo que mais parecem fios de cobre – arrumei um namorado tão legal e tão a minha cara! Ás vezes eu até penso no Jack, aliás, em como eu estava errada em relação ao Jack. Eu sempre achei que ele era minha alma gêmea, sempre achei que ele era um rebelde convicto e tals, mas depois que conheci o David, todas as minhas certezas foram por água abaixo. Pensando bem, o Jack nem era um rebelde tão convicto assim. Tudo bem que ele tinha boas intenções, mas não sabia utilizá-las de maneira inteligente.
Quando eu voltei,o David ainda estava com aquele sorrisinho no canto da boca. E, de uma hora pra outra, não conseguia olhar para os olhos dele. Eram verdes demais.
- Você foi tão rápido... – eu o ouvi dizer. E foi só isso o que eu consegui processar, de informação, já que a voz dele me deu um arrepio grande e meu mundo girou devagar...
Sentei e me apoiei nas costas dele, para começar o desenho. As coisas ainda estavam girando na minha cabeça. Os sorrisinhos, os olhos verdes, as mãos grandes, a altura, meu amor todo por ele. Mas, ao mesmo tempo, e não sei porque, pensei nos olhos azuis do Jack, no sobretudo militar, na cruz egípcia na orelha. Fazia alguns meses que eu não via o Jack, porque ele tinha começado naquele ano a faculdade de Artes Plásticas. Ele até que ia se dar bem... tem um grande potencial,o Jack.
Sem que eu percebesse, o dia já estava virando noite. Eu estava tão compenetrada no meu desenho e pensando na vida, que nem tinha percebido nada. O David levantou-se de repente, o que me deu um susto muito grande. E me mostrou o desenho dele. Árvores, gramado, rua, algumas casas, eu e ele numa balança. Não era bem assim o combinado, mas o desenho ficou realmente muito bom. O meu estava de acordo com o trato: tudo o que eu via na minha frente, bem fiel aos fatos. Exceto o meu toque pessoal, as minhas pinceladas. É, eu acho que faria um sucesso legal como impressionista se eu não montasse a minha galeria de desenho de celebridades.
- Sam! David! – Lucy veio correndo lá da esquina, feito uma doida desvairada.
- Lucy?! O que aconteceu? Alguma coisa de muito importante? – perguntei, começando a me angustiar. Quando ela chegou mais perto, percebi que estava chorando.
- A vovó, Sam... ela... ela... – e começou a soluçar mais e a chorar mais ainda.
David pegou-a pelo braço e sentou-a num banco próximo.
- Fica calma, Lucy. Respira – e David fez uma encenação da respiração. – Está melhor? Vamos, agora conte-nos o que aconteceu. Olhe para a Sam, ela está ficando apavorada!
Quando eu fico apavorada, todo mundo percebe, já que eu tenho a santa mania de coçar o braço desesperadamente nos momentos de nervosismo.
- A vo-vo-vó – Lucy engasgou. – Ela... ela... a vovó está... está... – respirou fundo – numa outra dimensão.
O mundo girou. De repente, eu pensei que fosse desmaiar. Mas eu não ia deixar a Lucy e o resto da família mais desesperado ainda.
- Como? Não... isso não aconteceu... – David parecia bem triste, para alguém que tinha conhecido a mulher naquele dia.
- Ela se sentiu mal... e levamo-la pra ca-cama. – Lucy estava tremendo – E...então...ela – soluçou – não acordou mais. – e se apoiou no ombro do David para chorar.
Eu não sabia o que dizer, o que fazer. Talvez porque nem tivesse nada para dizer ou fazer. Apenas continuei chorando, já que dizem que o melhor a fazer nessas horas é deixar a tristeza sair de você. Levantei e fui andar... dei voltas na praça, tentei colocar os pensamentos no lugar. Eu não tinha me despedido dela. Eu não tinha dado um beijo nela desde de manhã. Eu só queria ter tido uma despedida... eu sei, ela sempre vai ficar no meu coração, mas vou sentir falta. O corpo dela presente, a voz dela vai fazer falta. E eu não queria nem ver como minha mãe estava. Devia estar um caco... sentei-me na beira no laguinho e fiquei olhando,pensando...
David chegou e me deu um abraço. Não sei quando tempo demorou a pronunciar algumas palavras, mas para mim o tempo não estava passando.
- Lucy voltou para casa. Ela quer ficar com sua mãe.
E o máximo que fiz foi balançar a cabeça.
- Eu sinto muito, Sam. Muito mesmo. – e me abraçou mais forte ainda – Deixe a tristeza sair. Chore. Grite. Abrace. Eu estarei aqui.
- Eu... não sei o que fazer, não sei o que falar,Dave...
- Então, não diga nada – e passou o dedo indicador pelos meus lábios.
Eu fiquei lá, abraçada com ele não sei quanto tempo. Mas peguei no sono. E, quando acordei, eu estava em casa, no quarto, na cama de cima do beliche. E o David estava olhando para mim. Mesmo que só a claridade da lua estivesse entrando pelo quarto, eu via perfeitamente bem o brilho dos olhos dele.
- Eu... dormi lá na pracinha? E... – tentava me lembrar dos fatos – o que aconteceu depois?
- Eu te trouxe aqui, no colo mesmo – David estava sussurrando.
- Obrigada... – e dei um selinho – quem mais vai dormir aqui no quarto?
- Você e eu. Só. Seu pai achou melhor. Sua mãe vai dormir com seu avô e seu pai. A Lucy vai dormir com a Rebecca. E seus tios foram organizar o velório de amanhã.
- E... que horas são? Eu estou com fome, não jantei.
- 10 da noite. Se quiser, eu trago alguma coisa para você comer, é só me dizer onde está.
- Não quero... depois eu vou lá e pego alguma coisa. – sentei-me e olhei para o David.
- E você? Não vai pedir para o John vir te buscar?
- Eu quero ficar com você. Em todos os momentos: bons ou ruins. – e me deu o beijo mais longo de toda a minha vida.
Depois do beijo, eu levantei e fui pegar uma roupa de dormir. Não tinha outro lugar para me trocar sem fazer barulho além do quarto. Então, fui atrás do biombo e pedi para o David não se aproximar. Foi aí que eu me liguei que eu sou uma garota e ele é um garoto, os dois jovens, os dois namorando, eu trocando de roupa. E fiquei me perguntando se ele também estava imaginando isso. Mas logo meus pensamentos se afastaram de David e foram parar na minha avó. E comecei a chorar.
No dia seguinte foi o velório e o enterro da minha avó. Foi extremamente triste, todos estavam contagiados por aquele espírito de velório. Minha mãe não parava de chorar e de dizer "eu não me conformo" ou "não pode ser verdade!" ou "não com minha mãe,não com minha mãe..." . Meu pai tentava não chorar e conformar minha mãe, além de ficar levando cafezinhos para todos os presentes no velório. A Rebecca apenas pegou um livro e foi ler, e de vez em quando falava algo como "conforme-se". A Lucy chorou desesperadamente, vestiu as roupas mais bonitas de velório e ficou meia hora trancada no banheiro lendo um exemplar de Nova que estava ensinando a como se comportar – ou chorar, já que Lucy estava chorando mais que todo mundo – num velório. Meu avô simplesmente segurou na mão da minha mãe e ficou olhando para o rosto da minha avó,lá no caixão. Meus outros parentes eu nem prestei muita atenção. O David me abraçou e segurou bem forte na minha mão, além de dizer "força!" ou "chore todas as suas mágoas".
