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DEDICATÓRIA
O FIM - PARTE II
O chá na xícara ao meu lado esfriara. Havia várias manchas escuras e feias na superfície. Em geral, eu não me distraía assim tão facilmente. Pensei em descer e preparar outro, mas a cozinha da casa dos meus pais já estava superlotada de convidados e parentes. Além disso, seria oportuno que alguém me visse antes da cerimônia na igreja? Eu não conseguia me lembrar do que dizia a etiqueta.
Tornei a colocar a xícara na minha mesa de cabeceira. Haveria muito o que comer e beber na festa no hotel. O serviço de bufê fora muitíssimo bem-recomendado, e o cardápio que sugeriram era perfeito – uma coisa a menos para precisarmos planejar. Tive um momento fugaz de pânico quando olhei para o relógio e percebi como os ponteiros haviam avançado, e então outro, só que mais longo, quando me voltei para o espelho de minha penteadeira.
Minha mão voou até minha garganta e sufoquei um grito, porque de repente não era a minha imagem de sempre que me olhava de volta, mas a de uma mulher muito mais velha, de rosto suavemente marcado e a pele já sem tonicidade nem maciez. Rugas irradiavam dos cantos dos olhos, e o tempo gravara sinais em torno da boca, que o espanto mantinha aberta.
Era a minha mãe.
Fiquei tão perplexa diante de sua imagem refletida em meu espelho que cheguei a olhar para ver se ela estava atrás de mim. Mas, claro, não havia ninguém. Tornei a olhar para a frente e estendi a mão em direção à superfície de vidro, com os dedos ansiosos por traçar o formato de seu rosto e o movimento de seu cabelo, cuja cor era ainda intensa. Porém, quando toquei o espelho, ela desapareceu, e de novo era eu em seu lugar. No fundo, não me surpreendia que eu a tivesse imaginado ali: sempre fôramos muito parecidas e, em um dia como aquele, em que o passado estava tão presente em meus pensamentos, era certo que ela estaria comigo.
Soube que havia algo errado assim que parei na entrada da garagem dos meus pais, no fim daquele dia. E se o fato de a porta da frente estar escancarada, apesar da chuva forte que caía, não tivesse sido um alerta suficiente, então os gritos aflitivos do meu pai – que eu ouvia enquanto disparava em direção à casa – teriam sido a comprovação final. Eu mal terminara de puxar o freio de mão quando impetuosamente abri a porta do carro. Era como se eu estivesse sonhando, e tudo parecia desacelerado, embora eu tivesse consciência de que estava correndo.
Em seguida a ilusão de câmera lenta se estilhaçou quando meu pai surgiu pela porta aberta como um touro em ataque. O cabelo estava desgrenhado e molhado, e eu soube, então, que sua busca já se expandira para o exterior da casa. No entanto, foram seus olhos que me apavoraram: ferozes e desesperados, revelavam que meu pai já estava despencando no poço fundo do pânico. Tentei me forçar a respirar calma e uniformemente, mas não era fácil. O pânico é tão contagioso quanto a peste – e igualmente mortal.
– O que houve? – perguntei, agarrando seus dois braços e forçando-o a interromper sua corrida desenfreada de volta à chuva e a olhar para mim. Era uma pergunta estúpida. Eu sabia exatamente o que estava acontecendo, então logo emendei: – Há quanto tempo ela desapareceu?
Ele balançou a cabeça com tanta força, que gotículas de chuva caíram de seus cabelos.
– Eu não sei. Quinze minutos… vinte… talvez mais. Ah, Deus, eu não sei!
– Acalme-se, pai. Respire. Só me conte o que aconteceu.
– É tudo culpa minha. Ela estava dormindo profundamente na poltrona, cochilou enquanto via TV… como ela costuma fazer, sabe?
Assenti, impaciente, desejando pular os detalhes que não nos ajudariam.
– Eu tinha algumas cartas para pôr no correio. E ela dormia tão pesado que fiquei com pena de acordá-la para que fosse comigo, então pensei: "são só cinco minutos até a caixa de correio, estarei de volta antes que ela saiba que saí." Mas então esbarrei naquela mulher, a Debbie, da farmácia, e você sabe que ela gosta de falar… e aí, quando cheguei aqui, a porta estava escancarada…
– Está tudo bem, pai. Vamos encontrá-la. Sempre encontramos. – Até, é claro, o dia em que não a encontrarmos, entoou uma voz em minha cabeça. – Certo, vamos ser racionais – falei, odiando o fato de que era eu que tinha de ser a adulta agora, e não para um dos meus pais (o que já era ruim o bastante), mas para os dois. – O senhor procurou pela casa?
– Sim.
– Em todos os cômodos?
Ele me lançou um olhar fulminante.
– Desculpe, pai. É claro que sim. Muito bem, vamos nos separar. O senhor percorre a rua e então, se não a encontrar, tenta o caminho que leva até a floresta, para aquele passeio de que ela gosta, está bem?
Ele se recompôs com visível esforço.
– Desculpe, Bells.
Dei-lhe um abraço rápido.
– Não é culpa sua, pai. Sabe disso. Não pode vigiá-la 24 horas por dia, sete dias por semana. Isso é simplesmente impossível.
Havia nos olhos de meu pai o reflexo de uma determinação que parecia tão dura quanto granito, o que, eu sabia, significava que ele discordava totalmente de mim. Mas não era a hora nem o lugar para retomarmos a discussão que vínhamos tendo ao longo de quase todo o último ano.
– Vou tentar a escola primeiro – avisei a ele, já me virando para sair. – E se ela não estiver lá, ligo para o senhor e pensamos onde procurar em seguida.
– Você acha que devemos ligar para a polícia?
Balancei a cabeça, negando.
– É cedo demais para isso, pai. Ainda não se passou nem meia hora. Vamos tentar todos os lugares prováveis; depois pensamos no que fazer.
Dei meia-volta e corri para o carro. Telefonar para a polícia era uma medida extrema, um último recurso e, eu tinha esperanças, uma opção desnecessária. Pelo menos dessa vez. Mas chegaria o dia em que não encontraríamos mamãe andando por aí, perdida e confusa, em nenhum lugar perto de casa. Era só questão de tempo.
Era difícil dirigir tão devagar, quando todos os instintos me diziam que pisasse fundo e chegasse lá o mais rápido possível. Mas eu sabia, por experiência própria, que precisava manter a atenção não só no caminho à minha frente, mas também nas calçadas e até mesmo nos jardins das casas. Na última vez, eu a encontrara no jardim de alguém, sentada no balanço de uma criança, dando impulsos tranquilamente para a frente e para trás, sem ter noção do pânico que seu desaparecimento havia causado. Mas naquela ocasião era Jacob quem estava ao volante, e então fora muito mais fácil esquadrinhar além das sebes e dos arbustos que ocultavam as propriedades, dificultando a visão de quem passava.
Tão convencida quanto possível de que ela não estava em nenhum dos jardins por que eu passara, dobrei à esquerda na rua principal e segui para um dos lugares que a atraíam como um ímã. Estremeci quando uma van me ultrapassou, lançando uma cascata de água lamacenta no para-brisa. Aquele era o meu pesadelo, meu pavor real: que minha mãe simplesmente atravessasse a rua.
Enquanto a doença se ocupava em roubar à pessoa a própria identidade e as suas memórias, será que ela se incomodaria de manter ao menos o instinto vital de autopreservação? Em que ponto da ladeira escorregadia que minha mãe vinha descendo a pessoa desaprenderia que não se pode entrar na frente de um veículo em alta velocidade?
Minhas mãos pareciam garras a apertar o volante, à medida que o medo que eu não deixara que meu pai visse percorria meu corpo como se fosse um vírus. E eu sentia raiva, também – não de papai; dele, nunca. Ele só estava tentando se agarrar à mamãe o máximo de tempo possível, e eu sabia disso melhor que ninguém. Não, eu estava com raiva de mim mesma. Na verdade, muito mais do que com raiva: eu estava furiosa comigo mesma.
Nos últimos tempos, andara tão absorta em meus problemas que não prestara atenção ao que deveria. Esses "episódios" que mamãe tinha normalmente eram precedidos por uma série de sinais: ela se tornava ainda mais confusa ou esquecida e emotiva. E esses avisos, se não serviam para muito mais, ao menos faziam com que ficássemos atentos. Mas eu tinha estado tão distraída por causa do acidente e da perda de Rosalie e da preocupação com o comportamento estranho de Jacob e com os sentimentos inquietantes – que eu tentava ignorar – em relação a Edward que havia tirado os olhos do principal.
Péssimo momento! E agora ali estava o alerta. Com sorte, não seria tarde demais – por favor, Deus!
Eu não devia estar dando espaço para coisas que não podia mudar, e certamente não para uma patética paixonite de adolescente. Isso era real. Isso era o motivo de eu ter voltado para casa: para ajudar.
Entrei no amplo pátio da escola e imediatamente soltei um grito de alívio e gratidão. Pisei o freio e tirei o celular do bolso.
– Ela está aqui, papai. Eu a encontrei.
Fez-se um longo momento de silêncio, que, eu sabia, ele estava usando para se recompor. Quando, por fim, meu pai falou, sua voz estava anormalmente rouca.
– Graças a Deus! Traga-a para casa. E, Bella… dirija com cuidado.
Preocupada em não assustá-la, segui em velocidade mínima e parei em uma das vagas ao lado do Departamento de Artes. A chuva ainda desabava com uma intensidade perversa, e ela estava sem casaco. Peguei uma manta xadrez de piquenique que estava no banco traseiro do carro e saí na chuva. Ela ergueu os olhos enquanto eu me aproximava, e percorri o restante da distância que nos separava com deliberada indiferença.
Eu sabia fazer aquele jogo.
– Oi, mãe. O que você está fazendo?
Infelizmente, o tom casual que eu me esforçava por manter se perdeu quando baixei os olhos e vi que ela ainda estava usando os chinelos cor-de-rosa com pompons que eu lhe dera no Natal. Só que agora eles pareciam criaturas peludas atropeladas na estrada e encharcadas pela chuva. E foi isso que fez com que eu começasse a chorar. Não o mal de Alzheimer, que me roubara a minha mãe; não o medo que eu sentia sempre que ela desaparecia, mas os estúpidos chinelos arruinados!
Furiosa, enxuguei as lágrimas com as costas da mão, torcendo para que ela pensasse que eram as gotas de chuva que eu estava limpando.
– Perdi minhas chaves, Bella – explicou ela, apontando a bolsa virada no chão.
Agachei-me e comecei a reunir os pertences: um porta-moedas (sem nenhum dinheiro, porque ela nunca ia às compras sozinha), uma carteira cheia de cartões de crédito (todos cancelados, caso ela fosse), seu perfume favorito (cujo aroma ainda me fazia lembrar da minha infância e de estar em seus braços) e uma dúzia de outros acessórios da parafernália feminina. Recolhi tudo na bolsa já encharcada. A única coisa que não apanhei foram as chaves que ela estava procurando, as chaves do Departamento de Artes. Porque ela não as tinha havia mais de três anos, desde que renunciara ao cargo de chefe do departamento e, depois, quando os sintomas de sua doença foram ficando mais difíceis de ignorar, à carreira de professora.
Fazia de fato muito tempo que ela não trabalhava. Mas às vezes ela se esquecia disso.
Fiquei feliz por o fim de semana da Páscoa me proporcionar tempo para pensar com seriedade e estabelecer prioridades.
E a prioridade número um – que percebi, com tristeza, que vinha negligenciando havia algum tempo – era minha mãe. Obviamente, meu pai e eu tínhamos tido uma péssima noite: as olheiras que exibíamos na manhã seguinte eram prova disso. Enquanto mamãe tomava seu banho, tentei abordar o assunto, hesitante, mas fui recebida pela habitual resistência de meu pai.
– Pai, o senhor precisa ver que não podemos continuar assim por muito tempo – comecei, cautelosa, logo que tive certeza de que mamãe estava fora do alcance de minhas palavras.
Havia uma obstinação nos olhos de meu pai quando ele os ergueu e me fitou. Fora dele que eu herdara minha teimosia, ou ao menos era o que mamãe costumava me dizer, antes de perder a chave do tesouro das lembranças de toda uma vida.
– Bella, não vou entrar nessa discussão outra vez. Não vou colocar sua mãe em um asilo. Não enquanto houver vida em meu corpo.
– Ninguém está dizendo que faça isso, pai. Mas existem outras opções: instituições para cuidados diurnos, cuidadores, entidades que oferecem apoio aos doentes e às suas famílias… O senhor não pode mais fazer isso sozinho. Ninguém poderia. Eu sei que acha que a está protegendo, mas, na verdade, está arriscando a própria saúde. Eu me preocupo com o senhor, não quero que fique doente de novo.
Os olhos dele se anuviaram com minhas palavras, enquanto ambos relembrávamos o incidente ocorrido um ano antes – o que motivara minha volta para casa. Eu ainda podia vê-lo, com o rosto pálido e abatido, ligado por fios a monitores no hospital, enquanto esperava para saber se seu colapso se devera a um infarto do miocárdio. Naquela ocasião, fora apenas angina, provocada por estresse. Apenas. Da próxima vez, ele podia não ter a mesma sorte.
– Sei que se preocupa comigo, e a amo por isso, e pela maneira como você pôs tudo de lado para me ajudar. Mas essa decisão não é sua. É minha.
Suspirei e mexi o café que esfriava na xícara à minha frente, enquanto me esforçava para encontrar um argumento que ainda não tivesse usado ao menos uma centena de vezes.
– E se achássemos um lugar muito bom, que pudesse recebê-la só por uns dias durante a semana? Só para lhe dar um descanso, quando eu não estiver mais morando aqui… – sugeri, já sabendo que a ideia seria abatida antes mesmo que pudesse levantar voo.
E eu estava certa. Ele não poderia ter se mostrado mais horrorizado se eu tivesse proposto que ele fugisse com uma das vizinhas para um fim de semana de orgia.
– O quê? E simplesmente largá-la lá, como se ela fosse um cachorro que estivéssemos deixando em um canil, porque queremos sair e nos divertir?
Empurrei a xícara de café para o lado e peguei a mão de meu pai. Olhando-a de soslaio, percebi que as rugas nela estavam mais pronunciadas do que pouco tempo atrás. Ele estava envelhecendo mais rápido do que deveria, e sua aposentadoria era agora dedicada à sua nova e não planejada função de cuidador em tempo integral da mulher que ele ainda amava.
– Quando tudo se tornar demais para mim, eu a aviso – afirmou ele, tentando temperar as palavras com um sorriso agradecido. – Ter você e Jacob por perto para ajudar tornou tudo muito mais fácil. E você não estará assim tão longe, mesmo depois de casada.
Um ruído soou em minha cabeça, e pareceu muito o do fechamento estrondoso da porta de aço de uma prisão, mas não deixei que aquilo transparecesse em meu rosto enquanto oferecia ao meu irremediavelmente otimista e amoroso pai um sorriso em retribuição.
– Não, nós estaremos bem aqui – prometi.
A doença de mamãe começara sem alarde, vários anos antes. Fora um incidente tão pequeno e tolo que eu não percebera seu significado sinistro.
Tinha acabado de voltar de minha temporada em Washington e chegara de Londres para um fim de semana em casa. Esperava ansiosamente por uma refeição tranquila em família, mas o que me aguardava, na verdade, era uma armação em grande escala, disfarçada de almoço de domingo.
– O quê? Não mataram o bezerro gordo? – Lembro-me de ter brincado, quando abri a porta do forno e vi o enorme pedaço de carne que assava no tabuleiro. – Meu Deus, mãe! Somos só nós três para o almoço! Você e papai vão comer sobras por dias!
Ela parecera um pouco desconcertada, mas prosseguira em sua ação de apanhar um monte de talheres na gaveta. Aquilo deveria ter me alertado de que não seria só a nossa família no almoço.
– Na verdade, convidei os Black para celebrarmos sua volta.
Tendo dito aquilo, ela se retirara rapidamente para a sala de jantar, e com boa razão, pois era certo que meu rosto tinha espelhado de forma muito eloquente o que eu sentira. Teria sido demais esperar que minha mãe não tivesse incluído Jacob no convite. Era óbvio que o incluíra! Eu ficara imaginando se Sue, a mãe de Jake, também não estaria envolvida naquilo. Nenhuma das duas se mostrara discreta em expressar seu pesar sobre nosso rompimento, mas aquele nível de interferência, em que estavam bancando o cupido, elevava tudo a um novo patamar.
Lembro de ter me questionado sobre a possibilidade de Jacob estar tão no escuro quanto eu.
Ah! Aquele seria um almoço encantador, eu pensara.
Foi quando ouvi, vindo da sala de jantar, o grito agudo e angustiado da minha mãe. Larguei as luvas protetoras e corri até ela, toda a raiva desaparecendo enquanto eu ia em seu socorro. Em minha disparada pelo corredor, imagens horríveis de ferimentos e ataques cardíacos me acompanhavam. Mas o que eu encontrei não foi minha mãe fisicamente debilitada. Em vez disso, ela estava de pé à cabeceira da mesa de jantar de madeira polida, tendo os talheres jogados diante de si, na forma de uma brilhante montanha de prata.
– Mãe, o que foi? Qual o problema? – perguntara eu, vencendo rapidamente a distância até ela.
Lembro-me de ter ficado apavorada, porque sua expressão era de agonia e atordoamento, e lágrimas desciam como velozes riachos por seu rosto cuidadosamente maquiado.
– Não consigo fazer isto – gemeu ela, transparecendo medo e desespero.
Olhei ao nosso redor, confusa.
– Fazer o quê? O que a senhora não consegue fazer?
Eu não podia ver naquela sala de jantar tão conhecida nada que pudesse ser a causa de tamanha aflição. Tudo parecia absolutamente normal – exceto, claro, minha mãe. Nela, nada estava normal. Nada mesmo.
– Não consigo fazer isto – repetiu ela, aos soluços, enquanto agitava a mão à sua frente, indicando os talheres que aguardavam. – Não consigo pôr a mesa. Sumiu… simplesmente sumiu.
Claro que depois déramos risada daquilo. Tínhamos de dar. Eu a acalmara e também arrumara a mesa eu mesma, e tão logo a tarefa fora concluída, ela estava controlada e parecia quase normal novamente. Acho até que fizemos uma piada boba sobre o incidente – inacreditavelmente – quando Jacob e os pais chegaram para o almoço. Suponho que, se tivéssemos agido de outra forma, teríamos aberto a porta para o demônio mais cedo do que precisávamos. Mas ele estava a caminho, e não demorou muito para que se tornasse um visitante indesejado e frequente em nossa casa.
Tinha começado.
Como acontecia com frequência após tais episódios, nos dias seguintes à peregrinação a seu antigo local de trabalho, minha mãe parecia muito mais sossegada e conectada com o presente. Ela até exprimiu vontade de pintar e, enquanto meu pai montava o cavalete, a tela e os pincéis, ferramentas do antigo trabalho da esposa, o olhar que dirigiu a mim dizia de forma eloquente: "Está vendo? Tudo está bem agora."
Eu me perguntava se ele acreditava mesmo naquilo.
Jacob, ao menos, pôde me oferecer seu apoio, ainda que apenas por meio de uma demorada conversa tarde da noite ao celular, que ambos provavelmente lamentaríamos quando recebêssemos a conta, no mês seguinte.
– Temos que apoiar o que o seu pai acha que é o melhor – disse ele, de modo sensato.
– Eu sei – concordei, com um suspiro. – Mas e se eu não a tivesse encontrado? E se na próxima vez ela se perder, se machucar… ou acontecer algo pior? Ele nunca se perdoaria se alguma coisa assim acontecesse.
Fez-se silêncio na linha e por um momento me perguntei se a ligação tinha sido cortada. Então, quando Jacob falou, havia tristeza em sua voz.
– Você não pode viver assim, com medo dos "e ses". Não pode prever o futuro, só fazer o melhor com o que tem, enquanto tem. Tudo pode mudar com tanta rapidez…
Sua voz falhou, e fiquei imaginando se ele de repente se arrependera do rumo que a conversa tomara. Era inevitável que suas palavras nos fizessem pensar em Rosalie. Mas ele estava certo. Rose abraçara a filosofia do "viva o hoje, porque o amanhã não depende de nós".
Conversar com Jake me deixou mais calma e equilibrada. Ele tinha razão sobre muitas coisas: sobre meus pais, sobre não nos preocuparmos com o futuro e também sobre nós dois.
– Não quero esperar muito para reagendarmos o casamento – disse ele.
– Mas as pessoas não pensarão que é errado ou desrespeitoso, se nos casarmos cedo demais?
– Dane-se o que os outros pensam! Isso é sobre mim e você. E, vamos ser francos, você acha que isso teria preocupado Rosalie? Teria?
Balancei a cabeça negando, o que era uma coisa idiota a fazer ao telefone. Mas, de repente, senti um aperto na garganta, porque eu quase podia ouvir a voz de minha amiga dizendo o que Jacob acabara de dizer, só que de uma forma ainda mais expressiva.
– Está bem. Vamos falar sobre isso quando você voltar – concordei.
Sentei-me à mesa da cozinha na manhã seguinte, virando e revirando em minhas mãos o pequeno pacote marrom, com cautela, como se ele contivesse uma bomba prestes a explodir.
Bufei, impaciente, diante de meu disparate. Era um livro. Apenas um livro. Eu lidava com centenas deles todos os dias. Eu estava sendo ridícula.
Se não tivesse conseguido descobrir nada mais durante o fim de semana da Páscoa, ao menos uma coisa teria ficado clara: por algum motivo – e eu tenho certeza de que tinha relação com a forma como nos conhecemos –, eu achava que Edward era estranhamente fascinante, e essa conexão funcionava como os polos de um ímã: me atraía e me repelia. Portanto, a última coisa que eu precisava fazer era permitir que ele entrasse mais fundo em minha cabeça quando eu lesse aquele livro.
Eu deveria jogar o pacote ainda fechado na lixeira da cozinha, não ter mais nenhum contato com ele e deixar que meus sentimentos confusos desaparecessem. Simples assim. Então, por que foi que ouvi um leve ruído de papel sendo rasgado e percebi que meus dedos – seguindo seus próprios planos – haviam aberto o pacote?
Era uma edição de capa dura, preta e reluzente, com aplicação de verniz e um belo trabalho de arte. Eu a abri e li o elogio na capa, que não me revelou nada que eu já não tivesse descoberto na internet, quando a encomendei.
Passei à quarta capa.
Minha respiração ficou presa na garganta enquanto eu olhava a foto do homem que me salvara: Fora tirada ao ar livre, e ele estava sorridente e descontraído, encostado em uma árvore. Atrás dele, era possível ver uma cerca de madeira. A calça jeans, a camisa de colarinho aberto e as botas completavam a imagem de caubói que eu imaginava que o fotógrafo tivesse buscado.
Edward parecia um pouco mais jovem no retrato, e o cabelo estava um pouco mais comprido. Também era possível que, naquela imagem, os pequenos sulcos que se irradiavam de seus olhos quando ele sorria não estivessem tão pronunciados quanto no outro dia, enquanto ele me olhava, mas, fora isso…
Fechei o livro de modo estrepitoso, como se uma serpente tivesse acabado de aparecer em meio às suas páginas.
E é por isso que eu deveria simplesmente ter jogado o livro na lixeira, pensei, desconsolada. Porque, por alguma razão, estar perto de Edward – ou mesmo olhar sua foto, ao que parecia – exercia em mim um efeito tão intoxicante quanto o de uma droga – e quase tão perigoso quanto. Antes que aquele vício irracional se tornasse ainda mais forte, eu precisava me livrar dele e me concentrar nas coisas que de fato importavam para mim: minha família, meu noivo, meus amigos e a volta a algum tipo de normalidade depois da perda de Rosalie.
E como se fosse prejudicial até mesmo tocar o livro, eu o carreguei pela cozinha segurando-o por um dos cantos apenas; portanto, não foi nenhuma surpresa que ele escorregasse de meus dedos e caísse no chão. Abaixei-me para apanhá-lo, então notei que caíra aberto na página da dedicatória. Devo ter ficado agachada por um tempo considerável, ao menos o suficiente para que minha panturrilha começasse a protestar. No entanto, ainda assim, meus olhos continuaram fixos nas três linhas de texto da página aberta à minha frente.
"Para Tanya, minha amiga, minha amante, minha inspiração e minha esposa.
Para sempre, Edward."
Pessoal, essa semana eu tive a desagradável experiência de ir parar no hospital por conta de uma infecção urinária que subiu para os rins, fora que também descobri pedras na vesícula, vê se pode? Acho que ando sedentária e com péssimos hábitos alimentares. Então, estou me recuperando e talvez precise de uma cirurgia simples, e pode ser que atrase um ou outro capítulo. Até a próxima!
Edit 2: A dor é de lascar.
