Loucura, por Elyon Somniare


Capítulo II – Sem Lágrimas
Cáspian, sentando de costas para o fogo, reprimia o sono e observava o que o rodeava com atenção redobrada. Fazia tudo como lhe tinham ensinado nos treinos. Ele de um lado do grupo, Siena do outro. Ambos calados, à escuta, lançando o olhar para lá da negrura da noite. O Mestre ensinara as posições chave de vigília. Dissera-lhes que a atenção era salvação certa de uma emboscada. Mas se era assim, porque aquele receio?

- É a floresta. São os sons – respondeu Siena num tom sonolento.

- Mas não há sons! Não se ouve nada! Só este silêncio...

- Por isso mesmo. Qual a Floresta sem sons? – esclareceu a dragão, desta vez com um bocejo a acompanhar as palavras. – É anormal.

- Não adormeças!

- Claro que não.

- Que barulho foi este?

Cáspian levantou-se, muito direito, com a mão no cabo da espada e o batimento cardíaco acelerado. A escolha de terem poisado ali cada vez mais lhe parecia ter sido uma péssima ideia e já se arrependia de ter votado a favor. Não era um homem medroso, mas via-se obrigado a reconhecer que a imagem daquelas árvores altas e negras, em cujos troncos dançavam as sombras que o lume provocava era tenebrosa... Uma sensação realçada pelo silêncio anormal e pelos flocos de neve, tão brancos e sombrios, que desciam em espiral do céu nocturno.

- Não ouvi nada – respondeu Siena. – Quanto falta para a ronda do Galbatorix e do Gareth?

- Pouco, uma meia hora – elucidou-a Cáspian, voltando a sentar-se. De facto, não se ouvia nada... Provavelmente impressão sua...

- Ainda bem...

- Dorme agora se quiseres – sugeriu Cáspian. – Estás fatigada e eu posso muito bem fazer o pouco que falta da vigília sozinho.

- Mas o Mestre...

- Temos feito tudo o que Mestre diz. Os Urgals não atacaram até agora. Porque iriam fazê-lo precisamente na meia hora em que estou só eu? Além disso, sou um Cavaleiro rodeado por três dragões e outros dois Cavaleiros. A um grito meu estamos todos de pé a dizimar aqueles bastardos.

- Não uses essa linguagem!

- Dizimar ou bastardos?

- Bastardos! É feia e não gosto dela.

- Como queiras, meu amor – acedeu Cáspian com ternura. – Agora dorme. Daqui a pouco acordo Galbatorix.

Siena expeliu duas finas colunas de fumo das narinas num gesto de gratidão e fechou os olhos. Pouco depois, a sua respiração lenta e pesada juntou-se às dos outros dragões. Cáspian não pode deixar escapar um sorriso ao ver que mesmo a dormir, Siena conseguia manter uma pose elegante, ao contrário dos outros dois da sua espécie, que dormiam de qualquer maneira.

Cáspian fitou o vazio da Floresta durante mais algum tempo... Já seriam horas de acordar Galbatorix? Não, ainda não. Mais um pouco ainda. Tinha as mãos geladas, quase que as não sentia... E se se aquecesse um pouco na fogueira? Implicaria virar as costas à Floresta e aos possíveis inimigos que se poderiam ter refugiado nela, mas de certo modo, eles estavam rodeados de Floresta. Tanto fazia para que lado se virava.

E como poderia lutar em caso de ataque se nem sinto os dedos, pensou, juntando o feito ao pensamento. Estalou a língua de prazer ao sentir o calor inundar-lhe os dedos dormentes. Precisava de se preocupar menos. Estavam só numa floresta, mais nada, que mal poderia acontecer?

Um cheiro quase insuportável, acompanhado por várias sombras corpulentas que emergiam da orla da floresta, respondeu à pergunta. Cáspian levou, pela terceira vez, a mão à espada, soltando um grito e acordando Cavaleiros e Dragões.


A espada silvou no ar, juntando mais um Urgal aos cadáveres que jaziam na neve, agora enegrecida pelo sangue grosso e escuro dos Urgals que escorria por toda a clareira. Como que num sonho, Galbatorix nada via e nada sentia. Nem frio, nem calor, nem cansaço, nem sono. Era uma batalha desigual, Gareth perguntava-se como era possível que os Cavaleiros nunca tivessem feito uma razia por aqueles lados. Estar-se-iam a tornar demasiado burocráticos? Uns metros mais à frente, Gwydion caiu, juntando-se a Balin, já abatido no início da batalha com vários cortes profundos na barriga. O rugido de Siena ao vazamento do olho direito estremeceu as copas das árvores, fazendo um bando de pequenas aves fugiram em bandos.

- Galbatorix! Não os vencemos, diz ao Cáspian para se agarrar a Siena e vamos voar daqui para fora! – desesperou Gareth, esturricando, literalmente, quatro Urgals. Rugiu ao sentir o frio do aço de uma espada dupla na cauda.

- A Siena não consegue voar – limitou-se a responder Galbatorix. Baixou-se, esquivando-se à moca de um novo Urgal. Com um movimento extremamente rápido para um ser humano, cortou-lhe a cabeça, encarando o próximo adversário. – Cortaram-lhe uma das asas.

Dois Urgals esventrados. Gareth piscou os olhos, deixando rolarem algumas lágrimas, enquanto se lançava ao próximo esventramento. Privar um Dragão de voar era... As garras escorriam sangue dos Urgals que pereciam às suas patas. Baptismo de sangue não era, ali, uma expressão. Nunca Gareth imaginara que a sua estreia nas batalhas fosse tão... pegajosa.

Um novo urro, acompanhado por um grito de desespero. Siena caiu, esmagando um Urgal demasiado lento para fugir a tempo. Uma seta saía do seu focinho e varias feridas escorriam sangue. Estava morta. Cáspian, estático, parecia ter perdido a alma. Depois, o grito de desespero e, finalmente, a fúria incontrolada. Uma dezena. Era o que restava do inimigo.

- Sobe para as minhas costas. Vamos embora AGORA!

- E o Cáspian?

- Para ele já não há salvação.

Galbatorix, relutante, seguiu as indicações de Gareth. Não queria deixar Cáspian. Não queria abandonar a batalha. Nunca se sentira tão... vivo! Mecanicamente, matava-os. Fazia-o facilmente, sem qualquer dor ou sentimento, sem sentir o mais ínfimo pudor físico ou mental. Era poderoso. O que outros criavam, ele tinha o poder de destruir, de matar. Ele era... Ele! O que podia fazer apenas com a poderosa arma que era ele próprio! Ele tinha poder, era ele, Galbatorix, algo, alguém, que queria, e que por querer, podia, tinha! Ele era... faltava-lhe a palavra... a definição...

Gareth elevou-se repentinamente, esmagando com a cauda um último Urgal. Cinco, eram os que restavam. Cáspian ocupava-se do quinto. Os outros quatro... Galbatorix sentiu-se cair no vazio.

- SOBE! AFASTA-TE DAQUI!

Mas Gareth não estava em condições de uma saída rápida e precipitada. As feridas nas asas sangravam com abundância. Várias setas silvaram no ar. Gareth fechou os olhos, num esforço titânico para tirar Galbatorix dali, daquele malfadado local. Já só restavam três Urgals. Cáspian permanecia de pé, mas com que vida? Os olhos, em chamas, pareciam poder, só de si, trespassar uma companhia de Urgals. Que restaria no final?

Não houve segunda saraivada de setas. Apenas duas, solitárias. Gareth rugiu, largando uma espessa coluna de fogo e precipitando-se na direcção do solo. Podia sentir Galbatorix tentando conter as lágrimas. Ambos sabiam. Ambos sabiam...

Antes que o Dragão tocasse no chão, Galbatorix saltou, agora também ele com a mesma motivação de Cáspian. Dois Urgals. Um para um. Não durou um minuto. Não houve hipótese para nenhuma das duas criaturas. Nenhum dos Cavaleiros olhou para o outro. Balin e Gwydion dormiam, juntos, para toda a eternidade. Siena, privada da asa esquerda e de pálpebras fechadas, jazia a pouca distância. Cáspian olhou de Balin e Gwydion para ela, fixando-a durante algum tempo. Aproximou-se da Dragão, ainda de espada em punho. Beijou-a entre os olhos.

- Meu amor... – murmurou. Suspirou e elevou a espada ao nível do colo (i). Uma fina linha de sangue escorria-lhe ao longo do pescoço, quando o corpo do Cavaleiro tombou ao lado do da Dragão.

Galbatorix assistiu, sem interferir. Procurando a coragem que há tão pouco tempo estalava do seu peito (onde estaria ela agora?), voltou-se, encarando a figura moribunda de Gareth. Deitado de lado, uma seta saía-lhe do peito. Do coração. Não estava moribundo. Estava morto.

Recomeçou a nevar. Em breve a neve cobriria aqueles que ali haviam falecido, tornando-se no mais puro, branco e natural de todos os túmulos jamais construídos pelas mãos toscas dos Homens ou qualquer outra espécie. Mas isso, pouco importava ao jovem homem que tão brutalmente fora obrigado a crescer naquele pequeno espaço, em que tudo ficara perdido para ele. Sem amigos, sem Dragão... sem o seu Dragão, a sua vida, o seu amor, parte de si mesmo... Não haviam palavras que pudessem descrever aquela dor. Não havia lágrimas que pudessem acompanhar aquele desespero.

O silêncio voltou a reinar na clareira, agora infestada de corpos sem vida. Urgals. Cavaleiros. Dragões. Um homem sem lágrimas.

(i) Quando digo "colo" refiro-me ao colo do pescoço.


N/A: Eu sei que demorei, mas pensemos pela positiva, tneho aqui fics que demoro ainda maisP, como a Guerra de Clãs, que eu já estou com um sindrome de culpabilidade ENORME e mesmo assim não arranjo força para actualizar... que culpa tneho se tou sem ideias para a historia --'? Mas voltando à fic em questão, espero que tenham gostado do novo capitulo e que eu tenha consegudo transmitir o horro e desespero de tudo aquilo. Custou-me tanto ter de "matar" os companheiros do Galbatorix! Afeiçoei-me a eles logo no 1º capitulo... a culpa é do Paolini, ele é que determinou que eles morriam

Ah, o capitulo não tá betado, a minha beta anda carregada de testes e eu resolvi dar 1a folguinha (desconto-te dp nas ferias de verão, Sofi). Bjs;P

Lua Azul: Oié! Fixe k tas a acompanhar e a gostar! Bem, ele nao vai ficar lg mau no inicio da viagem, axo k vai ficar mas é maluko, dp 1 maluko perigoso, e só kd lhe negam o novo Dragão é k deve ficar malevoloP, mas n sei, o Paolini é k sabe as coisas tds certinhas, ne? Perfida? Tenho 2 irmaos mais novos, o k significa k para exa parte poxo recorrer e exas inspirações cara de mazona muahmuahmuahmuah. O thanks tb plo elogio sobre a escrita, é o melhor k m podem fazerD

Sofisofas:E supoes tu mt bem, cm podes confirmar pelo novo capitulo. Tb tive monts d pena do Gareth... mas tive ainda mais neste, aí, eu nao os keria mm matar! Será k os poxo reutilizar em outras historias? Humm... Bjs;P