Loucura, por Elyon Somniare


Capítulo III – Reminiscências


Levantara-se vento. Um vento frio, cortante, que o acompanhava nas suas passadas pela neve. Estava perdido naquela floresta. Para onde ir? O que fazia?


- Ele tem capacidades – argumentava o Cavaleiro aos pais, que se sentiam temerosos em o deixar partir. – É um poder em bruto!

- Mas o Galbatorix... o nosso menino...

- Minha senhora, não o vamos roubar de si. Ele virá visitá-los nos dias de folga.

- Não é isso, senhor Cavaleiro – tentou explicar o pai. – O Galbatorix é demasiado confiante nele mesmo, temos medo que...

- Se ele é demasiado confiante, então o treino de Cavaleiro é o melhor para ele! Aquilo não é para fracotes. O rapaz tem potencial e nem mesmo os pais têm direito de privar Alagaësia de ter um bom Cavaleiro do Dragão para a proteger.


Um, dois, um, dois. Um pé e depois outro. Sempre igual, sempre compassado. Sentia as botas a enterrarem-se na neve, levantando-se em seguida para dar o próximo passo. Sentia os salpicos de neve que isso provocava. Sentia a respiração ofegante e condensada, que parecia fumo ao sair da boca entreaberta. Fumo das narinas de um Dragão...


Viu, fascinado, o ovo a rachar. Fizera-o para ele, Galbatorix, e para mais ninguém. O seu Dragão. Era parte de si mesmo, se não ele mesmo.

A cabeça escamosa espreitou para fora das cascas do ovo, piscando um enorme olho cor de laranja e observando tudo com curiosidade.

- Toca-lhe – ordenou-lhe o Cavaleiro que vigiava o eclodir do ovo.

- Quê? – balbuciou Galbatorix, de olhos fixos no dragão bebé que saia agora do ovo, escorregando numa das cascas. Parecia-lhe uma criatura tão frágil... Se lhe tocasse... Tinha medo que ao faze-lo o magoasse!

- Ele não vai desaparecer – gracejou o Cavaleiro. – Precisas de o tocar para formar o vínculo entre o Cavaleiro e o Dragão. Não custa... muito.

Galbatorix ignorou o tom sarcástico do Cavaleiro mais velho. O dragão explorava agora o tampo de madeira da mesa onde nascera. Sim, vendo bem, não era assim tão frágil... E as escamas, brilhantes, pareciam chamar ao toque... Como dizer não?

Soltou um grito. Um turbilhão de sentimentos invadiu-o. Curiosidade. Fome. Ânsia de ar livre... Sentia a palma da mão a formigar! Via, claramente, a mancha prateada a desenhar o formato de um dragão na palma da mão. Então era assim que eles ficavam com aquela mancha identificadora!

- Vês como não custou nada? – voltou a gracejar o Cavaleiro. – Tens carne naquele armário para lhe dares, ele deve estar cheio de fome. E tem cuidado, não te deixes perder na mente dele.

- Como... como é que se chama?

- Isso decidem depois vocês os dois. Quando ele tiver idade suficiente para falar.


Vroengard. Precisava de chegar a Vroengard. O Conselho... o Conselho... Porque sentia tanto frio? E porque...? Sabia que havia uma vila antes da entrada da Floresta. Haviam-na sobrevoado quando o Sol se estava a pôr... Tinha dito aos amigos que não valia pena pararem ali... Podiam voar mais um pouco... A vila ficava tão perto num dorso de Dragão, porquê que demorava, agora, tanto tempo a lá chegar? Sentia as pernas pesadas, rígidas. Só a muito custo lhe obedeciam... Alguma vez teria Gareth sentido assim as asas? Sentia o corpo a fugir-lhe do controlo... como já estava a mente... O Conselho... Precisava de ver o Conselho, precisava de os obrigar a fazer alguma coisa... Alguma coisa havia de ser feito, sim, alguma coisa...


Galbatorix conteve um grito de euforia. O ar lambia-lhe a cara e o som suave e reconfortante das asas de Gareth assegurava a segurança do voo... Do seu primeiro voo...

«Mal posso acreditar que estás finalmente forte para me levares num voo!», exclamou, em pensamento, para o Dragão.

«Queres que faça um pirueta, para teres a certeza?», retorquiu Gareth com ar bonacheirão.

«Sim!»

«Não estava a falar a sério, Gal.»

«Estavas sim! Que mal há nisso? E não me chames "Gal".»

«Como queiras, Gal.»

«Ei!»

«Pronto, pronto. Não te chateies». Galbatorix sentiu o companheiro a rir, tremendo todo. «Ainda não temos perícia suficiente para uma pirueta, podia deixar-te cair. Contenta-te com o teu voo inaugural... Com o nosso voo inaugural como Dragão e Cavaleiro.»

Galbatorix não conteve um sorriso malandro. Sabia que Gareth ainda não tinha tido a permissão para o levar num primeiro voo...


As árvores iam desaparecendo... A pouco e pouco... A floresta... dava lugar ao descampado... à vila... à habitação... à salvação... E a salvação... conduziria ao... Conselho... ao Supremo Conselho... ao Conselho dos Cavaleiros... Que fazer? Que "alguma coisa" era essa que teria de ser feita...? Realizada? Um... Dragão... um novo... precisava de... um novo... Dragão... Outro Gareth? Não... não... Gareth seria... o Gareth... Sempre Gareth... nenhum outro receberia o seu nome... Gareth...


Gareth estava animado com a viajem e Galbatorix bem o sabia. Apesar de tal não corresponder à verdade, não resistiu a lançar umas piadinhas sobre a companhia de Siena, recebendo um rugido amigável e duas finas colunas de fumo em troca. Sabia perfeitamente que Gareth se sentia mais atraído por Lenora, apesar de este negar veementemente. As suas atitudes desastradas e a maneira como seguida a jovem Dragão com o olhar desmentiam-no. Já Lenora...

De uma maneira ou de outra, tanto Cavaleiro como Dragão não se podiam queixar da viajem de reconhecimento que lhes tinha sido atribuída (qual o Cavaleiro e Dragão que não desejam partir imediatamente em missão mal se vejam formados?) e muito menos dos companheiros: Cáspian, Siena, Balin e Gwydion eram dos aprendizes, agora ex-aprendizes, com que melhor se davam. A partida, seria eufórica para os seis...


A vila... As primeiras casas... Mais uns passos e... estaria lá... O gelo desapareceria... Beberia algo quente que... lhe pudesse aquecer o corpo... Iria a Vroengard... Aí... aí aqueceria o frio interior... que o consumia agora... como uma chama gelada... quase impossível de apagar... Quase? Impossível...? Que... importava?

Ouviu os gritos de alguns homens que saíam da Taberna, aproveitando o dia de folga. Sentiu-se cair... Deixou de pensar, sentir, querer... e tudo ficou escuro, escuro... Escuro e negro, como a noite, como se sentia, como era agora o seu ser... Sim, teria um Dragão escuro e negro, como era ele agora. Galbatorix. Escuro e negro.


N/A: A Ilha de Vroengard é o lar dos Antigos Cavaleiros.

N/A2: Infelizmente não tenho muito tempo (exames) por isso não vou poder responder às reviews, mas agradeço aos k mandaram, valeu, hein? Bjs;P