Notas Iniciais da Autora (NIA)

Mais um capítulo postado!
Demorei um pouquinho graças à correria do dia-a-dia. As provas não ajudam muito, sabem?
Bom. Esse capítulo envolverá Lorde Elrond e sua filharada (Elladan, Elrohir e Estel)!
Falará do Legolas, claro! E terá uma pequena parte onde ele aparecerá... Mas, mais detalhes sobre o elfo loiro, só no próximo capítulo!

Observações: as linhas pontilhadas indicam mudança de tempo e local.
as linhas de "
x"... Bem... essas vocês descobriram sozinhos o que elas indicam... e, se não descobrirem, falarei no próximo capítulo.
os
ooo indicam Flashback!

No final do capítulo, terá uma parte do texto que estará sublinhada. Não é porque a cena não existe ou porque foi imaginação, é que essa cena acontecerá mais de uma vez (duas, para ser exata) nesse capítulo. Então é importante prestar muita atenção!

Boa leitura!

Ps: Agradecimentos no fim do capítulo, ok?

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Passos Calculados de um Destino Incerto

Rivendell era, sem dúvida, o lugar mais lindo de toda a Arda. Naquele dia específico, uma delicada chuva abençoava o local, enquanto Lorde Elrond observava maravilhado, o encanto de suas terras.

"Ada!"

A voz angustiada de Elladan despertou Elrond. O curador observou, preocupado, o filho correr até ele, arfando e segurando uma carta na mão direita.

"O que aconteceu, ion-nîn?"

"Carta de Mirkwood!" Ofegou Elladan. "É de um dos curadores de lá!"

"O que diz na carta?"

"Ele quer que você vá para lá! Ajudar..." O elfo parou por um instante, pensou, abriu a carta e releu, corrigindo seu erro e continuando a frase logo em seguida. "... Cuidar do Legolas!"

Elrond franziu as sobrancelhas e encarou o filho.

"Cuidar do Legolas?"

"Sim!"

"Porque?"

"Ahn... De acordo com a carta, ele foi envenenado..."

"Envenenado?"

"Aham!"

"É urgente?"

"Muito!"

E, sem esperar mais nenhuma palavra, Lorde Elrond correu para os estábulos, acompanhado de por Elladan.

"Posso ir com você, ada?"

"Não, não pode! Estaríamos brincando com a paciência, já inexistente, do Thranduil. Você fica aqui, com Elrohir e Estel! E... Se eles perguntarem alguma coisa, conte a verdade! Conte sobre a carta e sobre Legolas, entendeu?"

"Mas..."

"Entendeu?" Repetiu Elrond.

"Ada..."

"Elladan! Você me entendeu?" Perguntou o pai, elevando o tom da voz.

"Não posso, ada! Você conhece o Estel! Ele vai..."

"Mas pela paciência que me resta! Quero que conte a verdade para eles! Estel não vai nada! Entendeu?"

Dessa vez, porém, Elladan não respondeu.

"Elladan! VOCÊ ME ENTENDEU?" Gritou o curador, finalmente perdendo a paciência.

"Entendi... Ada..." Murmurou o gêmeo, baixando a cabeça.

"Ótimo!"

Os dois elfos pararam na porta do estábulo e foram imediatamente notados por outro elfo, que trabalhava por lá. Ele se aproximou rapidamente, tropeçando nos próprios pés.

"O que meu querido Lorde faz nos estábulos?" Perguntou o elfo, fazendo uma reverência um tanto exagerada.

"Preciso de um cavalo! O melhor que tiver aí! Rápido!"

Com outra reverência exagerada, o elfo se afastou tão rápido como havia chegado.

"Agora me escute, ion-nîn. Não sei em que encrenca Legolas se meteu dessa vez, mas espero que não seja nada incorrigível. Mandarei algumas cartas para deixá-los informados do que acontece por lá. Conte aos seus irmãos a verdade, mas não os faça se desesperar! Voltarei assim que possível e, se a sorte estiver ao meu lado, trarei Legolas comigo, para passar uns dias aqui!"

Elladan sorriu e acenou positivamente com a cabeça, mas não levantou o olhar.

"Perdoe-me se fui indelicado, criança." Desculpou-se Elrond, segurando o rosto do gêmeo, delicadamente, com as duas mãos, obrigando-o a encará-lo.

"Tudo bem, ada. Vá logo e ajude nosso amigo encrenqueiro!" Disse Elladan, colocando um sorriso divertido nos lábios.

Sorriso esse, que o pai não hesitou em corresponder.

"Com licença?" A voz tímida do elfo que se aproximara instantes atrás chamou a atenção dos outros dois elfos.

"Sim?"

"O seu cavalo, meu senhor..."

Um corcel branco aguardava, pacientemente, atrás do elfo, que o segurava pelas rédeas.

"Obrigado, meu jovem!" Agradeceu Elrond sorrindo para ele.

Com um sorriso e uma reverência mais simples, o elfo se afastou novamente. O curador voltou seus olhos para o filho, que ainda o encarava.

"Cuide de tudo enquanto eu estiver fora, ion-nîn. Se aparecer algum problema, use sua experiência para cuidar das dificuldades! Confio em você, criança. Tentarei não demorar!"

E, com um sorriso, Elladan atirou os braços ao redor do pai.

"Vamos esperar vocês dois, ada. Você e o Legolas!"

Elrond sorriu, retribuindo o abraço e deslizando as mãos pelas costas do filho.

"Trarei ele comigo! Tentarei, pelo menos."

O gêmeo soltou-se do abraço e deu três passos para trás. Dando espaço para que o pai montasse no cavalo. Percebendo que o filho tinha se afastado, Elrond montou no cavalo, que deu alguns passos aleatórios até se acostumar com o elfo.

"Voltarei logo, ion-nîn! Cuide de tudo!"

E com um grito e uma leve pressão com as pernas, Lorde Elrond pôs o cavalo correr.

Elladan observou o pai se afastar rapidamente, viu-o desaparecer no horizonte e pôde escutar o barulho dos cascos do cavalo. Até que tudo que restou foi as marcas das patas do animal no chão do estábulo.

"Tôr!(irmão)" Elladan ouviu a voz, inconfundível, de Estel e virou para encará-lo. Ele vinha correndo acompanhado por Elrohir. "Onde o ada foi?"

Elladan continuou calado. Teria que desobedecer a uma ordem direta do pai. Sabia que não poderia confiar em Estel. Se soubesse da verdade, o humano não pensaria duas vezes antes de ir até Mirkwood, atrás do amigo elfo.

A amizade de Estel e Legolas era tão forte, que chegava a ser perigosa. Conheceram-se quando Estel ainda era criança e a admiração que o humano desenvolveu pelo elfo era de certa forma, assustadora. Brigava com os irmãos para provar o valor do elfo loiro, discutia com Glorfindel quando esse dizia que Legolas era um problema para Rivendell, vivia do lado do elfo quando ele visitava Rivendell e ficava dias deprimido e encolhido num canto, quando o príncipe de Mirkwood ia embora. Depois que Estel cresceu, começou a aceitar o fato de que Legolas não poderia ficar ao seu lado para sempre. Quando o loiro visitava Rivendell, conversavam e riam juntos, quando ele ia embora, se despediam normalmente, e Estel retomava as atividades diárias sem praguejar e sem se encolher num canto qualquer. Aguardava, pacientemente, o retorno do elfo, mas ainda brigava com os irmãos e discutia com Glorfindel quando esses ousavam criticar Legolas.

Contar a verdade era o que Elladan não ousaria fazer.

"Ada recebeu uma carta do Lorde Celeborn! Ele foi até Lothlorien... Só isso. Logo voltará!" Mentiu Elladan, sorrindo.

Estel sorriu de volta, acreditando nas palavras do irmão. Elrohir, no entanto, encarou o gêmeo mais velho com um ar profundamente desconfiado.

"Deixe-me ler a carta!" Ordenou.

Elladan surpreendeu-se.

"Quem é você para me dar ordens?"

"Deixe-me ler a carta!" Repetiu Elrohir.

"Não! Ela não interessa á você!"

"Interessa a mim tanto quanto interessa a você!"

"Ou seja: nada!"

Elrohir encarou o irmão irritado. Elladan retribuiu o olhar assassino.

"Se não te interessa, porque está com ela, agora?"

"Porque o mensageiro entregou-a a mim! E porque eu mostrei-a para o ada. E ele pediu-me para tomar conta do reino!"

Elrohir abriu um sorriso malicioso e assustador.

"Está nervoso, tôr... Estará nos escondendo alguma coisa?"

Elladan engoliu o nada que estava na sua garganta e encarou o irmão com o melhor olhar mortal que conseguiu fazer naquele momento. Olhar mortal que não ficou nem um pouco convincente.

"Não escondo nada!" Rugiu entre dentes.

E observou, aterrorizado, o sorriso de Elrohir aumentar.

"O que prova que você esconde!"

"Como?"

"Negação... Um dos primeiros sinais do desespero!" Explicou o gêmeo, com um ar vitorioso e divertido, para logo em seguida assumir uma cara estranhamente séria e apontar um dedo acusador para o irmão. "Está nos escondendo algo importante, Elladan! Fale o que é!"

E Elladan, derrotado, virou-se para Estel.

"Tôr, posso falar um minuto com Elrohir?"

"Claro!" Respondeu Estel, imediatamente, se afastando dos irmãos.

Elladan garantiu que Estel não escutaria a conversa e estendeu a carta para Elrohir.

"Leia..."

E Elrohir leu.

Um silêncio estranho caiu sobre o lugar, enquanto o gêmeo mais novo lia a carta. Seus olhos se arregalavam a cada linha e quando ele, finalmente, terminou de ler, olhou para Elladan com o medo estampado no rosto.

"Será que é, realmente, tão grave assim?"

"Não sei... Um curador não costuma exagerar na descrição de doenças ou dos efeitos causados por elas. Para não assustar muito os outros, sabe?"

"Mas... Mas..."

"Eu sei, tôr-nîn (meu irmão), também não quero acreditar..."

Elrohir ficou calado, enquanto relia a carta para ter certeza das palavras que dançavam em sua mente,

"Porque não quer mostrar ao Estel?" Indagou.

"Conheço Estel... Se souber da verdade, não pensará duas vezes antes de ir até Mirkwood..."

"Thranduil não pode impedir Legolas de ver os amigos!"

"Pode... Pode porque é o pai dele. Mas a preocupação maior de Thranduil, é o fato de que esses 'amigos' podem roubar o afeto que Legolas sente por ele..."

"Como sabe disso?"

"É uma questão de lógica, tôr." Explicou Elladan, assumindo, de repente, um ar muito sério. "Thranduil não assume o amor que tem pelo filho. Thranduil não o admite. Mas o sente. E isso o faz agir de forma tão... possessiva em relação às ações do filho. Ele quer fazê-lo sofrer, quer vê-lo chorar para que, assim, Legolas deixe de amá-lo e peça para ir embora... Mas ele não sabe que isso nunca acontecerá. Legolas o ama, apesar de tudo. E é isso que o rei não enxerga."

Elrohir escutou, admirado, as palavras sábias do irmão.

"Thranduil, ao mesmo tempo em que quer ver o filho odiá-lo com todas as suas forças, quer que o filho o ame. Quer que o filho não fique perto de pessoas amadas, para que assim não divida o afeto que sente por ele com essas pessoas. Thranduil é possessivo demais. O ódio e o amor dele estão totalmente voltados para Legolas. Ao mesmo tempo, nos mesmos instantes. Em todas as horas, todos os minutos de um dia. E isso o faz enlouquecer. Querendo prejudicar o filho ao mesmo tempo em que quer fazê-lo ser feliz e ajudá-lo nas dificuldades. Infelizmente, em Thranduil, assim como eu muitas pessoas, o ódio supera o amor. E ele prejudica Legolas mais do que o ajuda... Temo por ele. Não sei quanto tempo mais Legolas irá suportar..."

E, nessa altura, Elrohir simplesmente achou que quem tinha ido para Mirkwood era o irmão e, quem estava ali, conversando com ele, era o seu pai.

"Você falou igual ao ada... Palavras sábias... Entendo porque ele mandou você cuidar do reino. Você é sábio... Como ele."

"Não, tôr. É porque sou mais velho." Esclareceu Elladan, não notando a súbita mudança de assunto. "Posso ser sábio como ele. Mas você é mais instintivo. Você age sem se importar com a opinião dos outros. Ele tem orgulho de você, Elrohir."

"Ele tem orgulho de nós dois, tôr-nîn." Corrigiu o irmão.

Elladan sorriu.

"Você é diferente de todos os elfos que já conheci Elrohir."

E, mesmo contra sua vontade, Elrohir se sentiu profundamente comovido pelas palavras do irmão.

"Você também, Elladan, você também, tôr-nîn."

"Agradeço por tê-lo como irmão." Admitiu Elladan. Desmentindo tudo que dizia durante as brigas.

"Eu também agradeço por tê-lo como irmão, Elladan. Eu mais do que ninguém."

E se abraçaram, abraçaram-se para esquecer, ao menos por alguns instantes, que estavam preocupados. Preocupados com Legolas, com Elrond, com o que Estel faria se descobrisse a carta. Abraçaram-se, pois eram irmãos. Irmãos inseparáveis. Totalmente inseparáveis.

"Eu mais do que ninguém, tôr-nîn." Repetiu Elrohir.

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"Elrohir! Abra essa porta!" Gritava Estel, socando a porta com força.

"Não, não! Humano tolo!" Dizia Elrohir, enquanto lançava um olhar suplicante para Elladan, que corria pelo quarto. "Arranje logo um lugar para enfiar essa carta! Daqui a pouco Estel derruba a porta!" Sussurrou ele para o irmão.

Elladan continuava a correr pelo quarto. Tinha sido difícil fugir de Estel. Tiveram que correr com toda a rapidez para esconder-se no primeiro quarto que acharam.

"Não sei por que se esconder!" Rosnava Elrohir, enquanto segurava a porta com mais força.

Elladan não respondeu. Com tantos quartos naquele maldito palácio, o primeiro que acharam foi justamente um sem nenhum lugar bom para esconder alguma coisa.

"Abra essa maldita porta, Elrohir! Vou contar tudo ao ada quando ele voltar!"

"Ahá! Então, o nosso querido Estel vai voltar aos 5 anos? Onde contava tudo para o papai"

Enquanto isso, Elladan ria lembrando-se da cena que tinham feito instantes atrás:

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"Teremos que correr, para que estel não acabe nos alcançando e pegando a carta!" Disse Elladan, enquanto observavam o irmão.

Ele estava de costas, um bom sinal. Teriam que correr dos estábulos até o palácio, entrar no primeiro quarto que vissem e esconder a carta em qualquer lugar. Longe do olhar de Estel.

"Quando eu disse 'já'?" Perguntou Elrohir.

"Quando você disser 'já'." Concordou Elladan.

Elrohir esperou mais alguns momentos.

"Já!" Disse ele.

E os dois irmãos saíram correndo do estábulo em direção ao palácio. Estel virou a cabeça e percebeu os irmãos correndo para o lado oposto do dele. Imediatamente se levantou e correu atrás deles.

"Corre Elladan! Ele nos viu!" Gritava Elrohir, enquanto corria mais rápido.

Entraram no palácio com dois raios e correram escada acima, com Estel logo atrás.

"Ali! Tem uma porta aberta!"

Elrohir já tinha percebido isso, pois correu mais rápido até o quarto, parou por um segundo, até ver o irmão passar por ele, correndo para dentro. Quando garantiu que o irmão já estava lá, entrou também e fechou a porta atrás de si, apoiando seu peso nela, bem a tempo de segurar a primeira investida de Estel contra a grande porta de madeira.

ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

"Pare de rir, elfo tolo! Esconde logo essa carta!"

Elladan, finalmente, achou um móvel velho e escuro. Abriu uma das gavetas e enfiou a carta dentro. Fazendo, em seguida, um sinal para Elrohir.

"Graças à Iluvatar!" Exclamou o irmão, saindo da porta.

No exato momento em que Estel investiu contra ela, novamente. Sem peso para segurar o impacto, a porta se abriu e Estel rolou para dentro do quarto, estatelando-se perto de Elladan.

"Você está bem, Estel?" Perguntou o irmão, estendendo a mão, preocupado. Enquanto Elrohir ria.

"Ai..." Foi a resposta, muito bem elaborada, que recebeu.

Elrohir começou a gargalhar com exagero. Enquanto deixava-se cair sentado no chão.

"Elrohir!" Repreendeu Elladan, ajudando o humano a se levantar. "Estel se machucou!"

"Não... Tudo bem" Gemeu Aragorn, aceitando a ajuda.

"Ai... Ai..." Ofegou Elrohir, tentando se controlar.

"Elfo tolo! Elfo bobo! Elfo chato!" Praguejou Aragorn.

E Elrohir voltou a gargalhar.

"Ahhh! Você precisava se ver, Estel! Você rolando pelo chão é imperdível!" Ofegava Elrohir. Entre uma risada e outra.

Estel parecia profundamente magoado. Mas Elladan percebeu a sombra de um sorriso extremamente discreto seu eu rosto.

"Vamos, Estel, ria..." Sussurrou o gêmeo mais velho no ouvido do caçula.

E Aragorn obedeceu. Entregando-se ao riso.

Em pouco tempo os três estavam rindo às gargalhadas. Aparentemente, sem nenhuma chance de pararem.

Foi Elladan quem se recuperou primeiro. Retomando a postura séria e olhando para os irmãos que, atingidos pelo olhar penetrante do gêmeo mais velho, pararam de rir na hora.

"Acho que já está tarde!" Concluiu Elladan.

Os outros dois se entreolharam.

"Tarde...?" Perguntou Estel.

"Sim, tarde!" Concordou o gêmeo.

"Não está tarde! Nem anoiteceu ainda!" Observou Estel indignado.

"E daí?"

"E daí que nós não vamos dormir agora!" Exclamou Elrohir.

"E quem falou em dormir?"

O silêncio foi a resposta que Elladan precisava para abrir um sorriso vitorioso.

"O que você quer que a gente faça, então?" Perguntou o gêmeo mais novo, depois de alguns minutos de silêncio.

"Primeiramente, vamos sair daqui! Odeio esse quarto!"

Estel concordou com a cabeça e saiu, sendo imediatamente seguido por Elladan, que parou junto à porta, esperando o irmão. Elrohir, porém, continuou sentado no chão, encarando o gêmeo.

"Porque odeia tanto esse quarto?"

"Tôr vamos!"

"Responda!" Ordenou o outro.

"Elrohir..." Falou Elladan, em tom de aviso.

"Não saio daqui enquanto não disser o que tem contra esse quarto!"

Elladan respirou fundo e apontou para o móvel velho, discretamente, com a cabeça.

Discreta, porém não imperceptivelmente. Estel acompanhou o movimento de Elladan e o olhar de Elrohir até o antigo móvel cheio de gavetas, e compreendeu o motivo do gêmeo mais velho querer sair dali: Eles estavam escondendo alguma coisa.

Como ele não tinha percebido antes? A carta, o pai partindo sem dizer nada, Elladan pedindo para conversar sozinho com Elrohir, os dois se escondendo no quarto... Nada em Lothlorien poderia ser tão urgente para que Elrond saísse sem se despedir. Ao menos que não fosse Lothlorien. Poderia ser uma carta de Gondor, Rohan... Mirkwood!

"Estel?"

"Ahn...?"

Estel voltou para a realidade, abandonando os pensamentos que insistiam em povoar sua cabeça e encarou o rosto preocupado de Elrohir.

"Tudo bem, tôr?" Perguntou o gêmeo.

"Ahn... Tudo... Por quê?"

"Está parado aí, me olhando com cara de bobo faz tempo! Não sabia que os humanos conseguiam ficar tanto tempo imóveis!" Riu Elrohir.

"Uh! Desculpe!"

"Esquece... Olha, eu e o Elladan vamos lá na biblioteca. Ele quer pegar mais um livro para levar para o quarto e nunca mais devolver. Você vem com a gente?"

"Nah. Tenho que... que... arrumar algumas coisas no meu quarto."

"Nos encontramos no jantar, então?"

"Claro!" Respondeu o caçula. "Com licença?"

E, sem esperar resposta, girou nos calcanhares e correu para longe dos irmãos.

"Você acha que ele descobriu sobre a carta?" Indagou Elrohir, virando para encarar o gêmeo.

"Não. Mas ele desconfia. Temos que tomar cuidado!"

"É..."

E ambos se dirigiram a biblioteca.

Enquanto Estel corria até seu quarto.

"Não faz sentido... Eles teriam me contado se fosse alguma coisa muito séria..." Estel falava com si mesmo, enquanto corria pelos corredores do palácio. "Eles teriam te contato... Elrond gostaria que você soubesse da verdade."

Parou em frente ao quarto. A porta ainda estava fechada, a chave em seu bolso. Pegou-a, encaixou na fechadura e girou, destrancando o quarto. Entrou e se jogou na cama, fitando o teto, desejando que o sol da certeza varresse da sua mente as sombras da dúvida.

E, desejando isso, acabou adormecendo.

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Estava no meio de um campo. Norte, Sul, Leste e Oeste eram cercados de flores. Flores de diversos tipos, diversas cores e diversos perfumes. Cada qual contendo a semente de uma lembrança. Nada de montanhas ou cidades, nada de rios ou de árvores. Só flores. Flores e mais flores para enfeitar um mundo inteiro.

"Mexa-se Aragorn!"

A voz parecia distante, longe, fraca e inexistente. Porém, ela existia, e estava ao seu lado.

Com um simples piscar de olhos, o lindo campo de flores se transformou num detonado cambo de batalhas, à Leste não se viam flores, e sim uma densa floresta. Um campo manchado de sangue e decorado com corpos caídos, inertes, frios... Sem vida. Uma luta? Uma guerra? Uma batalha?

"Mexa-se Aragorn!" A voz repetiu.

Legolas estava ao seu lado. Atirava flecha após flecha em inimigos que estavam a uma distância, consideravelmente, grande ao mesmo tempo em que atingia inimigos mais próximos com a adaga. Os longos cabelos loiros tingiam-se de vermelho, graças ao sangue dos inimigos e ao seu próprio.

"Vamos, Aragorn! Os inimigos não vão esperar sua boa vontade!" Rosnou o elfo.

Mas não fazia sentido. Os inimigos sequer pareciam notar que Aragorn estava ali. Preocupavam-se em atingir Legolas e outra quantidade de guerreiros que lutavam um pouco mais adiante. Mas passavam direto por ele.

"Aragorn!"

A voz conhecida de Elrohir soou às costas de Estel. Girou nos calcanhares e pôde ver os irmãos lutando com outra quantidade anormalmente grande de criaturas. O que estava acontecendo, afinal?

"Aragorn!" Insistiu o irmão.

Estel, então, desembainhou a espada e correu para perto dos irmãos.

"Não! Ajude Legolas! Estamos em dois aqui! Legolas está sozinho... Ajude-o! Vai ficar tudo..."

Mas não conseguiu terminar.

Um grito agudo de dor ecoou pelo campo que, outrora, estivera cheio de flores. Um grito, seguido de uma risada grossa e maliciosa. Os dois elfos gêmeos e o humano pararam imediatamente de lutar e olharam para a direção de onde tinha vindo o grito.

E a dor da perda se fez presente com maior intensidade.

Legolas estava caído no chão, sangrando, uma flecha fincada exatamente no lado esquerdo do peito, no coração. Enquanto demônios riam em volta. Apontando, zombando, deliciando-se enquanto o elfo agoniava em silêncio.

"Legolas!"

Três vozes se perderam entre as risadas escandalosas dos demônios reunidos em volta do corpo, já sem vida, de Legolas.

E, sem pensar, sem planejar, sem analisar as conseqüências de seus atos, o humano correu até o amigo. A espada erguida, em sinal de batalha. Estava disposto a lutar e a vingar o eterno amigo elfo.

E lutou. Lutou, vingou e chorou. Lutou por Legolas, vingou o elfo, chorou por ele. Pela amizade que, mesmo eterna, seria, apenas, uma lembrança. Nunca mais veria os lábios do arqueiro curvarem-se num sorriso encorajador, um sorriso sincero. Nunca mais ouviria sua voz decidida dizendo as verdades que muitos se recusavam a enxergar. Nunca mais ririam juntos. Estel nunca mais sentaria no chão frio da sacada do seu quarto, ao ar frio da noite, esperando o elfo aparecer cavalgando no maravilhoso cavalo branco. Nunca mais sairia pulando pelo palácio, de alegria, ao receber uma carta de Eryn Lasgalen informando que o príncipe visitaria Rivendell. Nada! Agora eram só lembranças. Lembranças que, mesmo inesquecíveis, eram insuportáveis, tristes, amargas.

E a vontade se fez real. E o sonho ganhou vida. E os passos calculados de um destino incerto levaram Aragorn a vencer a barreira de demônios que o separava do amigo. Ajoelhou-se ao lado do elfo loiro, cujos olhos azuis opacos, a respiração inexistente e a pele fria eram as certezas de que a vida o abandonara. Os longos cabelos dourados não tinham perdido o brilho. Mas os olhos não refletiam o azul celeste brilhante que, ironicamente, tingia o céu. E Estel percebeu que a ironia não se concentrava somente no azul brilhante do céu. Mas, também se concentrava no leve sorriso que enfeitava a face pálida do arqueiro. Um sorriso de paz. Um sorriso de quem acredita na vitória, de quem vê a vitória.

"Desculpe Aragorn... Íamos contar..."

"Não, não iam!"

As lágrimas rolavam pelos olhos do humano. Sentiu a mão de Elladan em seu ombro, tentando consolá-lo.

"Perdoe-nos tôr." Insistiu o gêmeo.

"Perdoá-los? Por terem me escondido a verdade? Por terem feito eu perder meu melhor amigo?"

"Não queríamos que você morresse!"

"E ele podia morrer?" Gritou Aragorn, abraçando com força o corpo frio de Legolas.

Nenhum dos dois gêmeos respondeu.

"Não! Ele Não podia!" Continuou Aragorn. "E vocês deixaram! Esconderam-me que haveria uma batalha! Esconderam-me que estavam viajando para lutar! Esconderam-me tudo!"

"Estel..."

"Legolas... Mellon-nîn... Por quê?"

"Estel..."

Aragorn não respondeu. Continuou chorando silenciosamente.

Quando simplesmente não tinha mais lágrimas para derramar, beijou a testa do elfo loiro e depositou-o no chão.

"Morreu com honra, Legolas. Você morreu lutando. Batalhando. Fazendo o que sabia fazer de melhor. Seja feliz. Seja livre. Mas lembre-se de mim. Pois sua imagem estará sempre na minha memória."

E, sem dizer mais nenhuma palavra, levantou-se. Atravessou correndo o campo, passando por cima dos corpos dos demônios e de seus próprios soldados. Pegou as rédeas do animal que estava mais próximo e montou.

"Estel...!"

Aragorn virou a cabeça, os irmãos vinham correndo em sua direção. Elrohir um pouco à frente.

"Íamos te contar! Só não queríamos que você se preocupasse!"

"Pois bem! Não obtiveram êxito!"

E, sem dizer mais nenhuma palavra, puxou a rédea para a direita, fazendo uma forte pressão com as pernas. O cavalo obedeceu imediatamente, lançando-se para dentro da floresta escura. Sumindo imediatamente entre as sobras das árvores.

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Abriu os olhos, espantado. Ofegava tanto que chegava a lhe faltar ar. Olhou em volta para certificar-se de onde estava.

Seu quarto!

Mas como? Tudo havia sido tão real. Tão... Verdadeiro. Um sonho? Não podia ser.

Levantou-se da cama, cambaleante. Deu alguns passos aleatórios pelo quarto. Até que estacou em frente à porta da sacada. A chuva ainda caía. Fina, leve, fraca. Forçou a vista no escuro da noite. Já tinha anoitecido! Quanto tempo tinha adormecido?

E seus irmãos? Tinha prometido que ia jantar com eles!

Rapidamente, arrumou as roupas, levemente, amassadas e saiu do quarto, tomando o cuidado de fechar e trancar a porta. Caminhou pelos corredores do palácio, tentando achar o quarto dos irmãos, mas sem sucesso. Estava incomodado com o significado do sonho a ponto de perder-se no local ao qual passou a maior parte da sua vida. Encostou-se na parede e deslizou, cansado, até sentar no chão. Abraçou os joelhos e observou a parede à sua frente. Foi quando percebeu onde estava: em frente à porta do quarto no qual Elladan, Elrohir e ele estiveram mais cedo.

"O que eu tenho a perder?" Perguntou antes de levantar e caminhar, silenciosamente, até a porta.

Abriu-a delicadamente. Evitando fazer qualquer ruído. Entrou no quarto e fechou a porta logo atrás, certificando-se, antes, de que ninguém o vira.

Silêncio e escuridão. Uma combinação assombrosa. Caminhou com passos incertos até o antigo móvel escuro. Lembrando-se do aceno de cabeça de Elladan e do olhar que Elrohir tinha dirigido para o móvel. Tateou o nada no escuro, até suas mãos tocarem na madeira áspera. Respirou fundo, pensando se realmente devia fazer aquilo. Infelizmente, em Aragorn, como na maioria dos homens, a curiosidade venceu o bom senso e ele abriu a primeira gaveta, procurando por qualquer coisa que poderia estar escondida ali.

Na terceira gaveta, sua mão tocou um material que ele conhecia tão bem: pergaminhos! Ou melhor, um pergaminho. Enfiado no fundo da gaveta, escondido. Hesitou por um momento. Se os irmãos tinham escondido, era porque a notícia não iria agradá-lo.

Mas para os humanos o proibido é permitido e o perigoso é divertido.

Guardou a carta, rapidamente, num dos bolsos de suas vestes e fechou a gaveta, tão silenciosamente como a tinha aberto. Voltou a tatear o nada, procurando pela porta e, quando a encontrou, abriu-a rapidamente, fechou-a e saiu correndo.

Sem saber, ao certo, para onde ir, optou em parar num corredor deserto. Apoiou-se, novamente, na parede e escorregou até o chão. Sentou e, hesitantemente, abriu a carta, lendo-a logo em seguida:

"Meu caro Lorde Elrond.

Peço que me ajude nessa hora difícil que enfrentamos. Mirkwood está para perder uma pessoa importante.

O Príncipe Legolas Greenleaf chegou ontem com sua patrulha. Os soldados me disseram que foram atacados no caminho, e que o príncipe sumiu durante toda a batalha. Foi encontrado, mais tarde, numa clareira próxima. Sangrava e mostrava que a respiração era uma tarefa complicada de ser realizada, além de estar desacordado. Cuidaram dele e, mais tarde, quando Legolas acordou, garantiu para os soldados que estava bem.

Mais tarde, quando chegaram a Mirkwood, o príncipe sumiu. Encontrei-o escondido em uma árvore, com medo que Thranduil visse seus ferimentos. Cuidei dele e mantive o rei desinformado do paradeiro do filho. Mas tudo que é bom acaba logo. Thranduil descobriu sobre Legolas e viu a situação do príncipe. Ficaram a sós por uns momentos e, a partir daí, a vida de Legolas definha cada dia mais. Preocupo-me com o estado dele e já não sei o que fazer. E não sei quanto tempo ele agüentara se não receber os cuidados necessários.

Precisamos muito de você, Elrond!

Atenciosamente:
Therenil
(curador de Mirkwood)"

Estel terminou de ler a carta e olhou atônito, para o nada que sua visão se tornara. Seu sonho fazia sentido, então! Legolas estava morrendo! Ou, ao menos, no caminho da morte. Tinha que impedir isso. Tinha que ver o amigo, falar com ele, estar presente nesse momento difícil. O que quer que o tenha atacado naquela maldita clareira, não superará a barreira que uma amizade de anos pode erguer.

Levantou-se de um salto e, colocando a carta no bolso, correu para fora do palácio, desejando, de todos os modos, chegar aos estábulos sem ser notado, pegar um cavalo e partir para Mirkwood. O mais rápido possível.

Passou correndo pelo corredor da biblioteca, o que foi uma infelicidade. Seus passos pesados e barulhentos ecoaram pelo corredor, chamando a atenção dos dois elfos morenos que se encontravam mergulhados em livros. Elladan abriu a porta imediatamente, bem a tempo de ver Estel descer as escadas e sumir do seu campo de visão.

"Ele descobriu." Concluiu o mais velho.

E, sem sequer fechar a porta da biblioteca, os dois gêmeos correram atrás do irmão, deixando os livros no chão.

O humano abriu as portas de entrada do palácio com uma empurrada brusca. Pisou sob poças de água sem se importar com o estado em que as botas e a calça ficariam mais tarde. Dirigiu-se para os estábulos desesperadamente e foi notado não só por um, mas por todos os elfos que estavam por lá.

"Um cavalo! Qualquer um! Emergência! Urgente! Vamos!" Ordenou ele, assim que parou junto à porta.

Imediatamente os elfos se juntaram em volta de um dos cavalos que estavam por lá e começaram a preparar o animal, com uma rapidez impressionante.

"Vamos! Sejam mais rápidos!"

Mal terminara a frase, Aragorn se viu diante de um cavalo preto, totalmente pronto para ser montado. Arrancou as rédeas da mão do elfo que as segurava e montou no cavalo sem ao menos agradecer. Saiu dos estábulos cavalgando o mais rápido que conseguia e, estava perto da floresta que marcava a saída de Rivendell, quando uma voz o chamou.

"Estel!"

Aragorn, impaciente, virou o cavalo na direção do irmão.

"Onde pensa que vai?" Indagou Elrohir, visivelmente aborrecido.

O humano não respondeu, tirou do bolso a carta e jogou para os irmãos.

Elladan pegou-a e abriu, confirmando sua opinião.

"Estel..."

"Queriam que ele morresse?"

"Ada vai cuidar dele!"

"E eu vou estar lá!"

"Não pode! As chances de Thranduil te deixar entrar são mínimas!"

"Ele vai fazer isso, pelo filho!"

"É besteira, Estel!"

"Porque me esconderam isso?"

O silêncio foi a resposta irritante que ele recebeu.

"O silêncio é muito tranqüilizador!" Ironizou ele.

E, com um movimento, fez o cavalo correr para mais perto da floresta.

"Estel...!"

Aragorn virou a cabeça, os irmãos vinham correndo em sua direção. Elrohir um pouco à frente.

"Íamos te contar! Só não queríamos que você se preocupasse!"

"Pois bem! Não obtiveram êxito!"

E, sem dizer mais nenhuma palavra, puxou a rédea para a direita, fazendo uma forte pressão com as pernas. O cavalo obedeceu imediatamente, lançando-se para dentro da floresta escura. Sumindo entre as sobras das árvores.

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Notas Finais da Autora (NFA)

Agradecimentos:
Telpe e Aine Greenleaf.

Espero que tenham gostado dese capítulo!