Loucura, por Elyon Somniare


Capítulo V – A Decadência dos Cavaleiros


Três dias e duas noites se haviam passado desde que o Conselho de Dorú Areaba havia negado o pedido. Atrocidade? Era uma atrocidade manter o equilíbrio daquilo que devia ser como era? Não estava nos moldes da Natureza que um Cavaleiro fosse acompanhado por um Dragão? Atrocidade? Não seria a Mãe-Natureza manca se tal não acontecesse? Mas... Contudo... haviam dito que era uma atrocidade. Negaram. Declinaram o pedido. Com aquele argumento falso e desprovido de quaisquer bases. Uma atrocidade... Uma atrocidade…

Não havia luar. Era uma noite sem lua, apenas as estrelas cintilavam, quais pontinhos no céu. Lembravam-lhe... lembravam-lhe os olhos brilhantes de Gareth quando Lenora se encontrava por perto. Gareth ficava sempre tão feliz quando esta lhe dirigia um olhar!... Porque teria aquilo de acontecer? Porquê a Gareth? Ele não merecia, ele... Ele precisara dos Cavaleiros. Eles haviam precisado dos Cavaleiros. Mas nenhum deles aparecera para os ajudar. Haviam nos deixado a perecer às mãos bastardas dos Urgals... Eles... Os Cavaleiros... tinham nos deixado tombar. Porquê? Não quiseram saber, não apareceram quando necessários, não os socorreram. Ignoraram. Eles... eles... os Cavaleiros foram...

- Culpados – murmurou Galbatorix, sem se levantar do leito onde passara os últimos dias. Como demorara tanto tempo a perceber disso? Eram falsos, cobardes. Diziam-se os melhores, os heróis de Alagaësia, os protectores dos fracos... – Mas não nos protegeram... quando precisamos... não estavam lá... A culpa da morte de Gareth... dos Dragões e... dos outros... É toda deles. A culpa é toda dos Cavaleiros. MALDITOS SEJAM!

- Gal! – exclamou Julian, aparecendo a correr vindo de um quarto ao fundo. Numa situação normal, Galbatorix rir-se-ia da camisa de noite até aos pés que o Cavaleiro curandeiro trajava. – Que se passa? Volta a deitar-te e acalma-te.

- Não... nunca me voltes a chamar isso, seu bastardo, filho de uma pega.

Julian embranqueceu.

- Seja o que for que te está a passar pela mente, Galbatorix, não te dá o direito de me faltares ao resp...

- És um deles, velhaco, és um DELES. Também tu não fizeste nada, também tu...

- Se não te acalmares imediatamente terei de chamar alguém!

- Chama já! – A voz de Saber, a Dragão de Julian ecoou na sua mente. – Não sabemos o que um louco pode fazer nestas condições.

- Ele não está bem. Não está em si. Sou curandeiro, é minha missão tratar dele até ordens em contrario.

- Nisso tens razão – Julian ouviu o que poderia ser considerado uma espécie de suspiro mental. – Temos de tomar muito cuidado.

- Amanhã falarei com Vrael – prometeu Julian. – Não me parece que Galbatorix tenha qualquer hipótese de voltar a raciocinar com calma.

- Uma sábia decisão.

Sem quebrar a ligação, Saber calou-se. Julian levou uns minutos a habituar-se ao súbito silêncio, que, apesar de vínculo, se fazia sentir. Era sempre assim no final de cada conversa. Perguntava-se se os outros Cavaleiros teriam a mesma sensação... O olhar fixo que Galbatorix interrompeu-lhe os pensamentos.

- Era ela, não era? Estavas a falar com Saber? A tua Dragão? A sorte que tens... Poderes falar com o teu Dragão. Saber que ele está vivo e à tua espera do outro lado desta parede imunda.

- A parede está muito limpa, Galbatorix, os criados estiveram a fazer a limpeza ontem.

- Não brinques! – rosnou Galbatorix. – És igual a todos eles. Apareces aqui, a sorrir, tal como eles... como se nada se tivesse passado, como se... Eu sei o que todos vocês pensam. Que sou um louco, um insano. No fim, veremos quem é o mais lúcido.

Julian sentiu um arrepio pela espinha acima. Enquanto via o jovem rapaz a acomodar-se para, finalmente, descansar e dormir, não podia deixar de estar apreensivo.

- Algo me diz que o estamos a subestimar.

- Que pode ele fazer? – respondeu Saber. – Tu mesmo disseste que o rapaz não estava bem.

- É estranha a genialidade que podemos encontrar nos mais insanos. A linha que separa estas duas coisas é ténue.

- Se assim é, espero que não seja esse o caso de Galbatorix – retorquiu Saber. – E agora se fosses tu dormir?

- Estou preocupado.

- Ainda há pouco disseste que não valia a pena preocupares-te agora com isso.

- Eu sei, mas depois do que ele disse… Temo que seja mais perigoso do que pensávamos…

- Que pode fazer Galbatorix esta noite? Descansa. Amanhã vai ser um dia difícil.

Julian bocejou.

- Tens razão.

- Tenho sempre – retorquiu a Dragão, meio a sério, meio a brincar.


Vrael parecia extremamente cansado. Mais do que parecer, estava extremamente cansado.

- Já estou velho para isto, Julian.

- Vrael, não digas essas coi…

- Sabes bem que são verdade – interrompeu Vrael, fazendo-o calar com um gesto da mão. – Somos amigos já há muitos anos, sejamos sinceros. Sou uma sombra do que fui. Os meus tempos de glória já vão longe.

- Continuas a ser o melhor e maior de todos nós.

- É essa a minha principal preocupação – suspirou o Ancião. Eridor, a seu lado, soltou uma nuvem de fumo das narinas. – Mas Eridor chama-me a atenção com toda a razão! Não é com lamúrias que se resolvem os problemas de uma Nação. Dizes, Julian, que Galbatorix enlouqueceu? Receio que o Conselho concorde contigo.

- Eu e Saber julgamos que a situação está pior do que o Conselho julga – respondeu Julian. – Galbatorix culpa todos os Cavaleiros pelo que aconteceu. E…

-… receias que ele possa tentar alguma acção desesperada? – completou Vrael.

- Sim. Saber concorda comigo.

Vrael manteve-se calado durante uns momentos. Quando falou, pareceu a Julian que tinha envelhecido anos e anos num só momento. E que esses anos pouco lhe pesavam.

- Vai descansado, Julian. Cuidarei para que Galbatorix não tenha uma atitude "suicida".

- Que achas disto? – perguntou a Eridor assim que o curandeiro abandonou o compartimento. – Permaneceste calado todo o tempo.

- Não me parece que o rapaz tenha uma atitude desesperada.

- E…?

- E é mais provável que tenha uma iniciativa mortalmente astuta.

- Também pensei nisso. Nunca pensei ver chegar o dia em que me preocuparia por partilharmos da mesma opinião.

- Cassandra e Miremel estão à porta.

Com uma batida suave, Cassandra entrou na sala sem esperar pela resposta, sendo seguida por Miremel.

- Vi Julian sair. Calculei que não interromperia nada se entrasse agora.

- Nunca interrompes nada, minha cara Cassandra. Muito menos tu, Miremel.

- Cortesia tua – retorquiu a Cavaleira, sentando-se na cadeira em frente à mesa de madeira de Vrael e Eridor. – Estão aqui os relatórios que pediste. Lamento ter de ser eu a dar as más notícias, mas alguém tem de o fazer. Os ataques de Urgals têm vindo a aumentar de forma alarmante. Não era suposto haver Urgals naquela floresta onde os rapazes acamparam. E não foram os únicos. Julian e Saber não se queixam, mas os relatórios que me chegaram da Casa de Tratamento são péssimos. A cada dia que passa, mais Cavaleiros, por vezes Dragões, aparecem feridos ou mesmo mortos. É como se andassem a arriscar as vidas com esse mesmo propósito. E como se não bastasse, os Dragões Selvagens têm vindo a ficar cada vez mais reticentes em entregar alguns dos seus Ovos.

- Pelo teu tom, há mais alguma coisa…

- Espectros.

- Estão também a aumentar – completou Miremel. – Algo se passa com os feiticeiros.

- Ou a sede de poder está a aumentar… – começou Eridor.

- Ou é a sede de vingança – completou Vrael. – Teremos de enviar um grupo para resolver os problemas com os Urgals. Talvez devêssemos experimentar falar com eles? Antes de passarmos à acção?

- Duvido que aqueles animais entendam uma única palavra.

- Se não experimentarmos, não tiraremos essa dúvida – retorquiu Eridor. Miremel pareceu indecisa em transmitir essa opinião a Cassandra.

- Convoca o Conselho – ordenou Vrael. - Votaremos isso.

- Sem discussão, apenas voto – acrescentou Eridor. – Se começarmos a discutir a questão, nunca mais chegaremos a uma decisão.

- Trataremos também da questão dos Espectros nessa altura – conclui Vrael.

- Sugiro a criação de uma Brigada Especial para esse caso – aventurou-se Cassandra.

- É uma ideia a discutir amanhã – respondeu Vrael tacticamente. – Agora se as senhoras me permitem – disse, levantando-se e fazendo uma pequena vénia de cortesia a Cassandra e Miremel. – Eu e Eridor precisamos de ir dar uma vista de olhos aos avanços dos novos Aprendizes.


N/A: Ora aqui está ele, o capítulo V… Reparei que na narrativa do Brom pouco se fala da situação social que envolve a história de Galbatorix, sendo a dita narrativa muito centrada no próprio Galzinho (acho que se ele visse como o estou a chamar não ia haver Eragon que me salvasse…). Ora, como uma história individual não se faz sem uma história social, resolvi escrever este capítulo de forma a transmitir o que eu julgo ser a situação histórica do momento, ou seja, um "Império" em decadência, vergado em problemas e de valores que estão, de certa forma, a desaparecer. Obviamente, não posso garantir que seja de facto assim, quem sabe a coisa todo é o Paolini, que inventou este mundo, mas isto é uma fanfic, logo, posso inventar o que me der na gana, certo?:P

Sem tempo para as reviews, ficam para a próxima-.-'