Notas Iniciais da Autora:
Bom... Aqui está. Mais um capítulo de Vento. Novinho e folha, saído diretamente do Word para cá!
Acabei de terminar de escrever esse capítulo. Foi difícil, embora seja bem curto. Chegou uma hora que eu, praticamente, empaquei! Não consegui mais desenvolver a história e o capítulo ficou dias parado... Até que a criatividade voltasse correndo.
Mas acho que não obtive muito sucesso.
E acho que esse capítulo ficou um pouco mais... Hum... Chato(?) que os outros. Desculpem-me se o capítulo desagradar ou não agradar o suficiente.
Observações: Linhas pontilhadas indicam mudança de tempo e local.
as linhas em "x" indicam os sonhos.
os ooo indicam flashback.
e os "x" entre parênteses indicam mudança de local. Somente de local. Mostrando, assim, que a cena que vem depois acontece ao mesmo tempo que a anterior.
Ah!
A cena do Legolas com as rosas pode ter ficado um pouco mórbida... Ou forte. Mas ela será importante para o futuro da fanfic, okay?
O título do capítulo "Nem que minha vida dependesse disso" ficou um pouco grande, admito. Mas eu não consegui pensar num título melhor para esse capítulo. Tendo visto que essa frase repete-se várias vezes.
Agora... Fiquem com o quarto capítulo!
Boa leitura!
Preciso lembrar que os agradecimentos estão no final?
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Nem que minha vida dependesse disso
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Passos ecoaram por todo o palácio. Passos apressados, agitados, fortes, desesperados. Passos que chamaram a atenção de todos. Muitos elfos afastavam-se depressa, colando-se na parede para não serem empurrados ou derrubados pelo loiro, que corria apressadamente pelo longo corredor. Guardas assustavam-se ao verem o rei passar por eles com dirigir-lhes a palavra ou, sequer, olhar para eles. Não... Ele não tinha tempo para cumprimentar. A decisão estava tomada. E iria até o fim.
Legolas ouviu os passos. Escutou quando pararam em frente à porta do seu quarto e assistiu, amedrontado, o rei abrir a porta com um murro, entrando no quarto com determinação, com raiva e ódio estampados no olhar. Fechou a porta atrás de si com força, fazendo o barulho ecoar. Olhos verdes esmeralda encontraram-se com os azuis profundos. Thranduil aproximou-se irritado, as mãos fechadas, apertadas. Aproximou-se da cama em que Legolas se encontrava e arrancou os lençóis.
"Vá embora!"
O príncipe arregalou os olhos. Encarou estupefato o pai e abriu a boca para pronunciar alguma palavra. Mas nada saiu. Em vez disso, a voz profunda e cavernosa de Thranduil voltou a ser ouvida:
"Eu disse para ir embora!"
Os olhos encheram-se de lágrimas. Os lábios voltaram a abrir, mas sem emitir som algum. O sofrimento de Legolas contribuiu para a impaciência do rei.
"Levante-se!" Ordenou.
"Ada..."
"Levante-se!"
O grito foi claro. Legolas obedeceu imediatamente. Pondo-se de pé tão rápido que cambaleou antes de se acostumar, novamente, com o chão.
"Arrume-se, pegue o que quiser e vá embora de Mirkwood!"
Permaneceu parado no lugar, atônito. Magoado, triste, ferido. Brincando, assim, com o ânimo de Thranduil.
"Obedeça, elfo infeliz!"
Na louca vontade de fazer com que Legolas o entendesse de qualquer modo, Thranduil apoiou o braço direito sobre a mesa que se encontrava na cabeceira da cama e, deslizando-o rapidamente sobre a superfície de madeira, derrubou, com força, o delicado vaso de flores que tinha ali.
Legolas assistiu o vaso com as únicas plantas que tinha no seu quarto espatifar-se no chão. As três delicadas rosas vermelhas caíram no piso, perdidas entre cacos do vidro transparente, pedindo-lhe socorro, implorando por ajuda. A água que alimentava a vida das plantas espalhou-se pelo chão, formando marcas aleatórias, manchando o material vulnerável. Gotas de água foram parar nas pétalas vermelhas daquelas que foram suas companheiras, assumindo a aparência de lágrimas cristalinas.
Não acreditava.
"Vai fazer isso por bem ou por mal, elfo infeliz! Estou te dando uma chance de fazer por bem! Vá embora!"
O coração do príncipe partiu-se ao ver Thranduil pisar, com força e sem piedade, nas rosas vermelhas caídas no chão. Viu-o mexer o pé, destroçar as rosas, espalhar as pétalas pelo piso molhado. A água tingindo-se levemente de vermelho. Sangue. Guiou os olhos das rosas destroçadas ao pai. E viu no verde profundo a raiva, a ira, o ódio.
Não acreditava.
"Sim, senhor".
Dirigiu-se até o armário, pegou uma simples roupa, vestiu-a. Pegou o arco e as flechas, testou-os. Fez tudo sob o olhar penetrante do rei, que não se arrependia da decisão. Olhou-se no espelho, os cabelos ainda estavam soltos. Mas não os trançou. Em vez disso, simplesmente ajeitou-os e virou-se para encarar Thranduil.
"Sabe onde é a porta... Acredito que não precisarei te levar até ela." Declarou o rei.
"Não senhor. Eu sei onde fica." Concordou Legolas, baixando a cabeça e dirigindo-se a porta.
"Antes de ir..." Ouviu a voz profunda do pai e voltou-se para encará-lo novamente. "Ouça bem: você não vai dizer para ninguém que veio de Mirkwood! Nunca voltará a pronunciar esse nome e não é meu filho! Nunca foi e nunca será. Se alguém lhe perguntar. Trate de arranjar uma resposta convincente que não inclua a minha pessoa. Não me humilhe em frente aos outros elfos."
"Não humilharia o senhor nem que minha vida dependesse disso..." Murmurou Legolas, antes de sair do quarto, deixando a porta aberta.
Nem que minha vida dependesse disso.
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Abriu os olhos desesperado. Tateou a mesa ao lado da cama com a intenção de achar o vaso de flores. Mas ele não estava lá. Sentou-se na cama rapidamente, ignorando a dor aguda na qual o movimento resultou. Olhou para o chão e sentiu outra dor, que nada tinha a ver com os ferimentos que possuía. Ali, no chão, estilhaçado, estava seu vaso de flores. As rosas caídas formando o mesmo ângulo que tinha visto no sonho, as gotas de água sobre as pétalas avermelhadas, parecendo lágrimas cristalinas. Os cacos do vidro transparente espalhados por todo o piso. A água formando manchas no material vulnerável.
Esfregou os olhos com ambas as mãos, desejando acordar do pesadelo em que se encontrava. Reabriu os olhos, apenas para encarar a mesma cena de antes. Voltou a fechá-los com força. Balançou a cabeça para os lados, recusando-se a acreditar. Ignorando o próprio grito de dor, causado pelo movimento brusco com a cabeça. Ouviu o barulho da porta sendo aberta. Guiou o olhar desesperado até a entrada do quarto e contemplou assustado, o elfo que estava ali, parado, encarando-o.
"Legolas?"
A voz era, sem dúvida, diferente da que escutara no sonho. Tinha um tom preocupado. Mas a imagem do pai, quebrando o vaso que continha a única planta que lhe trazia felicidade, ainda estava nítida em sua mente. Afetando o desejo de abraçar-se a ele e chorar as lágrimas que não conseguia conter.
"Legolas... Está tudo bem?"
Thranduil aproximou-se rapidamente, sentando ao lado do filho e sentindo o coração apertar-se ao vê-lo recuar para a outra extremidade.
"Não se aproxime!" Soluçou o príncipe.
"Legolas..." Repetiu Thranduil, esticando o braço para tocar o filho.
Mas foi impedido. Por outro movimento de Legolas. O menino levantou-se da cama rapidamente, cambaleando por sentir os pés em contato com o chão depois de tanto tempo. Rapidamente tratou de afastar-se da cama, andando de costas até a parede, enquanto Thranduil assistia, com o coração aos pulos, Legolas pisar, descalço, sobre os cacos do vaso quebrado, tingindo a água derramada de vermelho. Sangue.
"Legolas! Volte aqui menino! Está sangrando!" Falou o pai, levantando-se da cama e dando a volta nela, para poder caminhar livremente até o filho.
"Não se aproxime!" Repetiu o arqueiro, soluçando e encolhendo-se ainda mais junto à parede.
Thranduil parou, assustado, a poucos passos de Legolas. Os curativos que protegiam as feridas do peito e das pernas do arqueiro sangravam excessivamente. Arriscou dar mais um passo em direção ao filho, mas esse recuou assustado, encolhendo-se o máximo que podia contra a fria parede branca.
"Vou chamar Elrond..." Murmurou o rei, virando-se e dirigindo-se rapidamente a porta.
"Não..." a voz fraca do filho fez Thranduil estagnar-se. "Deixe-me sangrar... Posso morrer mais rápido. Deixe-me aqui... Deixe-me morrer..."
Thranduil soltou um suspiro cansado e angustiado.
"Nem que minha vida dependesse disso..." Murmurou, antes de sair para o corredor, procurando por Elrond.
Nem que minha vida dependesse disso.
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"Pelos Valar!" Exclamou Elrond, logo que chegaram ao quarto de Legolas.
O garoto encontrava-se sentado no chão, encolhido, tremendo. Duas das rosas vermelhas estavam despedaçadas ao lado do rapaz, as pétalas e os caules espalhados pelo chão. A terceira estava na mão esquerda. Permanecia intacta, mas Legolas apertava-a com força, fazendo os espinhos perfurarem sua pele. Uma triste canção escapava-lhe pelos lábios e lágrimas escorriam-lhe dos olhos fechados.
"Legolas!" Exclamou Estel, aproximando-se rapidamente.
O arqueiro abriu os olhos, levantou a cabeça e observou o humano aproximar-se. Não realizou nenhuma ação, apenas encarou-o. Não reagiu quando o humano atirou os braços em volta dele e muito menos quando viu, por cima do ombro de Estel, o pai, Elrond e Therenil aproximarem-se rapidamente.
"Legolas... O que pensa que está fazendo?" Indagou Therenil, horrorizado com a cena.
Como resposta, a triste e mórbida canção continuou a escapar dos lábios trêmulos do arqueiro. Num murmúrio sereno.
"Vamos, levante-se..." Começou Elrond. Mas foi interrompido pelas palavras que Legolas pronunciou, cortando a canção abruptamente.
"Nem que minha vida dependesse disso..."
"Pois bem. Sua vida depende. Agora levante-se!" Continuou o Lorde de Imladris.
"Nem que minha vida dependesse disso..." repetiu Legolas, cantarolando a frase no ritmo da música que escapava-lhe pelos lábios instantes atrás.
Elrond olhou para Thranduil, desesperado. Implorando por ajuda. Ambos sabiam que, se Elrond não podia ajudar, Thranduil podia menos ainda. Legolas amava o pai mais do que ninguém, certo. Mas o modo como o tinha evitado e como tinha procurado encolher-se e afastar-se quando ele se aproximou instantes atrás, deixava claro que, qualquer tentativa seria fracassada. Thranduil negou com a cabeça, deixando claro que seria inútil. Mas Elrond continuou fixando seu olhar nele, implorando, exigindo que o ajudasse. Thranduil voltou a negar com outro movimento de cabeça, mas Elrond acenou positivamente, decidido. E, pela primeira vez, e talvez última, na vida de ambos os elfos, pode-se ver cumplicidade nos seus olhares. O rei de Mirkwood continuou a encarar Elrond, que por sua vez retribuiu o olhar. O Meio-Elfo acenou novamente com a cabeça e, dessa vez, Thranduil retribuiu, recebendo um sorriso como forma de agradecimento.
"Estel... solte-o..." Pediu Elrond e o filho obedeceu imediatamente.
"Afastem-se..." Ordenou Thranduil.
Estel e Therenil afastaram-se de Legolas e observaram atônitos e surpresos, o Lorde de Imladris e o rei de Mirkwood aproximarem-se, juntos, do príncipe encolhido no chão.
"Não sofrerá eternamente de algo que podemos curar..." Avisou Elrond, ajoelhando-se em frente ao príncipe.
"Nem que nossas vidas dependam disso..." Murmurou Thranduil, ajoelhando-se também, ao lado do elfo moreno.
"Nem que nossas vidas dependam disso..." Concordou o Meio-Elfo, sorrindo discretamente.
Nem que nossas vidas dependam disso...
Legolas olhou para Elrond procurando ajuda, sem acreditar no que estava acontecendo. Mas pode ver no olhar do Lorde de Imladris que tudo era verdade e não um sonho. Com o sorriso ainda estampado nos lábios, Elrond levantou-se, sendo imediatamente seguido por Thranduil, e estendeu a mão para o príncipe, oferecendo ajuda para ele se levantar. O rapaz aceitou, estendendo a mão direita e segurando a do curador, fazendo-o abrir um sorriso ainda maior. Quando ia se levantar, percebeu surpreso e realizado, que outra mão lhe era estendida. Guiou seus olhos azuis até a mão e logo em seguida para seu dono, contemplando os olhos verdes brilhantes, decididos e, surpreendentemente, carinhosos do pai. Passando segurança e confiança... Dizendo-lhe, em silêncio, que não precisava ter medo, naquele instante nenhuma palavra venenosa lhe seria dirigida e nenhuma ação inesperada ou agressiva seria realizada. Legolas estendeu hesitante a mão esquerda, com medo que os olhos do pai mentissem e que, ao invés de ajudá-lo a se levantar, o rei o humilhasse na frente dos outros elfos e de Aragorn, jogando-o no chão com mais força que a necessária. Antes que sua mão segurasse a do pai, Legolas imobilizou o braço, deixando suas mãos a poucos centímetros de distância, o medo escrito em seu olhar. Permaneceram parados por longos segundos, que pareceram uma eternidade. Quando, finalmente, percebeu que tudo havia sido apenas uma recaída do rei, o arqueiro recuou o braço, desistindo da idéia de segurar-se no pai para se levantar. Porém, antes que pudesse abaixar completamente o braço, sentiu uma forte mão segurando a sua, com medo de que, num reflexo, o rapaz se afastasse.
"Não dessa vez, Legolas..."
O príncipe voltou a encarar o olhar do pai. Aquele olhar decidido, brilhante, esperto, astuto, inteligente... Carinhoso. Deixou que seus lábios se curvassem num sorriso frágil e cansado, apertando a mão de Thranduil, aceitando a ajuda oferecida. A pequena quantidade de sangue na sua mão, causada pelos espinhos da rosa que apertara instantes atrás, espalhou-se pela mão do rei, manchando-a. Mas Thranduil não deu importância, estava ocupado encarando os olhos azuis opacos de Legolas, ocupado tentando segurar o sorriso que queria abrir.
Elrond observou tudo com um sorriso radiante, ainda segurando a mão direita do arqueiro. Viu o sorriso no rosto de Legolas, viu a satisfação no olhar dele e sentiu-se feliz. O primeiro passo para curar Legolas estava sendo dado. Ia ser difícil, ele sabia. Ele havia explicado para Thranduil o procedimento e o rei concordara em ajudar, simplesmente porque não tinha outra saída. Sua ajuda era essencial, sua presença era a chave para que o príncipe voltasse a correr, cantar e sorrir com felicidade verdadeira. A participação do rei de Mirkwood baniria a tristeza de Legolas, todos sabiam disso. Nem Aragorn, nem Therenil, nem Elrond seriam capaz de ajudar Legolas tanto quanto seu pai. Todos sabiam disso.
E todos concordaram.
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"Tristeza?" Ecoou Thranduil, encarando o Meio-Elfo com a dúvida estampada no olhar.
"Sim, Thranduil... Tristeza." Concordou Elrond, lançando um último olhar irritado a Aragorn, antes de voltar a encostar-se na parede.
"Desde quando tristeza arranca sangue?" Exclamou o rei, indignado.
"Você é meio lesado, não é?" Resmungou Estel, sentando-se na cadeira.
"Cale a boca, se não quiser sair daqui com apenas uma perna, estúpido!" Rosnou Thranduil, dirigindo um olhar assassino para o humano.
"Não piore a situação, Aragorn! Ninguém aqui está com paciência para agüentar desaforos." Pronunciou Elrond, quando viu que Thranduil pretendia continuar a sentença. "E não, Thranduil, eu não estou te defendendo!" Completou quando percebeu que o rei olhava para ele com uma expressão que transmitia claramente um aviso de que não precisava de ajuda para se defender.
"Certo, certo... Finjam que não estou aqui!" Murmurou Estel.
"Fingiremos!" Concordou Thranduil, virando-se para encarar o curador. "Continuando... Tristeza não arranca sangue de ninguém!"
"Não..."
"Então porque Legolas estava sangrando?" Indagou, recomeçando a ficar impaciente.
Às suas costas, pode ouvir o humano chamá-lo de lesado, mas ignorou-o, lançando ao Lorde de Imladris um olhar exigente.
"Na carta que vocês me mandaram, Thranduil. Vocês disseram que..."
"Eu não disse nada! Quem escreveu essa maldita carta foi o maldito Therenil. Que, por acaso, eu acho que deveria estar presente aqui!"
Elrond revirou os olhos enquanto observava o loiro caminhar até a porta e avisar um dos guardas do palácio que precisava da presença urgente de Therenil. Assim que os guardas saíram correndo à procura do curador, Thranduil virou-se, despreocupadamente, e sentou na sua cadeira, folheando alguns de seus documentos, deixando claro que não escutaria nada até que o curador de Mirkwood chegasse.
"Saiam da minha frente, vermes inúteis!"
O grito irritado despertou Thranduil de seus pensamentos, Elrond do seu tédio e Aragorn do sonho que estava tendo. E, sem aviso, a porta do gabinete se escancarou, dando passagem para um Therenil agitado.
"Porque manda esses incompetentes me chamarem, se quando eu chego aqui me impedem de entrar?" Indagou, impacientemente, o curador.
Thranduil ergueu os olhos dos documentos. Era incrível imaginar que aquele elfo irritado, há séculos atrás tremera diante de sua presença.
"Mandei esses 'incompetentes' te chamarem porque Peredhel diz que descobriu o que Legolas tem" Explicou o rei, revirando os olhos diante da expressão de surpresa de Therenil.
"Sério? E o que ele tem?"
"Tristeza!" Zombou Thranduil, antes que Elrond pudesse responder.
O curador de Eryn Lasgalen pareceu refletir por alguns minutos, depois abriu um largo sorriso.
"Faz sentido!"
"Sentido!" Explodiu Thranduil. "Que sentido faz?" Ele já estava cansado dessa maldita mania que todo mundo tem de descobrir as coisas que aconteciam com seu filho, com muito mais facilidade do que ele.
"Muito sentido, Thranduil. Você é o único que ainda não enxergou!" Riu Therenil, satisfeito por terem achado a raiz do problema.
"Então, me expliquem!"
Puxando uma das cadeiras do gabinete, o curador sentou-se do outro lado da mesa do rei, de frente para ele, encarando-o com uma expressão séria. Ao seu lado, Elrond imitou o movimento.
"Thranduil. Na carta que mandei para Elrond, eu contava do ataque que Legolas sofreu. Orcs! Orcs atacaram a patrulha guiada por ele. Atacaram! Legolas sumiu, foi encontrado na clareira, sangrando... Atacado! Legolas foi atacado como todos os outros elfos, só que num lugar diferente. Por isso perdeu tanto sangue." Explicou o curador.
"A tristeza não arranca sangue, Thranduil... Mas cortes e ferimentos absurdos, sim!" Completou Elrond.
"E essa tristeza seria resultado do que?" Indagou o rei, impaciente.
"De amar abertamente e não ser amado de volta"
A voz de Estel não passou de um sussurro. Mas os três elfos escutaram. Elrond e Therenil balançaram a cabeça, concordando com as palavras do humano, enquanto o rei de Mirkwood olhava do humano para os outros elfos, intrigado.
"Disse-me que ele não me amava!" Rosnou Thranduil.
"Se eu tivesse feito diferente, teria me deixando vê-lo?"
"Não" Foi a resposta sincera.
Estel abriu um sorriso satisfeito, mostrando claramente que, qualquer que fosse a próxima frase do rei, daquela briga o humano tinha saído vitorioso.
"Ele te ama, Thranduil... Mas tem medo de demonstrar isso. Tem medo da sua reação. Você nunca fez nada para mostrar que o amava!"
Thranduil voltou a olhar para o Meio-Elfo. A expressão séria mostrava que a frase era verdadeira.
"E o que querem que eu faça? Declare-me para ele na frente de todos meus súditos?" Zombou o rei.
"Eu tinha pensado numa coisa mais simples... Mas a sua idéia foi muito melhor!" Respondeu Therenil, com um sorriso malicioso no rosto.
"Qual era a sua idéia?" Perguntou Thranduil, desconfortável por ter dado uma idéia absurda. E por ela ter sido aceita com tanta facilidade.
A risada satisfeita do curador de Mirkwood irritou ainda mais o rei.
"Nada complicado... Só acho que deveria tratar ele com carinho, sabe? Não ser tão duro e formal com ele, ser amigável, agir naturalmente, conversar como um pai conversa com um filho..." Explicou o Therenil, sorrindo.
"A conversa que presenciei uns instantes atrás, entre Peredhel e Aragorn, não foi nada legal."
"Isso porque ele não é, realmente, meu pai!" Esclareceu Aragorn, abrindo outro sorriso satisfeito.
"Detalhes! O que mais querem que eu faça?"
"Ah, meu caro Thranduil. Você será o que mais vai fazer coisas por aqui! E deverá fazer isso com o coração! O elfo que, agora, sofre de dor e de tristeza fechado entre as quatro paredes de um dos milhares de quarto desse palácio, é mais espero do que pensa. Mais esperto do que todos nós pensamos! Ele vai perceber que você faz o que fará antes que você mesmo perceba, se não fizer com o coração!" Avisou Therenil. E o rei voltou a sentir a odiosa impressão que todos sabiam mais coisas sobre seu filho do que ele, que era o pai do garoto.
"Poupem-me de ladainhas, de palavras bonitas e de frases bem elaboradas. Podem ir direto ao assunto?"
Aragorn revirou os olhos, Therenil segurou a risada e Elrond continuou inalterável.
"Se quer a lista completa, por favor, não me interrompa!" Rosnou Therenil. "E não pense que estou sendo grosseiro com você, porque se fosse assim eu teria descartado o 'por favor'" Adicionou quando viu o olhar incrédulo que o rei dirigia a ele. E continuou sem esperar resposta: "O que você tem que fazer Thranduil, é simples, considerando que você é pai do garoto: Seja carinhoso, não aja formalmente com ele, chamá-lo de 'filho' algumas vezes também ajuda, não cobrar dele apenas relatos sobre as patrulhas que guia, não exigir que seja perfeito, aceitar o modo simples como ele vê o mundo, ajudá-lo quando precisar, mostrar-se presente quando isso se tornar uma obrigação, visitá-lo quando estiver doente, apoiá-lo nas dores que sente, tocar, pelo menos uma vez, nos cabelos dele, passar segurança, conforto, confiança... Amor".
Thranduil silenciou-se quando as palavras entraram por seus ouvidos élficos e acertaram, discretamente, seu coração, despertando algum sentimento que ele, decididamente, não queria sentir. Sentimento esse que, mais tarde, ele conheceria como sendo a compaixão.
Com um discreto aceno de cabeça, o rei poupou todos do uso de palavras. Ele estava disposto a dar tudo que podia para salvar o filho.
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Thranduil e Elrond entreolharam-se antes de puxarem Legolas, para que esse se levantasse. O arqueiro obedeceu, levantando-se e caminhando, lentamente, até a cama. Sempre apoiado pelo pai e pelo Lorde de Imladris.
Um minuto de silêncio preencheu o quarto, quando o príncipe deitou-se na cama. Thranduil sentou-se ao lado direito do rapaz, enquanto Elrond permanecia em pé, no lado oposto. A voz hesitante de Therenil cortou o silêncio:
"Eu... Vou... Cuidar... Dos cavalos! Isso! Vou cuidar dos cavalos! Tchau!" E, sem dizer mais nada, correu para fora do quarto.
Outro minuto de silêncio, e outra voz hesitante cortando o ar:
"Ele cuida de cavalos?" Perguntou Legolas, a voz fraca, os olhos encarando o lençol branco que o cobria. Um único objetivo na mente: não olhar para nenhum dos outros ocupantes do quarto.
"Não" Responderam, em uníssono, Thranduil e Elrond.
Mais silêncio. Uma coisa que irritava profundamente o rei. A lógica que ele utilizava era simples e direta: Havia quatro pessoas naquele maldito quarto. Porque ninguém iniciava uma maldita conversa?
"Hum... Estel... Precisamos conversar..."
O humano olhou para o elfo moreno com uma expressão extremamente desconfiada.
"Mas nós já..." Começou. Mas foi obrigado a parar. O olhar penetrante de Elrond transmitiu claramente a mensagem e, imediatamente, Estel entendeu o plano do Lorde de Imladris. Ficaria satisfeito em ajudar. "Certo..." Concluiu, fingindo estar triste e com medo da suposta 'conversa' que teria com Elrond.
E foi com profundo horror que Legolas assistiu suas últimas esperanças desaparecerem do seu quarto tão rapidamente quanto tinham entrado. Podia jurar que, ante de sair, Elrond olhou rapidamente para ele, movendo os lábios num 'boa sorte' mudo. Sorte?
"Precisamos conversar também, Legolas" Adiantou-se a voz imperativa do rei, assim que a porta do quarto foi fechada.
Os olhos profundamente azuis e opacos pelo sofrimento chocaram-se, novamente, com os verdes exigentes e, ao mesmo tempo, preocupados e desesperados. Aquele olhar que sempre lhe causara arrepios e que fora o motivo dos tremores que sempre percorriam seu corpo, naquele momento, por culpa de magia, feitiços ou qualquer coisa anormal, impedira-o de temer a figura que, imponentemente, sentava-se ao seu lado. A figura que, inegavelmente era seu pai. A figura que guardava dentro de si, o mesmo sangue que corria nas veias do, agora tranqüilo e despreocupado, Legolas Greenleaf. O que tinha para temer? Que motivos arranjaria para tremer, novamente, diante da presença do rei? Eles eram Thranduil e Legolas, rei e súdito, rei e capitão, rei e príncipe... Pai e filho.
"Precisamos conversar..." Repetiu Thranduil, erguendo, hesitante, a mão até o cabelo do rapaz e acariciando-o lentamente antes de terminar a frase. "...Ion nîn".
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Notas Finais da Autora
Agradecimentos:
- SadieSil -
- Telpë -
- Nii Souma -
- Aine -
- Anna Asakura Kyoyama -
- Angela -
Obrigada pelas reviews! ; )
