Loucura, por Elyon Somniare


Capítulo VI – Traição


- Estou contente contigo, Gal – afirmou Julian com um sorriso de satisfação. – Pareces estar a aceitar muito melhor a situação.

Galbatorix sorriu. Um sorriso estranho, mas ainda assim um sorriso.

- Não valia a pena.

- Exactamente, exactamente – apressou-se a concordar o curandeiro. – Agora, se me permites, a Saber avisou-me de uma Cavaleira que recomeçou a sangrar daquela ferida de mau aspecto que ela trazia nas costas. Sinceramente, isto está de loucos! Em que é que vocês estão todos a pensar?

Galbatorix esperou que Julian se encontrasse fora do seu campo de visão para se virar para o Cavaleiro recostado na cama a seu lado.

- Tinhas razão – murmurou o Cavaleiro. – Ele não tem respeito pela tua perda.

- Está constantemente a falar da Saber desde que o Gareth… – sussurrou Galbatorix. – Desde que ele… que ele…

- Não penses nisso.

- Não consigo deixar de pensar. O Conselho culpa-me pelo que aconteceu. É verdade – reforçou ao ver o ar escandalizado do outro. – Chamaram-me de atroz, de demente e de louco.

A expressão de incredulidade do Cavaleiro deu lugar a uma de pena. Galbatorix rejubilava interiormente. Sabia o que tinha de fazer. Congeminara aquele plano dias e dias seguidos. Passara noites a afinar-lhe os pormenores. Seria tudo executado com o máximo da perfeição...

Exteriormente, mantinha a expressão de resignação misturada com tristeza que tantos enganara… Julian e Saber já haviam caído na ratoeira. Julgavam-no curado, já não punham mais em causa a sua inocência. Este Cavaleiro, Reiz, e Meltrox, o seu Dragão, seriam a próxima fase do seu plano. Eram influenciáveis e compassivos. Tão fáceis de enganar e manipular…

Subitamente, algo no discurso de Reiz sobre o quanto o Conselho se enganara ultimamente, chamou a atenção de Galbatorix.

-… e os Urgals mataram-no, claro, que seria de esperar?

- Mataram-no? A quem?

- Estavas nas nuvens – acusou Reiz sem aprofundar muito o assunto. Julgava que Galbatorix se distraíra por estar a pensar em Gareth e não queria abrir ainda mais ferida. – O Conselho mandou um enviado aos Urgals para tentarem resolver os conflitos por meio da palavra. Hoje de manhã soube que o grupo de busca encontrou a cabeça dele na entrada de uma aldeia aqui perto.

- Mas isso quer dizer que…

- Que aqueles animais não compreendem uma palavra do que se lhes diz, claro.

- Não, o que ia dizer é que eles estiveram aqui! Na Ilha de Vroengard!

- Pelos Dragões! É verdade! – exclamou Reiz. – Ao que o Conselho desceu… Em que pensas tu, Galbatorix? Estás tão calado…

- É preciso fazer alguma coisa. É preciso que alguém faça alguma coisa.

- Sim, mas o quê? O Conselho…

- O Conselho pode ser deposto.

- São os Anciãos!

- Estão velhos e decadentes. Tentaram confraternizar com bestas. Mostram-se incapazes de tomar uma atitude em relação aos Espectros…

- Isso é verdade, mantêm essa situação em discussão permanente sem encontrar qualquer tipo de solução enquanto o problema se arrasta e aumenta a olhos vistos.

-… E já não demonstram o respeito que deveriam ter pelos irmãos e irmãs perdidos em missão… – completou Galbatorix, tomando o cuidado de adoptar um tom triste e nostálgico.

- Mais uma vez, tens razão – suspirou Reiz. – Mas que poderemos fazer? São os Anciãos…

Galbatorix escondeu um sorriso. Sabia, sentia, que já tinha o que queria.

- É preciso que alguém tome uma iniciativa…

- Sim, sim, mas quem? Quem é que se atreveria a tal?

- Nós.

- Nós? Mas…

- A missão de um Cavaleiro é proteger o Mundo que o rodeia. É proteger os mais fracos e necessitados. É este o alto valor de um Cavaleiro de gema. Os Urgals atacam cada vez mais aldeias e vilas, por vezes até cidades! Que faz o Conselho? Envia arautos para uma morte desonrosa. Os Espectros espalham cada vez mais terror entre a população de Alagaësia. Que fazem os Anciãos? Discutem a questão enquanto bebem o seu chazinho de ervas!

- Sim, sim. Vejo a verdade nas tuas palavras.

- Mas não estás convencido – acusou Galbatorix, fingindo-se desolado. – Quando comecei o meu treino como Cavaleiro sonhava em ajudar em tornar este Mundo melhor e mais seguro. Um Mundo de oportunidades! Onde as crianças pudessem brincar sem que as mães se afligissem e os homens pudessem trabalhar sem temer chegar a casa e ver esta em chamas… As minhas ilusões caíram por terra quando me apercebi do quão viciado estava o sistema dos Cavaleiros dos Dragões… Eu não quero viver num Mundo viciado! Num Mundo cinzento, ou mesmo preto!, onde domina o terror, o medo, a angústia e a injustiça…

- Também não o quero, Galbatorix. Mas não sei se tenho coragem.

- És dos mais bravos companheiros que já encontrei, Reiz. Como não tens coragem?

- Concordo com ele – opinou Meltrox, manifestando-se pela primeira vez desde que aquela conversa começara. – Nós, e todos os outros povos, merecemos um Mundo assim.

- Mas porquê nós?

- Porque não nós? Alguém tem de o fazer.

- Meltrox concorda contigo – informou Reiz.

- É sensato. Alguém tem de o fazer, Reiz. Se não formos nós e agora, quem e quando?

- Sim, tens razão. Dá-me arrepios só de pensar no que vamos fazer, mas os Anciãos já não são o que eram. Suspeito de que o poder lhes tenha subido à cabeça.

- Infelizmente tenho também essa desconfiança – concordou Galbatorix. – E isso desola-me de uma maneira impensável. Quando sais daqui? Amanhã? Julgo que em breve também irei receber alta. Nessa altura voltaremos a falar.


Cavaleiro e Dragão jaziam, lado a lado, nas traseiras de uma Casa de Ovos de Dragão. Reiz tremia, ainda sem acreditar no que acabara de fazer. As memórias assaltavam-no, como se o que o se passara há poucos minutos tivesse ocorrido há anos atrás!
- Senhora! Senhora!

- Reiz? Acalma-te, Cavaleiro. Que euforia é essa?

- Rebelião, Senhora! Eles vão… eles vão…

- Que dizes? Como assim rebelião? Como é que os Anciãos ainda não sabem disso?

- Siga-me. Siga-me rápido.


O sangue escorria da ferida da garganta. Como fora mortal, aquele único golpe! Mortal e traiçoeiro, bem o sabia… E ele que para aquilo contribuíra! Que fizera? Que palavras foram aquelas que Galbatorix entoara que o tornaram naquela miséria? Naquele trapo esfarrapado?


Cassandra parou, estarrecida.

- Senhora?

- Um vazio… Um vazio como se… Miremel…


Também ele sentira o vazio, pouco tempo depois de Cassandra. Um vazio terrivelmente profundo, doloroso. Uma dor que não conseguiria alguma vez explicar ou descrever. Nunca pensara que fosse assim, mas, a bem ver, nunca pensara mesmo em como seria. Era um pensamento que queria evitar. Teria sido essa a dor que Galbatorix sentira ao perder Gareth? Teria sido isso que o enlouquecera? Nessa altura ainda não sabia a causa dessa dor… Fora traído. Miseravelmente traído. Merecia-o, sabia que sim. Mas… Meldrox… Inconcebível… Como fora possível que tal sucedesse?


O punhal desceu veloz, enterrando-se fundo na curva do pescoço. Reiz não pode deixar de admirar a audácia e precisão de Galbatorix. Apanhara Cassandra pelas costas, traiçoeiramente.

- Pouco falta para terminar o nosso trabalho – anunciou.


Agora sabia. Meldroxfora assassinado, assim como o fora Miremel.

- Como conseguiste?

- Como consegui o quê? – retorquiu Galbatorix.

- Assassinar dois Dragões.

- Meldrox matou Miremel. Não saiu propriamente ileso da luta, que julgas? Que o teu Dragão era invencível? És um presunçoso igual aos outros, Reiz. Meldrox tornou-se um alvo fácil de abater.

- O vazio…

- Uma sensação dominante, não era?

- Mata-me… Por favor, mata-me.

- É o que pretendo.


- Jamais me perdoarei… Eu deveria saber! Era responsável por ele!

- Acalma-te, Julian – suspirou Vrael. – E sê mais sucinto. Eridor e eu ainda estamos a tentar descobrir o que se passou por essas tuas palavras desordenadas.

- Galbatorix não estava tão recomposto como julgávamos… Ele está louco, Vrael! Mas ao mesmo tempo…

- Lúcido?

- Exactamente. Estranhamente lúcido. Convenceu o Cavaleiro Reiz e o Dragão Meldrox a juntarem-se a ele…

- O rapaz sempre teve um grande poder de argumentação – comentou Eridor.

- E, juntos, atraíram Cassandra e Miremel para uma emboscada. Mataram-nas! A duas Anciãs! Assassinaram-nas a sangue-frio!

- Concentra-te no teu relatório, Julian – interveio Vrael.

- Sim, desculpa, mas é uma atrocidade tão… tão… Bem, no final, ou talvez já o tivesse planeado desde o início, Galbatorix virou-se contra o seu próprio companheiro e assassinou-o!

- E Meldrox?

- Já o tinha morto antes. Apanhamo-lo quando ainda tinha o sangue de Reiz nas mãos. Literalmente. A responsabilidade é minha, toda minha…

- A responsabilidade é de todos nós – interrompeu Vrael. – Negligenciamos o nosso cuidado. Subestimamos o rapaz.

- E agora arcamos com as consequências – acrescentou Eridor. - Onde está o rapaz?

- Onde está Galbatorix?

- Fugiu. Conseguiu fugir.

Eridor emitiu o que seria uma espécie de gemido.

- Isto não é bom. Não gosto nada disto…


N/A: O Eragon vai finalmente estrear!!! Yey!D. Mal posso esperar por Quinta-feira. Ora bem, e para festejar o lançamento do filme (que eu me vou fartar de criticar e comparar com o livro, mas enfim Que raio está o Galbatorix a fazer naquele filme!? Ele é uma personagem omnipresente, meterem-no em carne e osso estraga o efeito mistério!!!! Será que era muito caro contratar um actor que não aparecesse no filme?) capítulo duplo!!! Ou seja, dois capítulos logo de uma vez!