Parte II – Intervalo
Capítulo 6 – O louco homem imortal
Por um longo tempo, ele pareceu imerso apenas num oceano de dor sem fim. E desespero. E só o que ele queria era o fim, o fim da dor, o fim de tudo.
Rostos surgiam diante dele. Rostos distorcidos. O Lord das Trevas, Bellatrix Lestrange. Lucius Malfoy. Harry Potter. Remus Lupin. Hagrid.
Sua mãe, Eileen. Tobias. Sirius Black. James Potter. Lily, doce Lily.
Madame Pomfrey também aparecia distorcida, trazendo poções. Ele não sabia se bebia as poções de verdade ou se só sonhava que bebia as poções. Devia ser sonho. Ainda mais quando Madame Pomfrey se transformava em Sirius Black.
Severus não sabia dizer quanto tempo ele permaneceu distante da realidade. Até uma noite em que ele acordou e pareceu um pouco mais desperto. Estava num quarto, não na casinha de Hagrid. Talvez fosse outro sonho, pensou.
Com dificuldade, ele sentou-se na cama, os olhos acostumando-se rapidamente ao escuro e a uma fresta de luz que entrava por baixo da porta. Severus esforçou-se ainda mais para se levantar, e ouviu vozes atrás da porta. Ele não entendia o que as vozes diziam.
Severus andou até a porta, cambaleando. Sim, talvez ele estivesse sonhando. Achou que estava sonhando, quando abriu a porta e viu um corredor. A luz vinha de um outro aposento. Ele se segurou nas paredes para ir até lá.
E teve a certeza de que estava sonhando.
No tal aposento, uma sala de estar ou de visitas, ele viu as figuras de Sirius Black e Harry Potter conversando acaloradamente. Estranho que as palavras não estivessem claras para ele, e Severus sentiu que ia escorregar de novo para o sono. O Sirius de sonho de repente detectou a presença dele e alertou Harry. Os dois pareceram muito alarmados, mas Severus não viu mais nada, sentindo-se como se estivesse desmaiando no chão. Um pouco antes de perder totalmente os sentidos, Severus ficou admirado de como aquele chão (de madeira corrida, uma madeira escura e bem polida) parecia tão sólido quando ele bateu com a bochecha nele.
Aí, então, tudo ficou cinza.
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Havia um incômodo danado no seu ventre. Lá, um pouco abaixo do umbigo. Uma dorzinha chata que o incomodava e não o deixava dormir. Severus abriu os olhos.
Sirius Black estava com gaze e esparadrapo, na mão, resmungando:
– Se ele ficasse quieto um minuto, isso seria bem mais fácil...
Severus não escondeu seu espanto. Aquilo parecia tão real!... Ele não estava sonhando, tinha certeza que não. Então... o que estava acontecendo ali?
A aparição o encarou, com igual espanto:
– Está acordado!
– Estou morto – concluiu Severus, falando para si mesmo. – Se isto é real, então eu morri.
Sirius terminou de fazer o curativo no abdômen de Severus, ralhando:
– Deixe de bobagem, Snape. Você, infelizmente, está muito vivo. E eu também.
– Não. Você morreu, Black. Entrou no Véu e morreu...
Com ar entediado, Sirius dirigiu-se à mesa de cabeceira e de lá pegou um frasquinho, que passou a Severus:
– Tome isso. Deve ajudar a fortalecê-lo, segundo Madame Pomfrey.
Severus o encarou, ainda sob o impacto de ver o homem morto. Sirius se sentou numa cadeira ali perto, explicando:
– Foi idéia de Dumbledore. Merlin sabe como eu briguei com ele por isso. Especialmente pensando em Harry, que sofreu tanto. Mas o bode velho insistiu que ninguém deveria saber que eu estava vivo. Foi ele quem me tirou do Véu. Não me pergunte como.
– E você tem ficado aqui esse tempo todo? Onde é aqui?
– Depois que me recuperei do Véu, demorou algum tempo a convencer Dumbledore a me integrar de novo à luta contra Voldemort. Passei a ter a vantagem de estar morto, para todos os efeitos. Só que, para me integrar de novo à Ordem, exigi que pelo menos meu namorado Remus soubesse que eu estava vivo. Ele ficou muito tempo fora, sob o pretexto de "tentar convencer colônias de lobisomens". Como se Greyback fosse deixar os lobisomens livres para se desprenderem de Voldemort...
– Lupin? Você ficou com Lupin aqui, como um ninho de amor canino?
O sarcasmo provocou um brilho de ódio assassino nos olhos de Sirius, e ele chegou a se erguer da cadeira. Mas depois Sirius simplesmente suspirou.
– Sim, pode dizer isso. Mas Dumbledore precisava de mim, ainda mais quando bolou o plano de descobrir as Horcruxes de Voldemort para dar fim àquela praga. Ele me nomeou Chefe Substituto da Ordem, o homem de sombra. Remus era meu segundo, meu homem de luz.
– Como eu não soube disso?
– Você não podia saber. Ao menos até que todas as Horcruxes fossem encontradas, e ele dependia de você totalmente para isso. Ele confiava em você. Eu sempre achei arriscado, mas no final ele estava certo. Você era o único que podia fazer o serviço. Só depois, quando fomos resgatar Harry e você foi encontrado, é que soubemos que seu papel de espião tinha sido descoberto.
Severus considerou aquela afirmação. Só então se deu conta de que estava pensando claro, como há meses não fazia. Levou a mão ao pescoço: sem coleira. Levou a mão à barriga: sem barriga.
O rosto dele deveria refletir sua confusão, porque Sirius respondeu à pergunta antes mesmo que ele a formulasse:
– Quando Voldemort foi morto, você instantaneamente foi atingido. A coleira mágica explodiu, e o bebê também foi afetado. Ambos eram visceralmente ligados a Voldemort. Morreram com ele. – Sirius abaixou a cabeça. – Houve... mais vítimas.
Severus encarou Sirius, reconhecendo a dor de uma grande perda. Ele balbuciou:
– Potter...
– Não, Harry está bem. Mas Remus... – Sirius não conseguiu completar a frase, abaixando a cabeça.
Severus ficou em silêncio. Ele conseguia ver, naquele momento, que Remus salvara sua vida. Ele gostaria de ter retribuído o gesto de alguma forma. Lamentou aquela morte, como nunca pensou que lamentaria a morte de um dos Marotos.
De repente, uma dúvida o atingiu no coração. Ele perguntou:
– E Hagrid?
Sirius manteve a cabeça baixa e não emitiu qualquer som, apenas fez sinal negativo com a cabeça. Severus sentiu mais ainda. Hagrid tinha sido um amigo, o único e verdadeiro amigo de que Severus podia se lembrar além de Dumbledore. Mais do que isso, Hagrid cuidara dele e o protegera de si mesmo.
Os dois ficaram em silêncio, cada um perdido em pensamentos diferentes. Como mal tinha se recuperado de uma cirurgia mágica de emergência, Severus voltou a se deitar e terminou pegando no sono.
Capítulo 7 – Pudesse eu reviver dentro de mim
– Você ainda não pode se levantar.
– Não se preocupe, Black. Não vou sangrar até a morte no seu precioso assoalho de madeira de lei.
– Vejo que está mesmo bem melhor. O humor voltou ao encantador padrão corrosivo de sempre.
– Você deveria estar satisfeito. Quanto antes eu ficar bem, quanto antes estarei longe de seus olhos caninos.
– Bom, aí é que você se engana. Você não pode sair de Xanadu.
– Como não posso sair? E é assim que você chama esse lugar?
– Você está, para todos os efeitos práticos, morto. E eu também. Sair agora será perigoso.
– Mas você disse que ele está morto. Isso é definitivo ou o seu querido afilhado não conseguiu fazer o serviço?
– Voldemort está totalmente morto, sim. Mas vários dos seus "amiguinhos" de clube não estão. Eles vão adorar saber que você está vivo. E outra coisa: Moody não tem muita certeza de que a notícia da morte do bebê de Voldemort foi totalmente aceita.
– O que está querendo dizer?
– Existe uma chance de que algum fanático, tipo minha prima Bella, ou mesmo alguém com estranhos sonhos de poder queira criar o filho de Lord Voldemort e manipulá-lo para um novo reinado de terror.
– Que imaginação, Black...
– Ah, acha que estou exagerando?
Severus não achava. Ele conhecia seus ex-companheiros o suficiente para saber que aquilo podia muito bem ser verdade.
– Black. – Ele não chamou, ele apenas pronunciou o sobrenome. – Diga-me a verdade. Não minta para mim. Isso pode ser vital. A criança está morta?
– Totalmente. Moody e Shacklebolt chegaram a fazer uma coisa Muggle chamada necropsia, para verificar se Voldemort não tinha conseguido transformar o feto numa Horcrux escondida.
Severus ficou branco. Ele pensara nessa possibilidade, mas não achava que ninguém mais também tivesse pensado nisso.
– Quem... – A voz dele tremeu, ele não pôde evitar. – Quem sobreviveu?
– Poucos dos seus colegas, se é isso que está perguntando. Não, não teve um que tenha escapado de Azkaban desta vez. É onde Lucius foi parar. A menos que vocês estivessem recrutando sem que a Ordem soubesse...
Severus usou sua voz mais ácida:
– Já fazia muito tempo que eu nada sabia sobre as atividades da... organização. Como você já deve saber, eles me consideravam um ex-membro. Pergunto apenas para avaliar as chances e riscos.
– Fique tranqüilo. Está seguro aqui em Xanadu. – Black o encarou. – Cuide direito dos pontos de sua cesariana. Se eles arrebentarem, e eu tiver que refazê-los, você não vai gostar.
Felizmente, Severus ainda estava dormindo muito para se recuperar. Ele não respondeu, caindo no sono em seguida.
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Eventualmente, Severus começou a ficar mais tempo acordado. Ele procurava se movimentar de maneira a não arriscar romper os pontos. A idéia de Sirius Black costurando-o não era nada apelativa.
Eles se evitavam ao máximo, e, embora Severus admitisse que isso ajudasse sua recuperação, não era uma boa idéia a longo prazo. Ele não sabia quanto tempo teria que ficar naquele local chamado Xanadu, e seria mais produtivo se os dois conseguissem estabelecer algum tipo de convivência.
Nas suas pequenas andanças pelo quarto e até a sala de refeições daquele andar (Severus ainda não podia descer e subir escadas), pôde ver pelas janelas que o lugar era bonito. Havia um rio passando por ali perto, e ampla área verde. Não era uma floresta, mas da sua janela, Severus podia avistar pequenos animais e muitos pássaros na mata. Quando ele ficasse bom, ele certamente exploraria a área externa do lugar chamado Xanadu, pois parecia muito interessante. A janela rapidamente tornou-se seu local preferido do quarto.
Naquele andar, felizmente, havia um cômodo dedicado a livros. Não se podia chamar aquilo de biblioteca, embora os volumes cobrissem duas paredes do local. Sem varinha, Severus não podia usar Accio para pegar os títulos que gostaria. Adorou a poltrona daquele local, e aquele rapidamente se tornou seu cômodo preferido.
Ainda assim, ele se recolhia cedo para descansar. Numa noite, ele ouviu vozes na casa. Pareciam vir do andar de baixo. Provavelmente o afilhado de novo. Severus virou para o lado (com cuidado por causa dos pontos), tentando retomar o sono.
Capítulo 8 – Do leite do Paraíso ele bebeu
Naquela mesma noite, Severus acordou mais uma vez. Ergueu-se e deixou o quarto. Havia luz no cômodo que era uma espécie de sala de estar. Provavelmente Potter ainda estava ali.
Mas, ao chegar ao cômodo, Severus viu Black sozinho. Cabisbaixo, os longos cabelos cobrindo-lhe parte do rosto, olhos fixos no fundo do copo já vazio de um líquido âmbar que provavelmente era firewhisky. Severus empinou o nariz, e um forte cheiro de álcool invadiu suas sensíveis narinas.
– Black? Você está bem?
Sirius Black produziu um som que Severus mal reconheceu como uma risada. Era algo curto, feio, entre uma fungada e uma latida.
– Ótimo. Maravilhoso.
A voz também estava arrastada. Era óbvio que ele estivera bebendo por tempo demais.
– Não acha melhor ir para cama agora?
– Já vou, mamãe.
Severus rolou os olhos para o teto, entediado. Cuidar de um Black bêbado não era exatamente sua idéia de recuperação. Com um suspiro, ele se dispôs:
– Vamos, eu levo você para a cama. Onde é seu quarto?
– Não! – Black abraçou-se, possessivo, à garrafa de firewhisky. – Não me leve. Você vai arrebentar os pontos. No momento, não estou em condição de costurar ninguém, mas não quero ver você sangrar até a morte no meu precioso assoalho. Portanto, não se aproxime de mim a menos que você queira me ajudar a acabar com essa garrafa. Se bem que você não vale metade dessa garrafa.
– Você é um esnobe, Black.
Severus se ajeitou no sofá. O outro lhe passou a garrafa. No primeiro gole, Severus viu-se tentado a concordar com o animago: o uísque era dos melhores.
Sirius não olhou para Severus. O rosto estava voltado para a lareira, as sombras tornando seu rosto cheio de ângulos e expressões.
De repente, a voz cortou o silêncio da noite, miúda, suspirada, quase um sussurro:
– À noite, eu sinto mais falta dele.
Severus entendeu, finalmente, do que se tratava. Black – não, Sirius, corrigiu-se – estava sofrendo. Afinal, ele era seu anfitrião e estava sofrendo. Alguém com tamanha dor merecia ser chamado pelo primeiro nome, por sua identidade. Severus não tinha um companheiro para sentir falta. Severus não tinha ninguém. Mas ele também não era totalmente insensível à dor alheia.
– Eu... lamento por você.
– Você amava Hagrid?
– Não, claro que não. Não era nada disso.
– Desculpe. Do jeito que você falou, eu pensei...
Silêncio. Severus admitiu:
– Sou muito grato a Hagrid. Ele é... foi... uma pessoa especial e única. Não me esquecerei dele enquanto viver.
Pausa.
– Gostaria que você o tivesse amado. Ele merecia ter alguém que o amasse.
– Ele não merecia a mim.
Sirius rosnou:
– Ah, está se achando bom demais para alguém como Hagrid, Snape?
– Aguce sua audição canina, Black. Eu acabei de dizer que Hagrid era bom demais para mim.
– Que está querendo dizer?
Severus abaixou a cabeça:
– Estou concordando com o que disse. Hagrid merecia alguém que o amasse. Merecia alguém bom e pleno. Eu sou... inadequado.
– Hagrid gostava de você. Ele o admirava.
– Ele... era especial. Eu sou danificado demais. Faria mal a ele.
– Bom, isso é verdade. Você é estranho, Snape. Sempre foi. – Sirius tomou outro gole, desta vez diretamente da garrafa. – Eu também sou danificado. Não sei como Remus me agüentou depois de Azkaban. Mas, pelo menos, eu tenho Azkaban como desculpa. E você?
Severus refreou um rosnado. Ele pegou um copo e a garrafa, dizendo enquanto se servia de uma dose generosa do líquido âmbar:
– Para responder a isso, eu teria que tomar muito mais uísque do que você está me mostrando.
– Posso não estar lhe mostrando todo o uísque que tenho.
– Então, mostre.
Sirius sacou a varinha:
– Accio Ogden!
A garrafa veio voando de uma prateleira do outro lado da sala. Felizmente, não havia portas no caminho, ou o estrago seria grande.
– E então? O que vai me dizer agora, Snape?
Severus deu um sorrisinho daqueles do cantinho da boca:
– Vou dizer que é um começo. Especialmente se me chamar de Severus.
Sirius o encarou, depois cedeu:
– Tá bom. Às vezes, nós, homens, somos muito previsíveis.
– Que quer dizer?
– É só a gente ficar bêbado com alguém e já estamos nos tratando pelo primeiro nome. Isso se a gente não cair na porrada antes, claro.
– Eu não posso cair na porrada – garantiu Severus. – Os pontos, você mesmo disse.
– Boa lembrança – concordou Sirius, gesticulando com a garrafa. – Então, você pode me chamar de Sirius também.
Severus inclinou a cabeça, numa mesura que não era uma reverência, mas mera vênia. Aproveitou a trégua para se aventurar com seu companheiro de bebidas:
– Posso fazer uma pergunta?
– À vontade.
– Por que está me ajudando?
– Remus me pediu – foi a resposta franca. – Ninguém mais estava disposto a ajudá-lo. Bom, isso não é totalmente verdade. A única pessoa disposta a fazer isso é Harry, mas eu achei que o garoto merecia uma folga.
– Todos nós merecemos.
– Não diga isso, Snape. Para mim, você não é exatamente férias.
– Meu nome é Severus. E se minha presença o incomoda tanto, eu posso ir embora imediatamente.
– Deixe de ter suas sensibilidades feridas, Severus. Você não pode nem descer as escadas.
– Pensei que estávamos tentando ser civilizados.
– Nós viemos aqui para beber ou para conversar?
Severus esvaziou o copo de um gole só, com uma careta. Depois, esticou o braço:
– Se é para beber, é melhor passar logo o tal uísque.
Copos foram cheios, um brinde silencioso e grandes goles.
Outra pausa.
– Você já amou, Severus?
– Não é de sua conta.
– Pensei que estivéssemos abrindo o coração um pro outro.
– Acho que você está mais do que pronto para dormir e curar essa bebedeira.
Sirius balançou a cabeça (lentamente, pois os reflexos já estavam comprometidos pela ingestão de bebida) e insistiu:
– Não até você me contar todos os seus sórdidos segredos.
– Sinto decepcioná-lo. Meus segredos não são tantos nem tão sórdidos que valham você perder uma noite de sono.
– Fala aí, vai! – Ele começou a cutucá-lo. – Eu sei que você tem algo para contar. Fala logo! Algo bem suculento e perverso.
– Você parece um dos primeiranistas salivando na vitrine de Honeydukes.
– Fala aí, Sev!
Severus abaixou a cabeça. Havia uma dor no fundo de seu peito, mas o álcool estava fazendo efeito nele, e, de repente, ele se viu admitindo algo. Severus jamais tinha admitido isso nem em pensamento, mas estava falando em voz alta – e para Sirius Black, de todas as pessoas.
– Eu nunca amei. Quando em Hogwarts, você e seus amigos se certificaram de que ninguém quisesse olhar para mim. Quando saí de Hogwarts, minha iniciação no círculo incluía serviços integrais ao Lord. Foi como conheci sexo. No meu caso, ele me escolheu como objeto de uso coletivo. Ele me dava a qualquer um que lhe aprouvesse, ou também como punição se eu o desobedecesse, ou simplesmente se ele estivesse sentindo-se particularmente perverso. Ele disse que era o que eu merecia e que eu nunca seria amado.
O sorriso de Sirius caiu, e Severus não o encarou. Mas concluiu:
– Esta é a exata medida de meu conhecimento sobre essas coisas. Nunca fui muito fascinado por algo que só conheço como dolorido e pouco satisfatório. Ademais, eu acredito que ele estava certo. Nunca obterei qualquer satisfação emocional, nem encontrarei alguém interessado em me fornecer este tipo de experiência de maneira satisfatória. Essencialmente, portanto, ele estava certo. Nunca serei amado.
Houve um longo silêncio. As sombras na sala pareciam ainda mais longas do que o normal. A sala estava quieta.
Tão quieta que Severus quase pulou na cadeira quando a voz de Sirius soou bem próxima:
– Ele mentiu, Severus.
Severus o olhou. Os olhos cinza pareceram impenetráveis tão perto de seu rosto. Mas, de modo algum, eram olhos inexpressivos. Aliás, havia um fogo tão grande dentro deles que Severus não sabia como responder.
Ele pousou o copo na primeira mesa que viu e ergueu-se.
– Vou me recolher. Confio que não vá amanhecer no tapete.
E saiu sem voltar-se para trás.
Capítulo 9 – Ficar na Câmara do Prazer
O dia seguinte foi um tanto embaraçoso. De ressaca, Sirius preferiu deixar Severus sozinho a maior parte do dia. Estranhamente, Severus sentia-se melhor, mas os acontecimentos da noite anterior o faziam pensar.
A sessão de firewhisky na madrugada tinha sido para aproximá-los, não? Então por que Severus se sentia mais do que isso? E desconfortável?
Talvez o uísque o tivesse feito ir a lugares que ele não estivesse disposto a ir. Pensar em coisas nas quais ele não queria pensar.
Droga, e bem na frente do tormento de sua juventude!...
Severus viu o dia morrer da janela do quarto. O pôr-do-sol era magnífico naquele lugar. Ele ainda iria perguntar exatamente onde ficava aquela mansão.
– Você tem muita sorte.
Severus deu um pulo ao notar Sirius dentro do quarto, sentado na sua cama. Recuperando-se logo, ele simplesmente indagou:
– Está dizendo isso por que estou vivo?
– Porque você nunca amou. Nem perdeu esse amor. Especialmente a parte da perda.
Severus se sentiu um pouco irritado:
– Não queira comparar perdas comigo. Só porque nunca tive um namorado não quer dizer que nunca perdi ninguém.
– Interessante que você esteja disposto a admitir isso em plena luz do dia. Ou sóbrio. Corajoso.
– Não tenho muito mais a perder.
– Sna... – Sirius se corrigiu: – Severus, eu... Acho que posso ajudá-lo. E... bem... você pode me ajudar...
– Do que está falando?
– Estou sozinho; você também. Um poeta Muggle falou em juntar solidões. Eu não agüento mais isso.
Aquilo fez Severus encará-lo, incrédulo.
– Não pode falar sério. É um absurdo tão grande que não pretendo dignificar com uma resposta.
– Na verdade, pode funcionar. Não temos qualquer atração um pelo outro. Não é nenhum compromisso. Apenas gratificação física. E isso é algo que você diz não ter muita experiência. Pelo que falou, até agora você não teve muita sorte nessa área. Confirma o que disse?
Severus não pôde evitar enrubescer, baixando a cabeça.
– Sim. – A resposta veio numa voz miúda. – Confirmo.
– Eu posso fazer você se sentir bem. Se quiser, claro. Não posso forçá-lo.
Severus o encarou longamente. Sirius sustentou o olhar.
– Não faria isso por mim, não é? Não minta.
– Não. Estaria fazendo por mim. Para... lembrar.
– Essencialmente, então, você estaria me usando. Usando meu corpo.
Algo inédito aconteceu. Primeiro, Sirius empalideceu. Depois, ele ficou vermelho e não pôde mais olhar Severus.
– Tem razão. Isso é inadmissível. Desculpe, eu... Olhe, isso nunca aconteceu, está bem?
Ia saindo rapidamente, quando Severus se ergueu e o segurou pelo braço.
– Você realmente está desesperado, não?
Sirius o encarou, os olhos faiscando de ódio. Mas, em segundos, o ódio se transformou numa dor que Severus jamais imaginou ter fim. Ou que existisse dor tão grande.
– Não quero ser igual aos outros. Sim, eu estou desesperado. Mas não tão desesperado assim. Eu não o machucaria desse jeito.
– Não? Você mudou em 20 anos. – Uma sobrancelha se ergueu. – Não diga que está ficando mole, Sirius.
Não. Não era isso, e Severus sabia que não era.
– Bom, está disposto a considerar minha oferta ou não? Como eu disse, você pode recusar.
– Você pretende me pressionar até ter uma resposta?
– Se você quiser apenas durante um tempo, podemos combinar isso. Além do mais, no momento, você está convalescendo. Aliás, deveríamos trocar esse curativo agora.
– Isso não será necessário. Eu já tirei os pontos.
– Ficou maluco? Tirar os pontos sem Pomfrey é perigoso.
– Não. Eu não sou totalmente inexperiente. Sabe, eu também era uma espécie de curador para os seguidores do Lord das Trevas. Podia ser útil.
– O nome dele era Voldemort. – Sirius sentiu uma pontada de satisfação ao ver Severus desconfortável. – E ele está bem morto agora. Mas é muito decente de sua parte cuidar de companheiros feridos.
– Acredite: não havia qualquer motivação altruísta no gesto. – Severus voltou a olhar para fora da janela. O céu estava púrpura no pôr-do-sol glorioso. – Como não há altruísmo no seu gesto.
– Está bem, eu entendi o recado. – Sirius se ergueu. – Quer jantar lá embaixo? Conhecer a parte de baixo da casa?
Sirius viu Severus se erguer, a noite chegando rapidamente e escurecendo o quarto. Sirius estava na penumbra e viu a silhueta do outro ficando maior e maior à medida que se aproximava dele. Por algum motivo, não disse coisa alguma.
A expressão de Severus estava escondida pela escuridão do quarto, mas Sirius observou Severus se aproximando. Ele pediu:
– Fale sobre Lupin.
– Como assim?
– O que ele fazia? Do que ele gostava? – Severus estava bem próximo de Sirius, e a voz dele era quase sussurrante. – O que você queria que ele fizesse?
Sirius estava um tanto constrangido, mas respondeu:
– Ele... gostava de primeiro me despir... Mas você não precis...
Foi interrompido quando as mãos longas e elegantes começaram a passear por seu peito, até encontrarem a barra da camisa e começar a puxá-la para cima. Sirius ficou meio atordoado a princípio. Jamais imaginara o homem a quem um dia chamara de Snivellus tão... sedutor.
Sirius sentiu as mãos suaves, acariciando todo o seu corpo. De repente, sem perceber, estava na cama, sem uma única peça de roupa, o cérebro semicomatoso focalizado apenas na boca talentosa que estava estacionada no meio de suas pernas, enlouquecendo-o.
– Se você continuar se mexendo assim, eu não vou me responsabilizar por meus atos, Severus.
Sirius não teve que fazer nada.
A habilidade de Severus arrancou um orgasmo poderoso de Sirius. Tudo foi feito em silêncio, de modo tranqüilo e sem pressa.
De repente, Sirius se deu conta do que estava vendo: habilidades treinadas, uma pessoa preparada para ser usada, e para proporcionar prazer a outros. Não a si mesmo.
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Severus deitou-se ao lado de Sirius, que soava como se estivesse tentando recuperar a respiração de uma só vez. Tinha sido diferente, pensou. Pela primeira vez, tinha feito sexo oral sem que sua cabeça fosse segura com violência e empurrada, o que sempre o deixava engasgar. Não desta vez. Seu parceiro simplesmente o deixara encarregado de tudo, aceitando seu ritmo, acompanhando seu ritmo.
Os pensamentos de Severus foram interrompidos por uma mão que se insinuou por sua cintura e serpenteou até a sua virilha. Ao não constatar qualquer volume, Sirius indagou:
– Você não está...?
– Eu nunca estou.
– Posso ajudar você com isso. Se quiser.
Severus calou-se. Nunca tinham deixado a decisão em suas mãos antes. Geralmente ele era usado, então não precisava estar ereto. Ele nem se lembrava mais quando tinha tido uma ereção. Talvez na adolescência.
Ele podia ter outra.
Num impulso, respondeu:
– Não, eu... ainda estou dolorido. Mesmo sem os pontos.
Se Sirius acreditou ou não, Severus não soube dizer. Ele só soube que a mão continuou em sua cintura, e não saiu durante a noite toda.
Severus nunca tinha dormido com ninguém desse jeito. Estranhamente, naquela noite, ele não teve pesadelos, notou.
Capítulo 10 – Grutas de gelo no palácio ensolarado
Em poucos dias, Severus estava recuperado de saúde, mas sua cabeça estava um tanto confusa. Aquela relação com Sirius não era nada daquilo que imaginara.
Ele esperava sexo impessoal, com Sirius se satisfazendo e usando seu corpo. Não estranhou que tudo fosse feito sempre de luzes apagadas: Sirius provavelmente estava se lembrando de seu amante morto enquanto usava as mãos para se satisfazer.
Depois ele insistiu em satisfazer Severus, também. Aquilo foi totalmente inesperado. Afinal, Severus mal se lembrava de como era. Mas, desde que esta estranha relação com Sirius começara, ele se via diante de coisas inesperadas: os toques quentes e suaves das mãos de Sirius, os lábios macios na sua pele, uns beijos roubados no canto de seu lábio, os toques sensuais. E sem dor! Severus às vezes mal podia acreditar.
E embora provavelmente Sirius estivesse pensando em Lupin naqueles momentos, Severus quase achava que ele era parte de uma dupla. Mesmo sendo um mero dublê de corpo, ele era bem-tratado, considerado. Severus tinha demorado até se certificar de que aquilo não era apenas um truque de Sirius, mais um resquício da Era Marotos. Não, agora ele finalmente acreditava que Sirius não iria machucá-lo. Sexo, agora, era mais relaxado, já que ele não esperava ser furado, queimado, espancado ou abusado.
A coisa foi num crescendo. Eles trocavam apenas carícias, mas agora eram bem mais apaixonadas e sensuais. Severus descobriu que Sirius tinha mamilos sensíveis. Só mas lambidas e uns puxõezinhos e pronto: o Animago já estava tão ereto que Severus podia levar muito tempo fazendo dele seu pirulito particular. Ah, aquilo era algo que Sirius adorava, Severus podia notar. Tanto a parte da lambidinha quanto do pirulito.
Aos poucos, eles eram mais vocais na cama. Sirius pedia coisas, "Mais aqui, mais ali, assim é bom", e Severus ficava calado, limitando-se a soltar gemidos. Ele não falava, pois sua voz poderia lembrar Sirius de que ele não era um amante de verdade, só um substituto. Severus podia sentir a mudança em Sirius se ele percebia que Remus não estava lá.
Era uma pena que eles não fossem realmente amantes, porque Severus podia se acostumar a ser tratado daquela maneira. Pela primeira vez, ele não estava sendo machucado, não era alvo de violência ou de escárnio. Para Severus, isso era quase amor.
As lembranças não o deixavam... Lembranças muito, muito antigas.
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Lord Voldemort sempre fora um homem carismático. O jovem Severus, que já se sentia prestigiado por ter sido escolhido para entrar nas fileiras do poderoso mago, ficou duplamente orgulhoso por ter despertado outro interesse do Lord. Bom, houve a iniciação pública, que deixou Severus desconfortável. Os seus novos colegas cumprimentaram sua performance, e o jovem pôde sentir a malícia de seus pares. Mas depois houve aquele dia em que o Lord indicou que ele seria aceito na alcova privada.
Nada poderia ter deixado Severus mais orgulhoso. Aquele homem poderoso e carismático não só o aceitara, mas também o incluía na sua intimidade. Severus sentiu-se amado, sentiu-se especial. Ele podia se apaixonar.
Até que ele entrou na alcova. Além do Lord, também estavam Lucius e Crabbe, que tinham deixado o Lord feliz naquele dia. Ambos encararam Severus com olhares predatórios. Sim, porque Severus era a presa. Era o prêmio dos dois.
– Você é especial, Severus – disse Voldemort, acariciando-lhe o queixo. – Sirva seus irmãos como serviria a mim. Não me desaponte.
Irmãos não fariam o que Lucius e Crabbe fizeram com ele. Ele amanheceu o dia ensangüentado, doído, ardido, desiludido. O Lord não achou sequer interessante participar na festa, nem elogiou Severus. Severus estava decepcionado porque ele tinha vindo ali para satisfazer seu Lord, e tinha sido usado.
O jovem ainda não estava forte o suficiente em Oclumência para bloquear seu Lord, que sentiu toda a sua decepção. A resposta de Voldemort foi colocá-lo no seu lugar, fazer ver exatamente sua colocação na hierarquia da organização. Ele era bom com poções e bom como objeto. Durante 18 meses, ele foi usado, abusado, menosprezado, humilhado, afrontado, ultrajado. Durante 18 meses, ele aperfeiçoou suas habilidades de Oclumência. Depois desse tempo, foi chamado a ser espião junto a Dumbledore.
Mas jamais deixou de ser apenas uma coisa, um objeto. Naquele tempo todo. Quase 20 anos. Ele aprendeu a usar a Oclumência e a Legilimência, portanto, ele sabia que era apenas uma coisa, um objeto. Quando sua traição foi descoberta, 20 anos depois, aí ele passou a ser pior do que isso: era um objeto nocivo, pior do que um leproso. Obviamente, foi tratado como tal.
Ele mal se lembrava da coleira, mas sabia que ele quase tinha enlouquecido por tê-la usado. Nem sabia explicar como tinha conseguido fugir. Pelo menos, ele não tinha formado qualquer tipo de laço emocional com o bebê que fora obrigado a carregar. No íntimo, ele estava satisfeito pela criança não ter sobrevivido. Como se o mundo bruxo já não tivesse motivos suficientes para odiá-lo, o fato de ele ser responsável (ainda que involuntário) pela progênie do Lord das Trevas seria definitivamente a pá de cal.
Por isso Severus era tão grato a Sirius, mesmo que não dissesse em voz alta. Ser dublê de corpo para um lobisomem morto era um preço baixo a se exigir pelo que tinha em troca.
Droga, assim ele podia até se envolver emocionalmente. Nesse caso, pensou, era uma confusão e tanto para uma pessoa já danificada como ele. Sem esquecer que isso só reafirmava o vaticínio de Lord Voldemort, que ele nunca seria amado. Era verdade, porque obviamente Sirius jamais retornaria qualquer sentimento. Severus achou melhor, portanto, esforçar-se para não deixar que esses sentimentos se desenvolvessem em primeiro lugar.
