Parte III – E todos deveriam gritar "Cuidado! Cuidado!"
Capítulo 11 – As cavernas imensuráveis
– Algo especial?
– Harry está aí para jantar conosco. Ele gostaria que você comparecesse.
– Então, está bancando o anfitrião?
–Harry dificilmente pode ser chamado de visita. Aliás, ele é a única pessoa que conhece Xanadu.
– Este lugar está protegido por Fidelius?
– Não. Dumbledore montou uma série de intrincados feitiços, que dão a esse lugar uma proteção semelhante à de Hogwarts. Os Muggles vêem apenas ruínas, e, se tentarem chegar perto, lembram-se de outros compromissos urgentes.
– O nome é interessante. Faz pensar.
Uma voz diferente perguntou:
– Conhece poesia Muggle, Professor? Se reconheceu o nome, acho que já leu alguma coisa.
Severus se virou, surpreso. Há muito ninguém o pegava desprevenido – nem o chamava de professor. Harry Potter sorriu:
– O senhor parece bem, professor.
– Não sou mais seu professor. Pode me chamar de Severus.
– Está bem. – O rapaz sorriu, corrigindo-se: – Severus. Mas continuo achando que está com ótima aparência.
Sirius comentou:
– Acredita que Harry estava com medo de que um de nós não saísse vivo?
– Perdão, não entendi.
O rapaz enrubesceu:
– Bom, só o que eu sei sobre vocês é que sempre viveram brigando. Cheguei a me oferecer para cuidar de você, mas Sirius não deixou. E vocês ficaram sozinhos aqui. Devo confessar que temi o pior.
– Agradeço a preocupação, Potter. Mas garanto que ainda não estamos a ponto de nos matarmos. Claro, também não posso garantir que isso não vá acontecer, mas não no futuro próximo.
– É o que eu estou vendo. Estou impressionado. Vocês estão se dando bem!
Severus permaneceu impassível, sem querer pensar no quão bem Sirius e ele estavam realmente se dando.
Durante o jantar, Sirius foi quem indagou:
– E então, afilhado? Como estão as coisas no mundo exterior?
– Que bom que perguntou. Foi justamente isso que vim falar, mas... não sei se são boas notícias.
– Como assim?
– Bom, Sirius, eu andei dando uma especulada no Ministério. Kingsley me ajudou, Moody também, mesmo sem saber, e... Bom, você está morto. Se voltar a viver, vai ter que responder a algumas investigações. A Ordem não está muito certa de que isso seja uma boa coisa.
– Mas qual é o problema?
– A fuga de Azkaban. Os Dementors estão de volta à prisão. Foram convencidos a voltar a trabalhar lá, mas eles jamais perdoaram a sua fuga. Foi a única fuga em todo o tempo que eles cuidaram da prisão. Se souberem que você está vivo, o Ministro acha que eles podem querer vingança. Dementors não têm uma natureza voltada para o perdão ou o arrependimento.
– Ótimo! – Sirius fechou a cara. – Então essas coisas nojentas podem me controlar a ponto de determinarem onde tenho que morar, ou quando posso voltar a ter uma vida?
– É perigoso – insistiu Harry. – O mesmo vale para Severus, com a agravante de que ele matou Dumbledore. Se o Ministério souber que Severus está vivo, vai iniciar uma caçada. Ou melhor; vai iniciar uma outra caçada.
– O que quer dizer?
– Quero dizer que Death Eaters em particular, e Slytherins em geral, estão na mira do Ministério. É um pesadelo de caça às bruxas, discriminação e racismo. Não gostaria de entrar em detalhes, mas até Hogwarts está na mira.
– Oh, Merlin... – Sirius estava abismado. – Eles estão fazendo exatamente tudo que Voldemort quis fazer...!
– Receio que sim. O pior é que nem todos acham isso muito ruim. Acreditam que essas "pessoas corrompidas" podem criar condições para o surgimento de um novo Lord das Trevas.
– Eles não vêem que eles é que estão criando as condições para um novo Voldemort surgir? Por Merlin! – Sirius estava revoltado. – Harry, por que não fala com eles? Tenho certeza de que sua palavra será ouvida.
O rapaz enrubesceu um pouco:
– Na verdade, eu tentei, Sirius, mas a verdade é que eu tomei uma decisão, e o mundo bruxo não ficou nada satisfeito com ela.
– Como assim?
– Bom, essa era a outra coisa que eu queria conversar com vocês. Eu resolvi... me assentar, como se costuma dizer.
– Vai se casar? Harry, isso é ótimo! Alguém que a gente conhece?
– Bom... sim... Mas não sei se vão aprovar...
Severus pescou no ar:
– É alguém com ligações com o Lord das Trevas?
Harry arregalou os olhos para ele, assustado:
– Está lendo minha mente?
Severus revirou os olhos, aborrecido:
– Não, Potter. Não era uma dedução tão difícil. Pode nos dizer de quem se trata?
Harry pronunciou o nome. Severus empalideceu, e Sirius se ergueu da mesa, gritando:
– Mas logo quem! Harry, você pode ter coisa muito melhor!
– Mas, Sirius, a gente estava até pensando em se mudar aqui para perto, talvez construir uma outra casa com a ajuda de vocês...
Sem deixar o rapaz completar, o animago voltou a se sentar e dirigiu-se a Severus, mal contendo sua fúria:
– Fale com ele! Você, melhor do que ninguém, sabe sobre isso.
– Eu não sou criança! – Harry berrou para Sirius. – Não confia no meu julgamento?
– Harry, eu só estou pensando no seu bem. Precisa nos ouvir.
– Droga, Sirius. Você está se comportando justamente como aqueles idiotas do Ministério. Não percebe?
Severus conseguiu evitar que seus lábios se erguessem. Foi bom, porque Sirius tinha os olhos faiscando quando se virou e repetiu ao ex-Death Eater:
– Fale com ele! Conserte isso! Mas não pronuncie este nome aqui nessa casa!
Severus sentiu o coração se apertar, mas ele continuou desfrutando do risoto de frango. Ergueu uma sobrancelha e indagou:
– O que você sente por essa pessoa?
– Eu gosto muito dele. – Harry ainda o olhava de modo desafiador.
– Entende que ele pode carregar coisas muito pesadas? Coisas que talvez você nunca possa entender?
– Eu vou tentar entender. E vou ficar ao lado dele sempre que precisar.
– Ele não vai deixar você se aproximar.
– Sou Gryffindor. Sou teimoso e irresponsável.
– E ele é Slytherin. Desconfiado e perseguidor de sua própria agenda. Você pode achar isso tolerável hoje, mas estará disposto a tolerar isso mais tempo?
– Enquanto ele me quiser.
Severus calou-se e encarou o rapaz. Harry parecia mais do que desafiador: ele parecia querer discutir com alguém. Parecia extremamente decidido. Severus sabia exatamente como Potter ficava quando punha uma coisa na cabeça. Por isso, voltou-se para Sirius e calmamente anunciou:
– Não há muito que eu possa fazer. O rapaz parece decidido.
– Como assim? Você só vai falar isso?
– Que mais você quer que eu diga? Ele tem razão, Sirius: ele não é mais criança. Se é isso o que ele quer, nada que eu ou você digamos vai demovê-lo. Você sabe como é o seu afilhado.
– E eu só tenho que aceitar isso?
– Isso não é nada inevitável. Sugiro que você avalie a relação custo-benefício nas suas devidas proporções.
– E que diabos isso quer dizer, se traduzido para outra língua que não snapês?
Severus se virou e sibilou, impaciente:
– Quer dizer que é melhor você aceitar isso a afastar de sua vida praticamente a única pessoa com quem você realmente se preocupa. Depois de uma guerra, não sobrou mais muita gente, e menos ainda gente que possa freqüentar esse lugar escondido. Agora, se você realmente quer ser um Gryffindor irresponsável e inconseqüente, continue! Afaste Harry de sua vida e vai envelhecer sozinho. Ou melhor, vai ter apenas uma companhia, e uma só: seu orgulho.
Sirius o encarou, perplexo. Severus quase soltou um de seus sorrisinhos sarcásticos. Claro, como todo Gryffindor, Sirius não tinha pensado nas conseqüências de seu ato.
Harry tentou dizer:
– Bom, eu não iria me afastar totalmente, mas... Droga, Sirius, ele tem razão. Eu me afastaria de você.
– Você tem realmente certeza do que está fazendo?
– Tenho.
– Você ama esse cara, Harry?
– Acho que sim. Eu nunca senti por ninguém o que sinto por ele, isso é certo.
Sirius encarou o afilhado, e Severus prestou atenção nos dois.
– Merda, Harry. Acho que vou ter que aceitar isso, então.
Harry se ergueu e abraçou-se ao padrinho. Eles só tinham um ao outro e sabiam disso.
Severus também sabia disso. Mais do que isso: ficou claro que ele, Severus, não tinha ninguém. Como sempre, era um excluído.
A constatação amargou o jantar irremediavelmente.
Capítulo 12 – Muralhas e torres circundadas
– Estamos pensando em construir algo aqui perto – anunciou Harry, de novo. – Poderíamos contar com vocês para ajudar?
– Mas Harry, você acha que isso será necessário? Digo, você sabe onde estamos, não?
Severus ouviu com atenção, pois isso era algo que ele não sabia.
– Remus me disse que era algo como uma dimensão alternativa, que Dumbledore tinha criado. Mas não sei direito como a coisa funciona.
– Não, não é bem assim. Estamos na mesma dimensão, mas dentro de um campo mágico que dificulta a localização. É como juntar moléculas de ar e reorganizá-las para formarem uma bolha. Ela existe, mas parece que não. Essencialmente, foi isso que Dumbledore fez. Entendeu?
– Mais ou menos. Aqui as leis da física funcionam?
– Claro que sim. E as leis da magia também, claro. Pena que fique tão longe da Inglaterra.
Severus se espantou:
– Não estamos na Inglaterra?
– Não, estamos literalmente em Xanadu – explicou Sirius. – Num espaço perdido e remoto entre a Mongólia e a Sibéria. É esse campo mágico que dá essa aparência tropical dentro das cavernas de gelo ali adiante.
– Acho isso aqui lindo demais – confessou Harry. – Então se eu quiser fazer minha casa neste espaço, isso vai ameaçar vocês?
– Claro que não – garantiu Sirius. – E ficaremos felizes de ajudar, não é, Severus?
Severus inclinou a cabeça, concordando, ouvindo Sirius de repente se sentir embaraçado:
– Bom, Harry, eu só não chamo você para morar aqui porque... bem... o seu... parceiro...
– Não precisa dizer, Sirius. Aliás, você nem consegue pronunciar o nome dele, não é?
– Precisa concordar que é difícil.
– Um dia, você pode convidá-lo para cá?
– Um dia – admitiu. – Mas não agora, está bem?
– Severus deve querer vê-lo. Não pode abrir uma exceção?
– Bom, eu teria que rever as proteções de Xanadu. Nem Severus nem... ele... serão reconhecidos. Entrar ou sair daqui não é nada fácil.
– Eu sei. É por isso que não venho com tanta freqüência. Quando a casa estiver pronta, espero vir mais vezes. Mas aí você vai ter que mudar as proteções.
Eles riram. Severus não riu.
Ele ainda era um estranho. Não tinha ninguém.
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Severus sentiu sua relação com Sirius mudar rapidamente. Quando começaram a construir a casa para Harry e seu escolhido, eles passaram a usufruir muito tempo juntos, em atividades braçais. Havia suor e corpos expostos. Severus tentava se convencer que a gratificação física era apenas isso, e nada mais.
Mas aí Sirius não se contentava mais com sexo oral ou masturbação mútua. Uma noite Severus foi surpreendido com a proposta de algo mais. Mas não por palavras.
Ele, como sempre, iniciou o contato, mas foi posto deitado de costas. Então ele sentiu a boca úmida de Sirus envolvê-lo, e ele foi finalmente apresentado aos prazeres de ser um recipiente de sexo oral. Nunca ninguém o tinha chupado antes. Não assim, como se seu sêmen fosse feito de uma substância vital, que ele precisava ter como se fosse questão de vida ou morte. Ao mesmo tempo, porém, ele queria prolongar o seu prazer.
Severus nunca tinha sentido isso: a língua áspera que aumentava as sensações de sua ereção, dedos hábeis em acariciar seus testículos inchados, a pontinha da língua tentando se insinuar dentro da pontinha de seu pênis, que chorava um líquido perolado. Severus olhou para a cabeça que subia e descia, lambendo-o todo e depois chupando com gosto, e ele nunca tinha tido essa visão antes. Depois os olhos dele se fecharam, porque estavam completamente embaçados, e ele viu estrelas cadentes à sua frente. Se ele tivesse os olhos abertos, teria visto lindos cometas perolados saírem da ponta de seu pênis, lambuzando-o. Mas Sirius tinha usado a língua para aparar todos esses cometas, limpando a pele alva do Slytherin.
Durante algum tempo, Severus ficou apenas parado na cama, tentando voltar à Terra, tentando apenas jogar ar para dentro dos pulmões. Ele sentiu pequenos beijos sendo distribuídos no seu corpo, e os dedos marotos descendo por trás de seu exaurido saco escrotal rumo à diminuta abertura – o objetivo maior de tudo. Severus sentiu as mãos subirem para virá-lo de bruços, e ele estava relaxado demais para fazer isso sozinho.
Do lado da cama, havia uma bisnaga de uma pomada Muggle, que Sirius rapidamente agarrou. A substância viscosa não passou despercebida a Severus quando foi espalhada no local estratégico. Mais uma vez, os dedos fizeram seu traçado mágico, e Severus notou a paciência atípica em um Gryffindor ao prepará-lo cuidadosamente. Na preparação, havia realmente um cuidado quase carinhoso, a preocupação e consideração.
Severus sentiu-se sendo tratado como um parceiro. Era um luxo para quem era apenas um dublê de corpo, alguém que tinha se acostumado a ouvir o nome Remus toda vez que Sirius gozava.
Mais um pouco e Severus estaria novamente ereto, pensou, surpreso. E as surpresas não pararam. De repente, os mágicos dedos chegaram a um local nunca antes explorado. A sensação elétrica fez um normalmente quieto Severus dar um gemido alto, e Sirius se entusiasmou:
– Ah, isso mesmo... É aqui, não é? Pois você ainda não sentiu nada!
Os dedos foram substituídos por algo muito maior e mais satisfatório. E quando essa coisa atingiu novamente aquele lugar mágico dentro de seu corpo, Severus tentou reprimir o novo gemido. Era por consideração a Sirius que ele era tão quieto na cama: sua voz característica poderia quebrar a ilusão do animago. Na verdade, se por um acaso Sirius desistisse daquele "arranjo", Severus ficaria muito... triste. Então ele permanecia quieto.
Mas Sirius o provocava, estocando justamente naquele lugar, instigando e indo além: ele agarrou a ereção incipiente e a estimulou com os dedos. Severus não conseguiu se controlar. Soltou um grito inarticulado, retesou-se e esparramou-se de modo líquido pela mão de seu parceiro.
Sirius não demorou a segui-lo, mais uma vez urrando o nome de Remus ao esvaziar-se no corpo de Severus. O ex-espião estranhamente sentiu uma dor no peito ao ouvir aquilo. Estranho porque ele ouvia o nome do lobisomem todas as noites. Mas aquela vez havia uma dor um pouco mais acentuada.
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Esse cenário se manteve durante os meses em que a casa de Harry foi construída. Eventualmente, o rapaz aparecia, trazendo materiais (mágica não podia ser usada totalmente) e ajudando na construção. Vez ou outra, Harry até dormia em Xanadu, para fazerem um esforço concentrado e terminar uma tarefa específica – tinha sido assim com o porão, e agora ele sugerira a mesma coisa para a cozinha.
Severus notara que Harry era realmente muito gentil com ele. Numa das vezes em que Harry viera trazendo material de construção, ele também tinha trazido um laboratório de Poções e alguns ingredientes. Aos poucos, ele montou uma bancada muito satisfatória para Severus. Claro, o rapaz tinha dito que, agora que eles tinham virado eremitas, Severus era o mais indicado para servir de enfermeiro e médico e, portanto, precisaria estar bem equipado. Mas Severus não tinha deixado de notar que o laboratório era muito parecido com o que de Hogwarts, do jeito que Severus gostaria.
E quando Severus apontou que ele não podia fazer poções sem sua varinha, Harry voltou duas semanas mais tarde com meia dúzia de varinhas usadas. Severus logo as reconheceu: a de Lucius, a de Bellatrix, a do Lord... e a dele mesmo, recolhida por Aurors do local da invasão da Mansão Riddle. Harry disse que tinha sido cortesia de Shacklebolt. Severus duvidou que Harry não tivesse tido trabalho para convencer o Auror a liberar as varinhas da sala de evidências.
Mas, numa noite em que Harry estava ali, Severus acabara de ter um dos orgasmos mais incríveis de toda a sua vida quando se deu conta de que confiava totalmente seu corpo a Sirius cada vez que eles se deitavam juntos. Mais do que isso: ele tinha confiança em Sirius. Sabia que não seria molestado, machucado. Mesmo sendo um dublê de corpo e mero instrumento, ele não tinha conhecido dor. Aquilo o fazia... sentir.
Durante um longo tempo, ele pensou nisso. Passou a noite acordado, na verdade. Havia uma lembrança sobre o Lord das Trevas que o estava perseguindo há semanas.
Uma maldição. Ele se lembrava de ter sido amaldiçoado por Lord Voldemort em pessoa, mas não se lembrava direito se era uma memória ou uma mera fantasia. Por isso ele não arriscava cumprir os requisitos da maldição. Por isso ele ficava acordado, tentando pensar.
Enquanto pensasse, ele não sentiria.
Capítulo 13 – O assombro de uma lua minguante
– Isso está ficando ótimo! – exclamou Harry, entusiasmado. – Não vai demorar muito a ficar pronto. Não posso trazer...?
– Não diga o nome dele! – exclamou Sirius. – Ainda não.
– Sirius, já faz meses. E ele virá morar aqui, não se esqueça.
– Ainda estou tentando me acostumar à idéia!
– Só porque ele foi um Death Eater não quer dizer que ele seja mau. Veja Severus, por exemplo.
– Por favor. Não vai querer comparar.
– E por que não? Você tem o seu Death Eater, e eu tenho o meu.
– Não brinque assim! E fale baixo, que ele vai voltar a qualquer momento.
– Ah, Sirius, acha que eu sou ingênuo? Eu já ouvi vocês de noite. Aquela cama é de molas e range para caramba.
– Não é nada disso que está pensando! – Sirius ficou irritado. – Eu não trairia Remus! Jamais! Ainda mais com Snivellus!
– Vai querer me dizer que eu estou imaginando coisas?
– Você está vendo coisas onde não existem!
– Então não existe atividade naquela sua cama de noite?
– Bom... sim, mas...
– Sirius? Você não está obrigando Severus a nada, está?
– Claro que não! Bom... Olhe, Harry, isso é entre mim e ele, tá bom?
– Desculpe, não quis ser indiscreto. Mas, no momento, só existimos nós quatro nesse nosso mundinho, e eu só quis ter certeza de que vocês estavam bem. Sabe, como casal.
– Estamos ótimos. Mas não somos um casal.
– Está bem. Se é o que diz.
– É o que eu digo, sim. E não quero ouvi-lo falando disso com Severus. A cabeça dele é pirada o suficiente sem essas coisas para atormentá-lo.
– Tá. Vamos mudar de assunto. Ele não deveria estar de volta?
– Sim. Ele só foi buscar um suco. Vou ver o que está atrasando o maluco.
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Com sua varinha, Severus estava descascando algumas tangerinas para espremê-las com pilão e almofariz, a fim de fazer um suco realmente gostoso naquele calor tropical. Nada de equipamentos Muggle como liquidificador, nada de magia. Ele achou melhor fazer isso sozinho, com as próprias mãos: ele queria só o melhor para Sirius e o afilhado.
Então ele se deu conta.
Ele amava Sirius. E Sirius não o amava. Sirius nunca o amaria. Ele não esquecia o lobisomem. E por que ele amaria Severus? Um homem que sempre tinha sido usado, uma pessoa sem importância. Indigna de ser amada.
Mas ainda assim, ele amava Sirius. Amava, sim. Nunca tinha sentido isso antes. Era amor, claro que era. Um amor que jamais seria correspondido. Como Lord Voldemort dissera.
Ao se dar conta disso, ele aceitou o fato, e isso foi o que detonou a maldição. Ele começou a sentir a dor em seus ossos, em seu peito, em seu rosto, uma dor tão forte e tão repentina que o fez largar a varinha e cair de joelhos no chão da cozinha. Não conseguia respirar, não conseguia gritar. Iria morrer, pensou.
Os joelhos falharam, ele caiu no chão, os olhos mal se mantendo abertos. Não tinha ar. A visão começou a embaçar, e Severus ainda pôde distinguir a silhueta de Sirius entrando na cozinha antes de perder os sentidos completamente.
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– Como está se sentindo?
Severus olhou em volta. Ele sentia um gosto horrível na boca, mas a cabeça parecia estar melhor agora.
– O que houve?
– Pensamos que pudesse dizer. Você simplesmente caiu na cozinha.
– E como...?
– Harry usou um bezoar. Isso melhorou, mas só as poções revigorantes é que fizeram o truque. Raios, Severus, você tem alguma alergia?
– Não, eu... acho que foi uma maldição...
– Maldição?
– Presente do Lord das Trevas.
– Mas só foram acionadas agora? Algum dispositivo de tempo? É seu aniversário e você não disse nada?
– Não é meu aniversário.
– Então, por que a maldição foi acionada agora? O que você fez?
– Eu só fiz um suco, só isso, Black! – Ele se impacientou. – E não sei o que acionou esse feitiço. – Ele mentiu como nunca antes: sem convicção. – Pode ter sido qualquer coisa: um pensamento, uma palavra, um sentimento. O Lord das Trevas era muito... caprichoso.
– Droga, Severus, que susto. Está bem agora?
– Estou. Mas não posso prometer que não vá acontecer de novo.
– Bom – Sirius franziu o cenho. – Você vai ter que ficar de olho para descobrir o que aciona esse feitiço. Se acontecer de novo, tente lançar uma faísca na varinha.
– Harry já foi?
– Foi avisar o... parceiro.
– Não pode dizer o nome dele? Sirius, isso está ficando demais.
– Não mude de assunto. Quero saber como você está.
– Excelente. Agora me deixe: preciso terminar o suco.
Sirius o encarou, estranho.
Naquela noite, eles fizeram amor como sempre. Não, não foi como sempre. Severus tentou abstrair-se. Tentou relevar o fato de que estava apaixonado por aquele homem. Pela primeira vez, ele se entregou. Fez amor a um amante. Ao homem que amava.
Ele gozou primeiro. Sirius o seguiu logo depois, mas daquela vez, Sirius não o abraçou depois. Virou-se para o lado. Severus se sentiu estranhamente abandonado.
Mas minutos depois, ele ouviu Sirius fungar.
– Sirius?
Nenhuma resposta. Severus chegou perto dele.
– Fiz alguma coisa errada?
O Animago estava chorando. Profundamente.
– Não, eu... Eu... Desculpe...
– Posso ajudar?
Parecia que ele chorava mais ainda. Soluçou, e foi entre soluços que confessou, num fiapo de voz:
– Eu... queria que você fosse Remus... Desculpe, desculpe...
Severus não pôde evitar as lágrimas. Num impulso, ele se abraçou a Sirius e fez uma outra confissão:
– Eu também queria ser. Acredite.
Abraçados, eles choraram juntos. Por amores perdidos.
Capítulo 14 – Jardins luminosos
– Eu quero pedir desculpas.
– Não tem do que se desculpar.
– Vou entender se você não quiser mais... mais...
– Não seja ridículo. Eu entrei nisso sabendo exatamente onde tinha me metido. Não vou parar agora.
– Droga, Snape. Você terminou não sendo nada daquilo que eu achava.
– Você também não é o celerado que eu pensava inicialmente. Mas você tem que admitir que teve momentos em que ficou bem próximo de ser um.
– Eu estou tentando me desculpar. Poderia ter fineza suficiente de me deixar terminar?
– É inútil. Já disse: não há do que se desculpar
– Quando eu penso que estamos nos dando bem...
– Não ouvi reclamações essa noite. – Risinho.
– Não estou falando disso, Snape. – Rosnado.
– Pensei que estávamos nos tratando pelos primeiros nomes, Sirius.
– Ah, você é impossível. – Sirius se ergueu. – Vou fazer o café. Hoje temos que renovar feitiços na lareira da casa de Harry, e vou precisar de sua ajuda, portanto, nada de ficar de papo para o ar!
Severus olhou-o sair do quarto e não reprimiu um sorrisinho. Para quem não o conhecia, era um sorrisinho cínico de sempre. Para os demais, era um sorriso muito atípico, cheio de afeição e ternura.
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A inauguração da casa de Harry ficaria eternamente gravada na lembrança de Severus. Em primeiro lugar, porque Harry deixara a decoração de seu lar a cargo do namorado. Por isso, a casa tinha uma aparência mais do que Slytherin. Pior do que isso: havia uma atmosfera decididamente Malfoy.
Finalmente, Severus pôde rever Draco. Os dois tinham sofrido muito no cativeiro. Lord Voldemort adorava se gabar a Severus sobre o que tinha feito a Draco. Uma vez apenas, quando Severus estava semimorto nas masmorras, Voldemort obrigara Draco a ir até ele.
O herdeiro dos Malfoy estava vestido como prostituta e fora obrigado a se oferecer para Severus. Era uma humilhação muito grande porque Severus era o rebotalho dos Death Eaters, menos que um cachorro, certamente muito abaixo de Wormtail. O rapaz, vestido com lingerie feminina, parecia ainda mais semimorto que ele, notara Severus na ocasião. Ele não quis pensar no que tinham feito a ele. Voldemort adorava agredir seus oponentes nos pontos mais fracos. No caso de Draco, era o orgulho e a imagem. O rapaz parecia mesmo mortificado.
Severus tentou não pensar naqueles momentos terríveis quando reviu Draco. Preferiu se concentrar no encontro entre o filho de Lucius Malfoy e Sirius. Foi memorável.
Ver Sirius Black constrangido e contido era uma experiência inigualável. O animago estava tão tenso que parecia a ponto de se quebrar. Severus estava achando aquilo muito divertido.
Observando com cuidado, mais tarde, Severus notou que a casa não tinha o ar pomposo dos Malfoy. Era melhor assim: Harry não parecia ser o tipo capaz de se sentir à vontade no fausto e ostentação. Foi refrescante ver que Draco tinha mudado seus conceitos. Estava mais tratável, mais maduro. Diplomático, também. Tanto que garantiu a Severus que não poria os pés em Xanadu sem assegurar total concordância com Sirius, para não magoar Harry.
Foi uma noite interessante.
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Outra noite interessante foi um jantar com o casal Potter-Malfoy em Xanadu. Não era qualquer ocasião especial, tanto que o cardápio foi despretensioso: lasanha. Mas a champanhe depois da sobremesa deveria ter alertado que havia algo no ar.
Harry estava esperando um filho. Sirius quase teve um ao saber disso.
Severus foi imediatamente recrutado como parteira e ginecologista. Não, eles não quiseram nem ouvir falar em voltar ao mundo bruxo.
O mais estranho é que, assim que o casal Potter deixara Xanadu, Sirius começou a interrogar Severus.
– O que você sabe sobre esse Malfoy?
– Como assim?
– Ele vai ser bom pai? Ele gosta de crianças?
– Nenhum Malfoy é especialmente carinhoso. Mas Draco parece muito dedicado a Harry. Suponho que ele vá ser dedicado à criança também. O que tem em mente?
– Só estou protegendo meu afilhado e meu... sobrinho. Quer dizer, é como se fosse meu sobrinho. E seu também, claro. Já que você era tão ligado a Lucius, Draco é como se fosse um sobrinho, não? Harry me disse que você protegia o garoto em Hogwarts.
– Não seja ridículo. Lucius não me suportava. Mas eu tinha que manter aparências com uma família como os Malfoy. É uma coisa Slytherin. Você é um Gryffindor, não sei se entende.
– Severus, esqueceu que eu sou um Black? É claro que eu entendo políticas de puro-sangues.
– Ótimo. Então, lembre-se: Draco é um Malfoy. Mesmo que tenha abandonado o sobrenome e seja tratado apenas como Potter, ele pensa como um Malfoy. Draco não ameaçaria seu próprio herdeiro.
– E por que ele não carregou um, ele mesmo? Não gostei dessa idéia de Harry estar grávido.
– O que me preocupa é que agora Draco é quem terá que ter contato com o mundo Muggle – dificilmente uma tarefa fácil para um Malfoy.
– Harry só está grávido, Severus, não doente. Ele pode sair de casa se quiser.
– Não entre Muggles, Sirius. Eles não têm experiência com homens grávidos. A visão pode alertá-los de que se trata de bruxos. E, pelo que eu li, o folclore desta parte do mundo reputa bruxos como raptores de crianças pequenas. Portanto, se ele for reconhecido como bruxo, e se algum tempo depois, ele aparecer com um bebê...
– Entendi. Você tem experiências com Muggles, não?
– O imprestável do meu pai era Muggle, se é o que tem em mente.
– Podia dar umas aulas para Malfoy? Não quero deixar Harry preocupado. Não no estado dele.
– Não podia se preocupar comigo? Sou eu que vou ter que dar uma de parteiro.
– Você vai se sair bem. Você sempre se sai bem.
– Desde quando?
– Desde sempre. Por que você acha que Dumbledore lhe confiava as coisas mais difíceis? Porque você fazia.
Severus o olhou, admirado. Ele se deu conta do quanto Dumbledore tentou convencer Sirius de que um ex-Death Eater não era um oxímoro. Alguma coisa tinha penetrado aquele crânio denso.
– Isso é um elogio?
– É. – Sirius revirou os olhos ao notar o ar sarcástico do outro. – Não se acostume. Não é todo dia que estou com esse bom humor, só porque vou ser tio.
– Se isso é bom humor... Você está uma pilha. O que foi? É o filho de Harry? Não é pelo bebê ser meio Malfoy, é? Não, não é. Você teria tido um ataque, não estaria tão... melancólico.
Foi aí que Severus se deu conta.
– Merlin, isso tem a ver com Lupin.
O animago perdeu a cor, de olhos arregalados.
– Merda, Severus. Por que você tem que ser tão observador?
Sirius se postou em frente à lareira, de costas para o outro. Severus se aproximou dele.
– Sim, é Remus. – A voz de Sirius era baixa. – Ele teria adorado saber a notícia. Ele adorava bebês. Posso até ver como ele estaria paparicando Harry. Estaria fazendo planos, ia querer montar um quarto aqui para quando o bebê viesse nos visitar. Ia se oferecer para ser babá sempre que eles quisessem. Droga, ele ia ficar mais animado do que os dois.
Severus chegou mais perto. Pôs uma mão no ombro de Sirius. Ele não se virou.
– Sim, ele ficaria animado.
– Você não se importa que eu fale dele?
– Já conversamos sobre isso. – Severus ignorou a dor no seu coração. – Vai melhorar.
Sirius não se virou, mas cobriu a mão de Severus com a sua, no seu ombro.
– Espero que tenha razão.
Aquela noite, o sexo foi memorável. Mas Sirius não gritou o nome de Remus. Estranhamente, Severus não achou nenhum consolo naquilo.
Capítulo 15 – Milagre de arte rara
O menino de Harry nasceu, saudável e forte. Era a coisa mais lindinha, rosadinha, de olhos claros e cabelo preto. Severus não se lembrava muito de Draco quando bebê, mas parecia que os traços fisionômicos do pequeno favoreciam o lado Malfoy. Sirius jurava que ele parecia consigo mesmo quando criança – e não importava que ele fosse apenas um primo distante.
Os meses passaram-se rapidamente, como tende a acontecer quando as tarefas se acumulam. Damien era o centro das atenções dos quatro. O garoto adorava os tios e Snuffles, que de vez em quando vinha visitá-lo. Quando ele completou dois anos com um vocabulário invejável, Sirius quase tinha esquecido que um de seus pais era um Malfoy. Ajudava o fato de que Draco agora era Draco Potter. Também ajudava ele ver Harry feliz como nunca antes.
Em Xanadu, Severus se mantinha ocupado pesquisando ingredientes locais para poções. Com a ajuda de Draco, ele trocava poções por mantimentos numa aldeia bruxa ali perto. Severus ainda não sabia direito onde estava, mas isso não importava. A vida era boa, e Sirius estava sempre por perto.
Com o tempo, Severus notou que Sirius não falava tanto em Remus. Foi se tornando também mais carinhoso. Mas não que houvesse romance. Eles pareciam mais dois companheiros de dormitório que trepavam juntos. É bem verdade que trepavam feito dois coelhos, de um jeito intenso, mas impessoal.
Era o melhor sexo que Severus já tivera na vida. Ele mal se lembrava do tempo em que sexo era igual a dor, humilhação e tortura.
Sirius vinha há tempos pedindo que Severus tomasse as rédeas na cama e aceitasse o papel mais ativo. Severus foi aos poucos. Na verdade, ele queria muito experimentar uma posição que nunca fizera, mas mais do que isso, queria finalmente ver o rosto de Sirius em êxtase. Por isso, ele se esforçou para fazer aquilo o mais excitante possível.
Foram dias de preparação. Sirius estava subindo pelas paredes.
– Se você não quer, é só dizer!
– Não precisa se alterar. Eu só quero preparar tudo de maneira satisfatória.
Pelado, com uma ereção farta e ávida, Sirius se sentou na cama, impaciente:
– Acha que não gostaria de uma satisfação? De preferência, uma rápida e duradoura!
– Lá vem você com suas incoerências. Mas é bom que uma coisa fique bem clara. – Severus se virou para ele, os olhos pretos parecendo carvões em brasa. – Se você está me dando controle, eu exercerei esse controle. Não admitirei questionamentos ou resistência.
Sirius arregalou os olhos:
– O que você vai fazer?
O risinho foi mais do que sarcástico; foi enigmático:
– Você gostaria de saber, não? Não se preocupe: não vai ter nenhum dano permanente.
– Severus!
Tarde demais. Ele já se atirara em cima de Sirius, disposto a realmente assumir o papel de ativo. Portanto, a primeira coisa que ele atacou foram os lábios convidativos e proibidos. Eles nunca tinham se beijado.
Severus não agüentava mais de vontade. Ele devorou Sirius, não largando aqueles lábios, explorando toda aquela boca enquanto puxava o outro bruxo para junto de seu corpo, ajeitando-se junto dele.
Sirius nada disse, até porque Severus tinha simplesmente tomado conta de sua boca, e os pensamentos rapidamente lhe fugiam. Nunca tinha imaginado que Severus podia ser tão incisivo, tão quente, tão decidido.
Os lábios talentosos escorregaram para o pescoço de Sirius, detendo-se com determinação na junção entre pescoço e ombro, subindo para a orelha, descendo para o ombro, percorrendo-o até a nuca. Sirius não sabia se tinha derretido ou se estava totalmente aceso.
Após certificar-se de que os últimos vestígios de pensamento racional tinham deixado seu parceiro, Severus acariciou o peito e fixou seus lábios no mamilo direito, chupando, lambendo e mordiscando. Depois, mordeu com força o biquinho, e Sirius sibilou, entre dor e prazer, pois a língua lavou sensualmente a área dolorida, enquanto os dedos elegantes puxavam o outro biquinho, já duro e ereto como outras partes da anatomia de Sirius.
O animago se espalhou na cama, dando a Severus amplo campo de ação. Ele distribuiu beijos, lambidas e mordidinhas pelo abdômen, até finalmente usar a língua na ereção e deixar Sirius mais do que pronto. De repente, ele parou e encarou os olhos cinza que mal conseguiam focalizar nele.
– Que... foi? – foi o que Sirius conseguiu indagar.
– Tem certeza?
– Por Merlin, sim... Sim, por favor...
Severus usou um Accio para buscar o lubrificante enquanto mantinha os beijos na parte interna das coxas do animago, que suspirava. Ele lambuzou perto da entrada de Sirius uma, depois duas vezes. Sirius estremeceu de expectativa, e Severus finalmente introduziu um dedo lubrificado na abertura, enquanto abocanhava a ereção, que parecia ter crescido.
Sirius gemeu alto, por vários minutos, enquanto Severus lambuzava mais dedos e introduzia mais dedos. Ele estava tão apertado, tão convidativo... Severus também mal se agüentava, enquanto preparava o amante.
– Por favor… Mais! – Sirius estava quase gritando. – Eu quero... Eu preciso...
– Diga, Sirius… – A voz sedosa de Severus estava ainda mais baixa, mais sedutora. – O que você quer?
Perdido em prazer, Sirius sentiu mais um dedo entrando e gritou:
– Você...! Por favor...! Quero você!
Severus pegou os tornozelos de Sirius e ergueu-os até seus ombros, enquanto posicionou sua própria ereção, grossa e pingando, na abertura. Severus apreciou a vista: Sirius estava esparramado na cama, a cabeça para trás, o cabelo negro espalhado pelos lençóis, o peito arfando de desejo, o corpo todo coberto por uma camada de suor, escancarado, selvagem, exposto de tal maneira que Severus não poderia deixar de sentir uma resposta em seu membro.
– Olhe para mim, Sirius – exigiu, na sua voz de professor. – Olhe!
Os olhos de Sirius se abriram de supetão, encontrando-se com os dois carvões em brasa. Severus simplesmente afundou no buraco apertadinho e quente, e decretou:
– Eu tenho você.
– Oh, Merlin, você tem mesmo…
Severus ajeitou-se todinho dentro de Sirius, observando a reação do animago. Quando Severus finalmente começou a se movimentar, demorou um pouco a achar o ângulo certo. Mas achou. Sirius uivou, e Severus impiedosamente estocou-lhe ali, com precisão e ritmo intenso.
Em pouco tempo, tudo tinha terminado. Sirius, completamente fora de si, percebeu que tinha que rever vários conceitos.
O primeiro dele era deixar Severus conduzir mais vezes.
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Sirius Black reviu muitos conceitos ao longo de muitos meses. Draco ainda o surpreendia e fizera isso de novo quando engravidou, alegando que queria experimentar o tipo de conexão que Harry tinha com Damien. Sirius adorou a notícia, e adoraria ainda mais quando viu nos seus braços a coisinha rosinha, careca, de olhos esverdeados, encarando-o. Mas isso só aconteceu bem mais tarde. Antes disso, ele tinha outros conceitos a rever.
Outro conceito a ser revisto era Severus. Desde o primeiro dia que Severus tomara o controle, Sirius tinha sido obrigado a admitir que algo mudara. Em primeiro lugar, eles faziam amor. Não era mais sexo impessoal. Droga, agora ele fazia amor com Severus, ele não fazia mais sexo com um corpo quente imaginando ser Remus.
E há quanto tempo ele não confundia Severus com Remus? Não havia o que confundir. Eles não se comparavam, não eram equivalentes. Finalmente, Remus tinha deixado de ser um fantasma. Severus era presente, e Remus podia estar para sempre na sua vida, mas era Severus quem o beijava. Oh, Merlin, e como ele beijava.
Só que Severus não sabia disso.
Severus não tinha esperanças de ser retribuído, mas tinha decidido se entregar a Sirius, totalmente. Isso o deixava feliz, e sabia que, mesmo pensando em Remus, era ele, Severus, quem dava prazer àquele homem. E, droga, ele amava Sirius.
Naquela noite, Severus começou usando os lábios e dentes no pescoço de Sirius, e foi descendo no corpo firme de seu amante. Severus seguiu uma trilha sinuosa pelo peito, abdômen, umbigo, monte pubiano, até deter-se na pontinha do pênis ereto de Sirius, lambendo gulosamente todo o líquido que vazava da aberturinha. O animago se contorceu, excitado:
– Por favor, por favor… Severus… Faça amor comigo…
Severus quase teve um troço. Nunca antes Sirius tinha mencionado seu nome. Nunca antes tinha pedido diretamente.
Habilmente, Severus continuou a sucção e esticou-se para pegar o lubrificante. Ele sempre fazia questão de preparar Sirius completamente, e o outro geralmente protestava pela demora. Ele cobriu seus dedos com a substância oleosa, e então pôs dois deles de uma vez só em Sirius. O animago uivou, e Severus então lambeu-lhe atrás das bolas, uma área extremamente sensível.
– Porra, Severus. Agora! – Sirius meio suspirou, meio xingou. – Vem logo!
Severus rapidamente lambuzou sua própria ereção e afundou-se no corpo do parceiro. Não pôde evitar maravilhar-se. Ele sentia algo dentro dele derreter-se toda vez que se unia a Sirius.
Infelizmente, não demorou muito. Ele se mexeu rapidamente, do jeito que ele sabia que Sirius gostava, e sorriu ao ouvir os gemidos, suspiros e gritos do outro. Ele amava Sirius, mas amava ouvi-lo demonstrar como ele se sentiam quando faziam amor.
Em breve, porém, Sirius ficou todo tenso e gritou seu nome, despejando o líquido perolado na mão de Severus. Em poucos segundos, Severus também gritou seu nome, desabando sobre seu corpo.
Com dificuldade, Sirius se virou e beijou-o apaixonadamente, mesmo que eles nem tivesse fôlego direito para aquilo.
– Eu amo você, Severus... – Sirius encarou seus olhos, o rosto de Severus entre suas mãos. – Desculpe, mas eu amo.
– Seu tolo. Não sabe que eu já o amo há muito tempo?
Eles se beijaram, e se acariciaram, amantes plenos finalmente. Abraçados, deixaram-se levar pelo sono, sem imaginar o que estava para acontecer.
Sem imaginar que Lord Voldemort mandava lembranças, tão certo como o sol traria seus primeiros raios na manhã.
