Os Olhos do Coração

Por Mary Ogawara


Anteriormente, em Os Olhos do Coração...

-Quando nós chegamos, eles estavam conversando juntos... – disse June.

-Ele estava um pouco nervoso e tinha uma caixinha nas mãos... – disse Shunrei.

'Por favor, não...', pensava Saori, embora soubesse que Seiya e Minu já eram amigos há muito tempo, o que significava que qualquer envolvimento entre os dois provavelmente seria pra valer...

-Uma caixinha para alianças... – disse Shunrei, desanimada.

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-Sim! Sim! Sim! A resposta é sim! – disse Minu, sorrindo bastante

-Mas eu ainda nem perguntei! – disse Seiya, também sorrindo

-Tudo bem, você quer fazer direito, né? Pode perguntar... – disse a garota, com um sorriso 'de orelha a orelha'

-E então, Minu? – disse Seiya abrindo a caixinha e deixando que a garota visse um lindo anel de noivado – O que você acha? Será que a Saori vai gostar?

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"Eu queria tanto que você me amasse...", pensou Saori, lembrando-se dos sorrisos que Seiya lhe dirigia sempre.

-Queria tanto ser alguém que você amasse... Nem que fosse por um dia, eu queria ser... A Minu... – Saori disse, baixinho, para si mesma

"Eu te odeio, Saori Kido!", pensava Minu, com raiva.

-Mas bem que eu queria ser a Saori amanhã... – disse Minu, quase ao mesmo tempo que Saori

Nesse momento, uma estrela cadente cortou o céu...

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- Com licença novamente, srta. Eiri, mas eu não estou entendendo nada! – disse Saori assustada

- Srta. Eiri? Você pirou? Acho melhor lavar logo esse rosto e trocar de roupa para nós fazermos o café das crianças! – disse Eiri apontando para uma porta, enquanto procurava o que vestir

Saori entrou no pequeno banheiro, completamente diferente do seu, e, ao olhar-se no espelho, teve de levar as mãos à boca para conter um grito. "Queria tanto ser alguém que você amasse... Nem que fosse por um dia, eu queria ser... A Minu... ". Saori lembrou-se do que havia desejado na noite anterior.

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- Que idiota! – disse Minu, com raiva, enquanto abaixava o porta-retrato com a foto do casal com força

Quando a garota levantou-se foi que percebeu que ela não parecia ser ela mesma. Seu corpo estava diferente – parecia ter ganhado mais peito e perdido alguns centímetros de cintura. Usava uma delicada camisola com alcinhas, que descia até os joelhos, e longos cabelos roxos caíam-lhe sobre os ombros... Roxos?

Minu correu até uma porta e deu de cara com um closet, onde havia muitas roupas, sapatos, bolsas e outros acessórios; o tipo de coisa que ela jamais seria capaz de comprar com o seu dinheiro. Foi então que percebeu um grande espelho à sua frente, que não refletia a sua imagem, mas sim... "Mas bem que eu queria ser a Saori amanhã...".

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- Olha, - a voz de Eiri ganhou um tom mais ameno – eu sei que você está nervosa por causa do Seiya, mas acho que não adianta mais, amiga. A essa hora, ele já deve ter ido lá.

- Lá? – repetiu Saori, confusa

- Ah! Minu! Você parece que nasceu ontem, né? Se ele vai pedi-la em casamento no jantar, lógico que precisa convidá-la primeiro, né?


Capítulo 3 – Uma ironia do destino

Ainda de olhos fechados, Saori foi recobrando os sentidos. Sentia um pouco de dor na cabeça e começava a se lembrar de tudo o que havia acontecido antes de ter desmaiado. Foi então que a garota abriu os olhos de uma vez.

- Ela acordou, professora Eire!

A garota sentiu uma incontrolável vontade de chorar. Desejou do fundo do coração que quando abrisse os olhos, estivesse em casa, no seu quarto, e que tudo não passasse de um pesadelo, mas... Era real. Estava no pátio do orfanato, cercada de crianças que a olhavam curiosas.

- Minu... Pensei que você tinha passado dessa pra melhor! – Eire foi chegando e a ajudou a se levantar – Vão brincar, crianças! Podem deixar que eu cuidarei dela direitinho! – disse a garota e as crianças obedeceram, se afastando dali.

Eire, então, voltou-se para Saori e fez uma expressão penosa no rosto.

- Eu não sabia que você estava tão sensível! Desculpe por ter dito aquelas coisas.

Saori tentou, mas não conseguiu parar de chorar. Não entendia por que aquilo tinha de ter acontecido daquele jeito!

Tinha passado tanto tempo sofrendo, pensando que seu amor por Seiya não era correspondido, sem saber que, na verdade, o garoto também a amava... E agora ele pediria outra mulher em casamento, pensando ser ela...

Tinha de fazer alguma coisa, mas ele jamais acreditaria que ela, mesmo estando no corpo de Minu, era Saori, a verdadeira Saori! Só se...

- Eu tenho que ir falar com ela! – disse, levantando-se de repente e enxugando as lágrimas com um lenço que Eire lhe havia oferecido.

- Com a Saori? Ficou louca, Minu? – perguntou Eire, assustada – De que adiantaria?

- Eu não sei, mas tenho que falar com ela de qualquer jeito! – disse Saori, caminhando em direção ao portão de entrada do orfanato.

- Ah, meu Deus... Essa mosca-morta não tem jeito mesmo... – resmungou Eire, revirando os olhos – Se bem que vai ser um barraco daqueles... Espera, Minu! Você está esquecendo o dinheiro do ônibus!

Seiya subia nervoso a escadaria que o levaria até o primeiro andar da mansão, onde ficava o quarto de Saori. Estava, também, um tanto surpreso com a atitude da garota de pedir que ele fosse até lá.

Sabia bem o caminho até o quarto dela – quantas vezes já não a tinha acompanhado até lá depois de conversarem um pouco à noite? Nunca tinha passado disso, porém, por mais que ele quisesse...

Seiya a tratava com o respeito que dispensaria a uma grande amiga. Entretanto, em seu íntimo, desconfiava que a garota e ele, desde o começo, nunca haviam sido realmente amigos.

Sempre havia algo mais quando o assunto era "Saori e Seiya", até seus amigos já haviam percebido. E era com essa convicção que ele batia à porta do quarto da garota naquela manhã.

"Ah! Meu Deus! É ele! É o Seiya!", pensou Minu, sentindo seu coração disparar. Terminou de passar o batom que havia escolhido e sentou-se na cama de Saori de uma maneira que achava ser provocante o suficiente para seduzir o garoto.

- Pode entrar... – Seiya ouviu a voz de Saori, com um tom que ela jamais usara para falar com ele antes.

O garoto, sempre tão animado e extrovertido, abriu a porta tímido. Ficou ainda mais surpreso do que estava ao ver que Saori, com um batom vermelho e ainda com a roupa de dormir, estava sentada sobre sua cama de um jeito que a deixaria muito mais atraente que o comum – não estivesse tão desajeitada...

- Bom dia... Saori. – disse Seiya, um pouco confuso.

- Bom dia Seiya...! – disse Minu, jogando os cabelos longos de Saori.

Como o garoto, perplexo, continuasse parado à porta, ela tornou a falar:

- Por que você não... Senta aqui perto de mim?

- Certo. – respondeu o garoto sem jeito, enquanto se aproximava de Saori.

Seiya examinou o quarto rapidamente antes de se sentar e seu olhar se deteve no porta- retrato em que ele aparecia ao lado de seus amigos, seguido de outro, que estava caído. Aquilo o deixou confuso por um instante: Saori estava mesmo tentando conquistá-lo ou sentia por ele o mesmo que sentia pelos outros? (N.A.: E, nesse caso, o que sentia pelos outros, meu Deus!)

- Oh! Como sou desastrada! Olha o que eu deixei cair! – disse Minu, percebendo o foco dos olhos do garoto.

Seiya reconheceu a foto dos dois, sorrindo juntos, como um casal feliz, e sorriu. Agora tinha mais coragem para dizer alguma coisa.

- Então... – Seiya começou a falar, depois de um breve silêncio – Desculpe eu ter aparecido tão cedo, Saori. O Tatsumi disse que eu podia entrar e... –

- Tatsumi? – perguntou a garota, sem a mínima idéia de quem Seiya estava falando.

- É, o Tatsumi. – Seiya sorriu – Aquele seu mordomo chato e careca, lembra?

- Oh! Claro! Bom, é que eu imaginei que você já deveria conhecer bem o quarto da... Digo, o meu quarto, não? – disse Minu, enquanto se aproximava de Seiya, esforçando-se para fazer um olhar conquistador.

Seiya estava cada vez mais confuso. "O que deu na Saori?", ele pensava, enquanto sentia a respiração da garota cada vez mais próxima.

- Ahn... Er... Na verdade, não. – ele negou, sem conter um sorriso.

Minu aproximou-se ainda mais dele.

- Seiya... – disse ela, ao mesmo tempo em que colocava as mãos sobre os ombros do rapaz.

Seiya estremeceu ao sentir as mãos delicadas e macias de Saori o tocarem, como que numa massagem. A garota aproximou seu rosto do dele lentamente, de olhos fechados, como se quisesse beijá-lo, mas não o fez. Continuando a massagear seus ombros, a garota começou a falar em seu ouvido:

- Mas bem que você iria querer... Não é mesmo? – disse ela, ironizando esta última frase e aumentando bruscamente seu tom de voz e "descontando a raiva" na massagem que fazia nele.

- Ai! – disse Seiya, levantando-se rapidamente, com a impressão de que Saori iria quebrar seus ossos a qualquer momento (N. A.: exagero para um Cavaleiro, eu sei, mas...) – Você é mais forte do que parece, hein? – disse ele, com um sorriso sem-graça.

Minu até pensou em responder alguma coisa grosseira por alguns segundos, mas logo procurou se acalmar e sorrir. Sentia uma mistura de raiva e amor pelo garoto.

Queria machucá-lo por tudo o que ela tinha passado, mas também queria... Também queria amá-lo. E se iria querer se parecer com a "doce e meiga" Saori – a garota revirou os olhos -, tinha de se controlar.

Enquanto isso, a doce e meiga, quero dizer, a verdadeira Saori estava em um ônibus, a caminho da mansão – ou pelo menos ela achava que estava, mas começava a desconfiar do fato de nunca ter notado aqueles prédios tão diferentes antes...

Saori olhou para os lados e percebeu algumas pessoas dentro do ônibus com uniformes estranhos e bonés onde havia a figura de um peixe "baiacu" bordado. Uma dessas pessoas, uma mulher, estava sentada bem na sua frente e a garota achou que seria prudente pedir alguma informação a ela.

- Para o mercado de peixe de Tóquio! – Saori se desesperou ao ouvir o paradeiro do ônibus.

"Isso fica muito longe da minha casa!", pensou ela, antes de recomeçar a falar, se recobrando do susto.

- Para o mercado de peixe... A senhora tem certeza? – perguntou ela, tentando parecer mais calma.

- Tenho sim, senhorita... Ahn... Como disse que era seu nome mesmo? – a mulher perguntou, estranhando o nervosismo da garota.

- Meu nome é Sa... – só então Saori lembrou-se de que não era ela mesma – Minu. – disse, com um tom triste na voz.

A garota sentiu uma grande vontade de apenas chorar e esquecer de todo o resto. Esquecer quem era – ou não era -, mas esquecer-se de Seiya...? Sabia que não seria possível. Ao mesmo tempo, o garoto deixava a mansão, depois de ter convidado uma Saori muito estranha para jantar...

O garoto não conseguia entender o que poderia ter acontecido com Saori para ela estar agindo daquela forma.

A garota parecia ter tentado seduzi-lo ou algo do tipo, chamando-o até o seu quarto, mas o que em outra ocasião poderia ter sido a realização de um sonho, naquela manhã, o havia apenas deixado muito confuso.

Saori parecia estar mudada. Deixara de se comportar meiga e delicadamente para ganhar um ar um pouco desajeitado e muito estranho, chegando até a machucá-lo. O que será que ela estava tentando fazer?

Algumas horas depois da visita de Seiya à mansão, e Minu ainda não havia descido para tomar café. Para quê pensar em coisas triviais como comer, tomar banho ou escovar os dentes quando ainda havia tanta maquiagem e roupas a serem provadas?

"Se eu te dou minha pamonha, 'cê me dá o seu cural?", ela cantava em frente ao espelho, quando mais uma hora e meia havia se passado e ela finalmente havia conseguido "arrumar" uma roupa que não fosse "Chatôri" demais para ela. O relógio do despertador já marcava mais de uma e meia quando ela ouviu batidas na porta do quarto, que ela havia trancado, por precaução.

- Estou saindo! – disse ela, enquanto caminhava até a porta para abri-la.

Eram as amigas de Saori que a esperavam.

- Saori! – exclamou Shunrei, ao vê-la – Que... Que maquiagem é essa?

- E que roupa! – continuou June.

- E esses sapatos! – completou Fleur.

- O que foi? Não gostaram? – perguntou Minu, reconhecendo as "piranhas".

- Ah... É que eu você nunca se vestiu... Assim... Antes. – disse Fleur, tentando não rir, sem sucesso.

Minu a reconheceu como a garota estrangeira que namorava Hyoga, por quem sua amiga Eire estava apaixonada, e resolveu aproveitar a oportunidade para tentar irritar a ela e às outras de qualquer maneira...

- E quer dizer que eu não posso me vestir do jeito que eu quiser, é? – perguntou Minu, imprimindo um tom de altivez na sua voz.

- Não é isso que estamos dizendo, amiga. – disse Shunrei, para tentar acalmá-la. "O que aconteceu? A Saori tá com a macaca hoje...", pensou a chinesa.

- Claro que você pode vestir o que quiser. – complementou June, pedindo mentalmente para que Fleur, sempre a mais animada, não fizesse alguma piada daquela vez.

- Mas se a combinação roupa-sapato-maquiagem ficar legal ajuda, né? – disse Fleur, ainda rindo da sombra metade verde, metade azul, saia preta – visivelmente cortada para ficar menor -, sutiã de biquíni dourado e sandália rosa com flores – de verdade – pregadas com adesivos daqueles de agenda.

- E o que você entende de moda, hein? Cabelo de macarrão! – disse Minu, agressiva – E ainda rouba o homem dos outros, né? Sua... Vadia!

- O quê! – Fleur se surpreendeu.

- Saori! – Shunrei a repreendeu.

- E você? Sua morta de fome! – começou ela, voltando-se para Shunrei – Pensei que ia me ajudar porque nos falávamos no hospital, mas não! Sua falsa!

- Do quê você está falando? – perguntou Shunrei, sem entender.

- E você... – ela voltou-se para June – Você eu não conheço, mas esse cabelo... Ninguém nasce assim, minha filha! Dá pra ver que vocÊ é uma loira de farmácia!

- Saori! Por que está dizendo essas coisas horríveis? – perguntou June, horrorizada.

- O que deu em você? – perguntou Shunrei.

- Eu não roubei homem nenhum de ninguém! – gritou Fleur, enquanto Minu apenas sorria.

- Se vocês, que se dizem minhas amigas, não sabem... Então ninguém vai saber! – disse a garota, entre risos, como se concluísse aquilo – Agora, me dêem licença, sim? Tenho que sair para comprar coisas muito caras! Do tipo que vocês não podem pagar!

Minu se afastou das três garotas, zangadas, com um grande sorriso no rosto. Se as próprias amigas de Saori haviam sido enganadas tão facilmente, significava que não precisaria se preocupar com mais ninguém.

Caminhava com o rosto erguido, sem olhar para o chão; sentindo-se "a" tal, como uma garota rica deveria se sentir – ou pelo menos ela achava que sim – quando, de repente, se desequilibrou e caiu de cara no chão.

- Droga! – ela gritou, com raiva – Caminhar com esse salto é bem mais difícil do que parece...


Palavras da Autora:

Olá, pessoal.

Alguns de vocês já devem ter lido o que escrevi quando publiquei o capítulo 13 de "Cavaleiros apaixonados 2", mas, para os que não leram, vou repetir a mesma explicação aqui:

"Estava me questionando muito sobre continuar a escrever qualquer coisa ('at all'). Estava achando que tudo o que eu escrevia não passava de histórias muito medíocres e que não estavam acrescentando nada na minha capacidade ou habilidade de escrever e que ninguém estava querendo ler. Enfim, pra baixo mesmo.

Agora eu já estou bem. Resolvi deixar tudo isso pra lá, afinal, pelo menos teoricamente, este é um site de fics e o objetivo maior é se divertir, não é? Então eu vou me divertir. Sempre gostei de escrever, mas não sei realmente se algum dia isso "vai dar em alguma coisa". Então vou somente escrever por prazer, sem ligar se a história é simples ou sofisticada demais. Esse também é o meu conselho para quem estiver pensando a mesma coisa, ou algo parecido: divirta-se!

Desculpem pelo desabafo, mas era algo que eu precisava fazer: eu estava devendo pra você que continua a ler esta fic. Também devo dizer um muito obrigada a você!"

É isso aí. Peço desculpas pelo atraso e aviso que vou fazer de tudo para postar esta fic semanalmente, afinal, soa apenas 6 capítulos.

Vou responder às reviews por e-mail e através do meu blog, então fiquem ligados!

Beijos a todos e até o próximo capítulo!

Mary Ogawara