Os Olhos do Coração

Por Mary Ogawara


Anteriormente, em Os Olhos do Coração...

- Eu tenho que ir falar com ela! – disse, levantando-se de repente e enxugando as lágrimas com um lenço que Eire lhe havia oferecido.

- Com a Saori? Ficou louca, Minu? – perguntou Eire, assustada – De que adiantaria?

- Eu não sei, mas tenho que falar com ela de qualquer jeito! – disse Saori, caminhando em direção ao portão de entrada do orfanato.


Capítulo 4 – Quem você pensa que eu sou?

Minu descia a escadaria que levava até o hall de entrada da mansão quando Saori, finalmente e depois de muito esforço, conseguiu chegar até a mansão.

A garota havia passado as duas horas e meia anteriores, desde a sua saída do orfanato até então, completamente perdida. Estava cansada e nervosa, mas tinha de falar com a pessoa que deveria estar em seu lugar: Minu.

Saori tocou a campainha da mansão e Tatsumi atendeu a porta – nunca lhe fora tão agradável a visão do mordomo careca. A garota desejava, em seu íntimo, que ele a reconhecesse e tudo aquilo acabasse de uma vez, mas, como sabia que aconteceria, o homem lhe lançou um olhar de indiferença.

- Sim? – ele perguntou, com o mesmo tom arrogante que usava quando falava a algum de seus amigos Cavaleiros.

- E-eu gostaria de falar com a senhorita Kido. – disse a garota, esforçando-se para parecer simpática – e pedindo a Zeus para que ninguém notasse o cheiro de peixe das suas roupas.

- E quem é você, menina?

- Eu sou uma das professoras do Orfanato "Filhos das Estrelas". Me chamo Minu.

- Pois pode tirar o cavalinho da chuva! – disse o mordomo, grosseiro - A senhorita ainda nem desceu para o café e –

- Aqui estou eu, Tatsumi. – interrompeu a suposta Saori, que acabava de descer a escada e se aproximava da porta de entrada – Pode deixar que eu falo com essa aí. – disse ela, com uma arrogância maldosa na voz.

- Sim, senhorita. Eu vou acompanhá-las até a sala de estar. – Tatsumi sorriu, imaginando se finalmente a senhorita Saori havia resolvido se comportar como uma verdadeira lady.

- Não. Não será necessário. – disse a garota – Apenas me atenda quando eu chama-lo.

- Sim, senhorita. – concordou o mordomo, afastando-se das duas.

Saori e Minu se encararam por alguns instantes, sem dizer uma palavra.

Saori sentiu o rosto corar ao perceber que a garota havia "vestido o seu corpo" de uma forma que ela mesma jamais teria coragem – ou mal-gosto – de fazê-lo.

Já Minu parecia ter ficado zangada e também triste por se ver em um novo ângulo, como outra pessoa. Então não era mesmo implicância dos meninos do orfanato quando eles a chamavam de feia...

- Você... É quem eu penso que é? – perguntou Saori, de repente.

- Quem você pensa que eu sou? – perguntou Minu, voltando a assumir a postura altiva – Diga, senhorita!

- Eu sabia! – disse Saori, com os olhos cheios de lágrimas – Minu, você tem que me ajudar, por favor! O Seiya... –

- Eu sei do Seiya. – disse Minu, com um tom de voz cortante – Ele já esteve aqui hoje. No seu quarto, mais precisamente. Ou seria no meu...? – perguntou a garota, sorrindo ao perceber a expressão de desespero de Saori.

- Você não...? Ele não...? Eu não...? – Saori parecia muito mais nervosa agora.

Minu soltou uma gargalhada.

- Não se preocupe, donzela. Não aconteceu nada. Ainda. – Minu sorriu, jogando o cabelo – Mas eu não garanto o que poderá acontecer esta noite, quando ele me pedir em casamento!

- Mas... Você sabe que não é você que ele quer pedir em casamento, não é? – Saori tentou se mostrar confiante – Não é a Minu que ele ama!

Saori pensou ter atingido o ponto fraco da garota, mas ela sorriu ainda mais.

- Vou te perguntar mais uma vez. Olhe bem pra mim antes de responder, certo?

- Eu não... –

- Quem você pensa que eu sou? – perguntou Minu, como se fosse algo óbvio.

- Sa-Saori... Mas só até amanhã! – Saori tentava conter suas lágrimas e ser forte – Você só está se enganando, Minu! Não vai ficar com ele de jeito algum!

- Querida, imagine bem essa cena: eu, Saori, recuso o pedido de casamento e digo que nunca o amei, que ele sempre vai ser um Cavaleiro. – Minu parou para sorrir – Quem você pensa que vai confortá-lo amanhã?

Saori estava sem palavras. Minu realmente poderia ter razão. Ela tinha o seu corpo, a sua voz... Seria praticamente impossível convencer alguém de que a garota não era ela; não era Saori.

- Tatsumi! – Minu chamou o mordomo, que a atendeu imediatamente – Leve essa garota daqui! – ela falou com uma expressão de satisfação – Nem que seja à força!

Tatsumi sorriu.

- Vamos embora, menina... – disse ele, enquanto a empurrava para fora da casa.

Já do lado de fora da mansão, Saori não sabia mais o que fazer. Ou melhor, sabia, sim, de uma última alternativa, mas...

- Eu não vou desistir...! – disse a garota para si mesma, quando parou de andar de um lado para o outro.

Estava decidida a ir até o apartamento de Seiya, contar a ele o que realmente havia acontecido e torcer para que o garoto acreditasse nela...

Dentro de uma luxuosa limusine, guiada por um motorista, Minu ainda revirava a bolsa de Saori, procurando algo que lhe pudesse ser útil.

- Não acredito... – murmurou a garota segurando o que parecia ser um papel com o saldo bancário de Saori – Olha só o limite do cartão de crédito da Chatôri...!

- Disse alguma coisa, senhorita Kido? – perguntou o motorista.

- Ah... Nada não, seu... Motorista! – disse a garota, tentando disfarçar o fato de que não tinha a mínima idéia do nome do homem.

- Certo, senhorita. Nós já chegamos. – disse ele, parando o carro.

Minu esperou que ele abrisse a porta para ela e sorriu animada ao olhar as vitrines das lojas que estavam bem na sua frente. Banel, Chalentino, Wolf Lauren... As melhores marcas de roupas – ou pelo menos as mais caras – que alguém poderia desejar comprar.

- Me diga uma coisa. - ela chamou a atenção do motorista depois de babar por uns cinco minutos – Eu ando um pouco esquecida... Você pode me dizer em quais dessas lojas eu costumo comprar roupas?

- Ah... Eu não sei bem, desculpe, senhorita... – o homem parecia um pouco nervoso – Mas...-

- Senhorita Saori! – uma mulher estava chegando em uma das lojas e, ao ver "Saori" parada à porta, ligeiramente aproximou-se para cumprimenta-la – Como vai a senhorita?

- Muitíssimo bem, obrigada. – respondeu Minu, sem mentir.

- Vai comprar alguma coisa na nossa loja hoje? Terei prazer em atendê-la! – disse a mulher, sorridente, e só então Minu reparou que ela usava um crachá com a logomarca da loja bem à sua frente.

Minu acompanhou a mulher e entrou na loja. Qualquer garota daria pulos de alegria ao se encontrar portando um cartão de crédito tão "gordo" em um paraíso de bolsas, sapatos e roupas maravilhosas como aquele.

O lugar tinha vários andares e um espaço muito amplo e agradável, apesar de haver poucas pessoas na loja.

- E então, senhorita? Está procurando alguma coisa especial para hoje?

Minu deu uma risadinha antes de responder à pergunta da vendedora.

- Sim! Hoje eu quero uma roupa mais que especial! Tem de ser maravilhosa e única, entendeu? Tenho um encontro importante esta noite! – disse a garota, com ar de superioridade.

Saori corria o mais rápido que suas pernas – ou as de Minu – podiam suportar. A mansão ficava incrivelmente longe do porto e do pequeno apartamento de Seiya, mas pelo menos a pé ela teria certeza de que estava no caminho certo.

A garota sentia um aperto grande no peito, uma sensação de desespero. Era como se o ar escapasse pesadamente de seus pulmões, não apenas por causa da corrida.

De repente, Saori tropeçou e caiu no chão, machucando as mãos e os joelhos. Era simplesmente injusto que tivesse de sentir tanta dor...

Olhou para sua frente e espantou-se ao perceber que já podia ver o mar. Não sabia exatamente que horas seriam, mas já parecia ter passado do meio da tarde.

Resolveu ignorar a dor, levantar-se e correr mais até chegar ao lugar onde Seiya morava. Tocou a campainha, nervosa, e esperou ofegando até que o garoto abrisse a porta.

- Oi... Minu! – disse o garoto, parecendo surpreso ao vê-la, ainda mais naquele estado: estava machucada e suja e parecia muito nervosa – Minu, o que houve? Você está bem?

Saori se sentiu infeliz como nunca. Queria muito que ele a reconhecesse... Seria mais difícil ainda falar com ele agora que sabia que ele também a amava...

- Seiya! – disse a garota, antes de abraçá-lo, já começando a chorar.


Palavras da autora:

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Beijos para todos!

Mary-san Ogawara