Os Olhos do Coração
Por Mary Ogawara
Capítulo 6 – Os olhos do coração
A noite caiu rapidamente, fria como a anterior. Saori estava sentada em um dos banquinhos que ficavam no pátio do orfanato, fitando seus pés. Estava cansada, machucada e com dor-de-cabeça pelo dia difícil que havia enfrentado, mas nada se comparava à dor em seu coração.
A garota ergueu o olhar até focalizar o céu e as estrelas que brilhavam naquela noite. Simplesmente não sabia mais o que fazer. Se estivesse certa, voltaria a ser ela mesma na manhã seguinte, mas mesmo assim já seria tarde demais. Através das palavras de Minu, teve certeza de que a garota faria de tudo para acabar com qualquer chance que tivesse com Seiya naquela noite.
- Boa noite... – disse Tatsumi, claramente irônico, enquanto abria a porta da mansão para que Seiya entrasse.
- E a Saori? – Seiya perguntou, sem saber que tom usar.
- A senhorita pediu que você esperasse na sala. – respondeu o mordomo, indicando o lugar.
Seiya caminhou até lá e largou-se no sofá, totalmente confuso. Estendeu os braços e examinou sua roupa – estava vestindo um paletó, pois levaria Saori a um restaurante bem caro. Tirou do bolso a caixinha com a aliança, e logo guardou novamente. Consultou novamente: uma vez na vida ele havia sido pontual. Estava tudo certo. Até demais, na verdade. Então por que ele se sentia tão confuso?
Lembrou-se da conversa com Minu mais cedo. Por que diabos a garota estava agindo daquela maneira? Agindo como... Como a mulher que ele amava? Havia sido engraçado ver Minu falando loucuras, mas... E se aquilo realmente fizesse sentido? E se, ao invés de se declarar para a sua verdadeira Saori, estivesse prestes a cometer o maior erro da sua vida?
Seiya balançou a cabeça rapidamente, afastando esses pensamentos. Que estupidez! O que estava pensando? Nenhuma pessoa sã consideraria uma hipótese absurda daquelas.
- Seiya...! – a voz de Saori o chamou de repente.
O garoto virou-se na direção da voz tão querida e sentiu seu queixo cair. Quantas vezes isso não acontecera quando ele via Saori surgir em algum lugar sempre incrivelmente bela?
- Sa-Saori? – balbuciou, fazendo esforço para não sorrir.
Definitivamente, desta vez, seu queixo não caíra por causa da beleza da amada.
Saori usava um vestido de um tecido aveludado verde-limão, com um decote em "v" até o umbigo, com as alças cobertas por flores de fuxico multicoloridas. A saia balão ia até o meio da perna da garota, deixando à mostra parte das ligas da meia calça vermelha – como os sapatos – da garota.
- E então? Estou bonita?? – ela perguntou, sorrindo, estendendo-lhe a mão direita, com anéis em todos os dedos e todas as pulseiras que ela tinha conseguido encontrar, para que ele a beijasse.
- Bem... Ah... Você... Saori, você está... Interessante! – disse ele, achando um meio termo educado entre "um horror" e "muito feia".
- Interessante? – Seiya a chamara de interessante! – Obrigada, querido!
- Ahh... Vamos, então? – ele deu o braço para que ela o seguisse.
- Claro!
Novamente com a cabeça baixa, enquanto lágrimas silenciosas desciam pelo seu rosto, Saori ouviu os passos de alguém que se aproximava. Era Eiri, sentando-se bem ao lado dela.
- Minu... Então não deu certo, não foi? Ele ainda vaio pedir a Saori em casamento? – ela perguntou, com um tom penoso na voz.
- Não... – Saori respondeu, mas logo se corrigiu – É, não deu certo.
Mais uma pessoa a chamando de louca não ia ajudar em nada.
- Amiga, - começou Eiri, depois de abraçá-la – Talvez tenha sido pra melhor.
Saori não ofereceu resistência a princípio. Sentiu vontade de imaginar que Eiri fosse uma de suas amigas. Mas ela não era.
- Eu quero ficar sozinha. – pediu a garota, empurrando a outra levemente.
- Tudo bem. – Eiri se levantou, ofendida.
"Vai começar o último capítulo de 'Beijos e Lágrimas' e eu nem vou te chamar pra ver, mosca morta!", pensou a loira, com um sorriso vingativo.
Saori olhou para o céu novamente, mas, desta vez, uma estrela cadente lhe chamou a atenção, fazendo com que ela se lembrasse nitidamente da noite anterior. Sim... Havia desejado ser Minu por um dia, pensando que assim seria amada por Seiya. E logo após tinha sentido muito sono e ido dormir...
Dormir... E se a mudança tivesse ocorrido durante o seu sono? E se o horário certo fosse mesmo aquele e não a manhã? Isso significaria que não tinha muito tempo até se tornar ela mesma novamente. Provavelmente ainda poderia impedir que Seiya se declarasse para Minu!
Com uma nova esperança em mente, Saori resolveu pegar um táxi para a mansão o mais rápido possível. O dinheiro? A garota sorriu ao espatifar no chão o porquinho cor-de-rosa de Minu.
Arroooooooooooto!
- Ops... Desculpe! – disse Minu, depois de mais uma taça de champanhe.
- Tudo bem... – disse Seiya, espantado com o comportamento da garota.
- Garçom, mais uma garrafa, rápido! – ela gritou, voltando-se para o garoto, com o rosto corado – E então, Seiya...? Você não tinha algo para me dizer...?
- Ah... Sim, eu... – o garoto hesitou antes de continuar, segurando a caixinha com a aliança.
Seiya ficou parado por um momento, observando aquela mulher que sorria bem na sua frente. Aquilo não parecia certo... Saori estava tão... Diferente. Ela não tinha mais o tom de voz que o fazia querer ouvi-la mais e mais, não tinha mais a delicadeza dos gestos de sempre, nem meiguice no seu sorriso. A mulher que estava na sua frente não era a sua Saori.
- Você...? – a voz já um pouco alterada da garota o trouxe de volta para a realidade.
- Eu... Eu queria dizer que você é muito especial pra mim, Saori. – disse o garoto, sem tirar a caixinha do bolso.
- E...?
- É isso.
- Só isso...? – Minu piscou algumas vezes para o garoto.
- Só. – ele respondeu, desconcertado.
Ele tinha amarelado na hora H???
- Você me convidou pra esse restaurante super chique só pra me dizer ISSO??? – Minu começou a ficar zangada, o que piorou com o efeito do álcool.
O que podia ter dado errado?? E agora?? Seu plano de humilhar Saori iria por água a baixo!!!
- Sabia que eu comprei esse vestido maravilhoso só pra essa ocasião???
- Saori...! Calma! Todos estão olhando pra cá... – Seiya tentou acalmá-la.
- Ahn...? – só então Minu percebeu que já estava em pé e que todos os clientes do restaurante assistiam horrorizados ao seu "show" – Ops...
A garota se sentou e tratou de encher mais uma taça de champanhe com a nova garrafa que havia pedido.
- É, talvez eu tenha exagerado na bebida... – disse ela, ao mesmo tempo em que virava mais aquela taça.
- Na verdade, pra mim foi uma surpresa ver você bebendo hoje. – disse Seiya, desconfiado – Você nunca bebe, Saori.
- Ah! Tudo tem a sua primeira vez, - disfarçou ela, fazendo um movimento ousado com a perna por debaixo da mesa – não tem?
Seiya se levantou de repente, abismado.
- Garçom, a conta! – ele chamou. "Por favor!", pensou, com vontade de fugir daquele lugar.
Pouco tempo depois, Seiya já estava na porta da mansão, despedindo-se daquela Saori estranha.
- Seiya... Tem certeza de que não tem nada para me dizer? – perguntou Minu, enlaçando o pescoço do rapas e olhando-o nos olhos.
Seiya não soube o que responder, e, enquanto olhava nos olhos dela, lembrou-se do conselho que a também diferente Minu lhe dera naquela tarde.
Fechou os olhos por um segundo, tentando se concentrar no que quer que fossem "os olhos do coração". Ao abri-los, percebeu que, de alguma forma, aqueles olhos azuis tão queridos não eram os olhos de Saori.
Seiya afastou-se da garota, que pareceu não entender.
- Seiya...? O que foi? Se... – mas a visão do seu corpo verdadeiro chegando a fez perder a voz por um instante – Não pode ser!
Saori avistou Seiya e Minu de longe e correu o mais rápido que pôde até eles. Será que tinha conseguido chegar a tempo?
"Eu não vou deixar você tirar ele de mim de novo!", pensou Minu, antes de partir pra cima de Seiya, dando-lhe várias tapas no rosto.
- Seiya! – foi tudo o que Saori consegui dizer antes de fazer algo que nunca tinha imaginado na vida: bater em si mesma!
A garota reuniu toda a força que ainda lhe restava depois do dia exaustivo e aproveitou o momento em que Seiya afastou-se de Minu para acertar um soco bem no meio do seu próprio rosto.
- Ahhhh... – Minu gritou, antes de cair no chão, desmaiada.
Mas nesse momento, Saori sentiu novamente a vista escurecer rapidamente, e as falas de Seiya, que correra ao seu encontro, ficarem distantes como um eco...
- Seiya... – ela ainda conseguiu dizer, sorrindo.
Aqueles olhos que se fechavam... Aquele sorriso antes que a garota perdesse os sentidos... Aquela era mesmo Saori!
Seiya ajoelhou-se ao lado da garota, olhando de uma para a outra, sem saber o que poderia ou deveria fazer, até que ouviu Saori – ou seria Minu? –, enfim, a garota de cabelos roxos acordar e chamá-lo.
- Ai... – ela levou uma das mãos ao rosto, antes de abrir os olhos. Seu nariz sangrava da surra que levara de si mesma.
- Saori...? – Seiya perguntou, nervoso devido ao estado da garota.
A jovem fez que sim com a cabeça e sorriu de leve, ao mesmo tempo em que começava a chorar de alívio e dor. Seiya a pegou nos braços e a levou para o interior da casa, para que pudesse cuidar dela.
Enquanto isso, Minu, largada no chão, agora acordava e se levantava, com lágrimas nos olhos. Não só tinha perdido Seiya para sempre, como também duvidava que ele voltasse a falar com ela mesmo como amigo.
Minu sentiu as lágrimas caírem sobre o seu rosto vermelho de vergonha. Deu as costas para a casa e correu para sair dali. "Um dia eu me vingo!!", foi seu último pensamento.
Depois de conseguir estancar o sangramento do nariz e limpar o rosto da amada, Seiya a levou até o seu quarto e a deitou na cama, com uma bolsa de gelo sobre o rosto.
Saori sorriu, feliz. Mas seu sorriso se desfez quando ela finalmente percebeu que roupa era aquela que estava usando, o que fez o rosto já vermelho do machucado ficar piora inda.
- Que roupa é essa?? – ela perguntou, envergonhada, sentindo-se estranhamente tonta – Eu... Acho que não estou muito bem...
- Bem... – Seiya sorriu – Digamos que você, bom, a Minu, bebeu um pouco além da conta hoje.
Saori sorriu de si mesma, da sensação esquisita que sentia. Até se sentia um pouco mais corajosa para dizer o que queria para o garoto.
- Seiya... – ela sorriu, enquanto ele acariciava o seu rosto – Toda essa confusão aconteceu porque eu desejei... Desejei ser a Minu.
- Mas por que...? – ele perguntou, confuso.
- Eu pensei que você estava apaixonado por ela. As garotas me disseram que você ia pedi-la em casamento... – Saori começou a chorar novamente – E te amo tanto... Não queria perder você.
Agora foi a vez de Seiya sorrir aliviado. Estava certo. A mulher que ele amava também o amava!
- De fato, eu queria pedir alguém em casamento... – ele tirou a caixinha do bolso, finalmente – Mas esse alguém é você, Saori. Eu amo você.
- Seiya...
- Eu sei que é louco, mas – ele tirou a aliança da caixa e colocou no dedo da garota – você aceita se casar comigo?
- É claro que sim! – ela sorriu, aproximando seu rosto do dele – É tudo o que eu mais quero... – disse ela, antes que seus lábios encontrassem os dele – Ai! – ela parou, de repente, por causa do rosto dolorido.
- Desculpe! – ele sorriu, encabulado – Eu queria tanto que esse fosse um pedido romântico!
Saori acariciou o rosto do amado, dando-lhe um selinho divertido.
- Não pensei que fosse possível, mas este é o dia mais feliz da minha vida! – ela sorriu.
- Esse é o dia mais infeliz da minha vida! – gritou Minu, ao chegar no orfanato – Não acredito que também perdi o último capítulo de "Beijos e Lágrimas", droga!!!
FIM
Nota da autora:
Olá!
Peço perdão pela demora com o capítulo final desta fic. Não tenho muitas desculpas além de um ano bastante difícil, eu acho. Alguns acontecimentos inesperados me deixaram um pouco fora do ar por um tempo, mas agora estou voltando.
Não sei se vou continuar a escrever fics de Saint Seiya, mas, mesmo assim, senti que era uma obrigação atualizar esta fic antes que o ano acabasse.
Quero agradecer a todos que deixaram reviews para os outros capítulos e desejar um Feliz Natal e um Feliz Ano Novo para vocês.
Mary Ogawara
