02 – Destinos
Rin concentrava se nos últimos atendimentos daquele dia cansativo. Não via a hora de chegar em casa e tomar um longo banho.
Mas ela estava bastante feliz, pois o dia logo passou, e não fez como os outros, que se arrastavam.
Logo que suas tarefas médicas tinham terminado, ela rapidamente recolheu seu material, e seguiu para sua casa.
Após chegar e ter seu relaxante banho, ela vestiu-se simplesmente, e logo foi para seu escritório, onde acessou seu e-mail. Havia um em particular que ela abriu e alegrou-se por ler a primeira linha:
"Rin, Hoje o Ichi chorou – Rin arregalou os olhos àquela notícia. – Mas foi apenas uma lágrima que escorreu do olho dele. Eu percebi que, quando me aproximei, ele se sentiu mais seguro. Eu toquei em seu peito e pude sentir o coração dele se acalmar. E quando ele se acalmou, fechou os olhos. Com certeza sentiu o carinho que eu tenho por ele e com isso seu medo de destilou. Estou ainda um pouco emocionado. Aconteceu muitas coisas hoje.
Quando monitorei as ondas cerebrais pude notar claramente que ele me sentia, as vibrações eram maiores quando eu o tocava.
Já começo a duvidar de minha teoria... –Rin deu uma risada - ...Mas também quero acreditar que ele seja mesmo um ser feliz... quero o ajudar a se tornar um garoto, depois um homem... Rin... preciso muito conversar com você...
Em breve estarei lhe contatando...
Rin sentiu um frio na espinha por aquela última frase. Seria o que Rin estava pensando? Não podia ser...
Logo que Rin recebeu seu salário, a primeira coisa que fez foi comprar a passagem para o centro oeste, iria partir no fim de semana, para fazer o que tinha que fazer.
- Já esta tudo pronto para darmos a liberdade para o Ichi. – Rin sorriu contente enquanto jantava com Ikino, em um restaurante perto de onde o rapaz trabalhava.
Os dois estavam muito sorridentes, e ele encantado com Rin. Uma mulher bastante decidida, muito bonita e madura.
Logo que o jantar terminou, o rapaz, assim como a buscou em casa foi a levar. Ela ria intensa e feliz, os dois estavam juntos desde cedo, e se divertiram bastante na casa de jogos on-line, a mais freqüentada da cidade por ter simuladores especiais.
- Rin... – ele a segurou pela cintura e puxou-a, pressionando seu corpo ao dela. Tocou os lábios delicadamente, e afundou a mão nos cabelos negros de Rin. As respirações ritmadas indicavam desejo, mas Rin não quis aprofundar o momento, e Ikino a compreendeu, apenas contentando em beijá-la com carinho e conforto.
Enquanto o casal mostrava seu afeto um ao outro, no laboratório, Ichi abriu os olhos repentinamente. O monitor mostrou agitação nas atividades cardíacas, um medo inimaginável tomou o pequeno, e isso tinha um motivo: Izumo mexia nos arquivos deixados no lap top de Ikino, o que revelou muitas coisas, inclusive a viagem que Rin faria dali a algumas horas. Ele não teria tempo de impedi-la.
- Rin, quero que saiba que a amo muito... e daria minha vida para te proteger, mas... eu sei que não será necessário... – ele a olhava com ternura.
- Pare de falar como se nunca mais fossemos nos ver... – ela repreendeu-o. – você mesmo disse que iríamos ver Ichi crescer... e isso irá acontecer...
"Rin vamos ver o pequeno Ichi brincando como uma criança de verdade..." – dizia a frase em um dos documentos particulares que tinha no lap top de Ikino...
Furioso, Izumo derrubou tudo de cima da mesa a sua frente, andou ainda furioso para Ichi, que mantinha os olhos abertos.
- Tudo por causa daquela maldita Rin... ela vai pagar muito caro por ter persuadido Ikino... aquela vadia...
Logo montou um plano em sua mente, e ainda ganancioso espalmou as mãos na cela onde Ichi estava.
O coração do bebe parecia que ia explodir de tanto que batia, tal o medo que sentia daquele ser em sua frente.
Assim que amanheceu, Izumo mandou que arrumassem a mesa de Ikino, fingiria que nada tinha descoberto. Tudo para que seu maligno plano desse certo.
Aquele sábado seria de muitas descobertas, e decisões...
- Estou com um mau pressentimento... – Rin comentou com Ikino.
- Não se preocupe tudo dará certo...
- Sim... – Rin apertou a passagem nas mãos, não se sentindo confortável em fazer aquela viagem, mas já tinha ido longe demais para desistir.
Virou-se e começou a caminhar, decidida a seguir em diante com seu plano.
Ikino apenas observava, mas sentiu o coração apertar ao ver ela se distanciar cada vez mais, e em um impulso, saiu correndo e a pegando de surpresa a abraçou.
- Rin... – ele estava ofegante. - ...Eu te amo... – e a virando de frente, beijou-a com paixão, deixando seus sentimentos fossem expostos verdadeiramente. Um longo beijo... um sincero beijo...
- Ikino... eu também... – Rin ia dizer, mas o vôo o qual ela iria embarcar foi anunciado, e sairia em cinco minutos.
- Vá... mas volte para mim... – Ikino acariciou uma ultima vez o rosto dela, que saiu após isso apressadamente em direção ao portão de embarque.
Ikino esperou que o avião que levava Rin decolar, e logo após saiu, indo para sua casa, onde sentiu-se solitário.
O rapaz de olhos avermelhados e cabelos longos, cor da terra, sentia seu interior queimar de saudades. Parecia que ele nunca mais veria Rin novamente, mas sabia que aquilo não era verdade e, que tudo estaria acertado. Pensou no sofrimento do pequeno Ichi, e sentiu-se mais aliviado em saber, que dali a três dias, o laboratório que realmente era responsável pela clonagem viria o buscar com ordem judicial, tirando o bebê das mãos de Izumo.
Relaxou em um demorado banho, logo depois preparou seu jantar. Saboreou seu alimento... mas este tinha o sabor amargo da saudade... talvez largasse tudo e viajaria para onde Rin estava, não estava suportando tanta solidão.
"-Não posso me ausentar – pensou o rapaz bebericando água – tenho que me manter firme para cuidar de Ichi ate que ela volte..."
Rin seguia preocupada pelas ruas da cidade desconhecia do centro oeste. Parecia uma cidade bem modesta, as casas eram mais aconchegantes que a abalada Tókio onde morava. Mas sua preocupação não era o lugar, e sim o "lugar" onde estava indo.
Após ter se hospedado em um hotel próximo ao centro daquela cidade, ela banhou-se rapidamente, e aproveitando que ainda estava de dia, saiu à procura do laboratório, que era filiado ao famoso museu de história natural daquela cidade.
Achá-lo não foi o problema, pois esse era o cartão postal do lugar. Curiosa, ela visitou o interior do museu.
Havia muitos fósseis, e também mumificações, mas a parte que realmente lhe chamara a atenção foi exatamente a área que menos era visitada. A população tinha certo temor pelas criaturas que, antigamente residiram ali, eram tratados com muito respeito, e em cada esqueleto exposto, havia um amuleto místico, como um selamento de alma.
Havia um senhor, parecia um antigo morador daquele lugar. Ele também visitava a área em que Rin estava.
Rin não havia o percebido ainda, pois concentrou-se em dois esqueletos expostos em um caixão de vidro, cuidadosamente vedado. Ao lado deste havia uma armadura, parecia muito luxuosa e certas partes havia um brilho intenso prateado, como se houvesse sido polida.
Mas ela estava com o olhar fixo no esqueleto de um pequeno youkai. O crânio era arredondado, e ele tinha apenas três dedos em cada mão, e dois nos pés. Para dizer a verdade, se modificasse um pouco, podia-se montar um sapo com aquele esqueleto. Rin abafou uma risada com esse pensamento, mas esta se esvaiu quando fixou o olhar no segundo caixão de vidro. Era com certeza uma ossada de um ser humano... ela sentiu uma sensação estranha ao aproximar-se. Seu coração acelerou e seus olhos turvaram um pouco.
- Não se aproxime muito... – comentou o senhor, despertando Rin do transe momentâneo. – esses restos emanam uma energia não muito boa para nós.
- Ahn... – Rin olhou-o, esfregando os olhos.
- Essa mulher foi como uma concubina de um poderoso youkai, que viveu e dominou todas as terras do oeste.
- Mulher? – ela voltou-se novamente para o esqueleto.
- Sim... – o senhor fechou os olhos e aproximou-se. – e esse pequeno foi seu servo... ele carregava consigo um poderoso bastão, denominado Nintoujou... Tinha duas cabeças, e uma delas, a do homem, soltava fogo. Diz a lenda, que o fogo era mais quente que o fogo do inferno, e por isso podia-se sentir cheiro de enxofre nos resíduos deixados. Não sobravam nem cinzas do que era queimado... – ele deu uma risada.
- Nossa, então essas pessoas podiam mesmo ser dono dessas terras... com todo esse poder... acho que deveriam estar vivos ate hoje...
- É, mas não foi bem assim...
- O senhor conhece a o motivo da decadência desse grupo poderoso? – ela perguntou curiosa, vendo-o caminhar para perto de outro recipiente de vidro, este também parecia um caixão, mas estava na vertical.
Estava neste uma armadura, a armadura que Rin reparara de início.
- O líder do grupo, o mais poderoso youkai já residente destas e outras terras, não resistiu a maldição jogada em si...
- Mas se ele era tão forte, uma simples maldição pode o derrotar?
- Talvez... essa é a história que contam sobre eles... dizem que essa mulher que andava com eles, o matou com uma estaca feita com um galho de uma arvore sagrada. Ela enterrou no coração dele enquanto dormia...
- Isso explica o buraco na armadura...
- Sim... ele buscava muito poder e acabou morrendo pelas mãos da própria concubina...
- Hum... estranho...
- O que? – ele olhou-a sorrindo.
- Os restos mortais dele não estão aqui... só a armadura e a espada...
- Não sabemos o motivo, ninguém sabe onde foi parar o corpo dele... depois que os arqueólogos tiraram eles da caverna onde descansavam...
- Caverna? – Rin sentiu-se familiarizada com aquela parte da história.
- Sim... – ele respondeu olhando o relógio. – Oh! Já é essa hora... preciso ir senhorita...
- Sim... obrigada por me contar parte da história...
- Não se aproxime muito... – ele deu o ultimo aviso sorrindo, e Rin afirmou com a cabeça, voltando a olhar a armadura depois que o senhor saiu.
- Seria bom saber a verdadeira história...- ela olhou uma ultima vez para a espada posta na cintura da armadura, presa por um belo tecido, mas surrado pelo tempo, envelhecido pelo imperdoável...
Era estranha a sensação que sentia perto daqueles restos mortais. Sentia um frio na alma, como se ela quisesse sair de seu corpo, mas também uma grande segurança. Estava bastante curiosa sobre aquela história ainda. Resolveu então comprar um livro que estava exposto na recepção, intitulado "Extinção do circulo perfeito da morte". No encarte informativo que recebera, dizia que o autor explicava parte da historia sobre aquele grupo em particular.
Era uma estória famosa entre os moradores. E aquela área era mais visitada por estudantes rebeldes, que se fascinaram pela estória de dominação do grande Inu-youkai. Como eram denominados por eles.
Mas Rin também não podia esquecer do real motivo que estava ali... para salvar seu pequeno Ichi.
Logo que Rin saiu do museu, ele foi fechado. Misteriosamente os vidros do caixão de onde estava o esqueleto da mulher estourou.
Sem a percepção de humanos, a espada que estava presa a armadura também reagiu, vibrando um pouco, derrubou parte da armadura, que também estourou o vidro que a protegia.
Logo as pessoas que faziam a manutenção no lugar entenderam que, como a parte da armadura caiu, podia ter causado também a destruição do outro caixão, com os estilhaços que foram arremessados pelo peso da armadura caindo.
Era noite quando Rin retornou, estava cansada...
Jogou a bolsa em cima da cama, junto com o livro e foi tomar um banho, para tirar o cansaço do dia.
Enquanto Rin banhava-se, um poderoso vento abriu as janelas, adentrando o quarto e folheando o livro em cima da cama, o qual parou certo na página 280, onde havia uma ilustração, não muito clara do que era o rosto do dono daquela armadura.
Rin saiu do banheiro com o robe bem fechado, secava os cabelos longos, mas parou para fechar a janela, por onde o vento ainda teimava adentrar, movimentando assombrosamente as cortinas. Rin suspirou aliviada pelo vento não mais adentrar o lugar, logo acendendo a luz, continuou a secar seus cabelos aproximou-se da cama sentando-se, sem perceber o livro aberto de início.
- Que vento... será que venta sempre forte assim aqui?... – Rin perguntou-se, mas parou de súbito ao ver a imagem no livro. Sentiu um frio na barriga.
- Oh meu Deus! – ela largou a toalha de qualquer jeito, e pegou o livro. – Como ele é lindo... – ela estreitou os olhos para a imagem, percebendo uma semelhança bastante reconhecível.
Observou a imagem muito mal desenhada das marcas presentes no rosto, e reconheceu...
- I...Ichi? – ela olhou mais de perto. – não pode ser... – ela riu abobalhada com a coincidência.
Podia ser uma coincidência, mas ela acreditava que não, pois o corpo do youkai não foi encontrado. E julgando pelo estado dos outros, os companheiros, ela não acreditava que, a célula, praticamente viva que lhe foi enviada, não podia pertencer aquele youkai. Seria coincidência demais...
Foi com esse pensamento que Rin logo adormeceu, para que acordasse bem cedo e disposta ao dia seguinte, para ir ao museu novamente, conversar com o diretor deste, o qual saberia onde ficava o laboratório filiado.
Estava frio... o vento batia em seus cabelos e também como se quisesse cortar-lhe a pele, te tão gélido que estava... sentiu-se perdida dentro de uma escuridão interminável. Mas conseguiu enxergar um fio de luz. O que era aquilo?
Rin caminhou incerta, mas seguiu o brilho, e ao chegar perto, sentiu se aquecida, como se algo tivesse a envolvido... abraçou os ombros e pode sentir um pouco de pelo neles, pelos macios... pareciam brancos, mas a visão não estava ajudando.
"- Fique quieta que o frio logo passa..."- ouviu uma voz grave e máscula vinda de bem perto de seu rosto, assustou-se e temeu olhar, mas mesmo assim levantou o rosto, pode ver o queixo e a boca, estava sério seja lá quem fosse. Esperou mais um relampejo, e olhou de uma vez...
- Hã?... – Rin levantou-se muito suada... estava tensa. – O que foi esse sonho?
Ela levantou-se logo, percebendo que o sol não tardara aparecer.
Ainda com sono, saiu debaixo da coberta, e seguiu para o banheiro, onde tomou um demorado e asseado banho.
Seguiu para o museu, onde esperou ansiosa que abrisse as portas. Após isso acontecer ela dirigiu-se a recepção, e informou-se sobre o diretor deste.
- Então ele não demorará a chegar... eu posso esperar por ele?
- Pode sim, fique a vontade... – a recepcionista foi simpática e Rin sentou-se para esperar. Pegou de sua mochila, o notebook que havia levado, e, aprontou todos os dados possíveis, para convencer ao homem de que ela era a médica que, fez a clonagem a muito pedida pelo laboratório.
Duas horas depois, o homem chegou ao museu, e parou na recepção, apenas para pegar sua agenda de compromissos, e a recepcionista logo avisou-o.
- Aquela moça esta o procurando desde ontem Matsumoto-sama... – ela indicou a moça e ele olhou.
- Qual o nome dela?
- Nakatomi Rin.
- Obrigado... - ele agradeceu, pegando a agenda depois caminhou ate Rin, que fechou seu notebook, levantando-se em seguida. – O que deseja senhorita Nakatomi?
- Preciso que me conte onde fica o laboratório...
- O laboratório? O que deseja com o laboratório? – ele olhou-a estranhamente.
Rin pegou sua mochila e de dentro dela, retirou uma pasta. Pegou certa fotografia e mostrou ao homem, que quase caiu enfartado ao ver a imagem.
- Preciso falar com a pessoa responsável pelo envio da célula que eu clonei, para fazer esse bebê.
- Deus... o que é isso? – ele estava impressionado. – Vamos ate minha sala por favor...
Rin pegou suas coisas, e acompanhou o homem, que ao chegar à sala ligou para a recepção.
- Cancele todos os compromissos para hoje, e me ligue com o doutor Yamada Ichiro, é urgente... – ele não esperou a resposta, desligando o aparelho depois.
- Então... conseguiram fazer a clonagem? Fico satisfeitíssimo por isso...
- Sim... mas... há um problema senhor...
- Problema? O que?
- Na verdade são dois, mas um é mais difícil de se resolver... – Rin começou, mas foi interrompida pelo homem que atendeu o telefone, era Yamada.
- Yamada... nosso clone esta pronto! – ele comentou feliz, e Rin deu um sorriso sem graça.
- Impossível, eu falei com Izumo há meses atrás, e ele disse que a experiência foi um fracasso...
- Como? Um fracasso... – ele olhou para Rin, que suspirou. – mas eu estou com uma foto dele aqui, e também vários relatórios, e a doutora Nakatomi... ela foi a responsável pela clonagem... e...
- Isso não faz nenhum sentido... – O homem foi descrente. – Não tem como...
- Esta insinuando que estou mentindo? Ou que a doutora Nakatomi... porque não vem ate aqui verificar?
- Não posso, Hoje nós vamos tirar o youkai dos líquidos para examinar...
- Hã? Porque? – ele ficou curioso, e olhou para Rin, que se sentia sobrando.
- Ele, por algum motivo abriu os olhos ontem à tarde, foi uma surpresa para nós, pois ele já esta há tanto tempo aqui e nunca reagiu assim...
- Hum... interessante... então eu enviarei a senhorita Nakatomi ate vocês... – ele falou sorrindo, e Rin ficou alerta.
- Sim... mande-a... quero saber detalhes desta história mal contada.
- Eu também, vou levá-la... também porque quero ver esse youkai acordado... – foram as ultimas palavras ao telefone, após desligou, e olhou sorrindo para Rin.
- De que youkai estavam falando?
- Bem... isso é um segredo de estado, todos envolvidos nesse caso tem que ficar bem quietos, ou poderiam morrer... – ele arqueou as sobrancelhas, mas sorriu. - ...mas como você, clonou o youkai, nada mais justo que você ver a matriz... – Rin admitiu estrelinhas nos olhos, e faltou pouco se pendurar no pescoço do homem a sua frente de tanta felicidade.
Depois de percorrer quase toda a cidade, eles chegaram ao laboratório, Rin parecia que não iria se conter de tanta felicidade. Estava com as mãos suadas e também suava frio. Seu coração estava levemente acelerado, devido à emoção que sentia. Finalmente conheceria o "pai" ou "mãe" de Ichi. Sem contar que, poderia resolver de uma vez a situação de Ichi no laboratório onde trabalhou.
Rin foi revistada por três pessoas antes de adentrar o lugar, por segurança, pois eram estritamente proibidos qualquer tipo de máquina fotográfica, celulares e scaners. Mas nada foi encontrado, só havia mesmo muitos documentos e, seu notebook, que ficou na recepção, por segurança.
Rin sentia as pernas um pouco bambas enquanto caminhava para o elevador. Não sabia o que fazer, não estava se contendo em si de tanta emoção.
Resistiu a algumas lágrimas de emoção, quando o médico Yamada a chamou para sua sala.
- Desculpe, eu estou um pouco nervosa...
- Não se preocupe... – ele disse olhando alguns documentos que Rin trouxera com ela, dentre elas algumas imagens de Ichi. – Eu não entendo? Porque Izumo quis esconder nosso clone ate agora?
- Ele não pretende entregá-lo a vocês. – Rin começou a explicar.
Enquanto isso, um andar acima, uma agitação incomum abalava um corpo flutuando nos líquidos do recipiente de conservação e nutrientes. Não havia pulsar cardíaco, mas bolhas teimavam em sair da boca do corpo presente. Reparando bem, podia se ver um pequeno movimento nos dedos da mão.
Os médicos e cientistas presentes impressionaram-se com as atividades cerebrais muito ativas... As quais não tinham antes.
- Então... ele manteve ele em segredo por todo esse tempo... e você, esta fazendo isso por vingança? – ele perguntou curioso.
- Não... de uns tempos para cá, as ambições dele tem ultrapassado os limites. Ele tem feito coisas horríveis com o Ichi...
- Como assim?
- Ele praticamente cegou o pequeno, e logo fez a circuncisão... e tudo a sangue frio...
- Cegou? Explique melhor...
No laboratório, os médicos drenaram os líquidos, e tiraram o corpo, colocando sob uma maca... era possível notar os músculos se contraírem na parte abdominal, e também no tórax.
- Seria isso uma respiração? – um dos médicos supôs.
- Sim... ele esta vivo...
- Mas o coração... não há como estar vivo estando com essa estaca enfiada ai...
- Talvez devêssemos...
- Não podemos arriscar... ele poderia morrer facilmente se tentássemos.
- Vamos chamar o doutor Yamada... ele saberá o que fazer...
- Sim...
Logo abaixo, Rin terminava de explicar o ocorrido, e Yamada estava enraivecido com aquilo, estava tenso, e com certeza ele arrancaria a cabeça de Izumo se o visse. Para completar sua tensão o telefone tocou.
- O que é? – ele foi quase mal educado.
- Senhor temos um problema aqui, o youkai... esta respirando, precisamos de sua presença... para ...
Yamada não esperou o outro terminar, jogou o fone sob o aparelho e levantou-se.
- Doutora, vamos...
- Vamos?
- Sim... coloque isto... – ele jogou um jaleco branco, e uma mascara para que Rin pusesse. Rin não esperou muito, colocou as peças e seguiu o médico.
O coração cada vez mais acelerado a cada passo, a cada centímetro que o elevador subia. Estava a segundos de conhecer a figura que deu origem a seu clone.
- O que esta acontecendo? – Yamada entrou de uma vez, e rapidamente se aproximou da maca e observou o ser nela deitado.
Rin ficou hesitante na porta, não sabia o que fazer...
- Doutora Nakatomi, aproxime-se... – o médico pediu, e ela aproximou-se um pouco nervosa.
Posta próximo ao grupo de médico que rodeava o corpo, Rin ouviu uma brusca movimentação do corpo, e uma brecha foi aberta e, ela pode ver o rosto do youkai. A cabeça virada de lado na direção em que ela estava. Podia ver os cabelos caídos e molhados para fora da maca, e aproximou-se, enquanto os médicos se afastavam.
- Ei, o que esta fazendo? Afaste-se...
Um dos médicos pediu, mas Rin estava estranhamente atraída.
Foi em um momento inesperado para todos... quando ele abriu os olhos. Rin imediatamente sentiu um frio na barriga, muito intenso, e deu dois passos vacilantes.
Acordado, o youkai levou a mão no peito, onde havia a estaca... e Rin observou-o quieta...
- Yamada-sama...
- Sedativo... peguem e apliquem rápido... – ele ainda estava incerto.
- Não... – Rin falou inconsciente de suas palavras...
- Como não... e se... e se ele tentar nos matar...
- Ele não vai... – Rin aproximou-se, e ele levantou-se um pouco, tentou tirar a madeira em seu peito, mas algo o impedia...
- Não se aproxime Nakatomi... pode ser perigoso...
Fraco, o youkai sentou-se curvando a sua própria dor...
- Você esta bem? – ela parou, olhando-o, um pouco assustada. E ele voltou seus olhos para o rosto dela novamente, e seus lábios moveram-se em silêncio. – Quer ajuda?...
- Rin... – ele pronunciou em tom baixo.
- Hã? – Rin sentiu o coração palpitar, como ele sabia seu nome?
- Rin... tire essa maldição...
- E...eu...
- Não... sei o que fazer...
- Cale-se... – ele pediu, lançando um gélido olhar.
Rin temeu, mas logo viu que as dores estavam se intensificando, por o coração estar espremido, perfurado por aquele objeto. Não tinha outro jeito. Rin aproximou-se e tentou o primeiro toque, mas afastou-se um pouco ao ver ele virando de frente.
- D-Deite-se... – ela pediu...- Vai ser... melhor...
- Não... Faça como estou... – ele gemeu mais uma vez, rosnando em seguida.
Rin aproximou-se e tocou o objeto... ele segurou na mão dela, mão que estava um pouco fria.
- Tire...
- Não faça isso doutora... – os médicos que antes tinham saído, voltaram com três pistolas, com sedativos.
Mas Rin não hesitou, com força, não sabe tirada de onde, ela passou a puxar o objeto do corpo do youkai, nesta hora, os médicos imobilizaram-se, e quando um grito foi solto da garganta do youkai, Rin caiu no chão sentada com o pedaço de madeira afiada na mão. Olhou para o youkai caído no chão também, de joelhos e se apoiando em seu único braço. Estava ofegante, e os médicos se sentindo acuados, não sabiam o que fazer nesta hora.
Rin soltou o objeto que segurava, e aproximou-se, com carinho tocou o ombro dele e ele levantou o rosto, seus cabelos jogados para frente, muito molhados ainda.
- Você esta bem? – ela perguntou, mas ele não teve tempo de responder, pois foi atingido nas costas pelos três dardos tranqüilizantes. Ainda estava fraco demais para reagir...Não demorou mais que alguns segundos para que o corpo do youkai caísse adormecido novamente.
- Porque fizeram isso? – Rin tocou o corpo do youkai, e o sentiu ainda morno.
-Não podíamos arriscar... não o conhecemos e... a lenda mostra um monstro...
- E só porque a lenda diz bobagens como esta acha que ele agrediria vocês? – Rin estava indignada.
- Hora vamos... – Yamada interveio. – ele só esta sedado, logo vai acordar de novo.
Rin ainda próxima ao youkai, tirou os cabelos que cobriam seu rosto, o qual estava com uma expressão não muito serena, respirava com dificuldades. Com um pouco de dificuldade, virou-o, e viu que o orifício onde estava a estaca, tinha fechado pela metade, mas ainda estava exposto.
- Temos que tratar dessa ferida... – Rin comentou, e logo os médicos presentes a ajudaram colocar em cima da maca novamente.
Após terem feito isso, Rin sem espera começou a tratar da ferida aberta no peito dele. Não sangrava, porem estava muito vermelha, e podia se notar que, muitíssimo lentamente cicatrizava, como um milagre.
Rin ainda ajudou a higienizar o corpo dele, logo, mesmo com os protestos de Rin, amarraram os pés e o braço dele no leito para onde foi transportado seguidamente ao tratamento inicial. Passaram também um cinto pelo abdômen, para que ficasse ainda mais imobilizado.
Mesmo que Rin não fizesse parte daquele grupo, e que não tivesse nada haver com tudo aquilo, ainda sim, estava preocupada com o bem estar daquele ser, e também intrigada com o fato dele saber o nome dela. Qual era o real poder que ele tinha? Como podia estar vivo? Porque estava vivo?
Rin, mesmo com a agitação do momento, não deixou de reparar o quão bonito ele era. Com os olhos dourados e cabelos bastante longos.
- Acho melhor o mantermos dormindo, ate saber lidar com essa situação. – um dos médicos sugeriu.
- Acha mesmo que eu vou o manter em coma, enquanto posso descobrir muitas coisas sobre ele? Descobrir sua origem, como viveu naquela era de guerras, como perdeu aquele braço... – Resumiu Yamada.
- Mas a lenda diz que ele matava sem piedade aquele que atravessava seu caminho. – o outro retrucou.
- Posso mantê-lo amarrado... – ele disse simplesmente e Rin atentou-se.
- Tente não ser cruel. – ela pediu olhando-o com vestígios de preocupação na expressão.
- Porque eu seria doutora Nakatomi? Ele nunca me fez mal algum, e depois eu sou um homem bastante curioso, e que adora ouvir histórias e descobri-las...
- Espero que seja mais curioso que ambicioso. – Rin comentou sorrindo.
- Minha ambição é descobrir coisas, saber mais... – ele explicou.
- Que bom... assim fico mais tranqüila... poderei voltar sem mais essa preocupação.
- Gostaria de pedir-lhe que fique um pouco mais, quero que me ajude a descobrir o que houve com ele...
- Yamada-sama, eu não posso ficar, tenho que ir embora amanha mesmo, ou perderia meu emprego, e depois eu não tenho muito com o que me sustentar...
- Hum... posso te dar um emprego aqui ate que terminemos, e depois eu conversarei com seu chefe, explicando que estava fazendo um bem para todos. – Ele pediu esperançoso.
- Mas... não é só isso... também tem o Ichi, e o Ikino...
- E quem são esses? – ele olhou-a curioso.
- Ichi é o clone, denominado E-02, e Ikino é uma pessoa de quem tenho muito carinho, e que ficou me esperando...
- Quanto ao Ichi, não precisa se preocupar, eu já enviei um pedido ao laboratório, para fazer a transferência, e esse rapaz... bem ele trabalha em que?
- Ele é médico, pediatra, ele cuida do Ichi...
- Ótimo, podemos o contratar para cuidar do Ichi aqui... o que acha?
Rin ficou um pouco confusa com tudo aquilo, poderia aceitar, e ajudaria Ichi, mas e sua vida social em Tóquio como ficaria?
- Eu posso pensar... te dou a resposta logo...
- Sim... tem esse direito – ele sorriu, levantando-se. – Vou ver como esta o nosso amigo...
Rin levantou-se também, fazendo uma leve reverencia.
Logo que o médico saiu, ela pegou seu celular, e ligou para Ikino. Explicou tudo o que estava acontecendo e também as propostas feitas. Ikino alegrou-se, mas também ficou bastante preocupado com a reação de Izumo ao saber do que tinha feito.
Rin não esperou, foi ate a sala onde estava Yamada e explicou parte da situação.
- ... então, eu vou ficar com ele ate que as coisas estejam resolvidas, e depois virei para ficar aqui trabalhando com o senhor...
- Bem... – ele estava observando o gráfico cardíaco do youkai no monitor. - ... eu poderia esperar mais um pouco, mas tenho preocupações... temo que ele possa morrer por causa do tempo exposto a ele... esse youkai deve ter mais de mil anos... eu não conheço a natureza desses seres, por isso eu gostaria de explorá-lo o máximo possível...
- Entendo... mas o senhor tem que entender... embora eu queria muito ficar, tenho que ir, pelo menos ate livrar o Ichi e o Ikino das mãos do doutor Izumo...
- Hum... eu irei apressar as documentações para que leve... – ela sorriu ante a resposta positiva. - ...mas seu prazo é de uma semana... enquanto estiver fora... tentarei descobrir sozinho...
- Obrigada Yamada-sama... – ela fez outra reverencia.
- Eu vou ir a minha sala... fique ai se quiser... – ele sorriu simpático.
- Sim... – ela reverenciou-se mais uma vez, e observou-o saindo...
Logo que a porta se fechou, Rin voltou-se para o youkai, observou-o respirando serenamente, e o coração batia vigoroso. Sentiu uma sensação estranha, um frio repentino na espinha, o mesmo que sentiu quando aproximou-se daqueles restos no museu. Porem não assustou-se com aquela sensação, pois já havia a sentido uma vez.
- Você é bonito... youkai... – ela observou-o mais atentamente. - ...Assim como o Ichi... – Rin, ao pronunciar o nome do pequeno, lembrou-se do que Ikino dissera sobre o clone, da falta da alma... em parte era verdade, pois o dono estava vivo. Mas não podia desistir de Ichi por causa disso, pois ele estava vivo, e mesmo sem uma alma ele podia sentir tudo a sua volta. E também queria cegamente o livrar das crueldades de Izumo e suas ambições sem controle.
Viu-o mexer a cabeça para o lado, e uma mecha de cabelos, um pouco úmidos ainda, cair sob os olhos. Com cuidado, ela tirou, e colocou atrás da orelha, reparando que, os lábios dele, estavam entreabertos, e rosados.
Sentiu o coração acelerar, e com isso ficou apreensiva. Afastou-se um pouco, apenas para puxar os cobertores e os arrumar, pois além do tempo estar um pouco frio, o ar refrigerado estava ligado.
Depois disso, saiu do "quarto" onde ele estava, e assim que avisou a Yamada, partiu para o hotel onde estava.
Rin estava realmente muito cansada, tinha tido um dia muito cheio, e com muitas descobertas. Nada mais gratificante poderia acontecer naquela noite...
Enquanto isso, Ikino andava de um lado a outro em seu pequeno apartamento, estava preocupadíssimo com a reação de Izumo ao descobrir que, sua fonte de fortuna seria tirada... Talvez... não ele nem queria pensar nessa possibilidade, ficava apavorado só de pensar.
"- Rin... faça... e eu a encontrarei logo que acordar..."
- Fazer o que...? – Rin revirava-se na cama, e a resposta não vinha de seus sonhos, e não via quem pedia para fazer... fazer o que? Fazer o que?
Um grave trovão acordou-a daquele sonho estranho... levantou-se e abraçou as pernas. Sentindo-se estranha. Estava com medo de alguma coisa, não sabia o que.
Do lado de fora, uma torrencial chuva caia sem pena, e o frio era maior que mais cedo.
Enquanto isso no laboratório, o youkai também sonhava algo. Transpirava em excesso, e mexia-se um pouco, pois as amarras não permitia muitos movimentos. E o local por onde elas passavam, estavam vermelhos, por causa da pouca pressão aplicadas nelas pelo corpo. Ate arranhou um pouco na parte do tórax, pois a cada movimento, o cinto que o prendia ali, escorregava por causa do suor, causando uma irritação na pele fina do local.
-Ahn... Rin... Rin... – Ele gemia baixinho.
O coração acelerado mostrava que não estava com um sono tão tranqüilo.
Rin levantou-se, e caminhou ate o "frigobar", e, logo após abri-lo, tomou dele uma garrafa de água. Pegou um copo e serviu-se de um pouco do líquido; bebeu um pouco, encostada na porta do "frigobar". Novamente aquela sensação de frio na espinha a fez por se ereta, e em um trovão pareceu ouvir alguém gritar seu nome, soltando o copo no chão, o estilhaçando.
Acendeu a luz e baixou-se para catar os cacos, cortando os dedos, com o descuido.
- Droga... – ela assustou-se, e levou os dedos na boca, para conter o sangramento. Levantou-se um pouco mais assustada quando o vento abriu a janela e o vento casado com a chuva invadiu o lugar.
Ela correu ate sua cama e pegou o robe, vestindo-se seguidamente, foi ate a janela para fechá-la mas parou ao ver uma bola brilhante adentrá-la, e logo tomar a forma de um homem... Rin deu alguns passos vacilantes para traz, mas ao ver melhor, impressionou-se.
- Meu Deus, o que faz aqui...? – Ela correu ate o youkai, que caiu com um joelho no chão, apoiando-se com o braço. Era perceptível a fraqueza que sentia.
Após fechar a janela, aproximou-se cautelosa, e esperou.
- Porque... – Rin começou, mas foi interrompida.
- R...Rin... – ele levantou o rosto, e um pouco tremulo levantou-se, estava nu, mas Rin não reparou neste detalhe.
- Sim. – ela aproximou-se, e tentou o ajudar a levantar-se. Logo ela o guiou ate sua cama e o ajudou a sentar-se nela. – Esta tremendo... – ela pegou os cobertores e o envolveu, aconchegando-o. – Pronto... assim vai passar o frio... – ela puxou parte do cobertor, mas a mão dela parou, pois ele pousou a sua sob a dela.
Rin sentiu o mesmo frio percorrer a espinha, e puxou a mão de vagar.
- Esta tudo bem... eu não vou te machucar...
- Eu acho... que eu não sou essa pessoa que procura...
- Rin... – ele olhou incerto. – Seu cheiro não mudou nem um pouco, nem sua aparência...
- Sua Rin... – ela virou-se com certa tristeza. – Esta... morta... – ela o viu sorrir, tentando levantar-se, sem sucesso e Rin aproximou-se novamente. – Fique quieto...
- Eu sei... afinal... você morreu a muito tempo... mas voltou... – ele explicou, e ela arregalou os olhos, deixando sua mão cair para o lado do corpo, a qual antes estava no ombro do youkai. – Por isso eu estava selado... estava te esperando, Es... esperando você renascer...
O coração de Rin faltava pouco sair do peito de tanto que batia.
- Mas... youkai... eu...
- Sesshoumaru... – ele olhou-a nos olhos e ela vacilou.
- Sesshoumaru...
- Hai...
- Não posso ser essa pessoa que procura... eu... – ela aproximou-se e sentou-se ao lado do youkai.
- Porque? – ele mostrou um pouco de preocupação na expressão.
- Eu... eu... – ela enfeitiçou-se com o olhar dourado do youkai, e calou-se.
Ele estendeu o braço, e pousou a mão no rosto dela, fazendo uma carícia. Aproximou-se um pouco, ate que os rostos ficassem milímetros de distancia, podiam sentir um o hálito do outro, e ela parecia mais assustada a cada acontecimento.
Levantou-se de uma vez, deixando o confuso.
- Eu... eu vou ligar para o laboratório, para virem te buscar de novo e...
- Esta fugindo de mim... já disse que não vou te machucar... – ele levantou-se ainda vacilante, só então que Rin percebeu que ele estava nu, pois pousou automaticamente os olhos no sexo dele.
Sentiu o sangue subir ao rosto e corar, desviando o olhar rapidamente.
Ela soltou o fone, e deu dois passos para traz. Vendo depois que ele se esforçava para ficar de pés.
- É melhor deitar-se... eu... eu vou pedir um robe para você...
Ele baixou o olhar, percebendo sua nudez, mas não se envergonhou, apenas ficou confuso. Estava em um mundo estranho, sem roupas e com uma mulher que, tinha o cheiro de sua Rin, mas não agia como ela. Calorosa, carinhosa, e sim com frieza. Ela estava assustada, podia sentir o cheiro do medo dela. Ela estava certa, não o conhecia mesmo, nem sabia o que ele era.
Rin, paciente, segurou no braço dele e o encaminhou ate a cama novamente e o sentou.
- Me espere aqui, eu já volto... – e foi o que ele fez. Enquanto Rin atendia a porta, ele permaneceu quieto, olhou em sua volta e percebeu que, aquele lugar estava longe de ser o que ele costumava a freqüentar em suas andanças com sua Rin.
- Que lugar é esse? – ele perguntou quando ela voltou.
- É um hotel... - ela disse, o ajudando vestir o robe. - ... pronto, agora pode sentir-se mais aquecido.
- Minhas roupas, onde estão? Minha armadura... a Tenseiga?
- Tenseiga?
- Minha espada... – ele olhou-a nos olhos.
- Bem... estão no museu... – ela comentou simplesmente.
- O que houve com sua mão?
- Eu me cortei... com o vidro... – ela o viu fechar os olhos.
- Eu segui o cheiro de seu sangue... o mesmo cheiro... não mudou nada...
- Ora pare com isso... eu não sou a Rin que você procura... – ela disse brava, e tentou se afastar, mas ele a segurou no braço.
- Eu sei que não! Mas você carrega minha marca... não carrega?
- Q...Que marca? – ela assustou-se com o gesto brusco dele.
- Não existe nenhuma marca em seu ombro? – ele quis saber, a soltando.
- Não... - ela preocupou-se, levando a mão no local.
- Esta mentindo... – ele afirmou, levantando-se, e ela começou a ficar assustada com o olhar que ele tinha naquele momento.
- Não... não se aproxime... – ela tentou fugir mas ele foi veloz e a segurou.
- Não precisa temer... – ele a segurou forte, pressionando-a contra seu corpo, mas Rin debateu-se um pouco e com a fricção entre os corpos o robe dele acabou abrindo, e parte do tórax novamente e Rin para afastar-se dele apoiou as mãos ali, e empurrou, mas a força dele era bem maior a fazendo desistir...
Após alguns segundos, ela ainda arfando sentiu a pele dele, estava bem quente e era macia... sentiu a vibração vinda do pulsar do coração do youkai, não muito acelerado, mas um pouco por causa da pouca força que estava fazendo para segurar Rin no braço.
- Me solte... – ela disse com a voz meio mole, pois algo no olhar dele estava a abalando de alguma forma.
Ele a soltou, mas permaneceu próximo a ela, e cuidadosamente baixou parte do robe dela, e constatou a marca ali presente.
- Você tem minha marca... – ele voltou o olhar para o rosto dela, e ela tentou fugir novamente, mas encostou-se na cama, caindo sobre ela.
- O... o que vai fazer comigo?... – ela estava quase apavorada.
- O que espera que eu faça? – ele continuou a olhando. – Te mate porque carrega a minha marca?
- O que? – ela assustou-se e arrastou-se de costas ate encostar na cabeceira da cama, vendo ele subir na cama, e caminhar ajoelhado apoiando a mão, ate ela. – saia... de perto de mim... – ela começou a chorar com medo. E um relampejo muito forte seguido de um estrondoso trovão sucedeu-se, levando a luz. Tudo ficou no escuro, para o desespero de Rin.
Ela podia ver o brilho nos olhos do youkai, bem próximo a ela, a qual estava encolhida, e muito amedrontada.
- Já disse... Rin... não a machucarei... não farei nada que a aborreça... – ele disse serenamente e ela acalmou-se um pouco, vendo-o depois sentar-se de frente para ela.
Um silencio se seguiu, e ele apenas a olhava, parecia um pouco entristecido...
- Você... esta bem?
- Hai... minhas forças estão voltando aos poucos... eu fiquei durante muito tempo adormecido... isso enfraqueceu um pouco meu organismo...
- Não... esta com fome?
- Não... e mesmo se tivesse – ele fechou os olhos – não há nada aqui que eu possa comer...
- Tem sim... Tem algumas...
- Gosto de carne... crua... com sangue fresco... e carne de qualidade... – ele comentou... assustando um pouco Rin.
- Você... – ela engoliu a seco. – Também come... carne humana?
- Não... eu detesto humanos... são apenas insetos insignificantes...
- Ei! Eu sou humana...
- A única que eu amei... protegi e deixei-me ser selado para poder a encontrar mais uma vez...
Rin calou-se. Estava um pouco confusa...
- Amou? Isso quer dizer que...
- Eu ainda amo... Mas não posso forçá-la a ter o mesmo sentimento... pois... pode ter a alma de Rin... a aparência, mas seu jeito de ser... é diferente...
- Desculpe... eu nunca pensei em me apaixonar por um ser lendário, e muito menos ver um vivo, a não ser por clones...
- Clones? – ele olhou-a confuso.
- Sim... como cópias legítimas...
- Besteira... – ele virou o rosto com desdém.
- Não é besteira... – ela tocou-o no ombro, esquerdo e ele olhou-a, e com isso ela tirou a mão. – Desculpe...
Ela moveu-se incomoda, logo ajeitando-se.
- Como... perdeu seu braço? – ela quis saber.
- Numa luta... com meu meio irmão...
- Ah... você tinha irmão? – ela alegrou-se.
- Infelizmente... deve ter morrido... aquele inútil...
- Ahn... não existe mais youkais... eles foram extintos a muitos anos... talvez a quase dois mil anos... você é o único...
- Sou?
- Sim... você e o clone que eu fiz... de... você... – ela disse sorrindo, mas ele olhou-a com certa fúria.
- Fez uma cópia de mim... como ousa? – ele mostrou-se rude e bravo.
- Como eu podia saber, eu nem sabia que estava... – ela calou-se ao sentir que ele aproximou-se mais dela. – olha... se acalme... eu não...
- Cale-se!
- Ah... – ela tremeu. Ouviu depois um suspiro vindo dele.
- Quero minha espada... e minha roupa... quero minha armadura...
- Não tem como pegar... suas coisas estão no museu e...
- Você sabe onde fica?
- Sim... mas... – ele calou-a segurando forte no braço dela.
- Me leve ate lá...
- Esta chovendo muito, e o museu esta fechado... melhor esperar ate amanha e...
- Agora... - ele puxou-a consigo, pulando a janela. Rin deu um grito desesperado de medo, e agarrou-se ao corpo do youkai, sentindo a chuva molhar os tecidos que usavam.
Ele foi rápido e após chegar a rua, ele a pois no chão...
- Me mostre onde é...
- É muito longe, não da para ir andando...
- Vamos logo... – ele estava impaciente.
- Por... por ali... – ela indicou, e logo ele a tomou nos braços novamente seguindo por onde ela indicava.
Logo estavam frente ao museu, e sem espera, Sesshoumaru destruiu a porta, puxando Rin junto pelo braço depois.
Os guardas ficaram um pouco assustados, e tentaram reagir, mas ele foi impiedoso, chicoteando-os e os ferindo.
Ele caminhou ate onde ficavam os restos dos youkais, e Rin o acompanhou, chorando muito, mas parou ao perceber que ele olhava o esqueleto da mulher...
- Maldição! – ele mostrou-se enfurecido. Os olhos antes dourados, tornaram-se vermelhos.
Furioso, quebrou o vidro que continha sua armadura e tomou a Tenseiga. Rosnando, afastou Rin a colocando atrás de si, e proferiu um golpe, o qual abriu um grande e redondo buraco escuro, o qual engoliu parte do museu e tudo que estava pela frente, deixando um grande buraco vazio no lugar.
Rin desmaiou, e Sesshoumaru, após ter pego sua armadura e o "fluffy", saiu tranquilamente do local, segurando com um pouco de dificuldade todas as coisas que lhe pertencia.
Correu pela noite chuvosa ate perceber que ali não havia uma floresta para ele se abrigar, resolveu então voltar para o local onde Rin estava anteriormente.
Deixou suas coisas no chão, e tratou de colocar Rin em segurança...
O corpo dela estava frio e molhado, com isso, ele tirou a roupa dela, a deixando nua, e também tirou a sua, e após deitar-se puxou-a de encontro a seu corpo, e a aqueceu.
Rin sentiu um calor muito gostoso a aquecer, e remexeu-se satisfeita por não estar com frio, acordou, mas permaneceu de olhos fechados e agradeceu por acordar de um pesadelo, curtindo aquele calor maravilhoso... espreguiçou-se e tocou com as mãos esticadas para o alto, cabelos... tateou os cabelos estranhando, só ai percebeu que estava encostada em uma pele, e era quente.
- Acordou... como esta se... – ele não terminou, pois Rin deu um grito agudo, fazendo-o encolher-se por seu ouvido sensível ter doido.
- Seu maldito tarado... como ousou a... a tocar em mim...
- Eu não a toquei... não dessa forma que pensa... – ele levantou-se, mostrando que também estava nu.
Rin vacilou, e quase desmaiou de vergonha. Correu ate a cama e pegou o lençol, se cobrindo com ele.
- Seu sem vergonha...
- Se eu não tivesse te aquecido, teria morrido congelada...
- Ai... eu não acredito, não foi um sonho, não foi um sonho... não foi um sonho... – ela observou-o tremula.
Calmo ele pegou sua roupa, seu hakama estava sujo, então olhou com fúria. Mas algo o despertou, o telefone...
- Moshi, moshi...
- Doutora Nakatomi, temos um problema...
- O que? – ela se fez de desentendida.
- O youkai fugiu... atacou o museu e levou a armadura e a espada...
- E...eu... sei...
- Sabe? Como?
- Ele esta aqui comigo...
- Por Deus, você esta bem? Ele não te machucou...?
- Não, esta tudo bem, ele só queria as coisas dele...
- Precisava destruir o museu inteiro para pegar aquela armadura velha e a espada? Que grande imbecil... maldi... – a ligação foi cortada quando Sesshoumaru destruiu o fone que Rin segurava com o chicote. Rin ficou em choque.
- Você é louco... – ela encolheu-se amedrontada.
Não demorou muito ate que um batalhão inteiro da polícia estivesse cercando o prédio, e os médicos e cientistas também se fizeram presentes.
- É melhor ir embora... eles vão te prender por ter destruído o museu...
- Esses humanos inúteis não tinham o direito de profanar os restos de minha Rin... malditos... se atravessarem meu caminho eu os matarei... sem piedade... – disse, colocando sua espada presa no obi.
- Não... eles não fizeram por mau... por favor...
- Cale-se... – ele rosnou.
De repente, a porta foi aberta bruscamente, e os homens aproximaram-se segurando as armas , todas apontadas para o youkai, ele apenas se virou.
- Solte-a... – um dos homens disse, e ele olhou para ele com um olhar frio.
- Não estou a segurando idiota...
- Por favor... deixe o em paz...
- Nakatomi! – Yamada adentrou o lugar, mas parou ao ver o youkai tomar a frente.
- Vamos... Rin... – Sesshoumaru chamou-a, mas ela não se moveu.
- Melhor não... Sesshoumaru... eles podem o ferir...
- Não se preocupe Nakatomi-sama, nós vamos sedá-lo novamente...
- Tente... – Sesshoumaru estalou os dedos ameaçadoramente, e os policiais presentes se puseram em alerta. - Rin... fique atrás de mim...
Rin o fez, mas ficou em alerta...
- Não o provoque Yamada-sama... por favor...
- Saiam... saiam todos... deixe que eu converse com ele...
- Mas senhor...
- FAÇA O QUE EU DIGO DROGA!
Todos se dispersaram, e Rin relaxou um pouco.
- Você esta bem mesmo Rin?
- Ela não parece bem, humano?
- Não... esta apavorada...
- Não, não estou... ele não me machucou, não fez nada para me deixar com medo. – mentiu, e Sesshoumaru olhou-a por um instante.
- Então... venha... vamos voltar para o laboratório... – ele pediu, e Sesshoumaru voltou a olhá-la, vendo ela passar por ele e ir de encontro ao homem.
- Sesshoumaru... vamos... ninguém vai te machucar...
- Você... prefere ficar com esses inúteis... - ele caminhou de volta ate a janela, mas Yamada sacou uma pistola e atirou.
Sesshoumaru apenas bramiu o chicote, fazendo o dardo ser repelido e entrar na parede.
Yamada olhou incrédulo, enquanto isso Sesshoumaru pulou a janela, desaparecendo depois.
Vagou por quase todo o dia ate encontrar uma pequena mata, onde se perdeu em pensamento.
"-Rin... por que... porque não me ama..." – ele estava exigente, mas tinha paciência, logo voltaria a procurá-la.
Agradeceu mentalmente por ter sentido o calor do corpo dela, pelo menos por algum tempo.
Rin estava no aeroporto àquela tarde, voltaria a Tóquio, onde pegaria Izumo de surpresa, ou pensava que pegaria.
- Doutora Nakatomi, não pode nos deixar neste momento... – Yamada pediu.
- Eu preciso ir... eu voltarei assim que tudo estiver resolvido... eu quero tirar aquele clone das mãos do Izumo, ou ele vai acabar o matando...
- Doutora... nós temos que achar o youkai... deveria estar preocupada...
- Eu estou, mas eu prometi a Ikino que voltaria com novidades e tiraria o Ichi das mãos do Izumo... eu não posso ficar...
- E pretende voltar?
- Sim... temos que achar o Sesshoumaru, e tentar convencê-lo de que tem que ficar perto de nós...
- Ele vai destruir tudo... assim com fez com o museu... – comentou um outro médico presente.
- Seu frouxo... – Yamada reclamou.
- Eu preciso ir, o meu vôo esta sendo chamado...
- Espero que volte...
- Eu também... – Rin afastou-se, acenando depois.
Logo tomou o avião de volta, ansiosa para contar a Ikino o que vivera naquela cidade.
Rin estava muito cansada e acabou dormindo a viagem toda. Ainda assim sua mente não parava de trabalhar um instante.
Estava bastante preocupada com o destino daquele youkai... e ele era tão bonito...
Revirou-se na poltrona do avião, logo abrindo os olhos, constatando que havia chegado ao seu destino. O avião estava prestes a aterrissar.
- Ah... eu dormi muito... – comentou esfregando um olho.
Logo que o avião parou, Rin e os outros passageiros desembarcaram. Ikino a esperava ansioso, procurava-a no meio da multidão, olhando por cima das pessoas. Rin já o havia encontrado, mas achava bonitinho ele procurando. Por fim, ela chegou por traz.
- Me procurando?
- Rin! Que saudades... – ele a envolveu em um confortável abraço. – Como foi lá? Você esta bem? E o youkai?
- Bem... – uma gota escorreu na fonte de Rin, ele estava quase a afogando de tantas perguntas.
- Desculpe... melhor você descansar primeiro, eu estava preocupado...
- Eu estou bem...
- Vamos, vou te levar ate sua casa...
- Obrigada...
Rin realmente estava agradecida, pois queria um banho demorado e quente para tirar parte de seu cansaço.
E foi exatamente o que ela fez ao chegar. Deixou Ikino por algum tempo esperando, e assim que saiu do banho, foi ate ele que se encantou ainda mais com a moça.
Ela estava atraente, com os cabelos negros e longos úmidos soltos, e vestida com uma roupa muito interessante. Um vestido não muito longo, e com um decote que deixava qualquer um curioso. Seu colo era bem clarinho, o que dava ainda mais curiosidade em quem olhava.
- Que bom que esta mais relaxada... – ele sorriu, aproximando-se de Rin.
- Humm... foram dias de muita tensão...
- Entendo... mas acho que vai ficar feliz com algo que tenho para contar. – ele fez suspense e Rin ficou com intensa curiosidade.
- O que é?
- Alguém, ficou muito triste com o que vem ocorrendo com o Ichi no laboratório, e resolveu denunciar Izumo... o laboratório esta sendo investigado...
- Eu acho que sei quem foi... – Rin afastou-se um pouco, colocando o dedo indicador no queixo.
- Sabe? – Ikino caminhou ate frente a ela e olhou-a curioso. – e quem foi?
- Hum... não tenho certeza... Mas acho que foi o Yamada-sama.
- O dono da matriz? – ele ficou boquiaberto.
- Ele não é "dono" da matriz... e a matriz se chama Sesshoumaru...
- Bem... ele o encontrou-o não foi?
- Mas isso não quer dizer que ele seja dono dele... ele tem vida própria, não é um objeto... – Rin zangou-se.
- Calma, não precisa se alterar... – ele pediu gentilmente.
- Falando assim, parece mais com o Izumo...
- Desculpe... não queria que pensasse dessa forma...
- Tudo bem – ela suspirou, voltando-se para ele.- eu estou cansada, parece que tudo esta levando meus pensamentos ate aquele canalha...
- Quer que eu faça uma massagem? Seria bom para você relaxar mais...
- Sim... – ela sorriu tímida.
- Então relaxe... – ele tocou os ombros dela e delicadamente os massageou.
Aquela massagem durou pouco, pois logo Rin estava adormecida. Ikino aproveitou-se um pouco e aconchegou-a em seu peito, acariciando os cabelos negros da moça, fios finos e macios, com um perfume inconfundível. Mas infelizmente não podia passar a noite toda ali, tinha que trabalhar no dia seguinte.
Pegou-a nos braços e a levou para a cama, e a colocou delicadamente nela. Cobriu-a ate o peito, e beijou-a nos lábios. Após essa despedida, ele saiu, fechando a porta devagar. Pegou uma das cópias da chave da casa dela e trancou a porta e foi embora.
Rin dormiu, sentindo-se protegida a noite toda. Um sono profundo e renovador, sem sonhos ou pesadelos.
Mas para Sesshoumaru, aquilo estava sendo um verdadeiro pesadelo. Confiou na sua Rin para o libertar e eles continuariam se amando, mesmo através dos tempos. Mas aquilo não estava acontecendo.
Não existia mais youkais naquela era, e os humanos predominavam todo o lugar, onde um dia ele foi o senhor absoluto. Era suas terras... o que pretendia fazer. Talvez matasse todos que se opusesse a ele. Mas se fizesse isso, Rin poderia se afastar, e a perderia...
Desde que ela tinha ido embora com aquele humano, não sentiu mais o rastro do cheiro dela, onde ela poderia ter ido? Onde estava morando? Como faria para a encontrar? Eram muitas perguntas, poucas respostas.
Tinha certeza de uma coisa, ia encontrá-la, mesmo que tivesse que matar metade dos humanos do planeta.
Foi uma noite bastante conturbada para o youkai. Estava com fome, e não havia encontrado nada para se alimentar naquela pequena mata. Recusava-se comer carne humana. Só havia um jeito: animais.
O sol já estava nascendo quando ele conseguiu abater um pequeno bezerro, nas proximidades de uma fazenda. Comeu parte da criatura saciando sua fome, sentiu-se humilhado em ter que comer aquilo, caçar aquele animal e no fim a carne não ter o mesmo sabor de quando era dono de suas terras. Sentia-se roubando alimento, aquilo o revoltava. Mas conteve sua fúria, e voltou ao ponto inicial. Sentou-se próximo a cascata que havia ali, e passou a observar as águas que não cansavam de cair.
Enquanto ele observava a cascata, Rin já estava saindo de casa. Apresentar-se-ia ao trabalho bem cedo. Tinha muitas coisas a fazer. E reorganizar todos os pacientes no ficheiro, pois o médico que havia a substituído, tinha desorganizado consideravelmente seus arquivos. Mas não demorou muito a refazer tudo.
Atendeu aquele dia, muitos pacientes. Seu nível de estresse estava bastante alto, e sua mente matutava apenas o que o youkai estava fazendo naquele momento.
Por sorte o dia estava quase acabando, para ela, pelo menos. Para Ikino, ainda faltava muito.
Fazia testes e mais testes, exames rotineiros, anotações.
- Ikino, queria pedir para tirar o E-02 dos líquidos de vez, estamos gastando muito com ele, talvez já esteja na hora de forçar uma comida pela boca. – ele comentou, observando o bebê.
- Mas Izumo-sama, pode causar uma infecção intestinal... ele nunca comeu...
- Faça... só isso.
- Não vai contatar um nutricionista antes? Para ver o melhor tipo de alimento?
- Pode ser... faça isso. – ele fez um gesto com a mão.
- Sim senhor. Mesmo porque, seria perigoso, poderíamos perdê-lo.
- Não sei se já sabe, mas nosso laboratório foi indiciado... – ele cruzou os braços frente ao peito, e passou a observar Ikino, como se quisesse saber de algo.
- Como? – Ikino fez-se de desentendido.
- Sim, - ele descruzou os braços e pois as mãos no bolso ainda olhando o rapaz a sua frente, que tentava a todo custo não mostrar sua expressão de preocupação. – e eu imagino que isso se deve a uma denúncia... – ele insistiu.
- Mas... o senhor deu muitos motivos para que isso ocorresse... fez coisas desumanas com esse clone na frente de vários funcionários, e ate médicos de fora viram...
- Esta insinuando que estão investigando o laboratório por minha culpa?
- Sim... o senhor esta sendo muito ambicioso quanto o que diz respeito a este clone... deveria ter se controlado... agora pode perder seu cargo e também sua licença... talvez devesse se demitir antes que isso aconteça assim evita ser preso em flagrante...
- Eu já sei o que você quer... – ele olhou-o malignamente, e Ikino levantou-se um pouco assustado.
- Eu? Eu não quero nada...
- Cale esta boca... – ele foi agressivo com as palavras. – eu sei muito bem que você ajudou a Rin nisso tudo, que foi ela quem agiu e foi ate o laboratório do oeste e entregou as provas de que esse maldito clone estava vivo... eu sei de tudo...
- O senhor não pode se apossar de uma experiência que não te pertence... e depois..
- Seu maldito... acha que dou algum valor sentimental para esse pedaço de carne inútil... eu sei que ele não vai durar muito mais que um ano...
- Isso é mentira...
Izumo, transtornado, saiu da sala, seguindo para a sua.
Mais do que depressa, Ikino ligou para Rin, e contou tudo o que havia acontecido. Rin, muito preocupada, saiu de onde estava e foi rapidamente para o laboratório, onde foi barrada na recepção, pois não tinha a autorização para passar dali.
Ikino, preocupado, drenou os líquidos da cela de Ichi, e o retirou de lá, o envolvendo com uma manta, e enquanto o fazia Izumo chegou.
- O que vai fazer? Onde pensa que vai? – Ele perguntou um tanto áspero, aproximando-se dos dois.
- Fazer os exames de rotina. – Mentiu Ikino.
Enquanto isso, Rin estava insistindo com as recepcionistas, para que liberassem sua entrada, bem na hora em que um grupo de homens adentraram, e Rin reconheceu um deles imediatamente.
- Senhoritas, temos ordens judiciais para levar um clone deste laboratório, o qual pertence a pesquisa deste senhor.
- Yamada-sama! – Rin estava feliz.
- Doutora Nakatomim, o que faz aqui?
- Eu vim porque um amigo meu me ligou...
- Os senhores podem entrar... – uma das moças da recepção permitiu, e quando iam seguir, ouviram o estampido de um tiro, vindo do andar de cima.
- O que foi isso? – Yamada olhou para Rin, que estava com os olhos arregalados.
- Foi... foi um tiro...
Foi o suficiente para todos saírem correndo em direção as escadarias. Rin que não havia sido permitida a entrada, burlou as leis, e invadiu o local.
Na sala, Ikino tentava a todo custo proteger Ichi, já ferido na região do rim direito, tentava esconder-se atrás da cela, onde Ichi flutuava anteriormente nos líquidos.
- Pensou que ia fugir daqui com esse maldito clone? – Izumo gritava. – ele é meu, entendeu, meu!
Ikino respirava intensamente rápido, tentando conter a dor que sentia pelo tiro. Estava assustado, e apertava delicadamente o pequeno entre seus braços, enquanto seu sangue esvaia pelo orifício feito pela munição saída da arma de Izumo, o qual continuava a aproximar-se.
- Eu vou matar você, seu maldito, você quase me fez perder minha fonte de dinheiro, muito dinheiro... – ele deu uma sarcástica risada. – agora... me entregue... me entregue!
- I... Izumo... – Ikino olhou-o, e viu sinistramente a expressão maligna que ele tinha. Empunhando uma arma e a apontava para ele, na direção de seu rosto. – não vou entregá-lo a você...
- Ah! Olhe seu estado... não tem forças para se defender, quanto mais defender outra pessoa... agora me de ele, ou eu vou ser obrigado a espalhar seus miolos neste laboratório? Hum?
- N... não!
- Pareeee! – um grito ecoou atrás dos dois, e Izumo, assustado, olhou, vendo oficiais de justiça e policiais junto. Rin também estava, e parecia apavorada.
- Olha, sua namoradinha chegou... – Izumo debochou nervoso, e Ikino que já estava apavorado, ficou ainda mais.
E em uma tentativa frustrada de reter as atenções dele, levantou-se com as forças que tinha, empurrando Izumo, e tentou correr, mas Izumo foi rápido, e atirou mais vezes. Ikino apenas protegeu Ichi, e caiu, jogando seu corpo de lado, para não o machucar. Os policiais, ao perceber que ele atiraria, também sacou suas armas, e deram a voz de prisão. Izumo, ao ver que não tinha como escapar, largou a arma e rendeu-se.
- Ikino... – Rin correu ate ele e ajoelhou-se ao lado. – Ikino, não...
- R... Rin... minha linda... – ele olhou-a com paixão e lágrimas. E com as forças restantes descobriu o pequeno. – Eu... eu o protegi...
- Ikino, porque?
- Porque eu amo voc... vocês... – ele estendeu a mão e tocou o rosto de Rin, e ela segurou a mão dele com carinho, vendo-o desfalecer vagarosamente, mas ainda olhando-a.
- Ikino, Ikino, não, não morra... – ela desesperou-se ao sentir o braço dele pesar nas suas mãos, pois a força que ele fazia para o manter erguido havia se findado.
- Doutora, deixe-nos trabalhar, talvez possamos salvá-lo ainda...
Rin não estava em condições de exercer sua profissão aquela hora. Tomou Ichi nos braços e afastou-se um pouco, observou os colegas trabalharem, mas sabia que poderia ser em vão.
Ikino foi levado para a sala de cirurgia, que por sorte tinha no laboratório. Lutava contra a morte na cirurgia, e os médicos presentes lutavam para conter parte da hemorragia que o desidratava pouco a pouco. Enquanto Rin, cuidava de Ichi.
Limpou-o cuidadosamente e o enrolou em um lençol dobrado, e o segurava constantemente.
- Ele é perfeito doutora, fez um ótimo trabalho... –Yamada estava feliz por ver "seu" clone.
- É sim... igual a matriz...
- Não tão igual... vejo algo diferente.
- Não nesse sentido... – Rin deu uma triste risada, e Yamada preferiu aquietar-se.
Logo, médico apareceu, e Rin, que ainda segurava Ichi nos braços olhou-o esperançosa.
- Fizemos tudo que pudemos, mas ele não conseguiu resistir. – comentou triste.
- Oh Kami... – Rin sentiu as pernas tremerem e fraquejarem.
Yamada por sua vez, aproximou-se e passou o braço direito pelos ombros de Rin, a aconchegando-a.
- Meu Deus... ele... me deixou... – Rin apertou Ichi nos braços com carinho, deixando a tristeza transparecer em seus olhos em forma de lágrimas.
- O que devemos fazer agora? – um dos médicos perguntou confuso.
- Vamos recorrer a justiça... eu posso perfeitamente processar esse laboratório por se apossar indevidamente de minha experiência, e depois comprar esse laboratório... ter outras filiais...
- Para! – Rin revoltou-se. – O Ichi tem vida própria, não vamos cuidar disso como se fosse um simples brinquedo entre dois garotos... ele já sofreu demais...
Rin estava visivelmente abatida, não sabia como se orientar, pois agora, estava sozinha de verdade.
Seu único amigo, tinha sido assassinado por Izumo, e Ichi... com certeza ia para o oeste ser estudado e criado pelos verdadeiros "donos".
Ate batia um pouco de desespero... pois a solidão sempre foi seu maior medo.
Amava Ikino... mesmo sendo de forma fraternal, ou talvez não, pois os beijos que dera nele, não pareciam tão fraternal...
Era um amor bem puro...
Na sala onde o corpo do rapaz estava, Rin adentrou de vagar. Ichi tinha ficado com Yamada do lado de fora, e ela... queria ver o amigo.
Viu o corpo em uma maca, estava coberto, e no lençol, estava as manchas de sangue. Ela aproximou-se e cuidadosamente baixou o lençol do rosto dele. Estava com a expressão tranqüila, parecia dormir...
Rin, por sua vez, tocou-o no rosto, e acariciou... sentiu que a barba estava por fazer, talvez estava trabalhando a bastante tempo... e tudo para ajudar Ichi e ela... ela estava tão grata à ele... tão feliz e triste ao mesmo tempo...
Seus olhos soltaram lágrimas sinceras... e enquanto sentia a dor da perda, ela o acariciava os cabelos, e o rosto... a pele macia cada vez mais fria, e distante da vida...
- Não podia ter sido dessa forma Ikino... – deveria ter entregue Ichi e ficado comigo... queria ainda poder ver seu sorriso... e seus olhos cheio de afeto... Porque? Porque foi me deixar Ikino! – ela debruçou-se sobre o corpo, sujando-se com um pouco do sangue dele, o qual se misturavam as lágrimas dela... – Eu estava te amando... e agora me deixa sozinha... não.. não... volta para mim...
O choro alto de Rin chamou a atenção dos outros médicos fora da sala, o que fez Yamada adentrar.
- Nakatomi... não adianta... não...
- NÃO! Tem que ter um jeito... eu quero ele comigo... eu quero... – ela chorava compulsivamente, e Yamada obrigou-se a tirá-la do lugar. Pediu que um dos outros médicos segurasse Ichi, e a força tirou Rin do lugar. Ela segurou no lençol descobrindo o corpo e fazendo um dos braços de Ikino dependurar... o qual, tinha um anel...
- O anel... pegue-o... pegue-o para mim... – ela pediu, mas Yamada não deu ouvidos. Apenas a tirou de dentro da sala e a levou para outro lugar.
- Controle-se... – ele pediu, apoiando as mãos nos ombros dela.
Ela só chorava... inconformada com o acontecido.
- Não podemos tirar o clone...
- Ichi... – ela pronunciou entre soluços, com a voz meio rouca.
- Não podemos tirar o Ichi daqui... pelo que pude observar, ele tem muito poucos anticorpos... temos que o manter reservado... – ele explicou. – não queremos perder mais ninguém certo? Principalmente aquele por quem o rapaz deu a vida para salvar... – Rin levantou o rosto um pouco, e maneou a cabeça de vagar. - ... então... vamos cuidar dele juntos? Vamos o proteger, assim como aquele rapaz fez?
- S...Sim...
- Muito bem... vou chamar um taxi para levá-la para casa... então você toma um banho e descanse... amanha temos que arrumar tudo para que ele continue saudável...
- Sim... Yamada-sama... – ela disse, com tom muito triste.
Yamada levantou-se e pois se frente a ela, mas de pés.
- Como foi a responsável pela clonagem, gostaria que viesse trabalhar conosco, e nos ajudar com ele, já que faz isso desde o inicio... espero que aceite...
- Eu... não sei... queria continuar na cidade onde nasci...
- Sim, mas estará trabalhando aqui... pois eu irei pedir posse desse laboratório judicialmente... Izumo não tem condições de o dirigir...
- Pense na minha proposta...
- Eu... vou... – ela disse, secando as lágrimas com um lenço.
Ela certamente foi para casa, tomou um banho, mas não dormiu, chorou o tempo todo em que ficou sentada em sua cama, lembrando-se dos momentos juntos a Ikino.
De certa forma ela conseguiu enxergar que estava apaixonada pelo rapaz, mas ela só teve certeza depois de o perder. Muitas coisas a fizeram sentir a perda dele... ele estava sempre junto.
De certa forma, ela se sentia culpada pelo acontecido, pois começou as investigações sobre a matriz, e acabou envolvendo Ikino...
Após alguns dias do enterro de Ikino, Rin depôs na delegacia, contando todo o acontecido para o delegado e os advogados que estavam presentes. Voltou para casa seguidamente, estava cansada, e ainda muito triste.
Enquanto isso, na pequena mata, Sesshoumaru sustentava-se com animais abatidos... sentia um pouco de dor no peito, mas não uma dor física. Levantou-se de onde estava e passou a caminhar em direção à cidade, suas roupas estavam muito frágeis, por causa do envelhecimento causado pelo tempo em que tinha permanecido na natureza, não estava com a pele pura na armadura porque o robi atoalhado que Rin lhe dera no hotel, ainda resistia, mas a fina seda de seu kimono, já estava quase toda rasgada, não tinha como concertar.
- Maldição... – ele arrancou o resto do kimono, o jogando no chão, sentindo-se humilhado, por estar vestindo roupas rasgadas, e tendo que comer animais domésticos, que pertenciam a humanos, sentia-se a pior das criaturas... e sua Rin... nem sabia onde estava...
Continuou a seguir para a cidade, e já começava a aparecer alguns humanos, que o olhava com expressão de extrema surpresa, alguns mais informados do acontecimento no museu, apavorados saiam correndo aos gritos. O youkai só olhava com expressão de extremo desprezo.
Ele continuou prosseguindo em direção à cidade, caminhou durante todo o dia, observou os costumes dos humanos, as roupas e notou que muitos deles se quer percebiam sua presença.
Seguiu ate o hotel onde Rin estava, e num salto, adentrou o apartamento onde ela se hospedou, não sentiu o cheiro dela ali.
Passou dias a procura de Rin, mas não encontrou nem o rastro do cheiro dela.
Com seu corpo um pouco fragilizado pelo tempo em que permaneceu adormecido, seu olfato não estava cem por cento, com isso o impedindo de achar o caminho certo.
