O parque continuava ali.
Os brinquedos estavam enferrujados e os arbustos secos, mas tudo, até os dois postes que o iluminavam fracamente, permanecia.
Eu podia até imaginá-la sentada em um dos balanços.
Mas, para minha surpresa, a vi, embora alguns anos mais velha.
Lily Evans.
A minha primeira amiga e primeira paixão. Nós nos afastamos no final do 5º ano, por causa de algo ridículo que eu disse. Daí naturalmente cada um seguiu seu caminho; eu não tive notícias dela desde que terminei a escola. No entanto a reconheci, apesar do escuro e do quanto ela tinha envelhecido. A Lily que eu conhecia não ficaria sentada sozinha em um balanço velho, ainda mais com a neve na altura dos tornozelos e na Noite de Natal.
Sem se dar conta da minha presença, ela pegou um maço de cigarros pela metade (não tinha parado de fumar na adolescência?). Não pude deixar de rir ao ver sua raiva ao perceber que o isqueiro que tinha trazido estava quebrado. Na ausência de qualquer pessoa a mais por perto, acendi o cigarro que ela tinha na mão dela por mágica para chamar-lhe a atenção.
Eu estava estragando tudo.
Todo o meu esforço para sequer me lembrar que eu já a conhecera tinha sido em vão. Desde quando ela deixou completamente de falar comigo (quase literalmente), eu fiz o possível para não pensar nela e nos anos felizes em que estivemos juntos. Aquilo tudo estava morto e enterrado, não fazia sentido reviver aqueles momentos se a única coisa que isso me traria era remorso.
Mas eu não podia mais relevar uma dívida pendente. Precisava falar com ela, pedir-lhe desculpas dignamente, sem implorar por perdão aos seus pés como antes.
Ela se assustou e levantou do balanço.
- Quem está aí? – agora o cabelo longo e vermelho tinha saído da frente do seu rosto. Ela estava linda, ainda que com alguns traços amargos, mas os olhos sempre verdes. Sorri.
- Um velho amigo – disse o mais calmo possível, enquanto me aproximava – Esqueceu das aulas de feitiços ou só queria saber como vivem os trouxas, Lily?
Assim que me reconheceu, ela deixou cair o maço e isqueiro caírem da sua mão.
- O que é que VOCÊ está fazendo aqui?!
Exatamente (e infelizmente) a reação que eu previra.
- Não precisava me agradecer pelo cigarro; aliás, achava que você tinha parado de fumar – Ela deu um passo pra trás; ao contrário de mim, estava visivelmente nervosa – Estava caminhando e te encontrei aqui por acaso. E quanto a você?
- Não fale assim comigo, Severus, eu deixei bem claro que não quero te ver de jeito nenhum. Deixe-me em paz!
- Eu também deixei claro que me arrependi do que eu disse e acho que precisamos conversar-
- Será que você não consegue entender que não é só por causa daquele dia? Nós estamos em lados opostos! Você é... – ela gesticulava o que eu não a via fazer com muita freqüência quando éramos amigos – Você é um bruxo das Trevas, sempre foi! E eu sou uma nascida trouxa! Como você pode querer como você espera conversar comigo?
- Porque você significava – ou significa? – muito pra mim-
- Se significasse tanto, então porque você continuou metido nas Artes das Trevas mesmo quando eu te dizia que aquilo não era certo, hein? – o tom de sua voz tinha ficado incrivelmente ácido – Eu te avisei desde o primeiro ano, mas você nunca me escutou. Agora você é um Comensal da Morte pedindo perdão a uma Sangue-Ruim. O que o grande Lorde das Trevas diria disso, hein?
A voz de Lily ecoou no parque, e eu agradeci por não ter mais ninguém ali. Respirei fundo o ar frio; ela estava certa. O que eu poderia dizer?
- Você está certa. Por favor, me desculpe por isso tudo – pensei que ela fosse virar as costas e ir embora ou me interromper de novo, mas apenas fumou o cigarro esquecido na mão. – Ainda assim, eu te peço uma última chance de me redimir. Pelo menos hoje, vamos sair e... Conversar. Uma pequena trégua.
Lily olhou para mim, pensativa. Por um segundo pensei que estava procurando uma boa réplica, porém parecia refletir e até considerar o que eu tinha acabado de dizer. Por fim, decidiu:
- Só por hoje. Só porque é Natal.
