O
pub Five Feathers era o melhor da cidade, em minha opinião. Tinha um
aspecto antigo, como as mansões das famílias de longas linhagens de
bruxos que eu visitava, porém sem a austeridade ou a prepotência. O
tipo de lugar que seria nostálgico para alguém.
-
Estranho - disse ela, após passarmos pela porta dele - como é que
morei aqui por tanto tempo e não me lembro de ter visto alguma vez
esse pub?
- Ele não é novo, mas é pouco conhecido.
Mas... Você não mora mais aqui?
- Não, me mudei há dois
anos. Vamos entrar e beber alguma coisa? - percebi que queria mudar
de assunto.
Só
me lembrei que estávamos na véspera de Natal quando notei os
azevinhos e aquelas luzes nas janelas. Enquanto Lily escolhia a mesa
(afinal, estávamos somente nós e um grupos de amigos em um canto) e
eu pegava as nossas bebidas, desejei ter-lhe comprado algum
presente.
- Então você veio pra cá pra passar o Natal
com os seus pais?
Ela
disse que sim, os olhos baixos.
- Por que estava lá, no
meio da neve?
- Eu precisava ficar sozinha. - suspirou e
bebeu um pouco.
- Posso perguntar o por quê?
Sim, eu estava perdendo o senso de discrição, mas não podia
resistir à curiosidade: precisava saber o que tinha acontecido com
ela.
-
Você não quer ouvir isso, acredite. É uma mistura estúpida de
dramalhão com mau-agradecimento. - antes que eu pudesse responder,
ela acrescentou - E você, não tinha mais o que fazer além de
visitar pracinhas velhas?
- Você não respondeu à minha
pergunta.
- Respondo a sua se responder à minha.
Virei
os olhos e suspirei. Não deveria ter insistido.
-
Não, não tinha nada melhor pra fazer. Não tinha nenhuma missão de
Você-Sabe-Quem, estava sozinho em casa e entediado. Resolvi andar um
pouco.
- E os seus pais...?
- Minha mãe faleceu
quando eu estava no sexto ano. Tobias Snape foi morto por Greyback;
por morar comigo, tinha informações demais para um trouxa que me
detestava.
Não era a resposta que Lily esperava.
- Bem,
me desculpe... E ele não te detestava, Severus...
Nova
pausa desagradável. Eu não deveria ter falado tanto sobre isso: com
o tempo, tornara-se um assunto não tão incômodo para mim, mas não
deixará de ser para quem está falando comigo - ainda mais na
véspera de Natal.
- Sua vez, Lily.
- Já disse,
você não quer ouvir isso.
- Claro que quero. Não pode
ser pior que deixar de ouvir.
- Bem, - ela começou a mexer
no cabelo vermelho; provavelmente sentia a falta do maço e do
isqueiro esquecidos na neve do parquinho - eu ainda estou com o
James.
-
O Potter?!
Não era uma notícia tão surpreendente. Ele era apaixonado
por ela desde o primeiro ano na escola, e eu já ouvira falar lá que
eles estavam saindo. Mesmo assim, eu não esperava que fosse verdade,
muito menos que eles continuariam juntos por tanto tempo.
-
Nós sabemos o quanto ele é imaturo, arrogante, e querendo ser
sempre o centro das atenções
-
Ele mudou, Severus. Eu dei a ele uma chance na metade do sétimo ano.
James é agora uma excelente pessoa.
Não pude deixar de
mostrar a minha descrença. O Potter?
Até parece. Se eu continuasse sendo amigo dela, se eu não tivesse
sido tão burro
naquele dia, eu não a teria deixado cometer esse erro.
-
Mesmo assim... Eu não sou tão feliz com ele como deveria.
- Mas é claro que não é! Lily, você realmente
acha que ele
deixaria de ser tão idiota
- Eu não acho; eu tenho
certeza. - ela me interrompeu antes que eu voltasse a enumerar os
defeitos dele. Bebeu mais um pouco. Parecia tão triste como quando a
encontrei. - Ele definitivamente deixou de ser o babaca que era.
Mas... É apenas idiotice minha, é isso. Parece que a idiotice dele
passou para mim. - riu sozinha. Não falava isso a mim; e sim, a si
mesma - Eu não estou feliz com a minha vida. Eu tenho tudo: o
emprego que eu queria, nenhum parente morto por Você-Sabe-Quem, o
que é incomum nesses dias, estou namorando... Mas não sei se queria
estar vivendo o que estou vivendo agora. É como se eu vivesse a vida
perfeita que não é perfeita para mim. Ou melhor: um plano B que
acabou dando certo, é isso. Tudo coisa da minha cabeça.
-
Mas o que seria o plano A?
- Ta aí, eu não sei. Mas não
consigo deixar de pensar em como seriam as coisas se nós não
tivéssemos brigado, pra começar. Acho que isso mudou
muita coisa.
Ela
não olhava mais para mim ou para o chão, e sim para a rua atrás da
janela ao lado da nossa mesa. Eu compreendi o que ela tinha dito;
talvez até tenha me identificado. Mas, ao contrário dela, eu sabia
exatamente o que eu não queria: a adoração ao autonomeado Lord
Voldemort.
- E agora não tem mais solução. James me ama,
eu também o amo, estamos juntos há muito tempo e ele quer se casar
comigo - felizmente, ela não percebeu o quanto eu estremeci ao ouvir
isso - Não quero deixá-lo triste por causa de algo tão bobo na
minha cabeça, mas isso estava me incomodando, por isso resolvi me
afastar um pouco. Vim pra casa dos meus pais, mas precisava ir pro
parquinho pra pensar; é uma daquelas vontades súbitas que aparecem.
- Ela afastou o cabelo dos olhos e sorriu. - Eu estava me lembrando
de você criança com aquele casaco... Dizendo-me "Você é uma
bruxa!".
-
Eu ainda sinto um pouco de vergonha por aquilo. Aparecer do nada e
falar pra uma menina sem o menor conhecimento de magia que ela é uma
bruxa, ainda mais com as roupas velhas do seu pai, não é muito
sensato.
Sorriu de novo. Isso fazia com que o ar pesaroso que eu
tinha percebido nela desaparecesse por um momento; eu não tinha
percebido até ali, na luz do pub e nas luzinhas de Natal, que ela
estava mais bonita do que eu me lembrava.
- Mas aquilo foi
importante. Eu só iria descobrir o que era magia e tudo o mais três
anos depois, e até lá a Petúnia teria conseguido me convencer de
que aquilo era "feio" e que eu era uma aberração.
- Ah, não ia. Você fazia as flores se mexerem quando ela não
estava por perto. Até parece que você não iria para Hogwarts só
porque ela não vai.
-
Você acredita que ela está sem falar comigo até agora?
-
Sinceramente, não me surpreende. Ela até mandou uma carta a
Dumbledore e não conseguiu entrar em Hogwarts; só lhe restou
desdenhar da magia - assim como o meu pai, apesar de ele ter odiado-a
desde o começo. Eu mal podia estudar em casa, durante as férias.
-
Mas tenho que admitir que sinto a falta dela. Ela podia ser bem
chatinha com isso, mas é a minha irmã. Pelo menos me convidou para
o casamento dela.
-
Alguém quis se casar com ela? Há mesmo gosto para tudo...
Lily
riu. O grupo de amigos resolveu voltar para casa, bem menos sóbrio.
Parecia ter-se passado um bom tempo desde que eu saí de casa.
Olhamos para o relógio de pêndulo na parede oposta à janela. Já
eram oito e meia.
-
Nossa, como o tempo voa - ela disse - Você pode me levar até em
casa?
Ela
iria embora. Senti um frio na espinha; não queria que ela voltasse
pra casa e sumisse de novo. Afinal, tinha dito que seria só por
hoje.
-
Claro - eu respondi, enquanto terminava minha bebida.
