Então era isso.
Lily era noiva do Potter. Ambos eram realmente da Ordem da Fênix.
Não falava mais com Petúnia. Voltara a fumar. Não era feliz.
Eu posso dizer que já sabia em quem ela tinha se tornado. Já
não precisava mais tentar imaginar isso - e me repreender por me
lembrar dela. Era uma dúvida desfeita.
Mas quanto tempo se
passaria até que eu a encontrasse de novo - se
eu a encontrasse de novo? Não queria perdê-la por outros quatro
anos (ou até mais), imaginar como ela estaria durante esse tempo, me
repreender por isso; enfim, voltar ao velho círculo vicioso.
-
Severus, você está bem? - apesar de eu estar estudando Oclumência
por meses, em poucas horas ela tinha recuperado a irritante
habilidade de saber como eu estava me sentindo.
- Claro,
por que não? Você estava falando da Petúnia... Quem é mesmo o
noivo dela?
- O sobrenome é Dursley, mas não me lembro do
primeiro nome. É
Walter, Vernon, William... Algo
assim. Só o conheço da festa de noivado, mas ele parece ser a alma
gêmea dela: O Senhor Certinho em pessoa.
-
Ele sabe que você é bruxa?
- Provavelmente Petúnia já
deve tê-lo dito que tem "uma aberração na família" -
Lily imitou perfeitamente a voz esganiçada da irmã.
-
Mas... E quanto a você, Severo?
- O quê?
- Está
apaixonado, comprometido...?
Agora era eu quem queria mudar
de assunto. Não tinha ficado sozinho durante todo esse tempo, mas
todos os meus pouquíssimos relacionamentos tinham sido curtos e
infelizes; insignificantes,
eu diria. Nenhuma das minhas ex tinha conseguido significar tanto
para mim quanto...
- Não.
Ela demorou a
replicar.
- Mas já esteve?
Senti que estávamos
voltando ao clima desconfortável da ida.
- Já. Poucas
vezes. Ninguém importante. - Ela tentava esconder o desapontamento
da minha última frase, ou pelo menos eu achava. Isso era bom ou
ruim? - Quero dizer... Sem contar você. Você era... É
importante.
Ela
virou o rosto para tentar me ler de novo. Olhava-me como se eu
estivesse louco, mas suas bochechas - visivelmente coradas, apesar do
escuro - a contradiziam.
- Sev, a gente era criança...
- Não éramos tão jovens assim-
- Mas foi só um
beijo, praticamente sem querer... Eu não imaginava que você ainda
se lembraria.
- Você se lembrava... Antes de eu ter
mencionado agora?
Apertou os olhos. 'Claro que sim.' Ela
não teria conseguido mentir tão bem. Estava se confessando, como no
pub, só que na ausência da janela olhava para a mesma rua de sua
calçada.
Só
havia o som dos nossos passos na neve. Então era assim que iria
terminar?
- Você passou os outros natais em casa, Lily?
- Não, ia pra casa de amigos. Não queria aturar mais a
Petúnia repetindo o tempo todo que sabia desde o início que você
não prestava. E você?
- Casas de amigos também. Eu tinha
que dizer que era Sangue Puro para que os pais deles me deixassem
passar as férias lá. A antiga e puríssima, mas pouco conhecida,
linhagem dos Snape da Escócia; será que existe mesmo?
-
Algumas famílias também implicavam comigo. É, aquele Natal foi
mesmo o melhor. Não tinha mais ninguém para nos perturbar; nem
Petúnia, nem os seus amigos, nem os meus.
- E foi
justamente por isso que nós decidimos passar o Natal na escola...
- Bem, foi mais por causa da Tuney... Mas é verdade. Não me
lembro de ninguém mais que estivesse lá, fora os professores. Só a
gente.
Mas agora não era mais só a gente.
Tínhamos chegado a casa dela. Voltado ao Natal de 1980, à
vida insatisfatória, à guerra. Eu levei Lily à porta da casinha
branca.
- Então... Obrigado pela trégua. Por ter me dado
a chance de provar a você que não sou tão ruim assim, após tanto
tempo.
- Eu é que deveria te agradecer, por ter estado do
meu lado após ter visto em quem me tornei após esse tempo. Quer
dizer... Você não vai sumir de novo, vai?
-
Foi você que sumiu! Eu sempre estive aqui.
- Bem... E vai
continuar?
- Claro.
- Eu também.
Eu me
afastei pelo caminho do jardim enquanto ela abria a porta. Nenhum de
nós queria se despedir.
Eu gostava de pensar que não estava me afastando de Lily, e sim do nervoso, da dúvida, de tentar me esquecer de momentos felizes. Os próximos dias seriam bem diferentes.
Mas
esse encontro afetaria só o nosso relacionamento? Quero dizer, será
que depois disso eu ainda queria conjurar a Marca Negra? Ela tinha
razão: o infeliz acontecimento do quinto ano tinha sido muito
significativo na construção do que aconteceria dali pra frente.
Onde estaríamos se nada disso tivesse acontecido? Em um lugar
melhor? Talvez Lily não tivesse sequer notado James. Talvez eu não
tivesse me alistado...
Provavelmente.
Mas, depois de hoje, nós
paramos com aquele... Conflito? (seria a separação um conflito,
nesse caso?)
E, se foi esse mesmo conflito que alterou o
curso do nosso destino, por falta de uma palavra melhor...
... com uma trégua, onde iríamos parar?
- Sev, volte aqui. - Lily disse, logo após eu ter pisado na
calçada.
- O que houve?
- Ah, venha. - Um bom
motivo para eu me demorar mais. Ela sorria.
- O que foi?
- O seu casaco. - Entregou-me o sobretudo. - Quase que você o
esquece comigo.
- Ah, pode ficar com ele pra você, se
quiser.
Ela voltou os olhos verdes para cima.
-
Olha, estarmos debaixo do visgo. - Parecia ter oito anos de novo.
- Lily, estou a dois passos à sua frente. Não estou debaixo
do visgo.
Ela me puxou pela mão.
- Agora
estamos.
E nos beijamos. Não era uma trégua, como eu havia pensado;
tínhamos finalmente encontrado a paz.
