CAPÍTULO II
Concentrar-se no trabalho durante o resto do dia tornou-se quase impossível. Rin estava pasma. Dois anos trabalhando ao lado do homem, dia após dia, nunca sonhara vê-lo ainda ligado a uma paixão antiga por uma garota de Nova York! Pobre sr. Taisho!
E pobre de mim, concluiu. Como poderei ajudá-lo? Aconselhando-o que tomasse uma dose tripla de uísque e fosse se declarar à moça? Que esperança! Taisho provavelmente nunca passara de uma simples dose de suco de tomate!
Alguém bateu de leve à porta e Rin parou de datilografar.
- Entre!
No mesmo instante, Bankotsu, o jogador de basquete, colocou o rosto na porta.
- Ainda trabalhando, Rin?
Ela olhou para o relógio e assustou-se. Havia passado quinze minutos da hora de ir embora.
- Não imaginei que fosse tão tarde assim - disse voltando à máquina. -Estou quase terminando uma carta, Bankotsu. Se quiser pode sentar-se e esperar.
- Onde está seu chefe?
- Lá dentro. trabalhando. - Ela fez um sinal indicando a outra porta. - É comum ele ficar umas duas ou três horas além do horário.
Bankotsu enfiou as mãos no bolso do jeans super justo e olhou para ela com o sorriso mais charmoso que Rin já vira.
- Mas você não precisa ficar, precisa? Estou louco para sair com você. Hoje vai haver um concerto de rock no Myriad e achei que gostaria de ir.
- Oh, eu adora... - A voz sumiu quando Rin se lembrou do compromisso com o sr. Taisho. Quase se esquecera de que havia combinado jantar com ele. - Não vai dar, Bankotsu.
- Mas por que?!
A maioria das garotas jamais hesitaria entre uma noite de rock ao lado de um jogador famoso e sexy e um jantar convencional com um chefe frio e compenetrado. Mas Rin achava que devia muito ao sr. Taisho para recusar-lhe um pedido. Quanto a Bankotsu, sempre surgiriam novas oportunidades de sair com ele.
- Sinto muito, Bankotsu, mas vou ter que fazer um trabalho extra para o sr. Taisho esta noite.
- O que o homem é? Uma espécie de feitor ou coisa parecida? Estamos em época de festas, Rin. Por que não pede a ele para dispensá-la?
- Desculpe, mas hoje não posso, Bankotsu. - Ela voltou à carta. - Estamos concluindo os relatórios, você sabe. Não há jeito de eu escapar.
- Está partindo meu coração, Rin.
- Pobre Bankotsu. Aposto como todas as garotas de seu caderninho de endereços já estão comprometidas.
- Talvez não, mas de qualquer forma nenhuma se compara a você.
Rin riu e olhou para ele.
- Sabia que errou de profissão, Bankotsu? Devia trocar as quadras de basquete pela carreira política.
Naquele momento Sesshomaru abriu a porta de seu escritório.
- Srta. Baxter, você já... - Ele se interrompeu ao dar com Bankotsu sentado na beirada da escrivaninha de Rin.
- Pois não, sr. Taisho? - ela indagou, endireitando-se na cadeira.
- Já terminou a carta?
- Estou quase no fim. - Rin olhou para Bankotsu. - Sr. Taisho, este é Bankotsu Sayer, o Jogador de basquete. Bankotsu, este é meu chefe, Sesshomaru Taisho, vice-presidente da firma.
Os dois homens trocaram um aperto de mão.
- É um prazer conhecê-lo, sr. Taisho.
- O prazer é meu - Sesshomaru respondeu e olhou para Rin. - Assim que terminar a carta traga-a ao meu escritório para eu assiná-la, por favor.
- Em um minuto, sr. Taisho.
Quando ficaram a sós, Bankotsu olhou para ela.
- Há quanto tempo trabalha para ele, Rin?
- Dois anos.
- E ele ainda a chama de srta. Baxter?
- Sim, por quê? O que há de estranho nisso?
- Um tanto formal, não acha?
- Mas o sr. Taisho é formal, Bankotsu.
Bankotsu riu com malícia.
- No fundo até acho preferível.
- Adeus, Bankotsu. - Rin levantou-se com a carta na mão. - Sinto muito por hoje.
- Tudo bem. - Ele a fitou desapontado. - Ligo para você qualquer dia destes, tá legal?
- Combinado.
Bankotsu a beijou no rosto e antes de sair assoprou-lhe mais um beijo.
- Você partiu meu coração, gata.
- Não conte ao seu treinador - Rin respondeu rindo e correu para a sala do chefe.
Já estava escuro quando ela chegou ao bairro onde morava, na zona norte da cidade de Oklahoma. Ocupava um pequeno apartamento de um quarto, sala e cozinha, que pertencia a um desses condomínios fechados. Os prédios eram já bastante velhos, mas muito bem conservados. A preferência pelo local se devia ao fato de proporcionar grande segurança aos moradores e possuir uma grande área verde ao redor.
Assim que Rin desceu de seu carro esporte, um Z280, Shipoo, um dos garotos da vizinhança, aproximou-se dela com uma bola na mão. Tinha apenas doze anos. mas era muito amigo de Rin.
- Oi! Quer jogar bola comigo?
- Oi, Shipoo! Eu adoraria, mas hoje não posso. Tenho um encontro.
- Outra vez? - Shipoo seguiu com ela até a porta do apartamento. - Você devia se casar e ficar em casa de uma vez.
Rin riu enfiando a chave na fechadura.
- Como posso me casar, Shipoo? Você ainda não tem idade suficiente.
O garoto corou, mas dava para notar que seus olhos brilhavam de satisfação.
- Mas então quando vai poder jogar comigo? Eu disse a Tim que você sabe dar uma tacada em espiral melhor que qualquer um deles. Agora precisa provar.
- Bem, nesse caso preciso mesmo.
- Quando, Rin?
- Qualquer dia destes, eu prometo.
- Combinado, então. - O garoto sorriu satisfeito e, quando ia se afastando, Rin o chamou.
- Espere só um instante, Shipoo! Tenho uma coisa para você.
- O que é? Algum cupom gratuito para hambúrguer? Ou desta vez é de sorvete?
- Não, nada relacionado a comida, Shipoo. - Rin foi até o quarto, voltando com um papel na mão. – Quero sua promessa de que vai cuidar muito bem disto, hein?
Era um autógrafo de Bankotsu com dedicatória a Shipoo.
- Uau! Como conseguiu?
- Ontem à noite. Saí com Bankotsu e pedi a ele especialmente para você.
- Puxa, Rin, é demais! Imagine o quanto não valerá quando o Time dele vencer o campeonato! Mas não vou vender por nenhum dinheiro do mundo. Você é sensacional! – O garoto ficou na ponta dos pés para beijá-la. - É o melhor presente de Natal que já ganhei. Obrigado, amiga!
Rin fechou a porta rindo depois que Shipoo se foi. Crianças eram sempre tão especiais! Será que algum dia também teria as dela?! Não, talvez fosse mais prudente nem pensar em ter filhos. Significavam compromissos, responsabilidades e tudo o que ela desejava por enquanto era ser independente e divertir-se. E, depois, não havia um só homem na face da terra com quem gostaria de ter tanta intimidade.
Depois de tomar um banho, Rin se viu às voltas com que tipo de roupa usar. Uma vez que o sr. Taisho não havia mencionado em que restaurante iriam, ficou em dúvida entre um traje mais sofisticado e um conjunto cáqui de brim, para o qual acabou dando preferência. No último instante decidiu colocar colar e brincos de pérolas, e o efeito foi surpreendente. O traje esporte adquiriu um ar chique, sem perder a descontração.
Quando Sesshomaru tocou a campainha, ela acabara de escovar os cabelos e passava batom. Largando o estojo, correu abrir a porta.
- Boa noite, srta. Baxter.
- Boa noite, sr. Taisho. Entre um pouquinho. Estou terminando de me arrumar. Só falta vestir meu casaco.
Com certa cerimônia, ele caminhou até o sofá onde sentou-se.
- Aceita um drinque antes de irmos? Tenho uísque, vodka, gim, conhaque e vários tipos de vinho.
Enquanto enumerava o sortimento de seu bar, Rin notou que ele franzia as sobrancelhas. Não se surpreendeu.
- Não, não, obrigado. Raramente bebo, quero dizer, nada que contenha álcool, é claro.
- Também quase não bebo, sr. Taisho. Apenas mantenho-me prevenida por razões sociais.
- Dá para se notar que não comete extravagâncias, srta. Baxter. Sua compleição é bastante saudável.
Rin o fitou indecisa. Não sabia se havia acabado de receber um elogio ou o resultado de um estudo científico.
- Obrigada - agradeceu de qualquer maneira e foi ao armário pegar o casaco de pele. - Está nevando lá fora?
Antes que acabasse de perguntar, Taisho já estava atrás dela para ajudá-la a vestir o casaco. Usava a mesma colônia com que costumava ir ao escritório, de uma fragrância suave, próxima do limão. Excitantemente máscula, conforme Rin já a havia definido outras vezes. Própria de um homem sexy e ardente, justamente o oposto de quem a usava.
De repente ela começou a sentir um certo desconforto por estar ali a sós com o chefe, em seu apartamento. Era ridículo, disse a si mesma. Afinal que perigo ele poderia representar? Talvez fosse o fato de nunca ter ficado sozinha com um homem como ele. Ou, pelo menos, não fora das paredes do escritório. O que dizer a ele? Como se comportar? Profissionalmente como na firma ou mais à vontade colocando discos na vitrola e sentando-se no tapete como fazia com seus amigos?
Acabou optando pela segunda hipótese. Se sua missão seria ajudá-lo a chamar a atenção de Kagura, achava indispensável que agisse com bastante naturalidade. Talvez o sr. Taisho lhe seguisse o exemplo e perdesse um pouco daquele ar de quem havia engolido um guarda-chuva. Sim, aquela seria a primeira lição, Rin decidiu. Começava a achar divertida a idéia de transformar o chefe.
- Ainda não está nevando, srta. Baxter - ele falou após ajudá-la com o casaco. - Mas é bem possível que comece. O inverno realmente chegou.
Rin pegou a bolsa e foi com ele até a porta.
- Oh, eu sou louca pelo inverno! Nada como entrar embaixo de um cobertor e ficar assistindo televisão com a neve caindo lá fora. Ou fazer pipocas com bastante manteiga e chocolate quente bem espesso. Sem falar no dia de Natal, quando a gente abre os presentes que estão sob a árvore!
- Você fala de um jeito que faz tudo isso parecer mesmo muito bom. Sempre achei que no inverno o mundo se torna feio e sem .graça. As pessoas morrem de frio e não sentem prazer em sair.
Haviam chegado à porta do prédio onde um sedan azul-marinho encontrava-se estacionado junto ao meio-fio. Era a imagem do carro convencional, Rin pensou, entendendo por que o sr. Taisho achava tudo muito frio e sem graça.
- Por que não vamos no meu carro? - sugeriu rapidamente. - Já dirigiu um carro esporte, sr. Taisho?
- Não, mas não acho necessário irmos em seu carro. O meu está...
- Então, insisto. - Ela o interrompeu. - Vai ver como é bem mais emocionante do que os outros. Aposto como amanhã mesmo vai querer trocar o seu.
Antes que ele pudesse recusar, Rin já havia aberto a porta do Z280 e se acomodado.
- Vamos, é facílimo de dirigir. - Ignorando a expressão assustada do sr. Taisho, atirou-lhe as chaves.
Sesshomaru contorceu-se todo a fim de pegar as chaves e a fitou sem jeito.
- Srta. Baxter, não acho que deva.
- Acredite-me, sr. Taisho. Eu sentiria um enorme prazer se dirigisse o meu carro.
Mais parecia que Rin havia sugerido que ele atravessasse a principal avenida da cidade completamente nu.
- Não vejo razão para irmos em seu carro quando o meu está aqui - ele ainda insistiu, sentando-se no banco do motorista. - Quer mesmo que eu dirija?
- É claro! Não pediu para que eu lhe desse algumas dicas?
- Dicas? Oh, sim, pedi. Mas o que tem seu carro esporte a ver com as dicas?
Rin piscou para ele.
- Kagura pode gostar desse tipo de carro. Quem sabe você convence o irmão dela a alugar um ou, em último caso, pode emprestar o meu se ela gostar.
Os olhos astutos de Sesshomaru brilharam por trás dos óculos. Pelo visto haveria bem mais envolvimentos do que calculara de início.
Rin deu-lhe algumas instruções sobre os controles essenciais do carro e eles partiram.
- Então, o que acha, sr. Taisho? É como pilotar num sonho, não?
- Tenho a sensação de que estou sentado no chão. Isto é máquina para pistas de corrida e não para andar nas ruas.
- Mas não é sensacional?
- Perigoso, eu diria. É muito pequeno, muito possante e... - Ele a fitou preocupado. - E pode acabar se matando numa coisa destas, srta. Baxter!
Rin soltou uma gargalhada.
- Oh, sr. Taisho! Uma pessoa pode morrer em qualquer tipo de veículo. Até numa bicicleta, se chegar a hora. Mas sou bastante cuidadosa, não se preocupe. Mesmo quando estou em alta velocidade.
Ele não disse nada, apenas franziu ainda mais as sobrancelhas.
- Então, o que acha? - Rin insistiu. - Kagura vai gostar de circular pela cidade num carro destes?
Após estudá-la por alguns instantes, ele respondeu:
- Creio que sim, srta. Baxter.
Mas não parecia muito satisfeito com a idéia, Rin notou. Só gostaria de saber por que o sr. Taisho considerava Kagura a mulher ideal para ele quando era óbvio que tinham tão pouco em comum. Na verdade, achava toda aquela história um tanto esquisita.
- Conhece-a tão bem assim, sr. Taisho? Quero dizer, a ponto de saber do que ela gosta?
- Muito bem, srta. Baxter - ele respondeu, desta vez sem desviar a atenção da pista. - Melhor do que ela imagina.
- Nesse caso, quanto mais puder me dizer, mais terei condições de ajudá-lo.
- É bom saber. Onde gostaria de jantar , srta. Baxter?
- Bem, deixe-me ver... Qual acha que seria a preferência de Kagura?
Sesshomaru começou a pensar como um louco. Por fim lembrou-se de um dia ter visto um cartão da pizzaria Ricetti's sobre a mesa de Rin.
- Acho que... pizza! Sim, ela adora pizzas, agora me lembrei.
- Hum... Uma mulher com o mesmo gosto que o meu.
Ele suspirou aliviado.
- Verdade?
- Sou louca por comidas italianas em geral. E sei de um lugar onde servem pizzas maravilhosas. Ricetti's é o nome. Já esteve lá, sr. Taisho?
- Não, ainda não.
- Oh, desculpe-me, sr. Taisho. Talvez não goste de pizzas...
- Tudo bem. - Ele mentiu. - Se minha intenção é agradar Kagura, a escolha deve ser dela e não minha.
- É muito gentil de sua parte, sr. Taisho. Nem todos os homens teriam tanta consideração assim. Estou certa de que esta Kagura logo vai perceber que tesouro de homem o senhor é.
Sesshomaru começou a tossir. Não esperava ser elogiado e muito menos que o chamassem de tesouro.
- Está tudo bem, sr. Taisho?
- Sim, sim. Não foi nada. Devo ter engasgado, acho.
Eles cruzaram um farol e andaram mais dois quarteirões. O Ricetti's ficava na esquina seguinte. Sesshomaru parou no estacionamento e desligou o motor.
- Prontinho - disse aliviado. - Sãos e salvos.
Rin voltou-se para ele e sorriu. De repente teve uma idéia. Munindo-se de toda a coragem debruçou-se sobre Sesshomaru e pôs-se a afrouxar-lhe o nó da gravata.
- O que está fazendo, srta. Baxter?!
- Não tome como uma ofensa, sr. Taisho. - Justificou-se com o rosto bem próximo ao dele. - Mas não está combinando nem um pouco com este carro esporte. E também não se vai a uma pizzaria de terno e gravata.
Sesshomaru mal conseguia respirar. Ela havia desabotoado seu colarinho e puxado a gravata alguns centímetros para baixo.
- Pronto. - Rin endireitou-se no banco. – Assim ficou bem melhor .
- Acha que... que exagerei ao me vestir?
- Bem, um pouco. - Ela o estudou durante alguns instantes e então resolveu ajudá-lo mais ainda. - Agora tire o paletó e dobre as mangas até quase o cotovelo.
- Meu paletó! Srta. Baxter, está gelado lá fora!
- Não vai morrer congelado só de ir do carro até o restaurante. E pode crer, as mulheres adoram ver o antebraço de um homem. É uma coisa que mexe com a gente, sabe.
Ele a fitou com um ar tão perplexo que Rin precisou esforçar-se para não rir.
- Não sei se estou preparado para todas estas... lições, srta. Baxter.
- É claro que está. E vai ver como terá valido a pena quando Kagura cair em seus braços, sr. Taisho.
Nesse ponto não havia o que discutir, por isso Sesshomaru decidiu fazer o que ela lhe pedia.
A pizzaria estava uma loucura. Era impossível calcular quantas pessoas havia dentro. Não foi fácil arranjarem uma mesa e tiveram de aguardar em pé até visualizarem uma no ambiente esfumaçado rescendendo a queijos e ervas. Além do vozerio geral, a máquina de música tocava Bruce Springteen, que cantava a plenos pulmões a música que o consagrara, Born in USA, Nascido nos Estados Unidos.
Rin se sentiu em casa de imediato. Quanto a Sesshomaru, pensava que acabara de transpor as portas de um mundo surrealista e decadente. Foi preciso que ela cuidasse dos pedidos, talo estado de desnorteamento em que ele se encontrava.
- Não acha a música um pouco alta demais, srta. Baxter? - Sesshomaru tinha a impressão de que os vidros das janelas iam trincar a qualquer momento. - Não sei como ninguém reclama.
- Porque é a melhor maneira de senti-Ia, sabia?
- Senti-la?!
- Sim, o ritmo, as batidas, os movimentos. E ninguém faz isso melhor que o "rei" não acha?
- Que rei?!
- Bruce, o cara que está cantando.
Naquele momento a garçonete chegou com duas xícaras de café quente: e fumegante. Enquanto bebiam, Rin reparou como o sr. Taisho mudara com a gravata frouxa e as mangas arregaçadas. Era tão raro vê-lo sem o paletó no escritório. Só mesmo quando o ar-condicionado não funcionava. Ficou surpresa ao notar como os ombros dele eram largos e os braços fortes. O relógio de pulso chamou-lhe a atenção pela simplicidade e bom gosto. Francês, sem dúvida, concluiu após examiná-lo melhor. A partir daquele instante começou a suspeitar que, apesar dos hábitos bastante convencionais, seu chefe era um homem de extremo bom gosto. Apenas não tinha coragem de se expor.
- Costuma comer pizzas sempre, sr. Taisho?
- Não. Na verdade sou mais inclinado à comida francesa.
- Mesmo? Não conheço nada da cozinha francesa. Mas sei preparar pratos gregos.
- Você cozinha?!
- Só quando tenho tempo. Não sou das melhores, mas já dei alguns jantares feitos por mim. E você? Cozinha?
- Não! - Ele a fitou indignado. - Tenho uma pessoa para fazer meu jantar e às vezes como fora.
Era o que Rin imaginava.
- Fale-me um pouco sobre Kagura, sr. Taisho. Que idade tem ela?
- Idade? Bem... Eu diria vinte e poucos.
- Tão jovem? Pensei que tivessem feito a faculdade juntos.
- E fizemos. Mas Kagura estava começando e eu terminando.
- Ah, entendo. Mas que tipo de pessoa ela é? Trabalha fora, tem algum interesse especial?
Sesshomaru começou a ficar inquieto na cadeira. Tantas perguntas ainda iam colocá-lo em apuros.
- Sim, ela trabalha - disse cauteloso. - Mas quanto aos interesses não posso afirmar nada. - Exceto que adora sair com rapazes, pensou consigo mesmo.
- Nesse caso fica um pouco mais complicado. E o que me diz da personalidade dela? Quem sabe podemos descobrir alguma coisa por esse campo?
Sesshomaru encostou-se na cadeira. A música havia sido trocada por uma de ritmo mais suave e romântica. O volume continuava alto, mas era curioso como já não mais o incomodava tanto.
- Ela é vibrante, muito extrovertida e cheia de vida - disse sem desprender os olhos de Rin. - E muito falante também.
Uau! Não era para menos que ele mesmo dissera que tinham pouco em comum, Rin pensou. O que acabava de ouvir era uma lista de antônimos da personalidade de seu chefe.
- Parece que vai ser mais fácil do que eu pensava, sr. Taisho. Pelo visto, Kagura gosta de fazer qualquer programa.
- Está absolutamente certa a esse respeito.
Rin suspirou aliviada. Não era muito, mas pelo menos um começo.
- Então vamos falar da aparência física de Kagura. Como ela é, sr. Taisho?
Sesshomaru endireitou-se na cadeira, tomou um gole de café e só então começou.
- Bem, Kagura é, ou pelo menos era da última vez que a vi, bastante atraente. Morena, alta, magra. Está sempre sorrindo e seus dentes são perfeitos. O cabelo também é muito bonito. Ela costuma, isto é, costumava usá-los longos, até os ombros. São lisos, sedosos e brilhantes. Conhece a Kim Bassinger? Kagura seria mais ou menos do mesmo tipo que ela.
- Hum... Nada mal, hein, sr. Taisho?
- Sem dúvida, nada mal.
- O que nos dá mais uma razão para empenharmos todos os esforços nessas... aulas, não é mesmo?
- Concordo plenamente.
No fundo Rin estava surpresa com a descrição que acabara de ouvir. Por qualquer razão, não esperava que a paixão do sr. Taisho fosse por alguém como ele acabava de descrever. Ao mesmo tempo achou curioso o fato de Kagura ser tão parecida com ela. Alta, morena e magra com cabelos lisos. Que estranha coincidência...
- Sabia sr. Taisho, sou muito romântica. Ficaria decepcionada se não conseguíssemos que você e Kagura ficassem juntos. E como vejo tudo isso como uma questão muito pessoal, importaria se eu lhe falasse francamente?
Sesshomaru remexeu-se na cadeira sentindo uma espécie de pânico. Porém, em seguida, resolveu controlar-se. Não chegara a vice-presidente da firma tendo esse tipo de reação. E além disso, pânico era a última coisa que o levaria a atingir seus objetivos.
- Coloco-me em suas mãos, srta. Baxter.
Rin sorriu satisfeita.
- Obrigada. E há também uma outra coisa: por que não me chama de Rin?
- Você sabe jogar beisebol?
Ele balançou a cabeça, negando.
- Basquete, então?
- Também não. Apenas tênis, quando tenho tempo de ir ao clube.
A pizza havia acabado de chegar. Rin cortou um pedaço para ele e depois se serviu. Mal deu duas garfadas, voltou a falar:
- Meu pai não se conformava por eu não ser uma líder de torcida como minha mãe. Até ver meu time vencer o campeonato. Só então ele percebeu que eu havia nascido para ser atleta.
- Você jogava basquete também?
- Sim, como armadora. Meu treinador era um homem muito... oh, sr. Taisho! Acho que o estou aborrecendo com minhas histórias. Não viemos até aqui para falar de mim, não é mesmo?
- Antes de mais nada, já que devo chamá-la de Rin..., por que não me trata por Sesshomaru apenas?
- Sesshomaru? - Ela sorriu. - Sim, gosto de Sesshomaru. E então, o que está achando da pizza, Sesshomaru?
- Deliciosa. - Ele não mentiu. Apesar de um pouco nervoso com todo o interrogatório, tinha de admitir que a comida estava excelente. - Acho até que vou vir mais vezes comer pizzas neste lugar.
- Se Kagura também gostar, este será o lugar perfeito para trazê-la.
- Não vou me esquecer disto.
- Sim, e também não deve se esquecer de comprar alguns presentes de Natal para ela. Apesar de só se encontrarem no ano-novo, isso mostra que esteve pensando nela.
Sesshomaru a fitou.
- Mas não tenho a menor idéia do que comprar!
- Bobagem, não precisa ser nada muito espetacular. Talvez um bom perfume ou um lenço de seda pura. Ou quem sabe uma jóia?
- Sim, mas que tipo de jóia? Não sei nem em que joalheria entrar!
- Não se preocupe, posso ajudá-lo. Ainda não terminei minhas compras de Natal, por isso podemos combinar um dia para sairmos juntos.
Sesshomaru rezou para que o alívio que sentia não transparecesse em seu rosto. Ela estava tornando tudo muito mais fácil do que ele esperava.
- Obrigado, Rin, por ser tão compreensiva. Não sei se outra mulher se preocuparia tanto assim com um problema alheio como você.
- Farei tudo que estiver ao meu alcance para ver você e Kagura juntos, Sesshy .
Sesshy? Era a primeira vez que alguém o chamava por aquele apelido. E para ser sincero, gostara de ouvi-lo da boca de Rin. Talvez Sesshy não condissesse muito com sua imagem, mas sem dúvida combinava perfeitamente com o homem que havia dentro dele.
- Sabe, Sesshy, fico muito feliz que esteja interessado em uma mulher. Sempre achei que precisava de alguém em sua vida.
Sesshomaru a fitou estupefato.
- Mesmo...? E o que a levou a pensar assim?
- Bem, sou de opinião que todo mundo deve ter alguém na vida e nunca o vi mencionar o nome de alguma mulher.
- Entendo.
Rin serviu-se de mais um pedaço de pizza. Não queria que Sesshomaru a achasse indiscreta por tocar em assuntos tão pessoais. Ele já havia feito alguns progressos e ela sentia medo de estragar tudo falando demais. Na verdade até começava a gostar da companhia dele. Bem mais do que esperava. Havia uma certa Timidez no comportamento de Sesshomaru que o tornava extremamente sensual.
- E quanto a você, Rin? Tem alguém em especial?
- Você quer dizer uma única pessoa? Não. Mas tenho vários amigos e adoro estar com eles.
- E quanto àquele rapaz que estava no escritório hoje à tarde?
- Bankotsu? Conheci-o há pouquíssimo tempo. Ele não é uma graça?
- Eu diria que é maciço e não uma graça.
Rin caiu na gargalhada. De repente teve uma idéia.
- Tem uma moeda aí com você, Sesshy?
- Sim, mas por quê?
Ela levantou-se e puxou-o pela mão.
- Venha comigo. Vou ensiná-lo a mexer na máquina de música.
- Mas...
Rin o arrastou por entre as mesas até chegar ao fundo do restaurante.
- Será mais uma das nossas lições, Sesshy. Se Kagura é extrovertida, aposto como adora música.
- Mas ela só vai ficar aqui alguns dias. - Ele olhou Timidamente para o aparelho cheio de luz. - Não acho necessário que eu aprenda a mexer nessa máquina.
Ela não se deu por vencida. Apontou-lhe os nomes das músicas mais agitadas e deu algumas sugestões românticas, em caso de quererem um "clima mais ínTimo", conforme explicou-lhe com um ar malicioso.
- Nunca é demais aprender esse tipo de coisa, Sesshy - acrescentou, colocando a moeda na máquina. - Uma vez eu disse a um rapaz que queria ouvir Angel Heart e ele me respondeu que não gostava de música de igreja. Pobrezinho! Nunca descobriu por que eu não quis mais sair com ele.
- Quer dizer que desistiu dele só porque o rapaz não apreciava determinado tipo de música?
- É claro que não, Sesshy. Não sou tão esnobe assim. Deixei de vê-lo porque ele não foi sincero o bastante para admitir que não conhecia aquela música. Foi uma prova de quanto era vaidoso e aí está uma coisa que não suporto.
Sesshomaru a fitou pensativo. Deus do céu! Ela falava sobre sinceridade e ali estava ele fazendo o quê? O papel mais desonesto que jamais fora capaz de assumir. Nervoso, olhou para a máquina de música.
- Entendo o que quer dizer, Rin.
Ela sorriu apontando para o painel.
- Vê este nome aqui? - indagou segurando a mão dele. - É um cantor de rock, não se esqueça. E vê este outro?
Sesshomaru balançou a cabeça. Em seus trinta anos de vida nunca se sentira como naquele momento. Rin segurando-lhe a mão e sorrindo como se realmente gostasse dele provocava-lhe uma sensação tão maravilhosa e diferente que não dava para pensar em mais nada. Sim, "fase dois": estava funcionando além das expectativas!
