CAPÍTULO VI
Todas as tardes, na Sooner Fidelity, os funcionários faziam uma pausa de quinze minutos para um café. Nem bem Rin colocou os pés na copa, Kanna a puxou para um canto e disse:
- Quero saber o que está se passando.
- Como assim?
- Não se faça de ingênua. Você sabe muito bem do que se trata. Praticamente a Sooner inteira viu você chegando agora à tarde com o sr. Taisho. Juntos!
- Sim, e daí?
- E daí? É a segunda vez que sai com ele, Rin!
Rin olhou ao redor. Metade dos funcionários daquele andar se encontrava ali na copa.
- Dá para você falar mais baixo, Kanna? E além disso está enganada. Não foi só a segunda vez.
- Quer dizer que saiu mais de duas vezes com o sr. Taisho! - A moça sussurrou arregalando os olhos.
- Kouga deve andar muito distraído. - Rin resolveu provocá-la. Tinha certeza como Kanna entenderia a indireta.
- Kouga? O que ele sabe que não sei?
- Nada, Kanna, nada. - Rin se cansou. - Mas me diga uma coisa: não achou Sesshy espetacular?
- Sesshy, espetacular?! - Kanna pôs a mão no ombro de Rin. - Venha cá, amiga. Você precisa se sentar, acho que está passando mal.
- Nada de sarcasmos comigo, Kanna. Estou falando sério. Não achou Sesshy espetacular?
- Não é possível! - Kanna colocou a mão na testa. - Ele deve estar mantendo você sob hipnose.
- Kanna!
- Está certo, está certo. - As duas aproximaram-se da cafeteira. - Para falar a verdade, fiquei tão pasma quando vi vocês dois juntos que nem reparei direito no sr. Taisho.
- Ele tem os olhos mais sexy do mundo, Kanna! Quem acreditaria?
- Sexy? Eu não acredito.
Rin encheu duas xícaras e deu uma a Kanna.
- Sei o que a maioria do pessoal pensa do sr. Taisho. Mas ninguém o conhece, esta é que é a verdade.
- E quem se interessaria em conhecê-lo? Ele não passa de um colarinho engomado que olha para os subalternos como se fossem meros camundongos de laboratório.
- Está redondamente enganada, Kanna. O sr. Taisho não é nada do que pensa. Ele é genial, educado e muito divertido.
- Será que está falando mesmo de Sesshomaru Taisho?
- Estou.
Kanna revirou os olhos.
- Então é mesmo o que eu supunha. Você está sob efeito de hipnose. Amenos que... Não está apaixonada por ele, está?
- Kanna deu de ombros. - Não, que bobagem. Você e Taisho? seria o mesmo que juntar gelo e fogo.
- Já experimentou? - Rin deu uma piscadela. - O gelo se derrete cada vez que os puser juntos.
- Francamente! Não estou entendendo você! - Rin colocou a xícara sobre o balcão e dirigiu-se à porta.
- Como eu já disse, você está completamente por fora, Kanna.
- Rin! - A amiga correu atrás dela. - Parece grave, amiga. Está me deixando preocupada, sabia? Nunca vi você tão séria.
- Obrigada, Kanna. Não sabia que me considerava uma palhaça.
- Por que está usando esse vestido preto, hoje?
Rin olhou para o próprio corpo. Vestia um modelo de lã preta, com mangas três quartos. Era simples, mas acentuava-lhe bem as curvas dos quadris.
- Já vim trabalhar com ele uma porção de vezes, Kanna.
- E prendeu os cabelos! - Kanna olhou para o pescoço de Rin. - E ainda por cima colocou o colar de pérolas!
Rin riu.
- Nunca ouviu dizer que pérolas, quanto mais usadas, mais bonitas ficam?
- Não fuja do assunto!
- Não há assunto, Kanna. Sesshy e eu ficamos amigos, foi só. Não há razão para tanto carnaval, eu lhe garanto.
- É capaz de jurar sobre a Bíblia que não está apaixonada por ele?
Rin parou no meio do corredor. Era demais. Kanna e Kouga podiam dar as mãos!
- Jurar sobre a Bíblia? O que é isso agora? Estamos num tribunal e sou a ré?
- Rin...
- Não posso me apaixonar por ele. Sesshy está... - Ela fechou a boca com força e começou a andar em direção ao escritório.
- Rin, volte aqui!
Ignorando o pedido de Kanna, entrou em sua sala e fechou a porta. Quase havia dito que Sesshomaru estava de olho em outra mulher. Kanna nunca poderia sabê-lo. E ela própria preferia não pensar muito em Kagura.
Mas naquela tarde, enquanto dirigia para casa, as palavras de Kanna voltaram-lhe à mente. Estaria mesma se apaixonando por ele? Provavelmente. Pelo menos não se lembrava de ter pensado em nenhum outro homem com tanta freqüência quanto pensava nele. Sesshomaru a levava a desejar coisas incríveis, como ter filhos e constituir uma bela família.
Ao mesmo tempo, quanto mais pensava, mais Rin se convencia de que era uma tola. Ele só tinha olhos para uma pessoa: Kagura. E que, por sinal, se punha entre ambos como uma parede invisível!
Rin estava quase chegando ao seu apartamento quando de repente mudou de idéia. Virou à direita dois quarteirões antes, tomando a direção da casa de sua mãe. Há dias não se encontravam e por qualquer razão sentiu uma vontade enorme de vê-la.
Abbe Baxter era uma mulher muito atraente. E jovem também. Havia tido a filha muito cedo, por isso pouco passava dos quarenta agora. Quando Rin entrou, ela se encontrava no banheiro, arranjando-se diante de um espelho enorme todo iluminado.
- Oi, querida, como vai? - Abbe beijou a filha. - Tudo em ordem?
- Bem. Estava indo para casa quando resolvi dar uma olhada em você.
- Uma olhada em mim? Que filha adorável!
Rin sentou-se num banquinho e ficou observando a mãe se maquilar. Não podia compreender como o pai a deixara por outra. A mãe era gentil, bonita, inteligente, a mulher mais sensacional que ela conhecia.
- Vai sair, mãe?
- Uma festa em Nichols Hills. O doutor vai receber alguns colegas esta noite. Que acha que devo usar, querida?
- Vermelho. Você fica linda de vermelho.
- Obrigada, amor. - Abbe olhou para a filha. - Algum problema, anjo? Estou achando você tão desanimada.
- Cansada, isso sim. - Rin disfarçou. – Estamos em época de relatórios e o trabalho se acumula. Você disse festa em Nichols Hills? É onde Sesshy mora.
- Sesshy...?
- Meu chefe.
- Nesse caso ele é um dos milionários também?
- Deve ser. - Rin tentou sorrir. - A Sooner paga a ele uma fortuna.
- Então nós duas temos chefes milionários, querida. Por que não damos um golpe nos dois e vamos viver em Nichols Hills?
- Mãe! - Rin fingiu-se escandalizada. - O dentista para o qual trabalha é solteiro?
Abbe começou a passar creme no rosto.
- Divorciado. É bonitão, loiro, musculoso e divertido. Que tal?
- Não entendo como pode pensar em casamento depois do que papai lhe fez.
- O que é isso, filha? Seu pai é uma pessoa. Nem todos são iguais a ele.
- Como sabe? Acaso pergunta antes se serão honestos e fiéis?
- Rin! Não gosto de ouvi-la falar desse jeito. Se pude aceitar os defeitos de seu pai você também pode.
Rin fechou os olhos.
- Ele magoou você, mãe. Magoou a mim. Não sei se algum dia vou poder esquecer ou perdoá-lo inteiramente.
Abbe colocou o vidro de creme sobre o aparador e olhou para a filha.
- Mas deve. Nunca será feliz se não o fizer, querida. Nunca poderá ter um relacionamento duradouro com um homem.
- E quem disse que quero um relacionamento duradouro? - Rin disse com amargura. - Encontros passageiros me bastam.
- Querida. - A mãe balançou a cabeça de um lado para o outro. - Um dia desses vai se cansar dessa vida agitada que leva. Vai encontrar um homem e não vai se satisfazer apenas com uma noite divertida ao lado dele. Será terrível para você. E para ele também, se não aprender a confiar, filha.
Rin estudou a mãe durante alguns segundos.
- Você nunca se casou de novo.
- Porque não encontrei o homem certo.
- Ainda ama meu pai?
Abbe pegou o batom, abriu-o e ficou olhando seu vermelho intenso.
- De certa forma. Vivemos juntos durante muitos anos. Tivemos você. São vínculos que não se desfazem de uma hora para a outra. Só que isso não quer dizer que eu não possa me apaixonar por um outro homem.
- Não tem medo que ele a faça sofrer como fez papai?
Abbe começou a passar o batom.
- Não, não tenho. - Pegou um lenço de papel na gaveta e tirou o excesso. - Escute, querida. Não é justo colocar toda a culpa em seu pai. Também fiz muita coisa errada, hoje sei. Tem que lembrar que somos humanos. Todos erram, inclusive os pais. É um erro achar que pai e mãe não têm defeitos.
- É por isso que acho que nunca vou querer ser mãe.
Abbe caiu na gargalhada.
- Oh, meu amor... Quando encontrar o homem certo vai perceber quantas bobagens está me dizendo hoje. Mas o que está amolando você? O rapaz com quem ia sair desistiu?
- Não. Não tenho nenhum encontro para hoje.
Assim que falou, Rin percebeu a razão de tanta infelicidade. Estava desapontada porque não ia encontrar-se com Sesshomaru depois de terem estado juntos duas noites seguidas.
Abbe Baxter deixou o banheiro e Rin a seguiu até o quarto, sentando-se na cama.
- Já planejou seu Natal, querida? - indagou à filha enquanto calçava as meias de náilon.
- Ainda não. Por enquanto sei apenas que teremos uma festa na firma no dia vinte e quatro.
- Espero que não fique desapontada, mas fui convidada para passar os feriados de fim de ano esquiando em Taos, no Novo México.
- Que maravilha, mãe!
- Acha que ficará bem sem mim, querida?
Rin costumava passar o Natal com ela. Não adorava a idéia de se ver sozinha naquele ano, mas por nada no mundo estragaria o passeio da mãe. E depois, podia preparar um almoço gostoso se quisesse. Shipoo com certeza iria aparecer para mostrar-lhe seus presentes. E quem sabe Sesshy também, pensou, animando-se.
- É claro que ficarei bem, mãe. Estou pensando em convidar Sesshy. Posso preparar algum prato especial e...
- Sesshy, seu chefe?
- É. A família dele está na Califórnia, por isso acho que vai estar sozinho também.
- Faça isso, querida. -Abbe deu uma volta já totalmente arrumada. - Que tal estou?
- Uma gata. - Rin levantou-se. - E agora preciso ir, mãe. Vê se me liga antes de viajar, tá?
Abbe abraçou a filha.
- Fique tranqüila, amor. E você, não deixe de convidar seu chefe, hein? Não quero pensar que passou o Natal sozinha.
Imagine se ela deixaria. Rin saiu já com planos para o almoço de Natal.
Na manhã seguinte, Rin batia algumas cartas quando Sesshomaru entrou no escritório. Erguendo os olhos da máquina, quase perdeu a fala ao vê-lo. Tinha certeza de que era ele, no entanto não conseguia acreditar.
- Sesshy! Você está sensacional!
Um pouco sem jeito, Sesshomaru aproximou-se. Tinha a impressão de que caberia mais um dele dentro daquele traje novo. Mas o vendedor lhe dissera que não se usavam mais ternos talhados e ali estava ele, com aquelas enormes calças cinzentas e um blazer azul-marinho que mais parecia um sobretudo.
- Você gostou?
- Se gostei? ! Adorei! É o homem mais elegante que já vi! - De repente Rin colocou a mão na boca. - E cortou o cabelo também!
Sim, ele havia feito muitas mudanças. E não fora fácil criar coragem para tantas inovações. Primeiro o guarda-roupa. Numa atitude irracional, como lhe diria a mãe, livrara-se de todos os ternos. Trajes de velórios, dizia a si mesmo enquanto esvaziava o armário. Em seguida pedira à governanta que chamas-se o Exército da Salvação para que levassem tudo embora. Fora para o shopping e entrou na butique mais sofisticada de roupas masculinas. No instante de sair do shopping, um úlTimo ato de coragem. Sentou-se na cadeira de Jean Pierre, o cabeleireiro do "executivo moderno", segundo uma revista que assinava.
E ali estava ele. Novinho em folha e, para própria surpresa, cada vez mais à vontade dentro daquelas roupas folgadas.
- Sempre soube que tinha bom gosto, Sesshy. - Rin levantou-se e chegou perto dele. - O que pretende fazer com seus antigos ternos?
- Mandei tudo para o Exército da Salvação - ele anunciou solenemente. - Acha que fiz bem?
- Para o Exército da Salvação! - Rin o imitou e em seguida caiu na gargalhada. - Você é incrível, Sesshy. É mais doido do que eu pensava.
Sesshomaru também explodiu na risada.
- Foi o que eu disse a mim mesmo. "Sesshomaru, você é um cara maluco e não sabia!"
- Estou muito orgulhosa de você, Sesshy.
- Não queria envergonhá-la na festa de Natal.
- Eu jamais me envorganharia de você, mesmo que não tivesse mudado. Quando digo que estou orgulhosa, é porque decidiu ser você mesmo e sair de seu esconderijo.
Sesshomaru sentiu um desejo enorme de abraçá-la, de beijá-la, dizer que a amava. Ah, Rin... Se soubesse como ele estava feliz naquele momento!
- Bem - disse, puxando-a pela mão. - Agora me sinto preparado para dançar .Vamos ver se não esqueci os passos que me ensinou.
- Sesshy! - Rin exclamou eufórica enquanto rodopiava com ele pela sala. Quem diria que Sesshomaru Taisho algum dia chegaria a uma atitude daquela? E quem seria ela para contrariá-lo? Procurando não desafinar demais, Rin pôs-se a cantarolar um velho rock que sabia de cor. Sesshomaru só faltou subir em cima da mesa.
Em meio a tamanha algazarra não escutaram quando a porta do escritório foi aberta. Só deram conta da presença do sr. Reynolds, o presidente da companhia, ao ouvirem-lhe a voz.
- Taisho...? Algum problema por aqui?
Sesshomaru ficou roxo. Afastando-se de Rin, tratou de recompor-se.
- Não, senhor - disse nervoso. - Nós... nós estávamos antecipando a festa de Natal. Desculpe-nos se o incomodamos, sr. Reynolds.
- Não se preocupe, rapaz. - O velho sorriu com malícia.
- Depois do que trabalhou este ano, tem todo o direito de divertir-se um pouco, Taisho.
Rin sorriu, concordando, e o sr. Reynolds deu-lhe uma piscada antes de sair do escritório. Assim que ele fechou a porta, ela e Sesshomaru explodiram na gargalhada.
Os dias passaram muitos rápidos para Rin. Ela e Sesshomaru trabalharam duro a fim de terminarem os relatórios e deram um jeito de concluí-los antes do prazo previsto.
Por duas noites seguidas, foram ao shopping center fazer compras de Natal. Encontraram as lojas cheias de gente, com muitos enfeites natalinos e canções típicas inundando o ambiente.
Sesshomaru disse-lhe que nunca havia visto alguém ir às compras com o entusiasmo de Rin. E ela, por sua vez, respondeu-lhe, rindo, que nunca conhecera alguém tão esbanjador quanto ele.
Sesshomaru respondia-lhe que não estava gastando tanto assim, mas, para Rin, era um exagero. Principalmente a quantidade de presentes que ele comprou para Kagura. Há algum tempo Rin vinha fazendo o possível para não pensar naquela mulher, mas durante as compras a sombra da novaiorquina voltou a pairar entre os dois. Rin acabou por admitir que começava a ficar enciumada. Achou extremamente difícil, senão frustrante, ajudar Sesshomaru a escolher perfumes, lingeries sofisticadas e um caríssimo par de brincos para uma outra mulher.
Esmeraldas! Rin só faltava morder a língua de forma a manter-se calada. Havia sido um tremendo sacrifício não dizer a ele que Kagura certamente não valia um par de brincos de esmeralda! Mas Sesshomaru lhe parecera tão decidido que tratara de sorrir, apenas; afinal, a jóia de fato era lindíssima.
Rin sacudiu a cabeça, resolvida a afastar todos aqueles pensamentos. Não iria se preocupar com Kagura naquela noite. Era o dia da festa de Natal e, em menos de uma hora, Sesshomaru chegaria para acompanhá-la. Queria estar maravilhosa para ele. Tão deslumbrante que um simples olhar o faria esquecer completamente a mulher por quem se dizia apaixonado.
Talvez não fosse um jogo muito limpo, mas estava decidida. Segundo Sesshomaru, Kagura nunca lhe havia dado uma chance quando estiveram juntos na universidade. Se a novaiorquina havia sido cega o bastante para não perceber o tesouro de homem que estava desprezando, ela trataria de tirar vantagem da situação.
Amava-o. Sim, amava-o demais! A princípio ficara com medo de admitir a si mesma. Mas vê-lo comprar todos aqueles presentes para Kagura, como que a forçou a examinar os próprios senTimentos.
A mãe não havia lhe dito que algum dia encontraria o homem certo'? Pois bem, Sesshy era esse homem. Mesmo se dizendo apaixonado por outra mulher. Cabia a ela, Rin, mudar a situação de alguma maneira. Mostrar a Sesshy que a verdadeira mulher ideal para ele era sua secretária!
Durante o dia todo, o tempo foi se tornando cada vez mais frio. Uma vez que a festa não seria formal, o mais indicado era usar calças compridas. Mas Rin não quis. Preferia estar mais arrumada e decidiu que não seriam alguns flocos de neve a mais que a fariam mudar de idéia. Há uma semana vinha planejando usar um vestido de lã lilás, marcante nos quadris e com gola e punhos de pele no mesmo tom. Após maquilar-se cuidadosamente e prender os cabelos num pequeno coque na nuca, perfumou-se toda. Sesshomaru chegou cinco minutos antes do combinado.
Incrível como se sentia nervosa. Já havia dado umas dez voltas pela sala quando a campainha tocou. Nenhum homem até então a deixara naquele estado. Mas por outro lado nunca desejara tanto agradar a alguém como a Sesshomaru Taisho.
Ao abrir-lhe a porta, encontrou-o com flocos de neve nos cabelos e nos ombros.
- Sesshy! Está tão ruim assim o tempo?
- Péssimo. - Ele entrou rapidamente, fechando a porta. - Está um gelo, você não imagina. Pelo visto vamos ter uma tempestade de neve ainda esta... - ele se interrompeu ao olhar para Rin. Os olhos dourados brilhavam. - Você está linda! As outras mulheres vão desaparecer ao seu lado.
- Obrigada, Sesshy - Rin corou. Apesar de ter sonhado muitas vezes em ouvir aquelas palavras, não esperava que Sesshomaru as dissesse. - Não quer tomar um café ou alguma outra bebida antes de sairmos?
- Acho melhor irmos logo antes que as ruas fiquem muito escorregadias. Mas antes... - Ele tirou uma caixinha branca do bolso, amarrada com um laço vermelho. - Gostaria de dar-lhe isto para usar na festa desta noite.
- Sesshy! - Ela recebeu o presente, sem jeito. - Não devia ter feito uma coisa dessas. Principalmente porque de certa forma eu o forcei a ir a esta festa comigo.
- Não me forçou a nada - ele retrucou suavemente. - Espero que você goste.
Se receber o presente foi uma grande surpresa para Rin, abrir a caixinha foi ainda maior. Pousado no fundo de veludo vermelho se encontrava o broche mais lindo que ela já vira. Uma águia de ouro com dois minúsculos diamantes no lugar dos olhos.
- Sesshy! Eu não sei o que dizer!
Sesshomaru chegou bem perto dela.
- Por que não me diz apenas se gostou ou não?
- Se gostei?! - Rin ergueu os olhos para ele. - É lindo, Sesshy, mas... mas não mereço uma jóia destas.
- Não merece? Que bobagem, Rin...
- Deve ter custado muito dinheiro. Não devia ter me comprado um presente tão caro.
- E por que não?
- Bem, porque... porque Kagura poderá ficar sabendo, Sesshy. E se ela se zangar?
Sesshy sorriu. Um sorriso tão sexy que quase fez Rin perder o fôlego. Há quanto tempo ele olhava para ela daquele jeito? Será que não havia notado antes?
- Confie em mim. Kagura nunca vai ficar sabendo sobre o broche.
- Mas...
- Venha cá. - Sesshomaru tirou o broche da caixa. - Deixe-me colocá-lo em você.
Rin precisou esforçar-se ao máximo para manter-se imóvel enquanto ele prendia a águia do lado esquerdo de seu vestido. A proximidade de Sesshomaru a deixava com as pernas bambas. Sentia um desejo enorme de passar-lhe os braços ao redor do pescoço e beijá-lo, mantendo os lábios colados nos dele por tanto tempo, até que os dois perdessem o fôlego e já nem se importassem mais de ir à festa de Natal.
Mas como poderia satisfazer seus impulsos sem causar má impressão? Droga de Kagura ou quem quer que fosse a mulher dos sonhos de Sesshy! Droga! Mil vezes droga!
As mãos trêmulas de Sesshomaru finalmente conseguiram prender o fecho do broche. Como prestar atenção no que estava fazendo com os seios de Rin ali tão próximos? Podia perceber o movimento deles para cima e para baixo enquanto ela respirava. Sentia-lhe o ar morno saindo-lhe dos lábios. Oh, como gostaria de beijá-la. Rin estava linda, tão sedutora. .. Se pudesse a tomaria nos braços e a beijaria até despertar-lhe o mesmo desejo que lhe queimava o corpo naquele momento.
Mas não podia. Rin iria pensar que ele não passava de um vigarista, um aproveitador mentiroso e falso. Oh, droga, Sesshomaru! Por que diabos você foi inventar a existência de Kagura? Porque você ama Rin, ele mesmo se consolou, afastando-se dela.
- Pronto - disse, estudando o broche. - Acho que ficou um pouco torto, mas talvez ninguém note.
Rin olhou para a águia e suspirou.
- Oh, Sesshy! Nunca vi nada mais bonito. Acha que eu poderia usá-la o ano inteiro além da festa de hoje?
Sesshomaru riu. Um riso tão suave que chamou a atenção de Rin. Ergueu o rosto para ele e o desejo de beijá-lo voltou com intensidade dobrada. Kagura que a perdoasse, mas não iria se reprimir. Não daquela vez.
Rin aproximou-se e roçou os lábios nos dele gentil e suavemente.
- Obrigada, Sesshomaru. Foi o presente mais lindo que já recebi em toda a minha vida.
- De nada... - Sesshomaru tentou sorrir.
- Oh céus, Sesshy! Deixei marca de batom em sua boca! - Rin passou o dedo nos lábios dele. - Imagine o que não vão pensar se chegarmos à festa com você desse jeito!
Sesshomaru riu.
- Não dou a menor importância ao que eles pensem. E você? Importa-se?
- Eu...? - Rin o fitou durante alguns instantes. Talvez Sesshy não estivesse tão apaixonado assim por Kagura quanto acreditava. Ela sorriu. - Não, Sesshy. Eu também não ligo a mínima.
- Bem... - Sesshomaru pegou o casaco de pele de Rin sobre o sofá. - É melhor irmos agora.
Ela vestiu o casaco e os dois saíram. No caminho para o carro, Rin segurou-lhe o braço chegando bem perto dele.
- Este será o Natal mais feliz da minha vida, Sesshy.
Sim, Sesshomaru pensou ao abrir a porta do carro. Graças a ela, também seria o dele. Rin havia mudado sua vida. Agora não adiantava mais olhar para trás. Aliás, sua maior esperança era a de que nunca mais tivesse de olhar para o passado.
