Gundam Wing continua não sendo meu...
Os dois ouviram um estalo mas não compreenderam imediatamente de onde vinha, aos poucos uma quentura foi se espalhando pela face direita de Quatre acompanhada da dor que finalmente chegará ao cérebro, passou então a entender o que havia acontecido, uma de suas mãos já foi automaticamente ao local dolorido, tentou dizer algo mais sua garganta estava seca, sua voz não saia.
- Quatre eu... Ficou tão chocado como a própria vitima, nunca havia passado pela sua cabeça agredir seu anjo e mesmo assim acabara de fazer isso, qual a explicação para essa atitude? Aquelas palavras...
Quatre não era feliz? Prometera fazê-lo feliz, quer dizer que não estava conseguindo, ele estava arrependido em dizer sim?
Deus que dia horrível! Como que uma manhã perfeita pode se transmutar de uma hora para outra em uma noite catastrófica, já fora ruim brigar com Heero seu melhor amigo e agora machucara a pessoa que mais amava no mundo.
Encostou se a parede, não tinha mais força para se manter em pé sozinho, todo o corpo doía a cabeça começou a latejar, ainda não tivera coragem de encarar Quatre, tinha medo do que pudesse ver estampado em seus olhos. Um arrepio de frio subiu por sua espinha e espalhou-se por seu corpo e ele não tinha nada a ver com o fato de estar molhado.
O silêncio incomodava, Quatre não dissera uma palavra até o momento, deveria estar tão chocado quanto ele, mas era sua obrigação tomar a iniciativa, ele estava certo se não tivesse provocado Heero os dois não teriam brigado e conseqüentemente esta discussão não teria acontecido, era para estarem desfrutando ao máximo a companhia um do outro, sempre tão atarefado com a empresa, acabava não ficando o tempo que gostaria com ele . Quatre meu amor me perdoa... Eram nítidos os seus cinco dedos marcados na pele clara, tantas vezes beijara aquele mesmo local agora ferido.
- NÃO, não me toca, eu nunca...(fechou os olhos respirando fundo) nunca imaginei que você fosse... Fosse capaz de fazer algo assim... Seus pensamentos estavam muito confusos para conseguir articular as palavras de forma coerente, quando uma mão hesitante tentou tocar-lhe a face não pode deixar de se esquivar ao contato.
- Amor me desculpa não queria fazer isso... Seu estomago revirou quando viu seu amado repudiar sua caricia, ele sempre gostará tanto de seus carinhos.
-Hoje mesmo eu te disse que sempre havia uma escolha mas você não quis entender. Acho... que eu descobri algumas coisas sobre você que eu não sabia, (suspiro) depois de um ano de casamento eu pensei que conhecia você como a mim mesmo mas... aquelas coisas que você disse do Duo, e agora isso... não sei o que pensar Trowa, acho que você também deve ter feito algumas descobertas quanto a mim, acredito que eu... como você disse... eu não sou a pessoa que você esperava...
Sua voz saiu calma, vacilante mas calma, não havia mais resquícios de raiva, não estava mais bravo apenas triste. Seus olhos não diziam nada pareciam temporariamente ausentes de qualquer sentimento, só a expressão de sua face denunciava seu estado de espírito, Trowa não conseguia entender como sempre conseguira até então os sentimentos que o envolviam, sentiu como se ele estivesse em um lugar onde não pudesse alcançá-lo.
-Quatre eu não sei onde você esta querendo chegar mas eu te amo, meus sentimentos por você nunca vão mudar.
-Trowa... Será que ama mesmo? Você pode ter se enganado sobre isso também...
Quatre não estou entendendo o que você quer dizer, claro que eu te amo será que eu nunca demonstrei isso para você, por que duvida?
...
-Quatre?
-Eu estou cansado Trowa, acho melhor agente terminar essa conversa amanhã. Fitou o chão como se tivesse algo muito importante que merecesse sua atenção.
Não queria parar a conversa ali, mas vendo o estado desolado em que seu amor se encontrava não quis mais insistir no assunto já havia errado demais com ele por um dia, também estava cansado, um banho quente seria muito bom.
-Tudo bem meu amor. As coisas teriam que ficar assim por enquanto.
Como Trowa concordara já podia se retirar, mais do que nunca precisava ficar sozinho para pensar melhor em toda a situação. Virou-se com o desejo de não olhá-lo, a porta o esperava entre aberta, cinco passos eram suficientes para atingi-la e em fim descansar, pelo menos por enquanto, o primeiro foi dado o segundo também mas quando estava no terceiro ouviu Trowa chamando, travou, não queria mais conversar, mas também não queria voltar a discutir com ele, indeciso esperou para ver o que desejava,
Escutou-o se aproximando, o barulho de seus passos sendo amortecidos pelo carpete do chão e logo a figura ao seu lado, apesar do frio sua presença parecia emitir calor, continuou a fitar a porta aberta esperado que Trowa dissesse algo.
Desejava abraçá-lo, mas temia quanto a reação que pudesse ter, teria que aguardar até que tudo se resolvesse para voltar a tê-lo para si, só seria difícil de resistir a tentação com ele tão próximo, pelo menos queria desejar boa noite de forma descente.
Quando sua mão foi colocada no ombro de Quatre sentiu todo o corpo do mesmo se contrair, queria tanto saber o que ele estaria pensando.
Ficou alguns minutos apenas observando essa pessoa que significava tanto para si, sua mão decidiu traçar o caminho de encontro a face amada mas deteve-se no ultimo instante, ao invés disso inclinou-se e depositou um beijo leve na bochecha macia, para então notar a umidade ali presente.
- Quatre você...
Antes de terminar de fazer a pergunta a porta já fora batida, o inconfundível barulho da chave sendo girada na fechadura e depois um silêncio mortal dominou todo o corredor, seu corpo em fim deslizou até o chão, encostou a cabeça na parede sem se importar com o fato do frio ter começado a incomodar seu corpo e de precisar de curativos, deixou-se ser levado pela corrente de infelicidade que queria se desprender de seu coração. Os soluços abafados pela porta de madeira respondiam qualquer pergunta que tivera a intenção de fazer e só confirmavam sua estupidez.
Morava nesta casa desde que decidira largar a família e viver por sua própria conta, o que se deu quando ainda tinha quinze anos, pouca idade mas muita determinação para conseguir aquilo que desejava, e mesmo depois de todo este tempo ainda não conseguirá se familiarizar com a atmosfera que o envolvia.
Sentia tudo muito impessoal frio nada aconchegante, quem fora se não ele mesmo o responsável por escolher cada detalhe cada móvel ali presente, afirmar então que lhes eram estranhos soaria mais que contraditório, mas de toda a forma a sim lhe parecia. Sua casa, seu lar era o ultimo lugar que poderia chamar de pessoal, acolhedor, dizer que ficava mais à-vontade quando estava em seu escritório não seria uma mentira, havia mais dele ali, do que na casa inteira. . .
Nada mais que uma questão prática totalmente desprovido de qualquer valor sentimental, cada objeto ali presente parecia exalar essa essência. A única mudança perceptível depois de todo esse tempo, fora um único porta retrato.
As chaves tiritaram enquanto seguiam seu caminho até a fechadura, meio minuto depois a porta se abria dando acesso a escuridão do interior.
As trevas cercavam tudo fazendo com que o breu fosse intenso em todo o ambiente, nenhum barulho além de seus pés andando pela superfície fria, os esparsos raios de luz vindos da grande janela de vidro da sala diminuíam um pouco a penumbra fazendo com que fosse possível se guiar sem esbarrar em nenhum objeto.
Um pequeno quadrado de vidro exibindo um rapaz de longa trança com um grande sorriso no rosto enquanto patinava despreocupado em um dia ensolarado. A foto era o único elemento que parecia ligá-lo à aquele espaço tão vazio de sentimentos, uma muito pequena parte de si dentre tantas coisas que nada significavam.
Atravessou todo o corredor passando pelo quarto indo direto ao banheiro, precisava se livrar dessa sensação de viscosidade do vermelho que escoria de um corte em sua boca traçando um veio rubro até o pé de seu pescoço, sem esquecer da desagradável sensação das roupas molhadas grudadas ao corpo. Desvencilhou-se rapidamente das peças jogando de qualquer jeito no cesto de roupas sujas. Colocou-se sem demoras debaixo do jato de água. Deixou-se ficar sem pensar em nada por minutos apenas sentindo a água escorrer por todo o seu corpo, muito relaxante, começava a sentir-se melhor o turbilhão que dominava sua mente a poucos minutos começava a se dissipar.
A razão restabelecia seu controle lentamente, não deveria ter sido tão impulsivo, perder o domínio de suas emoções na frente das pessoas não o agradava, também não era algo que lhe fosse comum, alias não estava raciocinando quando os fatos se deram, caso contrário nunca teria se permitido agir dessa forma. Que importância tinha o que Quatre e Trowa pensassem sobre o que ele havia decidido, apoiando-o ou não sua decisão não mudaria, para que então se indispor com eles?
Com quase 2 anos de namoro, a idéia de que havia chegado o momento de tornar as coisas um pouco mais serias não saia de sua cabeça.
Compreendia a grandiosidade do passo que ia dar mas estava preparado para tal, subjugara sozinho as diversas emoções e incertezas que rondavam sua mente quando se decidira por tal opção, medo das mudanças que se operariam em sua vida, com tudo sempre tão bem traçado e estipulado viu-se dando uma guinada total em tudo que já planejara até hoje, casar nunca fizera partes de seus planos, não se considerava alguém sociável o suficiente para partilhar certezas e apreensões de uma vida a dois, e agora estava preste a fazer isso, sentia-se no limiar da mudança, a sua frente um futuro desconhecido mas com a tendência de ser promissor.
E o que Duo acharia quando fizesse o pedido? Diria sim, ficaria feliz e se por ventura disse-se não, Duo era uma pessoa maravilhosa, via nos olhos dele todas as vezes que estavam juntos o amor que sentia, aquilo era real não tinha porque duvidar. Deveria parar então de se preocupar com uma possível negativa de sua parte, afirmações tantas vezes repetidas para convencer a si mesmo.
Contudo desconsiderar a possibilidade do americano não sentir-se preparado ou temeroso de assumir um compromisso não poderia ser totalmente descartada, ambos jovens não seria incomum que Duo quisesse aproveitar ao máximo sua liberdade, não negaria que ficaria desolado se algo assim ocorresse mas compreenderia, nunca o forçaria a fazer algo que não quisesse, não mudava nada ,ainda o amaria, bem, só teria que aguardar um pouco mais até que ele se decidisse.
Sue desejo era deixar claro a seriedade de suas intenções para com ele, era justo dar-lhe uma opção. Não se mantinha alheio a necessidade que via em seus olhos de se sentir amado de receber carinho ter alguém se preocupando com seu bem estar, nunca manifestara o desejo, e por isso nunca tentou insistir nisso, de falar sobre seu passado dos pais ou de qualquer parente, dava margem a pensar que não eram memórias muito agradáveis.
Sua infância também não fora das melhoras mas quanto a isso não se incomodava, não era sensível o bastante para achar que isso tivesse alguma relevância em sua vida. Sempre se virou muito bem sozinho.
Desligou o registro pegando o roupão macio pendurado em um gancho na parede, estava mais disposto agora, pegou uma toalha no armário embaixo da pia para secar o cabelo. Olhando no espelho, não viu nada de muito preocupante quanto aos ferimentos da briga de mais cedo, alguns arranhões uma marca roxa e o corte perto da boca que era o mais profundo, mas este nem sangrava mais. Pelo menos por enquanto tudo estava sobre controle.
Deixou-se cair no sofá, 22:40 o relógio lhe dizia, ainda era cedo seria bom tentar trabalhar um pouco, em poucos dias teria uma reunião de negócios muito importante com possíveis investidores, já estava mais que na hora de organizar a estratégia que usaria durante a negociação. O laptop bem ali a sua frente sobre a mesinha de centro fazia um convite ao trabalho, mas ao lado o porta-retrato, estava escuro demais para poder ver a imagem mas tinha a impressão que o Duo da foto o encarava com aqueles olhos púrpuras esperando que tomasse alguma atitude.
"O que você quer que eu faça Duo" Continuo encarando pensativo o pedaço de recordação. Se não estavam juntos agora era pela inflexibilidade do americano, irritava-se ao pensar que haviam se desentendido por um motivo tão tolo, não se viam a dois dias e até agora nenhuma tentativa de algum dos dois de concertar as coisas, como o americano se julgava o detentor da razão nesse caso, seria muito improvável que desse o braço a torcer e se dignasse a falar com ele enquanto não pedisse desculpas, se bem que já havia feito isso quando conversaram, ou melhor, colocando em outras palavras enquanto ele tentava argumentar e Duo gritava sem poupar os pulmões.
Para haver uma reconciliação ele teria que se sujeitar a generosidade do americano, isto não o agradava , pois pedindo desculpa sentia como se assumisse que fizera algo errado e isso não era fato, ele tinha que compreender que não haviam motivos para ter ciúmes, já conversavam exaustivamente sobre o assunto mas a idéia não entrava de forma alguma na cabeça trançada.
Dando-se por vencido... faria sua vontade então, pelo menos dessa vez, não sem antes se esquecer de se advertir para ser o mais paciente possível e não se descontrolar com ''receptibilidade'' com a qual seria tratado.
Caminhou até o quarto sentando na beirada da grande cama de casal, uma mão secava os cabelos com a toalha enquanto a outra se embrenhava na gaveta do criado mudo tateando em busca de um certo objeto, um suave curvar de lábios quando sua mão esbarrou no item que procurava.
Tirou o celular da gaveta e seus dedos cheios de agilidade discaram o número que conheciam tão bem. Esperou na linha enquanto o telefone chamava, um...dois...três...quatro...cinco...seis... toques depois a caixa postal em ação, encerrou a chamada praguejando, pelo horário as aulas de Duo já deviam ter acabado, ou será que ele não queria atender.
Continuaaaaa...
