Capitulo 1 - O show.

O vento cortante soprou em meu rosto, congelando as gotas de suor que a ansiedade insistia em produzir. Abracei o peito na intenção de me aquecer, já que o frio realmente me incomodava. Ajeitei a alça do violão em meu ombro e caminhei até a entrada que era guardada por seguranças copiosamente vestidos de preto. Um sorriso amarelo surgiu em meus lábios quando percebi que o crachá tinha ficado no criado mudo do meu quarto, do outro lado da cidade.

-Pode deixar entrar. – Jonathan falou por detrás da muralha.

Respirei fundo sentindo minhas narinas queimando enquanto o ar gelado entrava em meu corpo. Os dois deram espaços e eu me espremi para passar. Jonathan, o dono do bar, me esperava na porta com um sorriso ambicioso. Claro que se por causa de meu nome, ele conseguisse lotar sua casa de show, eu valia a pena todo o sacrifício e a simpatia.

Confesso que sempre percebi a falsidade nas pessoas, era fácil sentir quando eu era realmente querido. O que não acontecia naquele momento, porem eu não era tão fácil de abalar assim. O cumprimentei com a mesma excessiva cordialidade.

-Casa cheia hoje, não senhor Hale?

Por favor, eu só tinha vinte e dois anos. E ele? Uns cinqüenta e três? Foco Jasper, você precisa desse show assim como ele precisa de você. Ao olhar para as pessoas que estavam sentadas na frente do palco, o costumeiro arrepio correu minha coluna. A garganta seca estava incomodando, admito, mas eu seguiria sóbrio até o final da noite. Era o que eu me forçava a acreditar, risos.

-Você entra em quinze minutos, Hale. Prepare-se!

Lembro que nesse momento apenas assenti com a cabeça. Jonathan estava vindo de cinco em cinco minutos me lembrar que eu entraria no palco. Isso estava me deixando nervoso, mas essa era minha chance. Certo?

O copo de whisky irlandês esperava em uma mesa próxima ao corte da cortina. Engoli em seco. Não era um alcoólico, não precisava daquilo para me apresentar. Era só sede. Sim, sede. – sorri aliviado. Virei o copo em um só gole e abri a cortina me deparando com vários rostos pálidos e com as bochechas rosadas olhando para minha cara.

O cara loiro e branco no palco. Os cabelos desgrenhados caindo sobre os olhos e a camisa amassada presa de forma irregular na calça social escura. O violão já estava em meu colo quando ela entrou no bar fazendo o sino badalar junto com a corda de meu instrumento.

Enquanto as notas ecoavam pelo ambiente cheio, ela caminhou até o balcão pedindo uma cerveja. Meus olhos eram fixos em sua silhueta pequena. Sua face delicada era contrastada com o forte batom vermelho que dava a seus lábios cheios o tom escarlate do sangue.