CAPÍTULO VIII
Rin fechou os olhos. Sentia-se tão segura ao lado de Sesshy. Nunca conseguira perdoar o pai por ter abandonado sua mãe, mas só agora entendia realmente o quanto ela devia ter sofrido. Só agora, na condição de mulher apaixonada, avaliava a perda de um amor.
De repente, endireitou-se no sofá. Como num passe de mágica o sorriso voltou-lhe ao rosto.
- Sesshy! Amanhã é dia de Natal! Não devemos estar falando de coisas tristes. Conte-me o que já ganhou de presente.
Sesshomaru sorriu. Era bom vê-la animada outra vez.
- Bem, da Sooner ganhei um bônus extra, e de meus pais, um lote de ações.
Dinheiro, Rin pensou, mais dinheiro. Ela havia quebrado a cabeça tentando encontrar algo especial para dar a Sesshy. No ano anterior havia lhe comprado uma caneta. Um presente impessoal, da secretária ao patrão. Naquele ano, porém, a situação tomara-se bem diferente. Queria dar-lhe algo que o fizesse lembrar-se sempre dela. Mesmo quando ele estivesse com Kagura.
Depois de muito pensar, optara por um pulôver de lã. Kanna lhe diria que roupas eram pessoais demais, mas ela não se importava. A intenção era que Sesshomaru soubesse que pensava nele como um homem. Como alguém de quem se sentia ínTima.
Rin sorriu.
- Não ganhou nenhuma garrafa de uísque, charutos ou gravatas de seda?
Não, mas ganhei a sua companhia, Sesshomaru sentiu vontade de dizer, mas não teve coragem.
- Ainda há alguns presentes que ficaram no escritório sem serem abertos - lembrou-se. - E você? O que ganhou até agora?
- Sesshy! Não costumo trapacear. Meus presentes estão todos embaixo da árvore para serem abertos no dia certo. Amanhã. - Ela olhou para a águia presa em seu vestido. - A não ser o seu, Sesshy. Vou usá-lo em todos os natais daqui para a frente. E no ano-novo, e no meu aniversário.
Sesshomaru desejou tocá-la. Só esperava que Rin continuasse pensando daquela maneira depois que soubesse da verdade.
- Mas o meu presente você vai ter que esperar, Sesshy... Está lá em casa, embaixo da árvore, junto com os outros.
- Não devia ter se incomodado, Rin.
- Sei disso. Você é daquelas pessoas que têm de tudo. Mas achei que merecia uma lembrança minha.
Sesshomaru olhou para a porta e ela acompanhou-lhe o olhar. De onde estavam dava para avistar na outra sala o pinheiro de Natal com os presentes de Kagura arranjados ao lado.
- Espero que minha ajuda tenha sido boa em relação aos presentes de Kagura, Sesshy - comentou procurando parecer casual. - Teria sido mais fácil se eu a conhecesse.
- Eu... Eu tenho certeza de que Kagura vai adorá-los todos. Você tem muito bom gosto, não se preocupe.
Sim, ela se preocupava! Tinha vontade de sacudi-lo pelos ombros até fazê-lo entender que nenhuma outra mulher no mundo se importava tanto com ele como ela. Mas não podia. Ao invés disso, mudou de assunto.
- Está com sono, Sesshy?
- Não, e você?
- Ainda não, também.
Sesshomaru levantou-se para ligar de novo a televisão. Enquanto isso Rin foi até a janela. Continuava nevando. Ela voltou e sentou-se ao lado dele no sofá.
- Está com fome, Rin?
- Impossível depois de tudo o que comi naquela festa.
- O mesmo digo eu.
Rin fixou a atenção na televisão. Anunciavam um filme antigo, aparentemente bom.
- Quer assistir? - Sesshy indagou-lhe. - Gosta de filmes antigos?
- Especialmente quando são dos anos quarenta ou cinqüenta - ela confessou, acomodando-se melhor no sofá. - E você?
Sesshomaru aumentou o volume e sentou-se bem junto dela, segurando-lhe a mão.
- Também. Especialmente quando tenho a mão de alguém para segurar.
Rin sorriu. Um mês atrás teria sido impossível imaginar Sesshomaru Taisho ousando um gesto tão romântico.
- Concordo com você, Sesshy - disse suavemente. - Tudo fica melhor quando se tem alguém a quem dar a mão.
O filme começou. Não era ruim, mas também não prendia muito a atenção. Rin tentou acompanhá-lo, mas acabou encostando a cabeça no ombro de Sesshomaru e em poucos minutos dormia.
A princípio ele não quis nem se mexer com medo de acordá-la. Continuou assistindo o filme, mas a certa altura não agüentou mais. Com Rin ao seu lado só pensava no quanto seria bom estreitá-la nos braços. No quanto adoraria tê-la para sempre ali com ele. O sono veio e Sesshomaru também adormeceu.
Rin foi a primeira a acordar .Antes mesmo de abrir os olhos percebeu que alguma coisa estava estranha. Sentia muito frio nas costas, mas a parte da frente de seu corpo encontrava-se aquecida. Devagarinho ela abriu os olhos. Céus! Estava deitada abraçada a Sesshy!
Na posição em que se encontrava não dava para ver o rosto dele, mas, aparentemente, também dormia. De repente ele abriu os olhos.
- Rin!
- Sesshy!
- Você dormiu -ele murmurou.
- Acho que você também.
Rin não compreendia o que se passava com ela. Tinha consciência de que devia sair do sofá o quanto antes, mas uma força misteriosa não a deixava. O choque de ter acordado abraçada a Sesshy aos poucos foi sendo substituído por sensações muito diversas.
Aquele era o homem que amava. Achava agradável toca-lo, estar tão perto dele. Perceber-lhe a respiração. Podia senti-lo quente e viril. Era impossível afastar o desejo de beijá-lo. De ser acariciada, amada...
- Rin...
Seu nome soou como música nos lábios de Sesshy. Era impressão ou ele também queria beijá-la? Antes que tivesse tempo de pensar no assunto, suas bocas se uniram.
Sesshomaru soltou um gemido e estreitou-a com força. Não devia prosseguir com aquela loucura, mas Rin se mostrava tão receptiva, tão cheia de desejo quanto ele. Era impossível separar-se dela. Tanto tempo amando-a, sonhando com momentos iguais àquele e agora ali se encontrava ela agindo como se realmente gostasse dele!
- Rin... Oh, Rin...
Parecia um sonho, Rin pensou entreabrindo os lábios para a língua ansiosa de Sesshomaru. Começava a perder todo o senso de realidade para mergulhar num mundo mágico onde apenas ela e Sesshy existiam. Nunca desejava um homem com tal intensidade. E sentia que ele também partilhava seus anseios. Mas não era possível! Amava Sesshy, sim, mas ele não a amava. Esperava por uma outra mulher, como podia querê-la daquele jeito?
A lembrança de que Sesshomaru estaria pensando em Kagura naquele instante fez com que Rin perdesse todo o entusiasmo. As chamas do desejo se apagaram quando ela lembrou que Kagura era mulher dos sonhos dele. Bruscamente, afastou-se.
- Sesshy, eu...
- O que foi, Rin? -Sesshomaru a fitou confuso. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. - Magoei você?
Ela balançou a cabeça, negando. Não conseguia nem falar. Queria dizer que sim, que ele a havia magoado, mas não pelo motivo que pensava.
- Escute, Rin... - Ele sentou-se no sofá. - Não tive intenção de...
- Tudo bem, Sesshy... - Rin o interrompeu ajeitando as roupas. - Não estou culpando você de nada. Eu... eu me esqueci de Kagura, foi só.
- Acho que eu também. - Ele mentiu passando a mão nos cabelos. Céus! Como desejava tomá-la nos braços de novo. Quem sabe não seria o momento ideal para contar-lhe que Kagura era uma invenção? No meio daquela tempestade Rin não teria como fugir. Sesshomaru a fitou por alguns instantes, mas percebeu que não teria coragem. Ainda não se sentia preparado.
- Sesshy! - Rin exclamou de repente, olhando para a televisão. - Estamos com algum problema! Veja! A imagem sumiu.
- Sim, e é por isso que a sala está tão fria. Deve ter queimado algum fusível. Meu sistema de calefação é elétrico.
Rin cruzou os braços ao redor dos ombros.
- Há lenha aqui dentro da casa? Podemos acender a lareira.
- ÓTima idéia. - Sesshy entusiasmou-se. - Vou ver se encontro algumas toras no porão. Quer vir comigo ou prefere esperar?
- Vou junto. - Rin levantou-se. - Você tem uma lanterna em caso de não haver luz no porão também ?
Sesshomaru encontrou uma num dos armários da cozinha e os dois desceram ao porão. Enquanto ele procurava pela lenha, Rin constatou que havia diversos móveis guardados ali, todos protegidos com lençóis brancos. Pareciam fantasmas, pensou, arrepiando-se toda.
- Ali estão as toras, Sesshy! Deixe-me ajudá-lo.
Quinze minutos mais tarde o fogo crepitava alegremente dentro da lareira. Acomodando-se o mais perto possível do calor, Rin amaldiçoou a hora em que tivera a idéia de usar aquele vestido de lã. Era tão curto!
- Agora sim, Sesshy - disse animada. - Está uma delícia aqui junto do fogo.
Sesshomaru encontrava-se perto de uma das janelas, olhando para o jardim coberto de gelo.
- Este Natal será mesmo inesquecível - disse, voltando-se para ela. - Vou lembrá-lo para sempre.
Por causa da tempestade ou do que acontecera há pouco no sofá?, Rin ficou imaginando. Ainda sentia-se envergonhada de sua atitude ousada.
- Também não me esquecerei jamais deste Natal, Sesshy - admitiu sentindo um leve calor no rosto.
- Eu sinto muito, Rin. - Sesshomaru aproximou-se. - Queria tanto que se divertisse esta noite e agora aqui estamos nós morrendo de frio.
- Não tem importância. Sinto-me tão confortável como se o aquecimento estivesse funcionando. - Rin esticou as pernas de forma a aproximá-las um pouco mais do fogo. - E além disso, não há mais nada para fazermos esta noite a não ser dormir, não é mesmo?
Sesshomaru concordou. Na verdade tinha uma infinidade de idéias sobre o que poderiam fazer em vez de dormirem. Mas tratou de afastá-las da mente. Rin já devia estar fazendo um mau juízo dele depois daquele beijo. Um aproveitador de mulheres, ela devia estar pensando. Não, não podia piorar ainda mais a sua imagem já prejudicada. O mais sensato seria procurar remediar a situação.
- Rin, eu... - Ele passou a mão nos olhos, indeciso sobre como começar. - Você sabe, eu...
- O que houve? Suas lentes estão incomodando?
- Lentes... ? Oh, não, não. O que estou tentando lhe dizer é que... bem, espero que não tenha ficado zangada com o que aconteceu há pouco. Não planejei aquilo. Se a ofendi me...
- Não, você não me ofendeu, Sesshy. Também tive culpa. De certa forma eu o encorajei. Aliás, achei que estivesse fazendo um mau juízo de mim.
- E por que eu estaria?
Rin desviou os olhos.
- Kagura...
- Entendo. E para ser sincero, também pensei que estivesse me achando um aproveitador .
- Sesshy! - Nem passaria pela cabeça dela classificá-lo de aproveitador. - É claro que não pensei uma coisa dessas!
- Bem, você é uma mulher atraente, sedutora, e... e eu não sou de ferro, Rin.
Ela olhou para as toras queimando dentro da lareira.
- Também o acho atraente, Sesshy...
- Fico feliz... quero dizer, que não esteja zangada comigo, é claro.
- É preciso entender que a situação foi um tanto inusitada - ela disse corando.
- Sim. - Sesshy respirou fundo. - Muito inusitada.
