CAPÍTULO IX
Na manhã seguinte, Rin acordou com um delicioso aroma de café. Quando abriu os olhos, Sesshy estava diante dela com duas canecas fumegantes.
- Feliz Natal, Rin!
- Feliz Natal, Sesshy!
Eles haviam dormido na sala. Sesshy lhe emprestara uma de suas camisas novas e após ajudá-lo a empurrar o sofá para perto da lareira, passaram a noite ali mesmo. Juntos no sofá. A princípio Sesshomaru insistira em colocar um saco de dormir no chão para si, mas Rin não permitira.
- Vai passar muito frio no chão, Sesshy. E além disso, há espaço suficiente para nós dois aqui no sofá.
Depois de alguma discussão, ele acabara cedendo. Rin arrumou um travesseiro de cada lado do sofá e Sesshomaru providenciou vários cobertores. Dormiram aquecidos pelo calor da lareira, uma vez que os quartos deviam estar gelados com o aquecimento quebrado.
- Dormiu bem, Rin?
- Sim... - ela bocejou. - Já é de manhã?
Sesshomaru riu, passando-lhe um das canecas.
- São exatamente nove horas. E não está mais nevando. - Ele indicou o encosto do sofá. -Deixei um de meus robes ali, caso queira usá-lo.
Rin afastou as cobertas para pegá-lo. As pernas bem torneadas ficaram à mostra sob a camisa, e Sesshomaru não pôde deixar de admirá-las. Dormir com aquela mulher sem fazer amor, só mesmo tendo nervos de aço ou sendo muito louco. Só gostaria de saber qual dos dois seria o caso dele.
- Está tão pensativo, Sesshy. O que houve?
Sesshomaru desviou rapidamente os olhos das pernas dela.
- Nada, nada. Sinto não ser um bom cozinheiro ou teria preparado um café da manhã completo.
- O café está delicioso. - Rin tomou um gole. - E pode deixar que eu mesma farei nosso café da manhã. Será minha contribuição por todos os problemas que estou lhe causando.
- Que problemas?
- Ocupei o sofá inteiro esta noite, Sesshy. Pensa que não notei que mal se mexeu?
- Bobagem, dormi muito bem. E depois estou sempre tão sozinho nesta casa imensa que sua companhia é sempre um prazer, não um problema.
- Obrigada... - Rin sorriu satisfeita. - E hoje é Natal, Sesshy. Teve alguma notícia das ruas?
- No rádio disseram que ainda estão perigosas. Mas parece que o tempo vai melhorar à tarde. Creio que à noitinha já poderei levá-la para o seu apartamento.
- Não tenho pressa. E depois não se esqueça de que há um pato esperando por mim na cozinha, lembra-se? .
Após terminar o café, Rin vestiu-se, arranjando-se o melhor que podia. Trazia apenas um batom e um pó compacto na bolsa, mas foi o suficiente para dar-lhe um ar mais de acordo com aquele dia especial.
Os dois optaram por um café da manhã bem leve. Assim sentiriam mais apetite para o pato que Rin decidiu preparar com laranja e purê de maçã.
Por volta do meio-dia, quando o aroma de laranja começou a invadir a cozinha, ela disse sorrindo: - Meu pobre peru deve estar se sentindo tão só e abandonado lá em casa. Judiação...
- Quem sabe não poderemos comê-lo no almoço de ano-novo? - Sesshomaru sugeriu. - Isto é, se não estiver cansada de me ver pela frente, é claro.
- Sesshy! - Rin o repreendeu. - Esqueceu-se de que estará com Kagura?
- Puxa, é mesmo. - Sesshomaru sentiu que corava. Se não tomasse mais cuidado acabaria se traindo. - Esqueci-me completamente.
Ela o fitou ressabiada.
- A menos que queria levá-la à minha casa.
- Não! - Sesshomaru praticamente gritou. - Quero dizer, é melhor não, Rin.
- Você acha que... que se contar à Kagura sobre nossa amizade, porá tudo a perder?
- Indiscutivelmente - ele concordou com veemência. - Se Kagura ficar sabendo não terei a menor chance. Será o meu fim.
Rin o fitou intrigada. Às vezes estranhava as atitudes de Sesshy. Ele passava de um extremo ao outro com a maior facilidade. Num momento parecia nem lembrar-se da existência de Kagura. No instante seguinte, porém, falava dela como se conquistá-la fosse uma questão de vida ou morte.
Rin suspirou abrindo a porta do forno. E quanto a ela? O que faria a respeito de toda a situação? Entregaria de mão beijada o homem que amava a uma mulher cheia de pose que sempre o humilhara? Quem garantiria que Kagura iria gostar de Sesshy mesmo depois de vê-lo mudado? Droga! Era claro que a garota ia cair apaixonada assim que o visse!
- Um peru é sempre um peru, Sesshy - disse sem entusiasmo. - Poderemos comê-lo num outro dia qualquer, se você quiser.
Somente os dois? Sesshomaru estranhou que Rin não mencionasse Kagura. Poderia ser um bom sinal. Talvez ela começasse a querê-lo para si.
- Não vou me esquecer de cobrar esse convite, Rin. - disse, chegando bem perto dela, de propósito. - Posso ajudá-la em alguma coisa?
Rin estremeceu. Suas reações à proximidade de Sesshomaru estavam se tornando mais intensas a cada minuto.
- Eu... Não me lembro de nada no momento - disse, afastando-se. - O que vai querer para sobremesa?
- Quais você sabe fazer?
- Muito poucas. Pudim, bolo de chocolate e torta de maçã.
- Bolo de chocolate!
- No Natal? Não é uma sobremesa típica.
- E quem se importa? Adoro bolo de chocolate, mas a sra. Gaines nunca faz. Insiste em preparar pratos complicados quando prefiro coisas simples.
- Por que não a deixa saber de suas preferências, Sesshy? Deve dizer às pessoas do que gosta.
Não era necessário lembrá-lo. Sesshomaru já estava cansado de saber. Na verdade toda vez que olhava para Rin ficava imaginando qual seria a reação dela se lhe dissesse que a amava.
O almoço foi um sucesso. Com a ajuda de Sesshomaru, Rin arrumou a mesa com toda a formalidade que a data exigia: toalha de linho, porcelana inglesa, cristais e talheres de prata. Ergueram até um brinde. E ela quase podia jurar, pelo olhar intenso dele, que a mulher que sempre desejara ocupando o lugar à sua frente, na mesa, era ela.
À tardezinha, conforme a previsão, o sol saiu. Sesshy a levou de volta para o apartamento e ela o convidou para entrar.
- Tem que abrir o seu presente, Sesshy.
Ele nem pensou em discutir. Não sentia a menor vontade de voltar para casa sem Rin. O único consolo era que no dia seguinte cedo a veria no escritório.
Rin o fez sentar-se no sofá e entregou-lhe uma caixa prateada com um enorme laço de fita vermelho.
- Já sei. - Ele tentou adivinhar. - Vão saltar alguns balões daqui de dentro, não é mesmo?
- Não, Sesshy. Sei que sou meio maluca, mas desta vez é sério, eu juro.
Sesshy abriu a caixa. Sua expressão não foi apenas de surpresa quando viu o pulôver.
- É lindo! Mas gastou muito dinheiro, não devia.
Ela teve vontade de lembrá-lo de que o broche havia custado pelo menos umas dez vezes mais, mas preferiu apenas provocá-lo:
- Conheço alguém bastante rico para me emprestar algum dinheiro se eu precisar.
- E sem nenhum interesse, eu lhe garanto.
- Nesse caso não seria um bom negócio. - Rin riu colocando o pulôver na frente dele. - Este tom de dourado é exatamente o dos seus olhos, Sesshy. Gosta?
- É o presente mais bonito que eu já ganhei.
- Ora, Sesshy. - Rin dobrou o agasalho, colocando-o de volta na caixa. - É muito simples... Não se compara com ações ou dinheiro.
- É algo que se pode sentir ou tocar, Rin. - Ele acariciou-lhe suavemente o braço. - Muito diferente de dinheiro.
- Sim, mas por outro lado você poderia comprar uma dúzia de agasalhos iguais a esse, se quisesse.
- Mas não teriam sido dados por você. - Sesshomaru a fitou intensamente, fazendo-a corar. - Este é especial, Rin...
Ela prendeu a respiração. Sesshy segurou-a pelo queixo e foi se aproximando devagarinho até tocar-lhe os lábios. Sentia o coração batendo tão forte que tinha certeza de que Sesshy podia ouvi-lo. Suas mãos ardiam de vontade de abraçá-lo, mantê-lo ali pelo resto da noite, mas, antes que criasse coragem, Sesshomaru se afastou.
- Eu... eu acho melhor ir agora - falou perturbado, com a voz rouca. - Obrigado pelo presente.
Quando Rin percebeu o que se passava ele já se encontrava perto da porta, com a caixa nas mãos. Olhava-a de uma forma estranha, como se quisesse fugir dali o quanto antes.
- Amanhã cedo passo para pegá-la! - disse rapidamente, e saiu fechando a porta.
Rin sentou-se no sofá, perplexa. O que dera nele para ir embora daquele jeito? Sesshy era incrível. Tão contraditório às vezes. Havia ocasiões em que ele agia e dizia coisas próprias de um homem apaixonado. Mas por que a ela, quando a mulher que ele amava se encontrava em Nova York?!
Rin achou melhor desistir de chegar a uma conclusão ou acabaria ficando deprimida. Pouco depois Shipoo chegou para contar as novidades do Natal e Rin o convidou para ajudá-la a abrir os presentes. E ela não havia se esquecido de seu amiguinho, para quem comprara uma bola de futebol.
Na semana seguinte, Rin estava com Kanna na sala de café da Sooner.
- Alguma coisa anda errada, Rin. Que bicho mordeu você?
- Que bicho me mordeu? Como assim, Kanna?
- Seu comportamento continua estranho e já faz uma semana que tivemos a festa de Natal aqui na firma.
- Comportamento estranho?
- Ora, Rin. - Kanna perdeu a paciência. - Vai ficar repetindo tudo o que eu digo? Não adianta que desta vez não vou deixá-la fugir do assunto.
Rin deu de ombros.
- Nem sei de que assunto está falando, Kanna. E, além do mais, meu comportamento está absolutamente dentro do normal.
- Pois eu lhe digo que nunca a vi tão anormal.
Rin suspirou. A quem estava tentando enganar? A Kanna que não era. E muito menos a si mesma. Sim, estava deprimida. A chegada de Kagura e do irmão seria naquela noite. Não suportava nem pensar em Sesshomaru nos braços de outra mulher.
- Bem, para ser sincera, estou meio deprimida - admitiu com certa relutância. - Você sabe o que dizem a respeito das festas de fim de ano, não? Há certas pessoas que se sentem melancólicas nessa época do ano.
Kanna estudou-a durante alguns instantes antes de falar.
- Acho que tenho uma noção exata de quem anda sendo a causa dessa sua melancolia: aquele seu chefe. Desde a festa de Natal tenho notado que há algo entre vocês dois.
- Isso é impossível, Kanna. Você deve estar vendo coisas, não há nada entre...
- Eu sei, Rin! - Kanna a interrompeu. - Não adianta disfarçar. Vi vocês dois dançando naquela noite e lhe digo uma coisa, amiga. Minha avó ficaria escandalizada se estivesse lá.
- Ora, Kanna, francamente! Você não tem noção do que está falando. As aparências enganam, nunca lhe disseram?
-Tenho um par de olhos excelentes! O sr. Taisho mudou da água para o vinho e aposto como você foi a responsável pela transformação.
A expressão de Rin mudou.
- Ele ficou bárbaro, não achou, Kanna?
- Divino, maravilhoso! - Kanna concordou. - Nunca vi olhos tão lindos, amiga. Droga, Rin! Por que tinha de ser você e não eu a secretária dele?
Rin serviu-se de um outro café. Como dizer a Kanna que as mudanças haviam sido por causa de outra mulher e não dela? Não podia. A menos que quebrasse a promessa feita a Sesshy.
- Eu juro, Kanna - falou desanimada. - Está enganada nas suas suposições.
- Então é por isso que você anda com esta cara de quem comeu e não gostou?
Rin ensaiou um sorriso.
- Assim estou melhor? Pareço feliz agora?
- Não. Você me dá a impressão de que vai começar a chorar a qualquer momento. - Kanna envolveu-a pelos ombros e saíram as duas pelo corredor. - É a primeira vez que se interessa de verdade por um homem, não é? Apesar das aparências, sei que é uma grande ingênua. Você não sabe nada a respeito do sexo oposto. E é isto que me preocupa, querida.
- Não está me ajudando em nada falando desse jeito, Kanna.
- Só quero preveni-la, amiga. Seja cuidadosa. Já perdi no jogo do amor e não quero que passe pela mesma experiência.
Mas o amor não era um jogo, Rin pensou. E mesmo que fosse, ela não fazia parte da mesa de jogadores. Começara como professora de Sesshy, mas desconfiava que havia aprendido mais lições do que ele. Aprendera o que era apaixonar-se e descobrira que o processo, além de penoso, fazia sofrer.
Concentrar-se no trabalho durante o resto da tarde foi tão impossível quanto enganar a Kanna. Rin não pensava noutra coisa a não ser na chegada de Kagura. Quando Sesshomaru abriu a porta do seu escritório para pedir-lhe alguns papéis, ela não resistiu. Resolveu tocar no assunto, casualmente.
- Sesshy, é hoje que vai buscar Kagura e o irmão no aeroporto, não?
Ele a fitou por alguns instantes antes de responder.
- Não - falou por fim. - O irmão dela me ligou ontem à noite para avisar que só vão poder vir amanhã.
- Oh... - Rin não sabia o que dizer. - Você deve ter ficado desapontado, quero dizer, agora terão pouco tempo juntos, não é mesmo?
- Espero que não.
- Não...? - Rin sentiu um aperto no peito. - Mas Kagura vai ter que voltar logo para Nova York, não é mesmo?
Com um ar pensativo, Sesshomaru aproximou-se.
- Acredito que sim - disse, parando bem junto da escrivaninha de Rin. - Mas se tudo correr bem, espero que ela queira ficar comigo para sempre. - Pelo menos a úlTima parte não era mentira, pensou mais aliviado.
- Vai conseguir convencê-la, Sesshy - Rin forçou-se a dizer. - Tenho certeza de que vai, não se preocupe.
- Espero que sim. - Ele a tocou de leve no ombro. – E tudo graças a você, Rin... Que tal irmos ao Ricetti esta noite?
Rin levou um choque:
- Como?!
- Quer sair comigo esta noite?
- Mas... Sesshy...
- A não ser que tenha algum outro compromisso, é claro.
O único compromisso dela era com o travesseiro onde pretendia chorar até às lágrimas.
- Não, é claro que não, Sesshy! Eu adoraria ir com você ao Ricetti.
- Seis e meia, então?
- Combinado, estarei esperando.
Quando ficou a sós, a vontade de Rin foi começar a chorar ali mesmo, no escritório.
Rin olhou para Sesshomaru do outro lado da mesa e sorriu. Ele estava maravilhoso. Usava o pulôver que ela lhe havia dado e parecia tão à vontade, tão seguro de seu charme, que a fazia sentir-se como uma adolescente bobinha.
Ele mesmo encomendou as pizzas e para surpresa de Rin pediu uma garrafa de vinho tinto.
- Para comemorarmos - disse-lhe, sorrindo.
Comemorarem o quê? Rin pensou com tristeza. Só se fosse a desgraça dela. Criando coragem, falou a respeito da festa do dia seguinte.
- Não está nervoso por ter de dançar com Kagura, está, Sesshy?
- Não. - Ele a fitou, com muita emoção. - Só espero que ela entenda que tudo que fiz foi por amá-la.
Rin engoliu em seco. Havia um nó em sua garganta, uma tal pressão no peito que temia não agüentar a espera para chorar no travesseiro.
