Ela continuava andando ao seu lado em silencio, perdida nas observações e diálogos mentais que tecia com ela mesma, mas ao sair do templo e começarem a subir uma longa escadaria ela não se conteve e perguntou, "como é o seu nome?"

"Aioria – cavaleiro de leão"

Hum...então você é o cavaleiro de leão, Mu é o cavaleiro de Áries...e Shaka???

"Cavaleiro de virgem..."

"Ahn...então são 12 cavaleiros de ouro...como os signos???"

"São 12 armaduras de ouro...vocês lutaram pelas armaduras que estão sem cavaleiros"

"Porque elas estão sem cavaleiros?"

"Eles morreram em batalhas."

Ela ergueu as sobrancelhas e seguiu em silêncio o resto do percurso.

A voz saiu mais seca do que o cavaleiro esperava, mas como podia aquela garota fazer tantas perguntas sem nem conhecê-lo e porque andava ao seu lado com tamanha tranqüilidade, ele fazia parte da elite dos cavaleiros e somente sua presença já deveria ser suficiente para amedrontar qualquer um.

Ele a observava sem ser notado durante o percurso para sua casa, era pequena e franzina, com braços finos e fracos, provavelmente jamais resistiria ao treinamento, ele pensava. Era uma mulher simpática, sempre sorridente e muito observadora, seus olhos eram verdes como os dele e muito vivos, eles pareciam perscrutar a alma de seus interlocutores – ele pensou. Seu rosto era bem feito e com traços delicados, não havia como negar que era uma mulher, mesmo usando trajes bem largos e pesados que a deixavam quase masculina.

Gostava da altivez da garota, mas sabia que ela provavelmente sucumbiria...não conseguia entender porque Shaka havia permitido que uma mulher realizasse o treinamento e muito menos porque ele tinha de ser o seu mestre. Ficaria imensamente feliz se pudesse treinar aquele que usaria a armadura de seu irmão, mas...

Talvez mascara da morte estivesse certo, ali não era lugar para uma mulher.

Prosseguiram em silêncio até a quinta casa.

Ao chegar o cavaleiro apontou uma porta, "ali é seu quarto. Pode ficar a vontade!"

"Obrigada!" Disse ela timidamente entrando com suas malas e as depositando no interior do cômodo.

Era um quarto bastante simples, contava apenas com uma cama, um criado, um guarda-roupas de quatro portas com um espelho na parte de dentro da primeira porta e a janela.

"Vou ficar morando aqui com vc? Posso conhecer o resto da casa?" Perguntou, antes mesmo de pensar.

O cavaleiro coçou a cabeça meio sem jeito com a pergunta, jamais havia imaginado uma mulher morando com ele na casa de leão... ora que bobagem, ela era uma aprendiz e não uma mulher... não entendia a sensação estranha que a pergunta havia provocado nele.

Resolveu mostrar a casa à garota.

A casa de leão era bastante ampla, no entanto sua mobilia era simples e confortável. A sala era grande com uma enorme janela e uma linda vista, um jogo de sofás claros e uma mesinha de centro.

A cozinha tinha uma grande mesa de refeições, com uns 8 lugares, e cheia de armários com todo o tipo de coisa.

Após a cozinha vinham os aposentos dos criados.

No lado oposto do corredor onde ficava seu quarto era o banheiro. No final do mesmo corredor ficava o quarto de seu mestre, que somente apontou a localização do aposento.

Estava tarde e tinham passado todo o dia na seleção, ambos estavam famintos.

"Hummm... estou morrendo de fome! Vc já jantou? Se importa se eu preparar um sanduíche pra gente?!"

Havia se esquecido que a seleção poderia demorar e dispensado os criados, lembrou-se que realmente estava com fome, o cavaleiro assentiu com a cabeça e a garota sorriu, se dirigindo à cozinha!

"Pode ir se trocar que vou preparar o lanche pra gente!" – disse sorrindo

"Como assim me trocar???" O cavaleiro perguntou atônito com tamanha invasão

"Ora eu vou morar aqui e você também, vai andar o dia inteiro de armadura ou vai colocar o seu pijama para lancharmos e dormirmos! Amanhã vou acordar bem cedo para o treinamento, e tenho mais algumas perguntas que quero fazer ao Mu!" Ela dizia sorrindo enquanto começava a investigar o que havia na geladeira que ela poderia usar nos sanduíches.

Por Zeus, pensou o cavaleiro, esta garota é louca! Como ousa falar assim comigo, eu não vou andar de pijama perto dela, se bem que é minha casa... como assim ela conhece o Mu... e ainda tem um monte de coisas para perguntar... o cavaleiro foi surpreendido pelas mãos da garota em suas costas o empurrando para o quarto!

"Pode ir se trocando, acabo aqui num segundo!" Ela disse empurrando-o pelo corredor.

Será um longo treinamento, pensou ele fechando a porta do seu quarto!

Estava mesmo precisando de um banho...olhou para o pijama meio sem jeito de vesti-lo e sair pela casa...estava acostumado com a presença das servas e até esperava por um aprendiz, mas uma garota!?

Não sabia direito o que fazer, mas do jeito que a garota era abusada era bem capaz de invadir seu quarto se ele não saísse para o lanche, e sua barriga já estava roncando de fome.

Vestiu o short preto que lhe servia como pijama e colocou uma camiseta para não se sentir tão embaraçado e foi para cozinha.

Sua aprendiz terminara de preparar os sanduíches com tudo o que achou na cozinha e pegou um suco que estava pronto na geladeira e foi tomar seu banho, quando saiu percebeu que seu mestre ainda estava trancado no quarto...como ele demora! Ela pensou sentindo a barriga roncar de fome...

Quando saiu do quarto Aioria se deparou com sua aprendiz de cabelos molhados e trajando um robe florido que cobria seu pijama e deixava à mostra suas pernas claras e seus braços. Ela estava muito feminina assim, ele não pode deixar de reparar, e parecia ter um corpo muito bonito que ficava escondido por baixo de sua roupa de treinamento. Ela tinha um cheiro bom, cheiro de mulher...não aquele cheiro comum de solidão que sempre sentia quando entrava em casa...

"Já está pronto!" Ele se sobressaltou com a frase que o tirou de seus devaneios antes que eles pudessem fazê-lo corar.

"Vem já fiz os sanduíches, Aioria!"

Como assim, ela já o chamava pelo nome, todos no santuário o chamavam por cavaleiro, ou mestre, mas pelo nome...só seus companheiros de ouro o chamavam assim...essa garota era muito abusada! Ia ralhar com ela e exigir que ela lhe chamasse de mestre, mas ela já estava sentada com um sorriso e um jarro de suco esperando por ele na mesa.

Amanhã converso com ela, pensou...hoje será seu primeiro dia e talvez o único por aqui...vou tentar ser gentil.

Ela o observava enquanto vinha se sentar à mesa com ela. Ele é realmente muito bonito, pensou, mais ainda sem a armadura, parece um rapaz comum trajando seu short de dormir, muito mais acessível do que com aquelas vestes formais e aquela expressão sisuda. Nashira riu dos próprios pensamentos enquanto acompanhava com os olhos Aioria até a mesa.

Eles conversaram um pouco sobre frivolidades, como a vida no santuário, os treinamentos, as classes de cavaleiros. Ela era muito curiosa e tinha uma conversa muito agradável então rapidamente os dois conversavam de forma animada como velhos conhecidos.

O sanduíche estava bom e o suco também, ambos estavam satisfeitos e se levantaram para ir dormir.

"A que horas vc quer que eu esteja pronta?"

"Pronta???"

"É, para o treinamento!"

"As seis está bom!"

"ok então, boa noite Aioria!" A garota se levantou se despedindo com um leve abraço de boa noite no cavaleiro e seguiu para o seu quarto. O cavaleiro ficou parado sem entender aquele gesto olhando incrédulo para a porta fechada. Como assim um abraço de boa noite, essa menina é louca, ela está aqui para treinar e não para distribuir afagos...pensou o cavaleiro antes de se dirigir ao seu quarto.

Deitou-se na cama e se lembrou do abraço de boa noite, fazia muito tempo que não era abraçado...talvez desde que seu irmão morreu...adormeceu pensando nisso.

Nashira chegou ao seu quarto pensando na agradável noite que tivera conversando com seu mestre, desejou sinceramente que se tornassem bons amigos, não sabia explicar porque mas já havia se afeiçoado a ele, achou a sensação estranha já que não era de se apegar às pessoas.

No dia seguinte, Aioria saiu do quarto às seis em ponto...certamente teria que acordar sua nova aprendiz.

Refletiu bastante durante a noite e acabou concluindo que tentaria dar o pior treinamento possível para que ela desistisse logo daquela insanidade de lutar pela armadura de ouro e voltasse para casa, ela não parecia ser má pessoa, mas ali não era lugar para ela, ela era só uma menina e iria acabar se machucando!

Ao sair do quarto se deparou com uma pessoa totalmente diferente da noite anterior. Ela já estava vestida com uma roupa de treino, bem similar à dele o aguardando para o café da manhã. Ao olhar para ela não era mais tão fácil dizer que se tratava de uma mulher, exceto por sua baixa estatura e leves contornos vistos através das roupas folgadas e grossas que usava.

"Bom dia Aioria!" Ela sorriu ao ver o mestre!

"Vamos tomar café e iniciar o treinamento?" – ela perguntou.

Ele ia sorrir de volta, mas lembrou-se que havia se comprometido a ser duro com ela para que desistisse e voltasse para casa. Não a conhecia direito, mas gostava dela, não queria vê-la machucada.

"Eu disse as seis horas e já são seis horas. Se queria tomar café deveria ter acordado mais cedo!" Disse ele bruscamente sem fita-la.

"Mas eu pensei... ela interrompeu a frase e sua fisionomia se tornou triste... tinha acordado mais cedo para preparar nosso café e estava te esperando." Ela disse. Ele olhou para a mesa e seu coração doeu, ela havia feito um ótimo desjejum para os dois e estava sentada aguardando por ele sem tocar em nada, provavelmente estava acordada há mais de uma hora.

"Desculpe, meu engano" disse simplesmente. "Já podemos começar o treinamento" se levantou e se dirigiu à porta sentindo que este seria um longo dia e que não poderia fraquejar. Poderia estar sendo testada, e ainda estava de estômago vazio.

Ele olhou incrédulo. Esperava um protesto por parte dela, se sentia péssimo pelo modo com que a estava tratando, mas tinha de se manter firme em seu proposito.

Talvez estivesse enganado sobre ela, pensou, talvez ela fosse mais forte do que ele imaginava...mas mesmo assim estava resolvido. Ela iria embora naquele dia! Ele cuidaria disso!

No caminho para o campo de treinamento ela viu Mu e acenou para o cavaleiro que correspondeu ao cumprimento. "Aioria, depois do treinamento posso conversar com Mu?" ela perguntou, tirando-o subitamente de seus pensamentos sobre o treino daquele dia. "Se ele quiser conversar com você!" ele respondeu bruscamente. "Poxa alguém está de mal humor hein!" ela exclamou. Ele apenas franziu o cenho e continuou andando sem fita-la.

Pararam diante de um lago enorme, o cavaleiro olhou para ela com um brilho estranho nos olhos que a fez gelar.

"Vamos começar o aquecimento, cinco voltas correndo ao redor do lago." Disse simplesmente. Ela olhou incrédula o tamanho do percurso do aquecimento, seria mais fácil contornar a praia, ela pensava, mas não iria voltar atrás, uma armadura seria sua de qualquer jeito!

Se alongou com calma e cuidado e começou a correr, ganhando velocidade pouco a pouco, já estava na terceira volta e completamente exausta, nunca mais esperaria Aioria para o café, pensava, estava se sentindo tonta de tanto esforço.

"Mais rápido" gritou ele, "eu disse para correr e não para passear".

Ao ouvir aquilo seu sangue ferveu, onde estava o homem gentil que ontem havia jantado com ela? Começou a correr o mais rápido que pode e completou as cinco voltas. Estava ofegante e com as mãos apoiadas nos proprios joelhos enquanto tentava respirar mais devagar e se recuparar da tontura que sentia por estar de estômago vazio, controlou sua respiração antes de olhar seu mestre e perguntar com um forçado desdém, "estou aquecida! Podemos começar?".

"Claro!" Debochou vamos começar com algumas flexões, que tal 100???Ele disse em tom de escárnio, sabia que ela jamais aguentaria tantas flexões com aqueles braços frágeis.

Ela começou as flexões sem reclamar, não podia fraquejar agora, não podia...

Terminou a série de flexões e já não sentia mais os braços de tanta dor.

"Pronto, mais alguma coisa?" Ela disse sem deixar transparecer sua agonia.

"quinhentas abdominais". Ele disse friamente.

Quinhentas????Ela estava ouvindo certo Quinhentas???? Arregalou os olhos sem emitir qualquer ruído. "E conte alto, por favor" ele disse e virou as costas.

Ela gritava os números ao subir o tronco já quase sem ar, já estava no nº. 287 e não sabia por quanto tempo ia agüentar sem desmaiar.

Foi quando viu shaka a olhando atentamente e de forma incrédula.

"Aioria!" Ele o chamou. Aioria se afastou enquanto ela prosseguia com os exercícios.

"O que pensa que está fazendo? Esta menina está quase desmaiando!"

"É bom que ela volta pra casa e não se machuca!" Aioria respondeu com um semblante sereno.
"Será que você está virando um idiota Aioria!" Perguntou shaka irritado.

"Eu esperava esta atitude do Mascara mas de você! Então essa loucura é para que ela desista! Não é justo que você simplesmente aplique um treinamento ao qual nenhum dos demais aprendizes está sendo submetido só para que ela desista. você não acha que seria justo que ela pelo menos tivesse a chance de tentar lutar por uma armadura?"

Aioria não queria pensar sobre aquilo, estava tão preocupado com seu próprio mal-estar e orgulho ferido em ser designado para treinar uma mulher, que não percebera que talvez tivesse um bom discípulo. Ele coçou a cabeça um pouco envergonhado pelo modo como estava agindo...

Mas Shaka ela é uma mulher, e é tão frágil...

Shaka a olhou enquanto fazia os exercícios quase sem fôlego, mas persistindo para que ninguém percebesse seu cansaço...

"Aquilo lha parece fragilidade??? Ele disse apontando-a com a cabeça. Para mim parece dedicação." Shaka completou

Aioria olhou a cena e se lembrou que nenhum dos dois tinha tomado o desjejum, ele já estava com fome imaginou como ela estaria se sentindo após realizar tantos exercícios...e ainda estava lá cumprindo as séries que lhe eram determinadas. Ficou parado e pensativo por alguns instantes.

"Talvez você tenha razão, vou deixar que as batalhas falem por si só." Aioria disse meio sem jeito...

"Lembre-se que se você não acreditar nela, ninguém mais vai, veja seu potencial, veja apenas o aprendiz e não a garota. você consegue fazer isto??? Vc melhor que ninguém sabe como é ser discriminado, não é agradável é???"

Aioria deu as costas ao amigo, olhando a menina faminta que gritava 395, enquanto continuava seus exercícios.

Será que shaka estaria certo, e ele estava agindo com ela como agiram com ele quando era mais novo e fora tachado de "irmão do traidor". Aioria se perdeu por um tempo em seus pensamentos.

450! Gritou a garota erguendo o tronco do chão com uma expressão sem vida e tirando Aioria de seus devaneios e lembranças.

Aioria se despediu do amigo com aceno e retornou para perto de sua discipula.

"Está Bom!" Disse Aioria secamente.

"Pode se levantar e vamos para segunda parte do treinamento."

Ao ouvir estas palavras ela se sentiu tonta, sequer tinha forças para se levantar, como conseguiria continuar com aquela insanidade! Sentou-se devagar sentindo-se completamente zonza pelo esforço excessivo e pela fome, respirou profundamente e ergueu-se do chão devagar sem fitar seu mestre e apenas disse "ok!".