"Está Bom!" Disse Aioria secamente.

"Pode se levantar e vamos para segunda parte do treinamento."

Ao ouvir estas palavras ela se sentiu tonta, sequer tinha forças para se levantar, como conseguiria continuar com aquela insanidade! Sentou-se devagar sentindo-se completamente zonza pelo esforço excessivo e pela fome, respirou profundamente e ergueu-se do chão devagar sem fitar seu mestre e apenas disse "ok!".

"Mas antes vamos passar em casa e tomar nosso desjejum", ele disse em tom mais cordial.

Ela sorriu discretamente, não sabia quanto tempo mais poderia se manter de pé de tanta fraqueza, concordou com a cabeça e seguiram de volta em silêncio.

Ao chegar em casa o cheiro do café que ela havia preparado ainda estava no ar, e a mesa continuava posta enquanto as criadas arrumavam a casa.

Ai que fome!!! Pensou...

Mais que depressa se sentaram na mesa e começaram a comer. Ela estava exausta, comeram em silêncio. Todos os músculos de seu corpo latejavam...

Já mais satisfeita Nashira seguiu seu mestre a uma sala, que parecia uma sala de aula. Ali eles passariam a tarde, ele disse que explicaria mais coisas sobre o santuário os cavaleiros e os treinamentos. Ela estava muito feliz, ele parecia menos zangado...será que ele tem mau-humor matinal??? Pensava enquanto olhava intrigada a figura de seu mestre.

Após uma longa tarde, onde parte de sua curiosidade sobre o santuário e o treinamento que receberia havia sido saciada estavam voltando para casa.

Foi quando ela avistou Mu e mais que depressa se virou para seu mestre indagando "posso falar com ele?" ele assentiu e ela sumiu correndo pelo caminho! Como conseguia mudar de personalidade de um aprendiz de cavaleiro compenetrado para uma criança faceira de forma tão rápida...ele pensava enquanto ria sozinho caminhando para casa.

Nashira conversou bastante com Mu lhe explicando que precisava aprender a erguer uma defesa forte o bastante para que ela ficasse protegida enquanto desveria seu golpe, Mu disse que a ajudaria na medida do possível. Ela agradeceu sinceramente com a certeza que ali teria início uma bela amizade. Despediu-se depois de conversarem algumas banalidades e combinarem os melhores horários para a preparação de sua defesa e ela voltou para casa.

Algum tempo depois ela chegou na casa de leão muito sorridente, Aioria não se conteve e perguntou o que era "ele vai me ajudar com meu golpe!" disse simplesmente.

Aioria não entendeu direito, mas riu da cara feliz da garota. Avisou que ela fosse se trocar pois os criados já estavam na cozinha e a janta estaria pronta em breve.

Ela se dirigiu ao banho mais que depressa, não via a hora de se lavar de toda aquela poeira e cansaço do dia e se preparar para o próximo treinamento, mas no dia seguinte tomaria café da manhã, isto com certeza!!!

Estava exausta, suja e toda dolorida, não sabia como iria agüentar mais um dia, mal conseguia levantar os braços para lavar os cabelos depois dos exercícios que fez naquela manhã. Ao fechar o chuveiro percebeu que foi tão depressa para o banho que esquecera de levar a roupa...provavelmente ninguém vai me ver se eu passar bem depressa para o quarto enrolada na toalha...pensou.

Saiu depressa do banheiro enrolada na toalha de banho, sem nem perceber alguém que estacou na porta do quarto enquanto ela passava.

Aioria estava se dirigindo para a sala quando viu um pequeno vulto de toalha correndo pela casa, riu sozinho pensando como ela era diferente vê-la em casa com os cabelos soltos e úmidos e quando se vestia para treinar, onde facilmente seria confundida com um garoto pelos menos atentos.

Ela estava enrolada em uma toalha branca, com os cabelos molhados e soltos e descalça. Aioria lembrou-se de que provavelmente por baixo da toalha não estava usando nada...

Sacudiu a cabeça afastando tais pensamentos e minutos depois viu sua aprendiz saindo do quarto com o mesmo robe do dia anterior para o jantar.

"Estou morrendo de fome!" Ela disse sorrindo, ele sorriu e disse "ainda bem que hoje já temos a janta pronta não é!?"

"Ah se vc estiver reclamando dos meus sanduíches não preparo mais!" Ela disse brincando, o cavaleiro apenas sorriu e negou com a cabeça.

Ela conseguia fazê-lo rir com facilidade coisa que ninguém jamais havia feito depois que ele perdera seu irmão...

Sentaram-se e jantaram fartamente, conversaram um pouco mais sobre as pessoas do santuário e os cavaleiros de ouro...Aioria lhe contava sobre as personalidades peculiares de cada um dos cavaleiros e ela se divertia com os pormenores que ele acrescentava com prazer ao som daquela risada solta.

Ela foi dormir dolorida e teve uma noite de sono profundo, já não sabia se de felicidade por estar realizando seu sonho ou se de cansaço, pois estava com o corpo completamente exausto.

No dia seguinte Nashira acordou bem cedo para tomar seu café, mas sentia todos os músculos doloridos e não conseguia se mover direito, caminhar já estava sendo um suplicio. Tomou seu café em silencio e seguiu Aioria para o campo de treinamento, ele apenas a observava intrigado. Não entendia porque ela estava tão calada e com um ar indisposto, era apenas seu segundo dia de treinamento.

Quando começou o aquecimento Aioria percebeu que ela devia estar sentindo muito dor em razão do treino excessivamente pesado do dia anterior, achou melhor maneirar nos exercícios e trabalhar mais com alongamentos "pelo menos até que o corpo dela se acostume", ele pensou.

Começou a ajudá-la a se alongar com intuito de evitar que ela acabasse se contundindo com os treinos físicos.

Nashira se continha enquanto permanecia com as costas encostadas no peito de Aioria que lhe puxava o braço esquerdo para o lado direito e depois fazia o mesmo movimento com o outro braço, puxando-o para o lado contrario. Era uma sensação estranha estar tão próxima dele assim, uma experiência que ela jamais tinha tido e que lhe parecia muito fascinante naquele momento. Terminados os alongamentos dos braços Nashira se afastou do corpo de Aioria com certo pesar que ela não podia demonstrar. Era diferente para ele ter que auxiliar uma mulher em tais exercícios, se sentia um pouco embaraçado com a proximidade deles, mas jamais poderia demonstrar isso, afinal era apenas mais um discípulo e ele tinha que parar de ter aquele tipo de pensamento ou constrangimento, Aioria refletia apos termino do alongamento.

As semanas iam se passando e definitivamente aquele clima amigável havia se instalado entre ela e Aioria. Rapidamente ela foi melhorando sua forma física e adquirindo mais conhecimento sobre a vida e rotina dos cavaleiros, bem como seu código de ética e sua postura estóica perante as dificuldades.

Após um estafante treinamento ela permanecia sentada no chão, calada. Estava com câimbras terríveis nas pernas e não conseguia se levantar.

Aioria percebeu que ela permanecia imóvel e foi ver o que houve.

- Nashira vamos pra casa? Ele perguntou.

- Ah claro, ela respondeu sem jeito. Pode ir na frente que eu já te alcanço...ela disse bastante encabulada.

Aioria foi seguindo o caminho de volta, mas achou aquela atitude dela muito estranha, observou que ela mexia nas pernas e as socava de forma frenética. Acabou decidindo voltar e se aproximou dela sem que ela percebesse.

- Ei, o que foi? Aioria perguntou bem perto dela observado atentamente a cena.

Ela corou.

- Estou com cãimbra, ela disse tristemente.

Aioria sorriu. E posso saber por que você não me falou? Aioria perguntou.

- Fiquei com vergonha.

Aioria riu mais ainda se sentando de frente para ela e começando a massagear suas pernas.

É normal ter câimbra depois deste exercício, vc sabe por que sentimos câimbras? Ele perguntou. Ela fez que não com a cabeça enquanto ele lhe explicava que era o acúmulo de ácido lático nos músculos e como fazer para se livrar daquela incomoda sensação.

Aioria continuava conversando com ela e massageando suas panturrilhas com as duas mãos, primeiro a perna direita e depois a esquerda. Passou a massagear as suas coxas, havia se esquecido que se tratava de uma mulher, coisa que só se deu conta ao perceber seus contornos arredondados que ele apertava tentando ativar a circulação e diminuir seu desconforto.

Aioria ficou desconcertado, mas achou melhor continuar em silencio o que fazia, tinha que se esquecer que era uma mulher e tratá-la como um aprendiz.

Depois de alguns minutos olhou para ela, que estava estática sentada no chão.

- Melhor?

- Sim, obrigada! Ela respondeu sem encará-lo e se levantou.

Os dois seguiram para casa em silêncio.

Ela estava muito envergonhada, jamais tinha sido tocada por um homem, claro que aquilo era apenas uma massagem para que suas câimbras passassem, mas... ela não podia negar que aquele toque despretensioso de Aioria tinha despertado nela muitas sensações que lhe eram desconhecidas e ela estava bastante envergonhada de se sentir assim por causa dele.

Aioria lembrava-se do contato com ela, aquele contato tão impessoal e ao mesmo tempo tão íntimo. Ainda não se acostumara a treinar uma mulher e acabava se esquecendo disso as vezes, e quando se lembrava já estava em alguma situação constrangedora como aquela. Tinha que esquecer que se tratava de uma mulher e tratá-la simplesmente com um aprendiz, mas simplesmente não conseguia...