Fazia quase um mês que ela estava ali e já conseguia se sentir em casa com Aioria, eles estavam jantando e conversando sobre tudo o que lhes vinha à mente, como de costume. Aioria estava contando a história de Saga e Kanon e a garota ria incontrolavelmente dos detalhes sórdidos e insinuações de uso de medicação controlada que o cavaleiro de gêmeos fazia.
De repente ela olhava fixamente para ele, " E vc? qual é a sua história?"
Ele paralisou, estava ali sendo inquirido sobre sua historia, mas não queria lembrar da morte do irmão, da solidão dos treinamentos e do pesar ao saber que não confiou nele quando o acusaram de traidor... seus olhos ficaram tristes e ele se calou.
Ela ficou sem jeito percebendo a situação e apenas se desculpou pela indiscrição. "Acho melhor irmos dormir não é mesmo!", disse ela de forma simpática tentando quebrar o silencio que se instalara desde a sua ultima pergunta.
"Sim eu também acho", ele concordou simplesmente.
"Boa noite!" Ela se levantou e se dirigiu para o quarto, sem dar-lhe o costumeiro abraço de boa-noite e sem lançar qualquer olhar interrogativo.
Talvez ele houvesse criado uma muralha entre eles. E não sabia bem como desfazer aquilo.
Mais de duas semanas haviam se passado desde o incidente no jantar. Ela ia muito bem no treinamento, assimilava todas as informações muito rápido, se saia bem em todos os treinos físicos e de força. Era estranho pensar que alguém tão pequeno pudesse suportar tanto.
Sempre faziam todas as refeições juntos, onde conversavam e riam, mas algo estava diferente. Ela nunca mais perguntara nada sobre ele. Não que não quisesse saber, mas havia percebido que ele havia imposto um limite a intimidade deles e ela não tinha o direito de ultrapassá-lo.
Naquela noite ele não estava conseguindo dormir, nunca estivera tão próximo de alguém e ao mesmo tempo tão distante. Lembrava-se do seu sorriso e seu jeito de menina, dos abraços de boa noite e daquele robe florido que o acompanhava no jantar, aquelas flores estampadas que faziam sua imaginação voar adivinhando o que esconderiam.
Não devia estar novamente pensando aquilo, ela era sua responsabilidade, sua discípula. Não devia sequer vê-la como uma mulher. Mas não podia deixar de lembrar dela saindo do banho enrolada na toalha, seus cabelos molhados espalhados pelos ombros, aquela camisola indecifravel que se escondia atras do robe todas as noites, das formas do corpo dela que apenas se insinuavam debaixo das roupas que usava, do seu cheiro de mulher que se espalhava pela casa e deixava Aioria enebriado.
Cansado de rolar na cama ele se levantou e caminhou para a sala, talvez precisasse de um pouco de ar.
Ao chegar suspirando pesadamente assustou-se com a figura que viu debruçada à janela...o que ela fazia ali aquela hora da noite???Pensou.
Antes que pudesse sair sem ser notado ela já estava a fita-lo "sem sono também?" perguntou despretensiosamente.
"sim" ele continuou andando disfarçando a surpresa e se debruçando junto dela no parapeito da enorme janela da sala que dava para a varanda da casa.
"Gosto de olhar as estrelas, elas sempre me acalmam" ela disse com um olhar distante.
"Porque decidiu se tornar um cavaleiro?" a pergunta saiu antes que ele pudesse pensar e tão rápido quanto ele se arrependeu de te-la feito.
Um pouco constrangido Aioria ia dizer que não precisava responder, mas ela suspirou e começou falando de forma serena.
"Sempre me senti um pouco deslocada, sabe? Não gostava das brincadeiras das outras crianças, estava sempre defendendo as mais fracas e nunca me conformei em ver pessoas sofrendo. Como não tinha ninguém me disseram para eu vir para cá e tentar trabalhar como serva, mas jamais conseguiria servir alguém. Acabei trabalhando como carregador em uma venda, mas comecei a crescer e logo perceberiam que eu era uma garota. Parece que não acreditam muito no nosso potencial por aqui, era muito dificil pra mim conseguir empregos que me garantissem o sustento. Não tenho ninguem então tinha que ganhar o suficiente para pagar uma casa decente e minha alimentação. Jamais me sujeitaria a nenhum homem por necessidade. Vim para cá quando tinha uns quinze anos, mas me disseram que se eu quisesse me tornar uma amazona deveria cobrir meu rosto e me esquecer que sou uma mulher. Sempre tive muito orgulho de ser uma mulher e de poder fazer qualquer coisa que qualquer homem faz. Como as mascaras foram abolidas tentei de novo, e desta vez consegui e não pretendo ir embora, quero me tornar um cavaleiro e lutar pelo que eu acredito. Acho um absurdo tentarem me impedir porque eu sou mulher, ora, Athena não é uma mulher!!!"
Ele ficou parado olhando aqueles olhos doces, eles pareciam bastante decididos e ele se sentiu envergonhado ao se lembrar do primeiro dia de treinamento em que pensou em fazê-la desistir por ser uma mulher.
- Quantos anos vc tem? Ele perguntou achando graça que alguém tão jovem narrasse as coisas como se tivesse vivido tanto.
- Vinte! E vc?
- Vinte e cinco.
Nashira olhou para ele achando graça. Então estava certa quanto a idade dele quando se conheceram.
Aioria se sentia estranho perto dela, ao mesmo tempo em que a via como um igual, um cavaleiro destemido que poderia lutar ao seu lado, tinha uma enorme necessidade de protegê-la e se sentia completamente enfeitiçado por seus olhos, seu corpo e seu cheiro... Nunca sabia definir ao certo se via uma mulher, uma menina, ou um cavaleiro quando olhava para ela... talvez ela fosse um pouco dos três pensava...
Suspirou longamente, finalmente começava a conhecer a história daquela com quem passava tanto tempo junto e sentia-se mais à vontade com ela após perceber as feridas de sua alma, coisas que ele mesmo conhecia tão bem. Talvez fosse uma boa hora para curar suas próprias feridas do passado...pensou
Olhou para o céu e começou a falar devagar, quase como se conversasse com ele mesmo...
"eu vim pra cá com meu irmão quando meus pais morreram"
Notou o olhar de surpresa dela, mas ela não fez nenhuma pergunta e deixou que ele continuasse em seu tempo e sem nenhuma interrupção...
Quando notou já estava falando sobre seu irmão e seu treinamento, sobre sua solidão e seus medos...era delicioso e assustador perceber o quão confortavelmente ele podia se abrir com ela.
No final de seu relato ela estava apenas o observando, seu olhar era de compreensão. Ele sentiu um calor ao fitar seus olhos, se sentia confortável com ela. Finalmente os segredos entre eles começaram a deixar de existir e eles podiam falar livremente de seus sentimentos e pensamentos mais íntimos.
Ela se virou e o abraçou de forma terna, aquele abraço demonstrava compreensão, identificação, carinho.
Ele não se lembrava de quando se sentiu tão acolhido, e retribuiu o abraço enlaçando-a pela cintura.
Se sentia calmo e seguro nos braços dela, uma sensação bastante estranha para alguém que sempre foi tão forte e auto-suficiente, sentia um calor gostoso que emanava do corpo ela, aquele cheiro suave dos seus cabelos... enquanto se abraçavam ele enlaçou sua cintura com mais força, trazendo-a mais para perto de si, podia sentir as curvas de seu corpo por baixo da camisola e do robe, abaixou-se um pouco ficando mais proximo ao seu pescoço para sentir seu cheiro, apreciar seu corpo...ela tinha um cheiro bom, seu corpo perto do dele parecia ser tão convidativo com todas aquelas curvas e sinuosidades, sua cabeça já estava começando a perder-se naquele corpo tão macio e quente e naquele contato são terno e meigo, quando de repente ela se afastou.
Ele ficou parado confuso, sem saber o que estava fazendo, ela o olhou ternamente e disse "acho melhor descansarmos para o dia de amanhã". "boa noite, Aioria" e foi para o seu quarto. Ele não conseguiu mais dormir, não conseguia deixar de lembrar daquele cheiro tão suave e daquele calor tão acolhedor que emanava do corpo dela.
Talvez se ela tivesse ficado ali mais um instante ele teria se perdido definitivamente e se entregue totalmente ao desejo que vinha crescendo dia a dia dentro dele...
Não podia pensar aquilo, não estava certo. Era melhor esquecer o que havia se passado e retomar a rotina de treinamentos, ela sonhava em se tornar um cavaleiro, ele iria ajudá-la a conquistar este sonho!
Após desvencilhar-se dos braços do cavaleiro ela deitou-se pesadamente na cama e adormeceu, fazia muito tempo que não se sentia segura como se sentiu naquele momento... era uma sensação tão boa, tão estranha. O corpo dele era másculo e definido, e ao mesmo tempo seu contato tão gentil e cuidadoso. Tinha certeza que se continuasse ali acabaria se traindo. Era melhor se afastar um pouco, pois não queria estragar aquele momento, e ficar ali tão perto dele a recordava que ela nunca poderia tê-lo, não como desejava...era melhor dormir e aproveitar o que poderia ter...sua amizade.
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Annely e Nicka l OBRIGADA pelas reviews. Valeu demais pelo incentivo queridas!!!
Estou postando pelo menos 1 capítulo por semana... vamos ver se esse romance engata de uma vez...risos.
Ah Nicka l, daqui a pouco continuo Broken... já estou trabalhando nisso só falta mais um pouquinho de inspiração...
Bjus,
