"Não"

"Lily, seja racional..."

"Eu estou sendo racional" argumentei, quase batendo o pé no chão. Será que Alice não conseguia entender que não, eu não podia emprestar a ela nem meio centavo para o encontro com o Frank? "Você compra o presente do seu namorado e eu fico sem nada para dar ao meu"

Ela revirou os olhos, e eu pude pegar as entrelinhas. Algo como 'Você está sendo ridícula e egoísta'.

Embora Marlene tenha usado a palavra 'avarenta', claro.

"Lily" ela começou de novo – acho que era a vigésima sétima vez – passando as mãos pela franja lisa. Esse movimento, Marlene e eu aprendemos com o tempo, significava impaciência e desespero "Você tem, tipo assim, quarenta e sete mil galeões. Eu mal tenho meio".

Odeio hipérboles.

"E não faça essa cara. Você é a pessoa mais hiperbólica que eu conheço"

Eu bufei, agora sim ficando impaciente. Alice tinha que entender que meu namorado era o carinha mais-rico-ever e que eu precisava dar o melhor-presente-ever para ele.

Não que Frank fosse pobre, mas é como dizem por aí – cada um por si.

"Aliiiiice, pleaaaaaaase" pedi, mais ou menos como se os papéis estivessem invertidos. O pior de tudo – de tudo mesmo – é que, se ela pedisse mais uma ou duas vezes, eu ia emprestar.

Isso que dava ter coração fraco.

"Eu preciso dar o melhor-presente-ever para os Potter me aceitarem"

Alice voltou a revirar os olhos, mas dava para ver que ela não iria me pedir mais porque havia aceitado minha desculpa. De tanto que nós já conversamos sobre isso, Alice acreditava totalmente nesse medo irracional meu.

"Certo, Lily" ela disse, levantando-se da cama "Mas, depois que o Natal passar e você estiver cheia de roupas novas e tudo o mais, com um namorado comendo na sua mão, você vai me dar metade do que sobrar."

Eu fiz que sim, obediente, deixando meus olhinhos brilharem em agradecimento.

Metade de zero era nada.

**********

Mas, surpresa das surpresas, eu ainda não tinha um presente. Quer dizer, o que um cara como James Potter – que tinha uma capa da invisibilidade, mais do que o dinheiro que Alice tinha exagerado, e uma casa do tamanho de Hogwarts somado com Durmstrang – podia querer?

Era disso que eu não fazia a menor idéia.

"Por favor, Sirius"

"Não"

"Pleaaaase"

"Isso não funciona comigo. Nem adianta colocar esses olhinhos brilhantes aí que eles só funcionam com o James e suas amiguinhas."

Eu fiz biquinho.

"Lily" ele começou, sorrindo aquele sorriso debochado de 'Eu sou o melhor e sei disso' "Eu não vou ceder a isso"

"Mas, Sirius" eu comecei a protestar, agora sim batendo o pé no chão. Se Alice não me tirava um pouco do sério, ele tirava "Você-é-amigo-dele"

"Você-é-namorada-dele"

"Mas você é amigo há mais tempo que eu sou namorada"

Ele soltou mais um sorrisinho debochado, encostando-se na parede do castelo. Na saída da aula de alguma-coisa – eu dormira nessa também – eu puxei Sirius para um canto, escondendo a gente em um dos armários em que eu já o pegara com Marlene um dia desses. Estava há – sem sacanagem ou sem hipérboles – uma hora e vinte e sete minutos tentando convencê-lo a me dar uma dica para o presente do James.

Mas, dãã, ele era Sirius Black.

"Acho que foi você que não quis, Lily"

"Sirius!"

"Sim?"

Eu aumentei meu biquinho.

"Eu estou desesperada" continuei, jogando meu cabelo para trás para que ele pudesse ver meu desespero. Mas, bom, ele só sorriu de novo e jogou o dele para trás, fazendo uma expressão afetada.

Mais ou menos que nem a minha.

"Olha só como a família do James é aterrorizante" endireitei meu corpo, até deixando a minha mochila pender para o lado para ele ter uma idéia melhor do meu medo. Treinei por séculos essa pose no espelho e, com James, ela funcionava "São, tipo assim, os bruxos mais ricos da Inglaterra. A Senhora Potter deve ter tudo quanto é coisa que ela quer e o senhor Potter três ou quatro carros na garagem e..."

"Carros?"

"Por Merlin, eles agüentam vocês dois juntos! Eles são aterrorizantes, Sirius."

Ele, dessa vez, riu.

Eu, quase pensando em me tacar da torre de astronomia, e ele rindo.

Mundo cruel, esse.

"E o que exatamente os pais do James têm a ver com o que o James vai receber?"

Certo, tinha momentos em que eu, sinceramente, não entendia como ele passava de ano.

"Pensa comigo" voltei a pedir, a mochila pendendo mais um pouco. Por que aquilo não estava funcionando? "Eu sou nascida-trouxa. Eles são sangue puros. Eu sou pobre. Eles são ricos. Eu sou feia. James é lindo. Eu sou chata. James é legal. Pelo menos, eu tenho que ter noção de escolher um presente perfeito para ele"

Sirius só olhou para mim por um tempo e, por um segundinho, eu pensei que ele fosse ceder meio centímetro. Quando eu estava prestes a agradecer, entretanto, ele gargalhou.

É isso aí.

Gargalhou.

"Por que está rindo?"

Ele só continuou, e eu estava começando a imaginá-lo dobrando o corpo e com dor na barriga de tanto que se curvava e fazia contrações no diafragma.

Bem feito.

"Sirius, você não deveria rir das dúvidas da sua quase-cunhada."

Alguma resposta?

"Eu juro que eu cometo um assassinato se você não parar de rir."

Tudo bem, não era sério e nós dois sabíamos. Acho que foi até por isso que eu não fiquei tããããão puta por ele ter continuado a rir.

"Sirius Black!"

"Desculpe" ele começou a se recuperar, passando as mãos nos olhos para tirar as lágrimas – sim, ele quase chorara – dos olhos "Mas, Lily, foi divertido."

Eu fiz biquinho, agora sim chateada.

Sirius não podia me levar a sério?

"E, ruiva..." ele nem ligou para mim, voltando a pegar a mochila no chão. Deu mais uma risadinha e, passando uma das mãos pela cabeça, endireitou os ombros ainda meio curvado "Desculpe mais uma vez, mas se tem uma aula que eu gosto é a de DCAT. Então, poupe sua saliva para o James"

Como?

Ele ia mesmo me deixar?

"Nada mais de deveres copiados, Black!"

Mas ele só riu de volta.

**********

"Então, Lily, eu sou sua segunda opção"

"Por aí"

"Sirius não te deu atenção?"

"Ele riu de mim, Remus" eu reclamei, me esparramando ao redor de uma das mesas do salão comunal "Riu. Ou melhor, gargalhou"

Remus deu um sorrisinho.

"Na realidade" ele começou, sentando-se à minha frente e abrindo um livro. Eu arqueei uma sobrancelha, temerosa, achando que ele seria mais um a não me dar a menor atenção, mas ele só me piscou o olho.

Dava para entender porque ele era um maroto, afinal.

"Estou me segurando para não rir também"

Eu pisquei, meio surpresa. Cadê meu Remus lindo e compreensivo?

"Lily, eu simplesmente não consigo acreditar que você está com medo dos Potter. Aliás, você tem que agradar ao James, não a eles"

Sirius tudo bem, mas Remus?

"Dois coelhos numa cajadada só" tentei explicar, também abrindo um livro meu. As mentiras tinham que ser muito bem articuladas quando se tratava de James "Agrado a James, agrado aos Potter"

"E, para isso, você precisa ter o melhor-e...

"Melhor-presente-ever"

"Isso. É isso?"

"É"

Ele sorriu.

"Lily" começou, virando uma página "Desculpe a expressão, mas você está sendo ridícula. Sabia que eu tive que emprestar dinheiro à Alice por causa desse seu medo?"

Não importava. Se eu não fosse rica, eu ia parecer rica.

"Depois a gente resolve isso"

"Ótimo. Porque, agora, eu vou..."

"Alice e eu, quero dizer"

Ele voltou a folhear o livro ao soltar um 'Ah, claaaaro'

"Por favor" pedi de novo, fazendo minha carinha de novo. Remus tinha que ser menos insensível que Sirius "Se coloca no meu lugar. Pobre, nascida trouxa, feia..."

"A Sra. Potter te acha linda" ele interrompeu, me fazendo piscar mais uma vez. Depois, sorriu mais uma vez, piscou o olho – direito, háh – e levantou "Deixe de neura, Lily. Compre qualquer coisa que James vai emoldurar"

Eu nem respondi, mandando-lhe a língua.

Só me restava Peter.

**********

"Você não pode estar tentando me comprar com uma barra de chocolate. Eu valho muito mais que isso"

"Estou tentando fazer com que você emagreça aos poucos, Peter querido"

"Querido? Lily, isso não foi nem um pouco natural"

Eu bufei.

"Eu compro mais para você. Daqueles trouxas que eu te mostrei no Natal do ano passado"

"Do jeito que Marlene reclamou para Sirius que fofocou para James que riu tão alto que eu tive que perguntar o que tinha acontecido, eu tenho até mesmo medo desse chocolate daí ser um rato roubado e transfigurado. Me sentiria um canibal, você sabe"

Hahaha. Não estou para humor hoje, ele deveria saber.

"Marlene fofocou?"

"Ontem"

"Para Sirius?"

"Para Sirius"

"Sirius Black?"

"Você conhece outro cara com nome de estrela?"

Certo, ele me pegou.

"E ele contou para James?"

"É óbvio que ele contou para James. E também disse que você foi até ele, há mais ou menos três horas, pedir uma dica ou qualquer coisa do tipo e..."

"Dá licença" interrompi, pegando minha barra de volta. Peter, pelo visto, falava sério sobre o rato: ficou até meio aliviado de se ver livro daquilo – o que, devo admitir, era uma caneca transfigurada com a ajuda de Mcgonagoll, a única no mundo inteiro que compreendia minha dor "Tenho um Sirius para matar"

**********

Sentada na mesa de poções. Ignorando Slughorn por completo. Tamborilando o lápis nos dedos. Contando os minutos na cabeça. Respirando o aroma meio doce demais daquela droga de poção de qualquer coisa. Fazendo tudo ao mesmo tempo, resumindo.

Menos arranjando alguma coisa para dar ao namorado.

"Você vai ter um colapso" eu disse para mim mesma, escrevendo qualquer coisa no caderno quando percebi que todo mundo escrevia também. Agora, minha palavras só se resumiam a 'chocolate' – não, não e não – 'pomo de ouro' – o trigésimo quinto dele – 'roupa' – eu tenho vergonha de fazer isso, nem sei porquê – e 'outra coisa' – o quê, essa era a questão "Não é a coisa mais importante do mundo, Lily, se você prestar atenção direitinho. Quer dizer, é só o primeiro presente que você vai dar para ele, no primeiro Natal que vai passar na casa dele, na primeira vez que vai ver os pais dele"

Por que entrar em pânico?

"Esses são os meus possíveis presentes de Natal?" eu me virei assim que ouvi a voz de James, jogando tudo o que estava ao meu alcance no chão com o susto "Nossa, Lily, que exagero. Minha voz não é tão feia assim"

"Hahaha" eu ironizei, baixo, rezando para que Slughorn tirasse aquele olhar estranho do rosto. As coisas até já estavam arrumadas, poxa "Você quase me matou, James"

"Isso é culpa" Marlene falou, lá do outro lado da mesa, sem tirar os olhos do que estava cortando "Por estar sendo uma tirana e não emprestar dinheiro para a gente só por causa desse seu estúpido presente para seu ainda mais estúpido namorado"

"Ei!"

"Marlene!"

"Alguma coisa errada na mesa de vocês?" Slughorn olhou para a gente, o cenho franzido "Lily?"

Ótimo. Eu dormia nas aulas dele, não respondia mais tantas questões como antigamente, derramava coisas e ainda dava gritinhos histéricos chamando o nome do monstro que eu chamava de amiga. Ia perder o favoritismo fácil, fácil, se fosse assim.

"Desculpe. To meio desastrada hoje"

"Se não se repetir, tudo bem"

E voltou a dar aula.

Lancei um olhar torto para James, um tão torto quanto para Marlene e fingi voltar a prestar atenção na aula.

Eu tinha que ser a aluna exemplar, apesar de tudo.

***********

"Lily"

"Não vou te ouvir"

"Mas eu preciso falar com você"

"Eu não preciso falar com você"

"Tá, vamos mudar. Eu quero falar com você"

"Humm, não mudou nada para mim"

Ouvi James suspirar atrás de mim.

"Lily, quantos anos você tem mesmo?"

Eu nem respondi.

"Pois parece ter quatro. Ou melhor, meu priminho de três anos não age desse jeito"

"Não queira me convencer que ele te escuta, James. Ou melhor, nem tente me convencer que você lê por cima do ombro dele, porque ele não deve escrever"

"Mas ele desenha"

Certo, eu tive que sorrir um pouco e agradecer a Merlin por estarmos andando e James estar atrás de mim.

"Lily, desculpe. Eu não devia ter lido e blábláblá" ele continuou, mantendo o ritmo do passo. Acho que, quando eu meti minhas unhas na sua mão até sangrar quando ele tentou me alcançar ele aprendeu a lição "Mas, acredite, isso é neurose. Meus pais são quase-velhinhos bem bonitinhos, do tipo que passam a tarde na biblioteca e ajeitam os óculos no nariz. Não são monstros a serem domesticados"

"Ah, James, me desculpe" eu disse, finalmente parando de andar e me virando para ele "Eles podem ser quase-velhinhos bonitinhos e tudo o mais, mas eles agüentam você e Sirius juntos, sob o mesmo teto. Não me faça acreditar que vocês passam a tarde inteira tomando chá"

Ele riu. Era a época de ninguém me levar a sério.

"Quase-velhinhos fazem expressões que são de dar pena, Lily" ele disse, chegando mais perto. Eu mostrei minhas unhas, mas ele nem ligou - eu devia estar errada, então "E Sirius tem medo de velhinhos, e dos meus pais pelo mesmo motivo que você ta pensando. Quando ele, por exemplo, destruiu o banheiro ao tentar um feitiço em uma carta para se livrar de uma garota, meu pai só riu e consertou tudo em um segundo quando nós dois passamos horas tentando consertar"

Eu pisquei, surpresa.

Não havia melhorado nada.

"Além disso, eu falo de você desde uns treze anos, e o negócio meio que aumentou a partir do quinto"

"Então, eles já me odeiam desde sempre"

James riu, estendendo uma mão para tocar meu rosto. Eu fiz biquinho, tentei virar, mas meu rosto dava na mão dele.

"Eles não te odeiam, Lily" ele voltou a tentar, encostando a testa na minha "E nem são monstros. Então, tire essa expressão emburrada, esquece essa tara pelo 'melhor-presente-ever' – sim, Alice me contou – e me dá um beijo"

Eu desfiz o bico "Beijo?"

"Beijo"

"Um só?"

"Podemos negociar"

Totalmente aberta a negociações.