A questão é: estou irada.
Irada mesmo. Do tipo de xingar, estapear, crispar os lábios e sair bufando pelos cantos do castelo.
E, adivinha só, eu era o objeto dessa ira.
"Lily, quebrar o espelho não vai adiantar. Não bastou eu te dizer isso nas duas primeiras vezes?"
Eu não respondi, fazendo biquinho. A culpa não era, definitivamente, minha. Quer dizer, o espelho, na prática, se rompeu sozinho. Nada tem a ver com meus pensamentos de 'Nunca mais quero ver essa garota – eu!, eu! – na frente de novo.'
Tem?
"Lily, você não pode me ignorar"
"Eu não estou te ignorando" eu disse, meu bico aumentando "Estou tentando encontrar provas de que eu sou totalmente inocente"
Marlene arqueou uma sobrancelha "E?"
"Você não tem provas, na realidade"
A sobrancelha se arqueou mais um pouco "Ah, não...?"
"Não"
"Lily" ela começou, olhando para mim com aqueles olhos escuros que conseguiam colocar medo até em Sirius Black "Você estava sozinha no banheiro nas três vezes. Você saiu do banheiro com um olhar culpado. Você me pediu que consertasse a merda que você fez antes que Alice chegasse e entrasse"
Droga, ela tinha argumentos.
"E, além disso, da segunda vez um dos estilhaços bateu no seu braço e fui eu que te elevei para Madame Pomfrey com uma desculpa totalmente ridícula"
Ah, eu tinha me esquecido dessa.
Respirei fundo, a mente trabalhando para ver se achava alguma coisa. Certo, Marlene podia ser esperta, mas não estava em romances de Agatha Christie para inventar uma fechadura do lado de fora e de dentro, e nem era Conan Doyle para seguir pistas com uma lupa e...
"Minhas digitais!" eu disse, levantando-me da cama com um pulo. Eu sabia que essa tara da minha mãe por Sherlock ia me servir de alguma coisa "Você não tem as minhas digitais"
Ela me olhou como se eu fosse maluca.
"Lily, somos bruxos. E bruxos, eu tenho que te lembrar, conseguem fazer algumas coisinhas com a força da mente e blábláblá" ela disse, me empurrando de volta para a cama "Você não vai convencer ninguém com esse argumento"
"Bom, eu não posso ser presa no mundo dos trouxas, do qual eu, invariavelmente, faço parte ainda, sem ter as minhas digitais no local do crime"
Tudo bem, era mentira. Mas Marlene não podia saber disso.
"É por isso que nós temos Azkaban"
Certo, ela me pegou.
"Como você quer que eu fique?" perguntei, resolvendo mudar de papel e me fazer de vítima. E, se ela pensasse melhor, era mais ou menos isso: um pouco de filosofia e eu chegava à conclusão de que eu estava sendo vítima de mim mesma "Eu fui burra e ignorante. Mereço a morte"
Ela revirou os olhos.
Ninguém me levava a sério.
"Só porque James, acidentalmente – você pode acreditar que foi sem querer, mas eu tenho certeza que ele só queria acabar com seu sofrimento – deixou escapar que queria ir a um jogo de 'fubetol' e você gastou todos os seus galeões e mais o dinheiro roubado da sua irmã, esquecendo das suas amigas, dos seus amigos, da sua família e – a melhor parte, se me permite a opinião – dos Potter? Não, Lily, você não foi burra e ignorante. Foi estúpida."
Essa é sua melhor amiga, Lily. Devia ter escolhida aquela menininha de aparelho de cinco anos atrás.
"Você devia estar me colocando para cima" eu protestei, fazendo biquinho de novo "Melhores amigas..."
"Não esquecem do presente de Natal das melhores amigas" ela me interrompeu, cruzando os braços também "E sim, eu estou magoada"
"Você devia me entender, Marlene. Eu sou feia, pobre, nascida-trouxa..."
"A menina mais inteligente do nosso ano, monitora chefe, ruiva – Sirius me contou que a Sra. Potter é tarada por cabelos naturalmente ruivos, se te deixa mais tranqüila – e namorada do filho dele"
"Esse é o meu ponto"
"Ser namorada dele?"
"É" eu parei para engolir em seco "Tipo, eu sou a namorada dele depois de esnobá-lo por séculos. Eles deviam ter raiva de mim, você sabe. Mais ou menos como eu estou agora"
Marlene piscou, com um pouquinho de incredulidade.
"Ah, certo. Agora você realmente enlouqueceu" ela disse, piscando ainda. Depois, meneou a cabeça e me deu as costas, saindo do dormitório.
Eu poderia mesmo procurar aquela menina de aparelho.
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"Eles vão me odiar para sempre, Remus. Vão, tipo assim, fazer picadinho de Lily Evans e servir na ceia. Olha só, o meu cabelo até serve de molho"
Remus riu.
"Isso foi totalmente sem graça, Lily" disse, parecendo estar se divertindo comigo. É, eu deveria mesmo parecer uma palhaça "Se, um dia, a Sra. Potter ficar sabendo que você falou tudo isso dela, acho que ela se mata de desgosto"
"Ah, ta bom. Ninguém com um filho daquele, lindo, gostoso, sexy, perfeito e...
"Não precisa continuar"
Eu sorri, meio sem graça "... tudo o que James é, para resumir, se mataria de desgosto"
Remus só riu novamente por um tempo, virando em um corredor. Mais dois e eu teria que lidar com Slughorn, Marlene, Alice – que descobrira sobre o espelho porque, ontem, na discussãozinha de amigas, Marlene e eu esquecemos de consertar – e um James Potter que se delicia com meu sofrimento.
"Eu sou um lobisomem, Lily. E eles me deixaram dormir lá na lua cheia"
"Hmm, você não fez mal nenhum ao James."
"Na realidade, um chifre fora do lugar. Sarah até tentou levá-lo ao veterinário"
E eu fiquei sem saber se era verdade ou não.
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"Lily"
"Você nunca vai entender"
"Talvez não"
"Viu?"
"Porque você está sendo irracional"
Eu me virei no corredor, parando de andar. James, se não parasse a tempo, ia fazer nós dois rolarmos escada abaixo.
"James" comecei, falando pausadamente como se ele fosse uma criança. Quer dizer, até uma entendia aquilo "Como eu estou sendo irracional?"
"Como? Lily, você está batendo portas por aí, batendo a cabeça na carteira, tomando uma poção que te faz sentir coceira só porque pensou demais em mim – o que, se você pensar, não é pecado nenhum – e gastou tudo comigo e..."
"Quem te disse isso?"
Ele fez uma expressão de culpado, soltando um 'Droga' que eu mal fui capaz de ouvir.
"Eu... não importa" Marlene estava morta, isso sim "O que eu to querendo dizer é que meus pais não vão, definitivamente, ligar por..."
"Os meus ligariam"
"Que bom que eu tenho um presente para eles, então"
Eu pisquei, surpresa e com ainda mais raiva de mim mesma "Isso quer dizer que, agora, eu posso me tacar da torre de astronomia mesmo? Assim, no duro?"
Ele revirou os olhos, mas tinha um sorrisinho – lindo – na boca.
"Está sendo dramática" começou, divertido, passando a mão por meus ombros e continuando o caminho, andando rápido demais para mim "Já pensou no bilhete de despedida?"
Bom, eu sentia o tom de ironia, mas aquilo foi totalmente plausível.
Mesmo.
"Acho que não é uma boa idéia. Quer dizer, estou me matando para que não saibam que eu esqueci dos presentes da família do meu namorado, e mentir não é exatamente a última coisa que eu quero fazer na vida"
Tudo bem, eu já estava pronta para as palavras de apoio.
Mas James riu.
"James!"
"Desculpe" ele pediu, ainda com um tom risonho "Mas e então?"
"Então o quê?"
"Qual seria a última coisa que você faria?"
Eu pisquei, parando de andar mais uma vez. James, nesse momento, sorriu para mim, piscando-me o olho esquerdo enquanto sua mão tocava minha cintura.
E seus lábios os meus.
