Eu olhei para o lado de fora do castelo, sorrindo um pouco com a neve que ainda caía, mesmo que fraca. James, ao meu lado, brincava com o pomo de ouro – que eu encantara e, agora, possuía as nossas iniciais – e bocejava.
E olha que era apenas o pôr-do-sol.
"Minha preguiça pegou em você" eu disse, divertida, saindo da beiradinha da torre de astronomia para ir até seu abraço. Ele parou de brincar, quase imediatamente, e me abraçou de volta "A gente bem que merecia dormir depois dessa maratona de Natal"
Ele riu.
"Não teve nada de maratona" discordou, me dando um selinho antes de se afastar um pouco, apoiando o corpo na mureta "Eu quase virei um sedentário, na realidade"
"Claro que foi cansativo" eu discordei, chutando minha mochila um pouco para o lado para me enfiar entre suas pernas meio abertas. Adorava quando ele ficava apoiado desse jeito: assim, eu não era quase trinta centímetros mais baixa "Meus nervos quase pararam de funcionar de tão estressados que estavam e..."
"Eu falei que não precisava se preocupar"
"Se eu te escutasse, estava expulsa da monitoria"
"O que não seria uma má idéia. Além disso, eu continuo aqui, não é?" ele replicou, sorrindo, mas com um quê de irritação no fundo. Só Merlin e eu sabíamos quantas maneiras ele havia arranjado de matar Mcgonagall e Dumbledore por nos chamar mais cedo de volta "Meus pais são pessoas fáceis de serem agradadas. E, além disso, eu não sei se te falei, minha mãe tem uma tara especial por ruivas"
Não, ele não falou – mas Marlene salvara o que restava da minha consciência aí.
"Será que eles gostaram mesmo do presente?" eu perguntei, agora já meio nervosa. Tudo bem, eles ficaram bem exultantes com a máquina fotográfica trouxa e com a partida de futebol – eu dera uma para eles e outra para o James que, claro, me incluía de brinde – mas isso poderia ser fingimento para agradar o filho que 'iria-acordar-a-qualquer-momento-de-seu-delírio-momentâneo'.
Bom, eu esperava que fosse, tipo assim, aos setenta anos.
"Por que você não grava isso e eu gravo meu 'Sim, eles amaram' para pouparmos saliva?" ele ironizou, me dando outro selinho "Vamos, Lily. Eles gostaram"
"Você só fala isso porque meus pais ficaram felizes da vida com o que você deu. As unhas da senhora Evans vão te agradecer eternamente, acredite"
Ele riu, mais ou menos como rira quando mamãe agradecera exultantemente ao James lhe mostrar o jeito bruxo de lavar qualquer coisa, batendo no topo da minha cabeça como se eu fosse uma criança que não entendia nada.
"Eu achei isso meio engraçado" comentou, agora dando um beijinho na ponta do meu nariz. Eu quase ri – isso me dava cócegas "Quer dizer, seu pai ficou tentando descobrir como a máquina virara 'filme', e o meu como vocês faziam para que ficasse paradinho no lugar. Tive que me controlar para não gargalhar"
Eu sorri. Essa fora uma das melhores partes do meu Natal.
"Foi divertido"
"Seus pais no quadribol"
"Os seus no futebol"
"Eles se espantando com o sapo de chocolate"
"Eles se perguntando porque o gol era tão grande"
Eu sorri. Ele sorriu.
Fora mesmo divertido.
"Nada de cansativo, viu?" James me provocou, piscando-me o olho "Totalmente divertido"
E era isso que eu estava pensando.
***********
E delicioso também, se eu parasse para pensar.
A verdade era que, de James, eu recebera milhares de coisas diferentes. Meus presentes iam desde blusas com dizeres mágicos que diziam coisas de todo o tipo 'Sou da família Potter' e 'Não resisti ao James' – que, eu frisei, nunca vou usar – até uma caixinha liiiiiinda de jóias.
Mas nada – nada mesmo – se compara à caixa de bombons suíços.
Era a coisinha mais deliciosamente tudo-de-bom que eu já recebi.
Eu nem me lembrava muito de ter dito a James que amava chocolates suíços, mas que eles estavam meio fora do meu orçamento para que eu pudesse comê-los todo dia. Então, quando eu vi a caixinha – linda, maravilhosa, vermelhinha com um lacinho dourado à lá Grifinória – meus olhinhos brilharam de contentamento.
Eu acabei com a caixa em, tipo assim, oito segundos.
E me culpei por isso. Me culpei mesmo, quer dizer. E foi com toda essa culpa que eu voltei a me sentir irada comigo mesma – com o negócio dos presentes, tudo dera um jeito. Não sei como,já que alguns muitos galeões apareceram meio do nada na minha carteira, mas o que importa é que eles estavam lá. Ninguém pensava em ser honesto quando se via uma escapatória para o suicídio.
Nem eu, a monitora chefe já não-tão-certinha-assim.
Então, quando acordei na mansão que era a casa do meu namorado, meu primeiro sentimento foi de desolação extrema por não ter mais meus chocolates e bombons e tabletes "Made in Switzerland". Tive que utilizar de todos os meus esforços para me levantar da cama e, finalmente, olhar para a caixa vazia.
Qual não foi minha surpresa ao ver que ela estava, magicamente, cheia de novo.
Eu pisquei. Pisquei uma, duas, dez vezes até ter certeza que meus olhos não me traíam. E, quando eu percebi que eles nunca fariam isso comigo, ataquei a caixa de novo.
***********
"Lily, você pode me dar um bombom?"
"Não"
"Ah, qual é! Eu sei que o Prongs te deu uma caixa mágica e..."
"Peça uma para ele, Sirius. Você não toca nos meus bebês"
Essa – prepare-se, Black – era a minha revanche por não ter me dado nenhuma idéia para o presente do meu namorado.
"Eu não quero uma caixa inteira. Eu quero um só, Lily" ele reclamou, sentando-se na cama de Marlene. Isso era uma coisa que sempre me impressionara, tanto nele quanto em James: como, por Merlin, eles conseguiam chegar ao dormitório feminino sem rolarem escada abaixo "Que, vale lembrar, irá se repor em mais ou menos trinta milésimos de segundo"
Só porque eu pedi ao James que fosse assim, porque adorara o de licor e o de cereja.
"Nããããããão" eu resmunguei, abraçando a caixinha contra meu próprio corpo. Ninguém nunca, nunca mesmo, ia tirar um bombom de mim. Só o James ou, às vezes, Marlene e Alice quando eu queria subornar alguma de minhas amigas "São meus, meus e meus"
Ele revirou os olhos. Quase como sempre, na realidade.
E ainda me diziam que ele era imprevisível.
"Você está ficando gorda"
"Boa, mas Alice já tentou"
"E com espinhas"
"Desculpe, me olhei no espelho há cinco minutos. E meu rosto está lisinho, como sempre"
E mais uma revirada de olhos. Acho que estava uns dez a zero para mim, e isso se eu fosse boazinha.
"Lily, seja razoável" ele me pediu, agora sentando na minha frente, no tapete mais felpudo por causa do frio "Você acaba com três dessas todo o dia. Você saiu no meio da aula de DCAT falando que estava passando mal para vir comer esse negócio. Você não janta, não toma café e só almoça porque James dá uma de babá e te enfia comida na boca"
Eu não respondi. Não por falta de respostas, porque ele, definitivamente, não estava certo – não era porque eu estava num momento viciada-em-chocolates que ia me deixar levar pelas palavras dele – mas porque eu estava comendo.
Hmm, esse era o de cereja.
"Lily, o James odeia cereja e licor"
"Que pena, ele já me falou que ama esses dois. Posso comer em paz agora?"
Ele piscou dessa vez, e eu pude ver que ele estava meio que surpreso e começando a arquitetar maneiras de matar James por causa de sua boca grande e tudo o mais.
"Ótimo" ele resmungou, fazendo biquinho. Era uma visão meio engraçada, mas eu não podia abrir a boca por causa do chocolate "Não vai por bem, vai por mal"
E me pegou dois bombons.
Dois, não um.
Sirius Black era mesmo imprevisível.
*************
"Onde ele está?"
"Bom dia, Lily. Sonhou comigo?"
"Onde ele está?"
Eu ignorei seu suspiro.
"Ele quem, Lily?"
"Seu amiguinho de todas as horas"
"Sirius?" ele perguntou, meio confuso, como quem não entendia nada. Estava tão óbvio que eu quase vomitei tudo na cara dele.
Opa, era chocolate. Suíço. De licor e cereja, ainda por cima.
"Eu quero matá-lo. Trucidá-lo. Fazer picadinho e servir para a mãe dele"
"O que ele te fez?"
Eu respirei fundo. Algumas vezes. E tentei de novo quando percebi que não estava funcionando muito.
Será que James tinha que ser tão cego assim?
"Olha só isso daqui" pedi, tirando a mochila das costas e, dela, a caixa de bombons. E, como se fosse a prova de um crime – era a prova de um crime, na realidade – eu a abri, mostrando tudo.
Ou nada, se levássemos em consideração que meu café da manhã se baseara em chocolate.
"Uma caixa vazia. Legal"
"Uma caixa vazia porque seu amiguinho me roubou tudo!"
Ele não precisava saber que, na realidade, foram só dois e na noite anterior.
"James, eu quero meus bombons de cereja e licor de volta! Nem que ele tenha que vomitar e transfigurar, ou então..."
"Isso seria nojento"
Eu pisquei.
É, talvez eu pudesse ficar sem esses dois.
"Lily" ele me chamou assim que viu que eu estava cedendo. Pelo menos, uma parte de mim "Eles vão reaparecer daqui a menos de cinco minutos. E, aposto, você comeu uns trezentos desses dois antes de vir aqui falar comigo"
Eu não respondi – e, dessa vez, era porque eu estava sem resposta. Ainda estava esperando os chocolates aparecerem novamente para ter uma desculpa de ficar calada quando eu não sabia o que dizer.
"Vem, vamos matar a aula de Herbologia e ficar na neve" ele recomeçou, mas eu não saí do lugar. Então, como se resolvesse todos os problemas do mundo, ele me puxou pela mão em direção ao caminho contrário ao que a gente tinha que fazer "Você não pode me negar isso"
Eu ia perguntar por que, mas calei minha boca a tempo. Não que James jogasse na minha cara, mas ele fazia tudo o que eu pedia.
Não que isso me impedisse de tentar.
"Você não está tão bem em Herbologia assim"
"Na realidade, sou dois décimos mais inteligente que você" ele comentou, um quê de diversão beirando a voz quando eu lhe belisquei a cintura. Eu já havia superado essa, obrigada "Vamos, o máximo que você pode pegar é um resfriado"
Mas eu já estava me deixando ser puxada mesmo.
"E se alguém nos vir?"
Ele riu.
"Acho que a minha ruivinha está com medo de ser pega" provocou, mais uma vez piscando-me o olho. Em seguida, soltou minha mão e, deixando a mochila cair na neve, arrancou a capa dela "Pronto, temos um plano B"
"Eu nem sabia que a gente tinha um A" provoquei de volta, sentando-me ao lado de sua mochila. Minha mente já estava no 249º segundo – quase os cinco minutos que James falara – e eu comecei a abrir a minha "Sabe que esse foi o melhor presente que eu já ganhei?"
James sorriu para mim, meio que se ajoelhando na minha frente.
"Eu devia ter seguido o conselho do sexto ano quando Sirius estava bêbado e me enfiado num pacote" brincou, agora colocando as mãos ao redor da minha cintura e inclinando mais o corpo para mim. Foi mais ou menos nesse instante que os chocolates voltaram à minha caixa "Eu, pelo menos, não poderia nunca ser reposto"
Eu ri, subitamente deliciada. Lhe dei um selinho ainda sorrindo e, abaixando um pouco o rosto, peguei meu primeiro chocolate.
De muitos.
"Você dividiria isso comigo?"
Eu voltei a sorrir, deixando a caixa no meu colo para puxá-lo pela blusa e, ao afundar minha cabeça em seu ombro, esconder o sorriso dele.
"Poderia pensar nisso" cedi logo de inicio, partindo direto para a parte em que ele me agradecia com beijos. Era divertida a que ele tentava me convencer também, mas a imagem dele comendo chocolate e me beijando com a língua de licor era ainda mai tentadora nesse momento "Eu ganharia o quê em troca?"
Ele sorriu, como eu, desviando da minha boca para ir até meu pescoço. Seus lábios, diferentemente de tudo, estavam quentes.
Beeeeeeeeem quentes.
"Está com fome, pelo visto"
"Morrendo"
Eu também estava.
