Eu desci da arquibancada, tropeçando em uma ou duas garotas do terceiro ano no meio do caminho. Olhava para o céu: James, nesse momento, segurava o pomo nas mãos e fazia alguns gestos – que, antes, eu juro que achava ridículos – para a nossa torcida, deixando a Corvinal caladinha do outro lado.
Estávamos na final.
E contra a Sonserina.
Eu, antes, não gostava disso. Mas, com o tempo, Alice foi me obrigando a ir ver os jogos, e Marlene cada vez mais falava do campeonato inglês. Tentei até resistir e quase arranquei meus olhos para que eles se concentrassem em outra coisa sem ser o treino mas, depois que James e eu ficamos mais amigos e ele me convidou para o primeiro treino do ano inteeeeeiro, eu comecei a entender o sentido básico do jogo.
Era até maravilhoso, se você pudesse ostentar do lado o namorado que, de brinde, ainda é o melhor apanhador que Hogwarts já teve.
Eu amava isso.
"Quem te viu, quem te vê" Alice provocou, do meu lado, passando uma das mãos pela frente dos meus olhos para me fazer acordar. Funcionou por meio segundo: no resto, eu já estava com o olhar perdido em James de novo "Lily Evans, do clube odeio-quadribol-forever, vindo aos jogos e admirando o namorado bonitão de baixo enquanto ele se torna o herói mais heróico da Grifinória inteira."
"Herói mais heróico?" eu pisquei, finalmente – e com muito esforço – tirando os olhos de James "Ninguém se torna o 'herói mais heróico' por ter agarrado uma bolinha amarela que tem asinhas e voa"
Hmm, ela não precisava saber que eu achava aquilo tudo o máximo agora.
"Agora, dá licença" eu pedi, abrindo caminho entre a multidão de criancinhas para chegar no centro do campo "Tenho um namorado a resgatar"
Ele chamava atenção demais.
**********
Eu gostava de atenção. Sempre gostei. Acho até que foi por isso que minha mãe nem Petúnia herdaram o cabelo ruivo e os olhos verdes de vovó. Era mais ou menos como se eu dissesse 'Ei, deixe todas as atenções para mim'.
Eu contei essa teoria à Marlene e à Alice, e elas concordaram totalmente comigo. Ainda falaram mais: era por isso que eu quase nunca fazia nada de diferente no dia a dia, deixando tudo de novo e 'chocante' para uma festa.
Nenhum jeito melhor de chamar a atenção do que se transformar, quase literalmente, na frente dos olhos de todo mundo.
Foi em uma dessas festas que, adivinha só, eu e meu mais novo conhecido-sem-olhares-tortos-no-meio-do-corredor James Potter conversamos, os dois com alguns tragos a mais e eu com uns cinco ou seis copos a mais para me deixar muito mais bêbada que ele.
Conversa vai, conversa vem, e ele me conta a mesma teoria que tinha de mim.
"Você nasceu para chamar atenção" ele me dissera, pegando na ponta do meu cabelo – repicado nas férias e com uma franja meio lateral que, ele me disse no trem, amou total e completamente "E por isso que é ruiva e tem esses olhos verdes. E você fica ainda mais linda assim, com essa coisa preta, deniliador...
"Delineador"
"... e essa sombra escura"
Eu sorrira.
"Um elogio bêbado da parte de James Potter" eu me lembrava de ter dito - e, algumas vezes, apareciam alguns vestígios de que eu tinha me inclinado para frente e tocado minha testa na dele. Mas, claro, eu rezava para que isso fosse sonho – e de, depois, ter sorrido "Quer dizer, isso deve ser um elogio"
"É claro que foi um elogio" ele fez cara de 'dãã' que eu lembro "Vai, minha vez de receber um elogio bêbado"
Eu me lembro de ter pensado também, e de ter cogitado a idéia de falar de seus cabelos e de seus olhos como ele falara dos meus. Mas nãããããão – estava bêbada, mas ainda podia tomar três ou quatro taças de vinho antes de falar a merda das merdas.
"Bom, já vi que não" ele dissera, sorrindo aquele sorriso de canto que dá até hoje "Você deveria tentar ser mais sincera às vezes"
"Só por que estou bêbada?"
"Claro que não. É bem melhor como pessoa..."
"Não, eu tenho a teoria de que..."
É, tínhamos entrado no campo filosófico da conversa de bêbados. Aquele horário que, geralmente, acontece antes de você soltar a pérola do ano e nunca mais sentir vontade de sair de casa depois dessa.
"Não, não era medo de ousar..."
"Eu nunca disse que era, disse? Só acho que você..."
"Quem disse que eu não queria ficar com você por que eu era medrosa?"
"Ninguém disse" ele discordara, fazendo o movimento com a mão e com a cabeça também "Você que está tirando conclusões pre-ci-pi-ta-das, porque... oooops, acho que ouvi verbos no passado"
Mas, claro, ele não tinha como ter certeza.
E nem eu.
Mas, sei lá por que, resolvi acreditar nele.
"Não é por causa disso" eu mudara o tempo verbal, disso eu tinha certeza, mas eu não sabia se era para o certo. Então, acho que dei de ombros e continuei, pegando mais uma taça daquele negocinho azul que estavam servindo "É porque eu sou realmente necessitada de atenção. E acho que, com você ao meu lado, você chamaria mais atenção que eu"
É, aí eu tive que apagar todo o resto da minha mente.
Durante a semana seguinte, eu me escondera dele. Durante a próxima semana, depois dessa semana seguinte, eu o olhara de soslaio, esperando que ele tivesse esquecido. Na terceira semana, ele tomou vergonha na cara, mentiu para mim falando que não sabia de nada e voltamos a nos cumprimentar com sorrisinhos nos corredores.
Até sorrisos mais abertos, conversas divertidas, beijos roubados da parte dele – e adorados secretamente por mim – e encontros furtivos até o namoro namoro. E foi só nessa parte – depois dele ter me contado sobre a capa e sobre o mapa, e aberto aquela boquinha linda para falar sobre sua forma cheia de chifres e que era por isso que Sirius vivia brincando com ele – que eu resolvi perguntar se ele se lembrava de tudo.
E, um doce se adivinhar, ele lembrava.
"Não esqueço as coisas quando estou ligeiramente alto, Lily"
E eu tive que esconder meu rubor em seu ombro.
Quer dizer, era mesmo por isso – não só por isso, mas esse era um dos fatores – que eu não queria me ver namorada de James Potter. Se nós fôssemos namorados, eu teria que dividir a minha atenção com ele.
Então, para namorá-lo, eu teria que descobrir um jeito de reverter essa situação.
E consegui.
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"Eu tava me lembrando daquela nossa conversa bêbada hoje" eu comecei, um pouco divertida, comendo um dos meus chocolates suíços inacabáveis. Já perdera o medo de falar de boca ligeiramente cheia com ele "Lembra? A que eu falei que tinha que ter a atenção voltada sempre para mim?"
"Claro que lembro" ele respondeu, sorrindo um pouco quando eu tirei o chocolate parcialmente mordido do alcance de sua boca. Depois, rápido, pegou-o entre os lábios, terminando de empurrá-lo para a boca – para meu deleite – com a língua "Até pensei em usar isso contra você – 'Olhem, lá vai a senhorita Evans, que jura odiar a minha arrogância e prepotência e safadeza e vontade de aparecer enquanto, vejam só, tem medo de sair comigo porque pode perder o brilho'. – mas, você acredite ou não, eu realmente gostava de você. Então, fiquei no meu cantinho"
"Esperando pela hora certa para contra atacar" eu completei, apertando sua bochecha entre meus dedos. A caixa em meu colo já estava vazia, mas era só esperar cinco minutos que estaria cheinha de novo "Mas, você sabe, eu nunca fui arrogante. E eu nunca chamei atenção dos outros por colocá-los uma semana na ala hospitalar"
Ele riu, me dando um selinho, e concordou obedientemente. Eu podia sentir um quê divertido e irônico ali, mas não me importei muito - eram três horas da manhã de um domingo, meu namorado levara minha escola à final e os chocolates suíços faziam festa no meu estômago.
Quem se preocuparia?
"Certo, ruiva. Nada de sonserinos na ala hospitalar mas, em compensação, tinha os foras em James Potter" brincou, me dando outro selinho. Tentando fazer com que eu não percebesse, ele tirou a caixa do meu colo, os olhos brilhando inocentes enquanto a deixava na mesinha "Uma troca justa"
Na realidade, bem injusta, mas eu tinha realmente esse problema com atenção.
E ele chamava mais atenção que eu.
"Ser inteligente não foge às regras" eu apontei, aconchegando-me mais nele. A lareira, acesa,não chegava nem aos pés da temperatura do James "E, além disse, eu tinha medo da sua arrogância aumentar e eu virar seu troféu"
"Você é meu troféu"
"No sentido ruim da palavra, bobo"
James sorriu dessa vez, chegando o corpo um pouco mais para trás para eu me virar por completo, juntando nossas testas. Eu adorava ficar daquele jeito com ele – era tão sexy e tão Hollywood.
"Mas sabe de uma coisa?" ele me perguntou, roçando seus lábios nos meus. Seu rosto estava mais baixo do que o meu e, graças a isso, eu me sentia em vantagem "Às vezes, eu sinto como se você me exibisse"
Eu sorri contra seus lábios, mais para mim mesma do que para ele.
Esse era o jeito que eu havia conseguido de sair com ele e continuar aparecendo - ele era meu troféu, não o contrário.
Era eu, Lily Evans, que tinha um dos caras mais cobiçados de Hogwarts. Era eu que tinha o cara mais foda do quadribol desde sei lá quem. Era eu que tinha o monitor chefe, era eu que tinha o carinha que tinha uma medalha em seu nome.
A vaidade ganhava outro nome comigo.
"Claro que eu mostro você" eu disse, desviando de sua boca para ir ao seu pescoço. Podia até senti-lo fechar os olhos " Quem não mostraria?"
"Tenho uma namorada que quer se mostrar a melhor de todas?"
"Eu sou superior, James" fiz uma expressão de 'dãã', só depois percebendo que ele não ia saber disso.
Bom, tanto fazia – nós dois íamos ficar de olhos fechados mesmo.
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Odiei esse capítulo. Mesmo. Mas eu prometi a mim mesma - erradamente, eu sei - que seriam postagens semanais. E, como amanhã eu tenho um teste - siiiiiiim, no domingo - e um jogo no Maracanã para ir, eu estou postando agora esse amontoado de palavras.
Para esse capítulo, minhas idéias variaram umas cinquenta mil vezes. Passaram desde a uma festa inventada para os monitores desde a uma pela conquista da taça de quadribol, terminando por sair nisso daí. Muito melhor do que os outros rascunhos mas, mesmo assim, uma coisinha que eu não veneraria.
(daria uma review, sabe?)
Outra coisinha importante: segundo a minha amiga de todas as horas, Wikipedia, a vaidade e o orgulho podem ser resumidos - em conjunto com a arrogância e com a síndrome de eu-sou-o-foda - em soberba. Por isso eu resolvi não colocar nenhum dos dois primeiramente citados, mas a soberba em si - me desculpem quem acha que a Lily ou era temperamental ou a versão feminina de João Paulo II, mas eu acho realmente que só pessoas arrogantes preferem uma lula e falam isso para a escola inteira.
Bom, é isso aí - espero que gostem mais que eu X)
