Eu apoiei minha cabeça no ombro de James, fechando os olhos para sentir melhor seu cheiro e seus toques, tanto de lábios quanto de mãos. A noite estava silenciosa já, apesar de ser mais ou menos quatro da manhã – nós, do sétimo ano, praticamente juramos que iríamos fazer a melhor festa desde a fundação de Hogwarts, mas Dumbledore acabou com nossos planos de ficar até as seis – e só havia poucos casais ali, na frente do castelo.

James e eu éramos um deles.

"Eu achei que não fosse conseguir parar de chorar"

"Eu percebi"

Eu sorri contra seu ombro, batendo de leve em sua cintura enquanto ele - eu tinha certeza - sorria também. Sua blusa social, meio aberta na parte de cima – obra minha, acho que na hora que fomos para o cantinho do salão e ignoramos totalmente a música até recebermos bronca de Filch ("Pirralhos. Nós temos pais aqui, lembram?") – deixava à vista seu pescoço, me fazendo não querer sair dali nunca mais.

"Acabou Hogwarts, James" eu disse, apertando-o um pouco mais. Ele, em retribuição, me apertou de volta, beijando meu rosto "Não tem mais poções para fazermos, nem mais cálices para transfigurarmos. Sem mais patrulhas pelo corredor e detenções passadas aos alunos mais novos. Não vai haver mais momentos de fuga pelas suas passagens, e nem você nem Sirius vão rir na cara do Snape por alguma razão idiota. Por Merlin, se eu levar em consideração que me tornei gente depois dos oito – o que eu acredito piamente que aconteceu – eu passei mais da metade da minha vida aqui!"

Eu podia senti-lo sorrindo contra meu cabelo, mas achei melhor ignorar isso tudo para não ficar chateada. Quer dizer, eu já tenho um namorado que é o melhor do mundo, mas ter um namorado que é o melhor do mundo e que trás de brinde não a compreensão da mente feminina, mas sim da minha mente, era pedir demais.

Nem a Lily do espelho tinha.

"É, Lily. Acabou"

Eu pisquei.

Droga, não era isso que eu queria ouvir.

"Sem mais corridas pelos jardins ou desafios de passar a noite na Floresta Proibida. Sem mais planos de encobrir qualquer um de nós, ou feitiços para pegar algum sonserino desprevenido. Nem mais tentativas de fazer alguma brincadeira com Filch ou de aperfeiçoar o Mapa. Sem chance de me esconder com você pelos corredores enquanto pagamos de Monitores-chefes certinhos, ou de sairmos por aí em Hogsmeade para ver uma lua quase-cheia" ele se separou de mim nessa parte ao reparar que eu estava quase chorando de novo, e segurou meu rosto - um pouquinho mais vermelho por causa da última parte – nas mãos, juntando a testa na minha "É aí que quer chegar?"

"É daí que eu não quero sair"

Ele sorriu de novo, me beijando de leve os lábios. Eu percebia que seus olhos brilhavam mesmo no escuro, e que seu sorriso tinha um tom de satisfação que, eu achava, nunca veria no meu.

"Lily" ele se apoiou na parede do castelo e me puxou junto, acomodando-me entre suas pernas. Seus braços voltaram a escorregar para minha cintura e, de repente, eu descobri que também não queria sair dali "Você sabia que ia acabar. Tudo acaba, lembra?"

"Já ouviu alguém dizer por aí que a teoria é muito mais fácil do que a prática? Então, era verdade"

Ele riu, baixinho, e apertou minha cintura uma vez com as mãos.

"As coisas já acabaram para você, Lily. Milhares de vezes, e aposto que em todas elas você ficou com medo" ele disse, com aquele tom de 'Eu sei de tudo' que ele adotava sempre que achava que tinha que me fazer ver as coisas "Você deixou de ser criança"

"Eu queria deixar de ser criança, na realidade"

"Você deixou de escrever em cadernos e com canetas, ou alguma coisa assim, e passou a escrever com pergaminhos e tintas"

"U-a-u! Como isso marcou a minha vida!"

Ele deu um sorrisinho "Deixou os gritos para trás e passou a ser irônica"

"Um pouco mais importante mas, definitivamente, isso não aconteceu em sete anos"

Ele demorou um pouco para responder dessa vez, mas me olhava com a mesma parcela de interesse que tinha antes.

Eu me sentia péssima quando ele me olhava daquele jeito.

"Você aprendeu a ir contra toda uma parcela estúpida de bruxos que acreditam que o sangue ainda determina inteligência e valor. Aprendeu a 'deixar de lado' – e veja isso como uma expressão figurada, porque você não se esqueceu disso e fez muito bem – onze anos de sua vida e reaprender tudo o que dera como errado e inexistente em um ano" ele disse, a testa na minha, nossos narizes roçando meio de lado "Aprendeu a usar uma varinha sem saber que elas existiam, e..."

"Eu acho que isso não acabou, James" eu interrompi, quase num murmúrio, sentindo as lágrimas voltarem. Se continuasse desse jeito, nem o feitiço que eu pusera iria conseguir segurar o lápis e o rímel no lugar "Quer dizer, é disso que eu tenho medo. O mundo lá fora está em guerra, o mundo lá fora não é Hogwarts"

Ele sorriu "Achei que uma certa ruiva tivesse me dito, no quinto ano, quando eu usei a justificativa de que eu não me comportaria do jeito 'azarações-a-todos-os-sonserinos' se estivesse num lugar diferente de Hogwarts, que o lugar não importava"

Eu pisquei, pega de surpresa. Quer dizer, eu já descobrira que estava meio errada sobre o caráter de James no quinto ano, mas eu não esperava que ele gravasse cada frase que eu dissesse no meu momento ódio-completo-a-Potter.

Que bom que as pessoas se surpreendem.

"E não importa, Lily"

Eu mordi meu lábio inferior, prendendo mais uma parcela de lágrimas.

"Você não entende, James. Eu tinha que ter feito tanta coisa aqui, e não fiz" eu reclamei, afastando-me um pouco dele. Mais um pouco de birra e eu bateria com meu salto doze na grama e o destruiria "Se alguém perguntar, daqui a dois anos, quem foi Lily Evans, Dumbledore vai ter que procurar nos arquivos e pensar 'Talvez seja aquela garota ruiva e esquentada, que se destacava em poções e tudo o mais'"

Ele, mais uma vez ficou quieto, mas tinha um sorriso de canto. Um daqueles que diz 'Não importa o quanto você tente me convencer, eu não vou mudar de idéia'

"Eu não tenho nada aqui, James. Não tenho uma medalha que nem você, não fui capitã de time nenhum, e Slughorn só deve se lembrar de mim por causa do Francis *, e talvez Mcgonnagall..."

"Lily" ele me interrompeu, voltando a pegar minha cintura e me dando um beijo rápido "Era por isso que eu não queria que visitasse o espelho"


James me mostrara no começo desse ano.

Era uma noite qualquer, acho. Uma daquelas que se tornaram comuns depois de virarmos amigos, em que estendíamos o horário da monitoria para até umas duas da manhã para falarmos mal de algum professor. Acho até que estávamos com uma garrafa de um vinho bruxo qualquer e minha língua um pouco mais solta do que o comum – e James, mais acostumado do que eu, ria de mim e fazia piadinhas irônicas – enquanto estávamos sentados na torre de astronomia.

"Então, você realmente foge para Hogsmeade?"

"Algumas vezes por semana. É assim que consigo meu suprimento de Firewhisky, de vinho, de doces e de cerveja amanteigada"

"E eu posso saber como você faz isso?"

"Você está suficientemente bêbada para esquecer?"

Bom, não – mas estava o suficiente para não mentir "Não, James"

"Quem sabe na próxima, então"

Eu me lembro de ter bufado ou qualquer coisa do tipo pela falta de controle que eu tinha sobre a minha língua. Tudo bem, eu havia bebido um pouco mais e, ainda tudo bem, algumas pesquisas estavam sendo feitas de que homens eram mais resistentes a bebidas. E, além disso, estávamos falando de um garoto que acabara de me confessar que repunha o estoque de bebida algumas vezes por semana.

Era óbvio que eu ia estar pior que ele.

"Jaaaaaaames, por favor"

"Não"

"Poooooooxa, já somos amigos, né?"

"Uhum"

"Entãããããããããão..."

Ele riu nessa hora, eu lembro, e falou alguma coisa do tipo "Você está puxando as vogais, Lily". Mas eu ignorei e continuei a pedir, engatinhando um pouco mais para perto dele e puxando sua blusa como a bela criança que eu não era.

Devo ter ganhado alguns trilhares de pontos com ele ali.

"Não?"

"Não"

"Por que não?"

Ele rira "Por que não, ué"

"Parece papai falando assim, James"

Ele rira de novo, afastando-se um pouco de mim. Eu acho que fiquei no chão, olhando para ele de baixo, porque ele fizera uma expressão do tipo "Ooooin, que gracinha, estou lidando com uma Lily que mais parece uma criança" e me estendera a mão.

"Conseguiu me convencer, Lily" ele dissera, sorrindo um sorriso de canto enquanto me piscava o olho "Mas, hoje, vamos começar por um segredo um pouquinho mais leve"

"Mas eu não quero um leve. Quero um segredo secretíssimo, daqueles do FBI"

Ele rira mais uma vez - eu contara para ele o que era FBI, CIA e o resto - e dera de ombros.

"Bom, nós sempre temos que começar por algum lugar" e me piscara o olho de novo, ainda com um vestígio da risada, começando a andar sem largar minha mão "Sabe o que eu vou te mostrar agora?"

"Não"

Mais uma risada.

"Para você ficar feliz" já estávamos começando a descer as escadas para a ala leste o castelo. Alguns quadros – aquela área não era muito cheia deles – acordaram e fizeram algum som de reprovação, e uns três ou quatro soltaram um 'Hummm, o garoto Potter de novo' "Dumbledore me pediu para não contar a ninguém sobre isso"

Eu piscara.

Aquele era mesmo o segredo leve da história?

"Como?"

"Isso mesmo. Nada de soltar para suas amiguinhas que fazem complôs fofoqueiros pelos cantos"

"Dumbledore pediu para você não contar a ninguém?"

"Devo ignorar a ênfase que você pôs aí?"

"Mas... Dumbledore?"

"É, Lily"

"Nosso Dumbledore?"

"Esse mesmo"

"O de barbinha branca, olhos azuis lindinhos e bondosos e com um sorrisinho que diz 'Háh, eu sei de tudo, senhorita Evans'?"

"Ele diz isso, é...?"

"Esse Dumbledore?"

"Você tem problema de audição ou tem perda de memória recente quando toma alguns goles de vinho?"

Ah, fora quase uma garrafa inteira.

"O nosso Dumbl... James, ele tem cara de velhinho bonzinho. E velhinhos bonzinhos, definitivamente, não compactuam com meninos que passam três dias por semana na detenção desde que entrou na escola"

"Obrigado, mas no meu quinto ano eu tive em média quatro"

Eu ignorei o tom de orgulho.

"E Dumbie, definitivamente – e só estou repetindo a sua palavra para deixar tudo mais claro – compactua com um monte de coisa, sim"

"E essa é uma delas?"

"Exatamente onde eu quero chegar"

Viramos em um outro corredor, descendo um lance de escadas menor. Sussurrávamos – os quadros faziam 'psiu' - antes de pararmos em frente a uma porta, maior que as outras, meio arredondada na parte de cima.

E entramos.

Eu ficara olhando para a sala, quase vazia não fosse uma coisa grande no meio e alguns móveis velhos na outra ala. Eu estava esperando alguma coisa como um corpo em decomposição de algum duende da revolta ou um balde inteiro da Felix Felicis, mas não tinha nada de interessante "Onde está o 'Voilá'?"

Ele rira – só para, você sabe, variar um pouquinho – e, fazendo uma pose teatral, parara ao lado daquela coisa grande ali no meio.

"Hmm, legal. Sinto que estou sendo enganada por aqui"

Adivinha o que ele fez?

"Voilá"

E mais um gesto teatral até que ele fizesse o pano cair.

E dar lugar a um espelho.

Um espelho.

"Eu acho que tenho um desses no meu banheiro. Ou melhor, posso até ver se tem um aqui no meu bolso e... ahá! Aqui está. Só multiplicarmos o tamanho por uns mil e colocar uma moldura de 1500 que temos um igual a esse aí"

"Lily, Lily" ele falara em um tom falsamente emburrado, o quê de diversão escapando por sua voz "Você está me subestimando"

Hmmm, é claro que eu estava. Seu segredinho, que ele compactuava com Dumbledore – Dumbledore! – era um espelho.

Ah, fala sério.

"Calma aí" ele pareceu reformular o rumo da conversa no meio, e deu uma corridinha até mim. Parece meio gay contando assim, mas foi uma das coisas mais rotineiramente sexys que eu já vira na vida "Vem, melhor daqui. Agora sim..." mais uma pose, agora como de apresentação "Voilá"

E eu, ainda com uma expressão de cinismo, olhara meu reflexo.


Eu ia lá uma vez por semana, mais ou menos. Sem James, aparentemente, saber, porque ele fora bem explícito no quesito 'você-não-pode-vir-aqui-indiscriminadamente' e acho que não gostaria nem um pouquinho de saber que eu fazia visitas lá sem ser para nossas apostas sobre quem-realiza-tudo-primeiro.

Eu simplesmente tinha uma relação de amor e ódio com a Lily que me sorria do espelho.

Ela era tudo o que não era. Ou talvez quase tudo, já que alguns dos desejos que estavam ali eu conseguira realizar. Todos relacionados a James, na verdade, mas eu tinha a teoria de que encontrar um cara que realize seus desejos era tão bom quanto realizá-los você mesmo.

James me fazia sentir segura. James me fazia sorrir. James me fazia rir. Gargalhar, até. Era com ele que eu sonhava à noite, com ele que eu passava praticamente 24 horas do meu dia mesmo antes de namorarmos. Fora James que me dissera no Natal que estaria comigo, ele que me ajudara a fazer um boneco de neve e, depois, pegara sua cabeça e me assustara no meu quarto colocando-a na frente do próprio rosto. Ele me apresentara o Mokaccino da família Potter – eu nem sabia que bruxos bebiam café, e foi quando eu descobri que eles sabiam disso por causa de uma viagem à Itália – e me viciara em tudo que tinha a ver com ele.

Era sempre ele, não importasse para onde eu olhasse. E a Lily do espelho tinha plena consciência disso.

Não que eu não tivesse. Era só que... ela era uma pessoa muito melhor que eu. Muito melhor mesmo – tanto que nem jogava isso na minha cara como eu tinha certeza que eu faria se pudesse –, do tipo sem-comparação.

Ela não tinha medo do fim da escola.

Não tinha medo de se arriscar demais e, consequentemente, de se decepcionar.

Não tinha medo de lutar. Nem de quebrar a cara caso perdesse ou esperasse demais.

Sorria sem medo, ria sem medo, vivia sem medo algum.

Ela aproveitava mais o James que ela tinha do lado.

Eu tinha inveja disso, quer dizer. E tudo o que eu menos queria era que meu namorado soubesse disso.

"Se você não quisesse me ouvir, tudo bem. Mas eu te falei que Dumbledore tinha me avisado para..."

"Como você sabe?"

Ele deu um sorrisinho.

"Quando eu te mostrei o mapa, lembra...?" perguntou, voltando a me puxar para perto dele "Eu te disse que costumava vigiar seus passos algumas vezes por mês"

É, era verdade. Depois da raivinha, lembro, senti satisfação.

"Eu continuei até mais ou menos novembro. E via que você ia para a sala do Ojesed uma vez a cada semana mais ou menos" hmm, dessa eu não sabia. Eu achava que ele tinha parado depois que viramos amigos ou, pelo menos, tínhamos começado a sair "Eu parei de te vigiar como um tarado maníaco, mas tenho certeza que você não vai para a biblioteca quando fala que vai"

Eu pisquei, meu rosto corando um pouco.

É, ele estava certo.

Mas eu nunca, nunca mesmo, adivinharia que ia ficar viciada na Lily-reflexo do jeito que eu estava. Quer dizer, Remus tinha um certo passe livre para ele – segundo James, Dumbledore deixava para fazê-lo correr atrás de seus desejos e perceber que era possível ter uma vida mesmo que 'peludo uma vez por mês' - e eu acreditava que também tinha esse passe. Eu realmente ia no começo para lá para ver o quanto eu estava feliz no espelho e o quanto eu tinha que me esforçar para ser assim na vida real, mas as coisas realmente saíram do controle.

Eu ficara viciada em realizar meus desejos, mas nunca conseguia alcançar a Lily-reflexo.

"Eu sei que é divertido. Quer dizer, nós quatro íamos lá para ter uma idéia de como era, e fazíamos apostas malucas sobre quem realizava mais desejos em um período menor de tempo" ele continuou, sorrindo, apertando minha bochecha. Eu adorava quando ele fazia isso: era totalmente diferente das minhas tias velhas que eu encontrava no final de ano "Mas, Lily, era só isso. Ninguém ficou neurótico"

"Eu não estou neurótica" protestei, mesmo que uma pontinha de 'Ei, é verdade' invadisse minha mente "É só que ela é perfeita em milhares de coisas, e eu não. Aliás, estou bem longe disso e..."

"Ela não é uma pessoa, Lily. Ela não existe"

"Existiria se eu conseguisse..."

"O que você vê, Lily?"

Eu parei de falar, pega de surpresa pela pergunta. Claro, era a coisa mais óbvia a ser dita, mas era meio surpreendente também.

Até porque eu tinha medo de responder.

"Eu sendo a melhor de todas as alunas"

"Isso você já é"

Eu ia abrir a boca para contestar – 'Só porque eu estudo para caramba' – mas seu olhar dizia 'Só as respostas que eu quero, Lily'

Melhor não contrariar.

"A mais bonita também"

"Eu disse isso por dois anos inteiros. E olha que sou meio exigente para minhas ficantes demais de duas semanas'

Eu tentei levar isso no elogio "A mais sincera, a mais corajosa, a mais..."

"A mais tudo?"

"Exatamente"

"Você é, Lily"

Eu sorri por detrás do meu meio desespero.

"Acho que esse é o único desejo que eu realizei" comecei, um pouco divertida, minhas vez de apertar sua bochecha nos meus dedos "Eu tenho um namorado que faz tudo para me colocar para cima"

Ele riu.

"Que honra" brincou, me dando um selinho rápido "Só posso abrir um parênteses?"

"Hum?"

"Eu não diria essas coisas se não fosse verdade. Traduzindo, não estou tentando te colocar para cima com mentiras, como seus olhinhos disseram" pausa para apontar para eles divertidamente "mas com verdades"

Faça-me rir.

"E não faça essa cara de ironia"

Eu sorri.

Certo, ele me conhecia tanto quanto o cara do espelho - o que era mais um ponto ao seu favor e nenhum do meu.

"Você não vai me convencer com argumentos de namorados, James. Vocês são quase como mães**"

Ele riu, dessa vez mais alto, e me puxou para um meio abraço.

"Quer argumentos de verdade?" me perguntou, mas nem me esperou concordar ou não e foi soltando a língua "Suas notas foram as melhores nos NOM's e nos NIEM's. Você pode dormir na aula de Slughorn que ele ainda vai falar que a sua resposta está certa"

Eu podia começar a ver o 'Loser' na cara dele.

"Quanto a mais bonita, isso é ridículo. Ninguém vai tirar da minha cabeça a voz daquela primeiranista dizendo que queria ser você, nem da Faith dizendo que tinha inveja do seu cabelo" ele continuou, imbatível. E Marlene ainda dizia que eu era a tagarela da relação "Eeeee, o mais importante de tudo?

"Sim?"

"Wormtail cismou em fazer uma enquete assim que começamos a sair" ele deu uma pausa satisfeita, os olhos brilhando "Adivinha quem tem a namorada mais bonita do castelo?"

Eu pisquei. Estava até pronta para retrucar com alguma coisa sobre como era a estupidez masculina quando eu percebi o que ele tinha me dito.

Ponto para mim.

"Quanto ao sincera, nunca vi alguém expressar tanto sua repulsa por alguém como você expressava por mim no quinto ano. Claro, tivemos alguns probleminhas com costumes aos beijos e alguns passos a mais" eu o proibira de falar a palavra 'sexo'. Meio infantil, eu sei, mas era uma maravilha para quem só faria sexo depois do casamento – que, por ventura, aconteceria aos vinte e dois anos "mas eles vão ser superados"

Tomara.

"Nenhuma covarde entra para a Grifinória. E, além do quê, não é qualquer uma que vê um lobisomem na frente e praticamente faz carinho na cabeça dele"

Eu sorri, me deliciando com ele. Tudo bem, ele exagerou um pouco nessa última parte, mas até que tinha bastante lógica tudo o que ele falara – eu até já colocara, sem sacanagem, meus históricos para comparar com o de outros alunos dos anos anteriores. Ou melhor, eu mesma já havia pensado nisso tudo.

Mas com James falando era completamente diferente.

É, meu namorado era melhor que o do espelho, porque o-reflexo não dizia essas coisas.

"Sua lista continua ou essas eram as 'milhares de coisas'?"

Eu demorei um pouquinho, mordendo meu lábio inferior. Ela continuava, mas esbarrava em um dos meus defeitos: eu tinha medo de quebrar a cara, e se James concordasse com alguma coisa que eu dissesse ali ela ia ficar em mil pedacinhos.

"...Nada"

Eu olhei para seu rosto, procurando por algum sinal de riso ou de ironia. Entretanto, a única coisa que eu consegui foi ver interesse e uma outra coisinha que eu, sinceramente, não sabia o que era.

"Vem comigo" ele pegou minha mão e começou a me puxar em direção aos degraus da escadaria, quase me fazendo tropeçar no vestido ao afundar meu salto na grama "Eu vou abrir seus olhos"


Eu estava lá. Meio descabelada, mas estava lá.

Em frente ao espelho, ao lado de James.

"Posso abrir as cortinas?"

"Eu não vejo graça, James"

Eu não conseguia vê-lo, mas tinha certeza que ele sorria.

"Eu não sei por que você quer que eu veja isso. Já estou cansada de..."

Ele nem me deixou falar e, com um movimento de descaso, deixou o pano cair. Lá estava a Lily, sorrindo para mim, toda a sua perfeição brilhando. Seus fios no lugar certo, seu corpo sem uma gordurinha a mais, a roupa perfeita e os olhos brilhantes.

É, a inveja era mesmo um monstro de olhos verdes ***.

"Eu posso começar" James disse, agora logo atrás de mim. Suas mãos já estavam na minha cintura, fortes, arrepiando cada centímetro do meu corpo "Sabe o que eu vejo?"

"Não..."

Era um sussurro, praticamente.

"Nós dois, um pouco mais velhos – disso eu simplesmente sei, quer dizer, porque nós continuamos os mesmos na aparência e no jeito de ser – com uma menina de três anos numa vassoura de brinquedo"

Eu não pude deixar de rir. De leve, mas era uma espécie de risada. Era mais ou menos o que eu via – tirando, claro, a Lily perfeita.

"E como é a sua Lily?"

Ele demorou um pouquinho.

"Ruiva, olhos verdes" ele parou à minha revirada de olhos, beijando meu pescoço com um meio sorriso no rosto "Engraçada, com tendência a dramaticidade, exagerada. Inteligente, linda, vestida num vestido pérola – que eu ainda juro que é dourado claro – e doze centímetros mais alta devido a uma sandália dourada"

Eu abri um outro sorriso, virando um pouco o rosto e juntando minhas mãos aos seus braços "Essa não é a melhor roupa para um passeio"

"Mas é assim que eu vejo"

Eu sorri um pouco mais aberto agora.

Ele não existia.

"Sua vez"

Eu engoli em seco.

Eu via nós dois também, mas mais um menino. Estávamos numa sala aconchegante, no inverno, com uma lareira no fundo e um foguinho em brasa. O garoto tinha uns cinco anos e uma blusa da seleção de quadribol inglesa, e segurava uma xícara de chocolate quente nas mãos.

Mas o mais importante era como James olhava para mim e como eu retribuía esse olhar.

Sem medo algum.

Eu queria dizer isso a ele. Queria dizer que eu o amava muito, muito mais do que eu poderia dizer em 'Eu te amos' sussurrados. Queria poder gritar para todo mundo ouvir que ele era meu, que eu era dele, que nós dois iríamos formar uma família perfeita que sentaria em sofás no inverno e faria chocolate quente para todos nós.

Mas essa era a Lily do espelho, não eu.

Que vontade de chorar, Merlin.

"Você é a perfeita aqui, Lily"

Eu pisquei, deixando uma lágrima cair de cada olhada, outras tantas sendo presas no último segundo. Ele me apertou com mais força, então, e beijou meu rosto, mordendo minha bochecha de brincadeira.

Mas, eu via pelo espelho, seu olhar estava meio sério.

"Eu não gosto desse seu reflexo. Ia me colocar para trás, quer dizer"

É, mas eu não podia esperar muito mais que meio segundo, pelo visto.

"Foi por você que eu me apaixonei"

Um escorregar de lábios pela minha bochecha.

"É com você que eu sonho"

Um apertar mais forte na cintura.

"É você que eu quero"

Um recostar mais forte de corpo.

"É você que eu amo"

Um mordiscar em meu lóbulo.

"E, eu juro, isso não vai acabar. Talvez nós não poderemos mais andar pelos jardins e tudo aquilo que você falou, mas podemos passar com nossos filhos em qualquer outro lugar. Talvez nós dois pudéssemos trabalhar no Ministério e, ao invés de nos escondermos por salas de aula, poderíamos tentar gabinetes de trabalho."

Um virar em meu corpo e um abraço um pouco mais forte. Um recostar de testas, um roçar de lábios, um encostar de línguas.

É, nós poderíamos tentar.


Eu abri meus olhos, devagar, piscando-os depois. Não havia luz do sol mas, de alguma maneira, eu sabia que estávamos no comecinho do amanhecer. James, com o braço sobre meu corpo e a respiração quente em meu pescoço, ainda dormia, os óculos esquecidos em algum lugar da sala.

Eu tive que sorrir.

Ainda mais devagar do que abrira meus olhos, saí de perto de seu abraço e peguei sua blusa, vestindo-a. James tinha o sono mais pesado que eu já vira – e olha que, uma vez, Alice e eu tivemos que praticar o Aguamenti em Marlene – e, de jeito nenhum, ia acordar com uma saída especialmente cuidadosa.

Fora minha última noite em Hogwarts, e não tinha como ser mais perfeita.

Primeiro, a festa de formatura. Depois, a conversa nos jardins. Em seguida, o espelho. Quase no final, o sexo – eu podia pensar às vezes – e, por último, uma última conversa, deitados no colchão conjurado; nela, eu percebera, James não era só o cara por quem eu tinha me apaixonado, nem o cara que eu amava ou que sonhava passar todos os meus 22995 dias – porque eu não viveria menos de 80 anos, acredite – restantes.

Ele me fez abrir os olhos, verdinhos e nem um pouco monstruosos, e olhar para mim mesma.

Não, isso tudo não acontecera em uma só noite. Começou quando ele me mostrou que eu poderia continuar sendo a monitora foda em todas as matérias e, mesmo assim aprontar das minhas de vez em quando.

Eu arriscava.

Quando ele me contou todos os seus segredos, como esse espelho, como o mapa e a capa, como o fato de ser animago ilegal. Quando ele me disse "Só te conto isso, você sabe, porque numa relação de amizade e namoro ou qualquer outra, tudo tem que vir dos dois lados."

Eu era sincera.

Quando ele começou a sussurrar no meu ouvido o quanto eu era linda, e o quanto ele queria esquecer do resto do mundo para ficarmos só nós dois.

Aí ele me dissera que o mundo não importava.

Nem o lugar, ou qualquer outra coisa. Só nós dois, ninguém mais, nada mais.

Pena que eu só fui perceber isso tudo quando ele teve que deixar de usar as entrelinhas.

"O que você vê?"

Eu quase pulei de susto, virando-me para James. Ele havia sentado no colchão, o lençol caindo abaixo de sua cintura, a mão esfregando o olho esquerdo enquanto sorria de canto.

Foi difícil para mim ter que fitar a mim mesma, com uma blusa social amarrotada e o cabelo bagunçado, e o coração batendo rápido no peito.

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* Francis: eu não tenho idéia de quando ela deu o peixinho para o Slughorn, nem se isso foi fantasia do filme. Só sei que eu chorei nessa parte do filme e achei totalmente pertinente, porque a carinha do Slughorn foi uma das coisas mais fofas do mundo to-do.

**Quem arrumar um namorado que faça um elogio por dia de livre e espontânea vontade - eu tenho que soltar umas três ou quatro indiretas para o meu dizer que eu posso ser tão gostosa quanto a minha melhor amiga -, por favor, cuidado comigo. Está sujeita a roubo X)

*** Iago, do mestre Shakespeare. Na realidade, eu pesquisei no google e descobri que a frase dessa peça é muito menos ambígua do que se parece, mas até hoje surgem dúvidas se ele estava se referindo ao ciúmes ou à inveja. Então, aproveitei à brecha literária e coloquei como se fosse a inveja (embora eu odeie parênteses, eles se fazem necessários agora. A primeira vez que eu vi menção dessa peça foi em "Cai o pano", da Agatha Christie, e Poirot falou alguma coisa sobre inveja, ACHO. Então, não sou a primeira escritora a dar essa interpretação)

Bom, é isso aí. Ces't fini.

Não sei se tenho muitas coisas para falar agora. É algo como você ficar planejando milhares de notas finais da autora - eu, sinceramente, nem sei se coloquei mais de uma nessa fic - e, de repente, tudo fazer "puff" e dizer "Até nunca mais, baby".

E vai sair isso daqui.

Eu gostei de escrever a fic, na realidade. Mais que "Cachorro" e menos que todas as outras, mas mesmo assim foi ótimo. Algumas - muitas - dificuldades, alguns surtos de "Isso está uma merda-delete-droga, estava bom" e ataques de risos histéricos na frente do Word. Principalmente esse último capítulo que foi especialmente longo - e eu o-deio escrever capítulos longos - e cansativo demais. Não tive a menor paciência de revisá-lo, então peço perdão adiantado por eventuais erros de português ou quaisquer outros.

Besitos, todo mundo. Espero que gostem e que, claro, me mandem reviews - críticas? Faço um esforço para aceitar. Elogios? é como coração de mãe X). Comentários estúpidos? Graças a Deus, nunca tive nenhum XD

AGRADECIMENTOS:

*Sakura-Diggory; 1; Rose Anne Samartinne; Sophie Ev. Potter; Justine Sunderson; Lady Blonde; Meel Evans Potter-Malfoy; Mari lP; De Weasley; Lady Barbie Pontas Potter e lelezuda.

- Agora, as pessoas que eu não pude responder por e-mail - e que, por total irresponsabilidade minha, ficaram sem respostas: às duas Nathálias - sim, vocês são duas X); Samantha, Carol e Naah. Se eu pulei alguém, desculpe. Mesmo. Vocês não mereciam - e não, não estou sendo irônica.