Disclaimer: Essa história é baseada nos personagens e situações criadas por J.K. Rowling, várias editoras e Warner Bros. Não há nenhum lucro, nem violação de direitos autorais ou marca registrada.
Fic escrita para a Dannipel no Amigo Oculto 2009 da Potter Slash Fics.
Personagens: Harry/Ron e Draco
Avisos: AU/linguagem/lobos/ação/cenas de flashback em itálico, não necessariamente em ordem cronológica.
Fiz uma capa para esta fic. Você pode encontrá-la no meu LJ: http : // pics. livejournal .com/cy_malfoy/pic/000010sf/
O 'Ron' e 'Harry' da capa são artes da Hajime (aka Frog), do doujin 'Honey days, honey magic'.
Feelings
Capítulo V
Foi a dor em seu olho esquerdo que acordou Harry, a mesma que o mandava manter o olho fechado. Mas o pânico e a necessidade de saber onde estava fizeram Harry a contrariar. Mordeu a mão para abafar o grito de dor.
Só então as memórias do que tinham acontecido vieram como uma enxurrada. A ronda. O galpão. O cerco. Lobos. Liesel.
Liesel morta.
Harry gemeu quando tentou se sentar e descobriu que sua perna direita não respondia. Sentiu o rosto molhado, mas ele não sabia se era suor ou lágrimas.
Logo notou que suas pernas e braços não estavam amarrados. Seus raptores tinham tido o cuidado de evitar que ele pudesse fugir, de qualquer forma. Tentou, embora soubesse que seria inútil, desaparatar, mas obviamente não funcionou. Ele ficou naquela posição, sentado sobre a perna esquerda e apoiado nos braços, sua perna direita estendida. Não sabia o que tinham feito a ela, mas ela parecia morta.
Morta como Liesel.
Harry quis se apoiar em algum lugar quando seus braços começaram a vacilar sob o peso de seu corpo machucado, mas ele desconfiava que qualquer movimento pudesse quebrá-lo em dois, então apenas adicionou mais essa à lista de dores que sentia.
A pior era a da consciência.
Ele a arrastara para lá. Você ter certeza, Harre?, ela perguntara. Não, ele não tinha. Tinha apenas um documento qualquer em que se lia Nutville. Harry nunca pensou na ronda como uma coincidência, mas sim como sorte.
E agora Liesel estava morta.
Harry precisava sair dali. Sair antes que enlouquecesse, antes que se sufocasse com o cheiro de sangue que emanava do corpo da mulher e agora o perseguia ali. Antes que se afogasse na memória do mar azul dos olhos fixos dela.
Fixos e mortos.
Os braços de Harry finalmente cederam e ele desabou no chão poeirento do galpão. Foi como se todos os ossos de seu corpo inteiro estalassem ao mesmo tempo. Terrível. Respirar doía.
Lutou contra soluços enquanto tentava encher os pulmões com ar. Sentia-se zonzo e tinha um gosto metálico na boca. Ergueu lentamente uma mão e tocou o olho esquerdo, que tinha voltado a se fechar. A dor ali era intensa e queimava como se tivessem arrancado a pele com uma pinça. Não conseguia enxergar com aquele olho. A falta dos óculos também incomodava, e o olho que funcionava começava a arder e lacrimejar conforme ele forçava a vista.
Uma onda de pânico quebrou suas barreiras e ele decidiu que precisava sair dali agora.
Com dificuldade, apoiou-se nos braços feridos e ergueu o tronco alguns centímetros do chão. Imaginou que a perna direita seria um problema, mas não era como se ele pudesse ficar em pé, de qualquer forma. Empurrou o quadril para a frente e mordeu o antebraço esquerdo com força para não gritar. Começou a se arrastar pelo chão.
O cômodo onde estava era enorme, ele logo percebeu, mas não muito mais do que isso porque seu corpo inteiro tremia em sua concentração em chegar a algum lugar. Vez ou outra seus braços cediam e ele precisava esperar alguns segundos para sua respiração voltar ao normal e então recomeçar.
Ele se perguntaria por que estava tudo tão aparentemente fácil. Por que não havia alguém de olho nele ali. Ele teria se perguntado essas coisas se, naquele momento, não tivesse ouvido vozes em algum lugar do outro lado da parede.
Harry ficou tenso e parou de se mover. O som era abafado demais para que ele pudesse entender as palavras, mas Harry imaginou quanto tempo elas demorariam a ficarem mais nítidas conforme os donos se aproximassem de onde ele estava.
Uma eternidade, para Harry, que estava muito parado, ouvindo os passos rápidos e pesados se aproximarem do galpão. Ele quase podia ver através da porta de madeira quem quer que fosse estender a mão para a maçaneta da porta...
- HAKOR! O que pensa que está fazendo, filho da mãe! – berrou uma voz mais distante. Harry respirava tão rápido agora que ele tinha certeza de que seria ouvido. – Eu não mandei os dois imbecis carregarem o caminhão? A que horas vocês esperam que a mercadoria chegue ao Tranco? Hein, Antef?
- E quem você pensa que é, Marduk? – Harry não sabia se quem respondia era Hakor ou Antef. – Berrando ordens atrás da mesa?
Marduk rosnou. Harry tinha certeza de que ele tinha rosnado. Um rosnado bem canino.
- Você toma cuidado com a sua língua, Hakor, ou terei o prazer de arrancá-la eu mesmo.
- He, he, ora, Marduk, quanta pompa... Bom... porque eu serei o primeiro a rir quando Auron acabar com você. – Um breve silêncio se seguiu a isso, até Hakor soltar uma risada seca. – Ora, ora, você não sabia? Então deixa eu te esclarecer uma coisa: quando você terminar o seu serviço no Ministério, quando Auron tiver o que ele quer, você está acabado. Você não faz parte do bando, Marduk. Quando você terminar o serviço, Auron vai, de bom grado... Como deixar isso mais claro?... Hum, ele vai de bom grado te servir no jantar. Entendeu? – Hakor riu, sendo acompanhado por Antef. – O caminhão, você disse? Em um instante, senhor.
E com isso, os dois saíram pelo corredor, às gargalhadas. Harry ainda esperou. Podia sentir que Marduk ainda estava do outro lado da porta. Mil coisas se passavam na cabeça do auror, mas sua linha de pensamento foi cortada quando um murro foi dado na porta de madeira, e Marduk se afastou pelo corredor com um urro frustrado.
Potter deixou a cabeça pender, aliviado, só agora sentindo o quanto tinha tensionado os músculos durante a conversa. Ele virou a cabeça para um lado e tentou relaxar um pouco antes de continuar seu caminho, mas o contorno de um objeto conhecido o parou.
Harry nunca pensava muito antes de fazer as coisas, não seria agora, preso por um bando de lobisomens, que ele começaria.
Enquanto Harry se arrastava na direção do telefone que estava jogado no chão do galpão, ele sorria, imaginando o susto que Ron levaria. Discou o número que sabia de cor e só enquanto aguardava, se deu conta do quanto tremia.
Levou cinco infinitos toques até a voz que ansiava ouvir há dias responder.
- Alô?
- Ron? Ron, sou eu.
- Harry? Meu Deus, Draco, é o Harry!
Draco levantou-se imediatamente e fez um sinal para que Ron colocasse a conversa no viva-voz.
- Harry – Ron continuou, - oh, meu Deus, você está bem? Onde você está, de onde você está falan-?
- Weasley, espere. Faça uma pergunta a ele. Uma pergunta que só vocês dois saibam a resposta.
- Não temos tempo para isso, Malfoy.
- Regra número 3 do Esquadrão de Aurores, Weasley: VIGILÂNCIA CONSTANTE!
- Isso não está nas regras, isso é pura babaq-
- PERGUNTE!
Ron fechou a cara e de repente ficou muito vermelho.
- P- por que o toque do meu celular é macho man? – ele perguntou muito rápido. Draco grudou a orelha no aparelho para não perder uma única sílaba, sorrindo como um tubarão. Ele quase riu quando Harry caiu num longo silêncio do outro lado da linha.
- Porque-eu-sou-macho-man-na-cama.
Draco deixou-se cair na cama quando começou a gargalhar, dando soquinhos no colchão. Ron fechou a cara para ele quando o loiro começou a rolar de um lado para o outro na cama, mas as orelhas continuaram vermelhas.
- Você está bem, parceiro? – Ron e Harry perguntam ao mesmo tempo. Ron deu uma risada nervosa, passando uma mão trêmula pelos suados fios ruivos.
Draco sentou-se na cama, limpando as lágrimas de riso, o rosto completamente vermelho.
- Potter, pare de se preocupar com o trasgo do seu namorado. É você que está amarrado em algum lugar qualquer com um bando de lobisomens sádicos em volta. Você sabe onde você está?
- Eu não sei, me trouxeram vendado. Mas eu sei que é um galpão.
Draco rolou os olhos e bateu uma mão na testa.
- Grande ajuda, Potter. Agora sim ficou tudo claro. Um galpão. Não saia daí, estamos chegando.
- Malfoy, cale a boca – Ron rosnou. – Harry, olhe em volta. Descreva o máximo que você puder.
Harry forçou a vista e olhou em volta. Tinha uma caixa de papelão próxima e ele se arrastou até ela. O rótulo desbotado fora colorido um dia.
- A caixa diz... E-eu acho que é Fire Bust alguma coisa, não consigo enxergar, perdi meus óculos.
- Buster! É uma fábrica falida de fogos de artifício – Draco falou, imediatamente erguendo-se e saindo do quarto. - Vou procurar um mapa.
Ron assentiu com a cabeça, esperando que Harry falasse mais, mas a voz sumira e Ron não era capaz de ouvir qualquer outro som.
- Harry? Harry? – chamou, mas a linha já tinha caído.
Enquanto isso, no galpão, Harry erguia a cabeça para encarar Auron, que segurava o telefone em sua mão. Com um sorriso que mostrava boa parte de seus dentes amarelos, o lobisomem colocou o celular no chão e o pisou. Harry quase gemeu quando viu o único meio que havia conseguido para se comunicar ser destruído. Ele nem ao menos percebeu que havia começado a tremer quando o homem se agachou à sua frente.
- Então, a donzela achou mesmo que estava me passando a perna? Quanta inocência, Potter...
Harry franziu a testa, mas não desviou o olhar raivoso de Auron.
- Por que está me olhando assim? Não se preocupe, eu não vou te morder... Já seus amigos...
Ele arregalou os olhos para o homem, que abriu mais o sorriso.
- Do que você está falando?
- O quê? Não entendeu? Para o Salvador do Mundo Mágico eu achei que você seria mais rápido. Sabe, é muito mais fácil se eu simplesmente eliminar as pessoas que têm mais chance de me encontrar do que ficar fugindo a cada dois dias – Harry franziu as sobrancelhas e Auron parou de sorrir, e pela primeira vez o auror sentiu medo dele. - Vou deixar seu namoradinho te encontrar. Então você vai poder assisti-lo morrer de perto. Mas não fique com essa cara tão triste, Potter. Eu vou deixar você se despedir.
Harry abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas o pé de Auron já estava no ar.
E Harry apagou.
Era uma dessas noites de que Ron mais gostava.
O vento cortante de novembro entrava pela janela aberta, esvoaçando a leve cortina branca e trazendo consigo folhas mortas que deitavam quietas sobre o assoalho de madeira do quarto.
Descalço, ele remexeu a lenha na fogueira com o atiçador, assistindo a brasa reavivar, o calor do fogo se espalhando pelo cômodo. Enrolou-se mais no edredom e voltou para a cama.
- 'Tô com frio – Harry falou, sem abrir os olhos, quando Ron deitou-se sobre ele. O mais alto moveu-se de sua confortável posição apenas para puxar o edredom até seus ombros nus, deixando apenas a cabeça para fora.
Grudou o rosto no pescoço de Harry e acomodou-se.
- Está melhor?
Harry assentiu, passando os braços em torno do tronco sardento e embolando suas pernas de forma que levaria algum tempo para se desenrolarem. Caíram num silêncio em que era possível escutar as notas baixas da melodia que tocava no gramofone.
- Você está quente – Ron falou de repente, franzindo a testa, estranhando o calor diferente que vinha do corpo de Harry.
- Também… - Harry sorriu malicioso, e fungou, a voz ligeiramente rouquenha.
- Idiota – Ron murmurou, mas sorriu. Então levou uma mão à testa do moreno. – Você deve estar com febre - Deve ter apanhado um resfriado – falou, referindo-se à chuva de novembro que Harry tinha tomado para chegar ali e ao espirro que ele acabara de dar. Maluco...
- E você vai apanhá-lo de mim.
- Mesmo? – Ron falou, erguendo-se sobre os cotovelos e beijando Harry freneticamente na boca.
Ele descansou o queixo no peito de Harry e, com o indicador, traçou duas linhas em seu torso nu. Harry começou a contar as sardas em seu rosto com a ponta do dedo.
- Por que está sorrindo? – perguntou, quando o ruivo tentou esconder um sorriso em seu abdômen, descobrindo metade de seu corpo e o fazendo se arrepiar. Ele não tinha certeza se de frio. Riu quando Ron começou a ter pequenos acessos de riso. – Fala, caramba.
- É só que... – Ron desviou a mão de Harry quando este fez menção de puxar sua orelha. Harry tinha essa estúpida mania. – É só que você parece ser meio tarado pelas minhas sardas.
Harry o encarou boquiaberto por alguns segundos.
- Mas é claro que sou tarado por suas sardas! Por que você acha que eu ainda estou com você, afinal? – Ron começou a fazer-lhe cócegas, e Harry continuou por entre risos.
- Ginny tem sardas, também.
- Ginny usa saias. Já disse que não gosto de pernas com saias.
- Seamus, então.
- Ele só tem um bocado nas bochechas.
Ron parou com os ataques, dando um tempo para Harry recuperar um pouco do fôlego.
- Como você sabe que ele só tem nas bochechas, Harry Potter?
- A gente vive no mesmo país, Ron.
- Seu cretino... – Ron xingou, agora prendendo os braços de Harry e o fazendo pedir penico.
- Moody tem sardas!
- Ew! – Harry fez uma careta, olhando indignado para Ron, que perdeu as forças quando suas risadas aumentaram e soltou Harry.
- Mas é verdade. Se você olhar bem de perto, consegue vê-las.
- Não, obrigado – Harry sacudiu a cabeça, ajeitando-se novamente na cama e puxando Ron para perto. O corpo dele também estava quente, agora, mas Harry não sabia se por causa da brincadeira ou de febre. Abraçou-se mais a ele.
Quando voltou a chover, eles ficaram bem quietos, escutando a chuva bater no telhado da casa. Harry viu que estava entrando água da chuva pela janela, maculando o assoalho de madeira do quarto, mas ele não se mexeu de sua posição.
Achou que Ron tinha caído no sono quando ouviu sua voz o chamar. Estava muito baixa, como a de quem pede desculpas.
- Harry?
- Hum?
- Eu menti quando disse que não tinha a mínima idéia do por que tinha ido com você.
Harry franziu o cenho, tentando entender do que o outro estava falando.
- Na barraca... antes de... abandonar vocês. Você me perguntou por que eu tinha ido e eu berrei que não fazia idéia. Era mentira.
- Ron-
- Eu só queria dizer – o ruivo aumentou a voz para impedi-lo de interromper – que o fiz porque eu quis. Não, eu fiz porque... o amo – Ron corou completamente ao murmurar a última parte. Ao ver Harry corar. – Quero dizer, de várias formas, entende...? Era... Você precisava de mim e eu precisava ir... sei lá...
Harry sorriu para a timidez do mais velho e num movimento rápido, trocou as posições, beijando-lhe a testa, depois a nuca, e fazendo Ron fechar os olhos.
- Hey... Vê como eu preciso de você?
- O assustador – o garoto começou hesitante – é que eu também. Preciso. De você, quero dizer. Muito mesmo – a capacidade de articulação de Ron fazia Harry rir.
Ele sorriu para as orelhas vermelhas do rapaz antes de puxar levemente uma delas. Aproximou-se de seu ouvido quando Ron resmungou "mania besta" e sussurrou.
- Então acho que não vou poder deixá-lo ir a lugar algum sem mim.
- Isso é uma promessa, senhor Potter? – Ron ergueu uma sobrancelha, divertido, ronronando com os beijos que ganhava no pescoço.
- Sem dúvida que é.
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N/a:
OMG! Tá acabando! *corre em círculos*
O que vocês estão achando, hein? ^^
Até o próximo capítulo! o/
