Capítulo IX


Ainda não amanhecera quando Sesshoumaru entrou na cabana, fechando a porta com todo cuidado.

A umidade da noite penetrava pelas paredes, e Sesshoumaru decidiu acender a lareira. Não pôde conter um sorriso ao tirar a tampa da panela sobre o fogão. A sopa cheirava maravilhosamente bem. Tomou umas boas colheradas antes de recolocar a tampa no lugar.

Sentou-se no beliche vazio e tirou os sapatos, o tempo todo olhando através da janela. O silêncio era total. Ele era um fantasma no acampamento.

Olhou para o outro lado, onde Rin dormia. Naquele momento soltou um gemido, e Sesshoumaru aproximou-se. Ela suspirou e se mexeu, desassossegada.

Hesitante, Sesshoumaru deitou-se a seu lado, abraçando-a.

- Sesshy? – ela indagou, enlaçando-o pelo pescoço.

- Sim, volte a dormir. Eu estou com você. – ele enterrou o rosto em seus cabelos.

- Alguma novidade?

- Não.

- Estou com medo – ela admitiu pela primeira vez, a respiração irregular.

- Eu sei, Rin.

Sesshoumaru não podia afastar seu medo, porém queria compartilhá-lo.

- Fique comigo. – ela pediu.

- Já estou aqui.

Suspirando, Rin encostou o corpo no de Sesshoumaru, colocando a perna intimamente entre as dele. Ele deu um pequeno sorriso. Naquele momento estava tão cansado que nem ficou excitado com aquela proximidade.

Rin acordou, sentindo-se de repente gelada e sozinha. Viu Sesshoumaru no beliche de Yahiko, dormindo vestido.

Tentando controlar a emoção que a possuía toda vez que Sesshoumaru se encontrava perto dela, sem sucesso. Só pensava em deitar na cama dele e ficar em seus braços. Ali era seu lugar, quer ele reconhecesse o fato, quer não.

Rin acordou e lembrou-se do calor dos braços de Sesshoumaru em torno dela, pouco antes. Será que sonhara? Não, ambos tinham conversado, depois ele dormira com ela, deixando-a se aninhar em seu peito.

Ela não conseguia acreditar que Sesshoumaru pudesse partilhar tanta coisa com ela e dizer que tudo era somente atração física. Havia algo mais.

Sacudindo a cabeça, otimista, afastou aquelas perguntas, levantou-se e se vestiu. Tinha outras coisas para fazer.

Foi à despensa de Yahiko ver o que poderia adicionar ao café da manhã dos voluntários. Levou alguns ovos e pão, que foram muito bem-vindos pelos que estavam saindo da mina.

Logo após, Rin decidiu descer à mina para observar o andamento da operação. Ficou muito desiludida, pois a abertura do novo túnel mal começara.

- Nos deparamos com uma rocha muito sólida – explicou um dos rapazes. – Tentamos fazer um desvio.

Ela subiu para a superfície novamente e organizou as famílias em grupos, para procurarem a antiga entrada. Em seguida, ficou tensa, andando de um lado para outro, até que o helicóptero chegou trazendo novos suprimentos.

Meia hora mais tarde, quando Sesshoumaru foi a seu encontro, havia rugas de cansaço no rosto dele, e os olhos cor de âmbar estavam com profundas olheiras. Rin fez-lhe um prato.

- Como vão as coisas? – ele quis saber, enquanto comia.

- Bem, suponho eu. – E esfregou as mãos na superfície da mesa, suspirando: - Esta espera é terrível.

- Sim, é terrível – concordou, solidário.

Rin tinha vontade de cair nos braços dele e chorar, refugiar-se na proteção daqueles músculos fortes. Para controlar esses impulsos, foi estudar os mapas. Sesshoumaru a seguiu.

- Vocês procuraram por todos estes setores? – ele perguntou, apontando para as regiões desmarcadas por Rin.

- Sim, creio que já cobrimos toda a montanha.

- E ali? – ele apontou para a encosta da serra.

- Lá é muito íngreme.

Sesshoumaru estudou o mapa mais de perto. Logo após, expôs sua hipótese:

Muito tempo atrás, os garimpeiros procuravam ouro nas margens do rio. Ora, é no lado da encosta da serra que passa o rio, portanto Yahiko deve ter ido procurar outro por ali. Vamos dar uma olhada?

Rapidamente, Rin e Sesshoumaru iniciaram a caminhada. Ela mostrava-se maravilhada com a paisagem, pois nunca vira o rio daquele ângulo. Acabara por topar com uma protuberância na rocha poucos pés acima do curso da água. Dirigiram-se para lá. Olhando para baixo, Rin viu algo na rocha que lhe era familiar.

- Sesshoumaru, espere! – exclamou, a voz angustiada. – É por ali. – ela indicou um ponto abaixo deles. – Me lembro de brincar com Yahiko nesse local, quando vínhamos visitar Akio-san. Lembro-me de que tinha uma caverna, mas agora não existe mais. E há uma pedra enorme bem na entrada. Lembro-me também de que tínhamos que andar com muito cuidado sobre pedras soltas, para chegarmos à caverna. Quando Akio-san descobriu onde brincávamos, nos proibiu de voltar aqui.

Sesshoumaru esfregou o rosto.

- Vamos ver se conseguimos descer até lá. Você se recorda da localização da caverna?

- Sim, fica a uns poucos passos daqueles blocos de pedra arredondados.

- Então vamos.

Eles caminharam cautelosamente por sobre blocos de pedra, e logo após sobre rochas cobertas de vegetação.

- Era bem ali, à direita, tenho certeza. – Ela apontou para a rocha perto do córrego. – Eu acho...

Rin mostrava-se insegura, olhando de um lado para outro. Tudo se apresentava diferente, e ela não confiava mais em suas lembranças.

- Vamos olhar em volta – Sesshoumaru sugeriu, examinado o local. – O terreno aqui é muito perigoso, pois é pantanoso. Tenha cuidado!

Eles rastejaram pelas pedras, afastando os arbustos para ver se localizavam algum sinal da caverna, sem nenhum resultado. Rin se levantou, gemendo de dor nas costas. Algo estava errado.

- Sesshoumaru, não desça mais! – ela falou. – Olhe, os blocos de pedra deslizaram! É isso que está errado. A caverna fica mais em cima.

Eles subiram mais um pouco pelas pedras e recomeçaram a busca. Sesshoumaru acabou ficando preso nos ramos de um pé de morangos silvestres.

- Droga! – ele exclamou, nervoso, com a camisa presa num galho.

- Fique quieto.

Rin desprendeu a camisa, sem rasgá-la. Depois, com muita cautela, penetraram num trecho muito escuro.

- É aqui – ela declarou com convicção, e sorriu satisfeita para ele.

- Vamos buscar Setsuna – ele propôs.

- Não, vou ficar aqui tomando conta. Você traz os outros.

- De modo algum – ele replicou. – Era só o que nos faltava, dois perdidos aqui com uma tempestade a caminho. Esta área sofrerá outro desabamento em breve.

- Eu não vou me perder – ela contra-argumentou, decidida a ir em frente. – Yahiko e eu brincamos muito neste local, no passado.

- Sim, quando crianças, em visita ao "ojisan". Quantos anos atrás?

- Akio-san morreu quando completei treze anos. – ela lançou-lhe um olhar zangado, incapaz de admitir que ele tinha razão.

- Doze anos atrás – calculou Sesshoumaru. – Não vou deixar você de jeito nenhum. Ninguém sabe o que houve na área durante esse período.

- Então, vamos os dois. Yahiko pode...

- Não – ele cortou, incisivo.

- Vamos - ela insistiu, numa teimosia tola.

Ele a abraçou, dizendo:

- Só se eu fosse louco – murmurou. Antes de soltá-la, Sesshoumaru a beijou até que ela ficasse sem ar. Em seguida, acrescentou com carinho: - Agora, venha.


Setsuna ainda dormia quando Sesshoumaru o acordou, para lhe explicar o que ele e Rin haviam descoberto.

- Mostre-me o caminho – pediu o rapaz pulando da cama.

Morita Tetsuo e mais dois homens acompanharam os três até o local mais provável da entrada da mina

Enquanto os quatro especialistas discutiam as probabilidades, Rin e Sesshoumaru permaneceram sentados, escutando. Quando ela estava ficando impaciente, ele segurou-lhe o braço, rude, pedindo que ficasse quieta. Então, sugeriu ao grupo, autoritário:

- Rin foi à mina muitas vezes. Se ela entrasse, talvez se recordasse da direção a seguir. Vamos retirar estas pedras e dar uma boa examinada.

Todos acharam uma boa idéia. Afastaram as pedras que bloqueavam a entrada e penetraram. Rin examinou o interior com a ajuda da lanterna, perguntando-se se realmente se lembraria do lugar. Se estivesse certa, haveria uma passagem principal e outra menor, à esquerda.

Sesshoumaru disse-lhe, quando atingiram esse ponto:

- Pronta?


Eles ainda demoraram quatro horas para libertar Yahiko. O irmão de Rin achava-se deitado num monte de cascalho, com a perna esquerda presa sob uma pedra. Ele sorria para seus salvadores, erguendo uma pequena sacola.

- Eu achei isto, Rin! – exclamou, e atirou a sacola para ela.

Rin correu para ele, tomou-lhe o rosto entre as mãos e beijo-o carinhosamente.

- Temos que remover um pouco deste entulho – disse Setsuna, dirigindo-se a Tetsuo e Sesshoumaru. Não havia espaço para os demais.

Depois de uma hora, Yahiko foi libertado. Sentia muita dor na perna fraturada, apesar de tentar sorrir quando eles a livraram da pedra.

Um dos homens imobilizou-lhe a perna, outro enrolou num cobertor, e então começaram a longa jornada de volta. Rin andava atrás dos homens ansiosa, enquanto eles discutiam o caminho a tomar. Sesshoumaru era o último da fila.

Quando o grupo alcançou a clareira, Rin aproximou-se de Setsuna e afirmou:

- Vou levar Yahiko de avião para o hospital.

- Já providenciei um helicóptero com uma equipe medica – Tetsuo interveio. – Já devem ter chegado.

Mal ele acabara de falar, duas medicas correram para examinar Yahiko, fazendo uma checagem de seu estado geral. Rin ficou ali, ao lado do irmão, sem poder fazer nada. Quando ela começou a se afastar, comunicaram-lhe que o levariam para Osaka.

- Você pode nos acompanhar em seu avião – Setsuna sugeriu.

Rin estava tão exausta que mal pôde ver o helicóptero decolar. Os vizinhos sorriam para ela, aliviados, já que o resgate fora um sucesso. Rin mal conseguia sorrir em resposta. Contudo, quando deparou com um par de olhos âmbar, sentiu-se completamente indefesa.

Por um longo instante, Rin e Sesshoumaru se olharam fixamente, e ela viu que ele se debatia numa agonia íntima que só poderia ser curada em seus braços. Desejava ardentemente abraçá-lo, e também queria que ele a confortasse.

No entanto, Sesshoumaru afastou-se. Nesse momento, Rin deu-se conta de que Sesshoumaru a estava riscando de sua vida... exatamente como fizera com sua noiva.

Um suspiro profundo escapou-lhe dos lábios. Pôs a mão sobre a boca, tentando não chorar, sem sucesso. Então, cobriu o rosto com as mãos, desesperada.

- Faça isso, faça isso agora! Vá em frente, chore! – uma voz simpática lhe murmurou.

Setsuna puxou-a ao encontro do peito e acariciou-lhe os cabelos, enquanto ela chorava. Quando Rin levantou os olhos, algum tempo depois, Sesshoumaru já estava fora de seu campo de visão.

- Quer que eu vá com você para Osaka? – Setsuna indagou, quando ela ficou mais calma. – Não seria bom ir sozinha.

- Não precisa ir. Chamarei meus pais.

- Sei que não é necessário, mas eu quero ir. – Setsuna insistiu, encarando-a com brandura.

- Você é uma pessoa maravilhosa. – Ela tentou ser delicada. – Um herói de verdade, sempre pronto pra me socorrer.

- Moças bonitas são minha especialidade – sussurrou ele, sorrindo.

- Seus dentes estão perfeitos. – Rin notou.

- Foi o aparelho. Lembra? – ele explicou, dando uma gargalhada.

Rin também riu, e o que havia de tensão desapareceu. Já relaxada, separou-se e foi agradecer aos vizinhos a ajuda recebida.

Depois que todos se foram, Rin parou um pouco e olhou a sua volta. Ranger e Guria tinham ido embora também. Por um momento, ficou olhando as árvores. Em seguida, foi limpar a cabana de Yahiko, antes de ir para o hospital com Setsuna.

Sentindo um peso em seu bolso, puxou a sacola que Yahiko lhe dera na mina. Ao abri-la, levou um choque: estava cheia de OURO!