Capítulo X


Setsuna estendeu a xícara de café a Rin e disse:

- Tome, vai lhe fazer bem.

- Obrigada. Que bom que você está comigo! Assim que meus pais chegarem, vou levá-lo de volta pra casa.

- Não há necessidade disso; pegarei um vôo comercial. Yahiko vai precisar de você quando acordar.

- Duvido que essas enfermeiras rabugentas me deixem entrar – murmurou ela, ressentida.

Os médicos informaram que, de acordo com os exames de raios-X, Yahiko estava com a perna em melhor estado do que imaginaram no primeiro momento, só que precisaria sofrer uma pequena cirurgia. Se não houvesse nenhuma complicação, ficaria perfeita.

Uma mulher magra e elegante, com os cabelos grisalhos bem curtos, apareceu na porta da sala de espera, acompanhada por um homem alto e com o semblante preocupado.

- Okasan! – Rin exclamou, correndo para seus pais e abraçando-os. – Que bom vocês terem chegado!

- Como está ele? – perguntou Akemi-sama.

- Saiu da sala de cirurgia muito bem. Agora estamos esperando que recupere os sentidos. Este é Okamoto Setsuna. Morava na mesma rua que nós, quando eu era criança. É especialista em minas, e veio para resgatar Yahiko. Foi ele quem lhe salvou a vida.

- Na realidade, sou apenas o engenheiro de minas que estava disponível quando precisaram de um. Rin e Sesshoumaru é que o localizaram – explicou com modéstia, cumprimento Akemi e Sadao-sama.

- Yahiko estava em uma caverna que fazia parte de uma antiga mina. Costumávamos brincar lá quando vínhamos visitar Akio-san. Olhem, Yahiko achou isso. – Ela mostrou umas pepitas. – Lembram-se da sacola que descobriram na casa de ojisan quando ele morreu? Creio que estas pepitas tiveram a mesma origem que aquelas.

Assim que avisaram que Yahiko poderia receber visitas em breve, Setsuna levantou-se para partir.

- Tudo está sob controle agora, portanto volto para o meu trabalho. Foi bom encontrá-los. – E voltando-se para Rin, acrescentou: - Estarei em Kyoto durante os próximos meses. Posso lhe telefonar?

- Claro, adoro conversar com os velhos amigos – respondeu ela sorrindo, e acompanhou-o até a porta.

- Eu era apaixonado por você antigamente, recorda-se? – indagou Setsuna, com um olhar que provava ainda haver muito do antigo interesse.

- Isso foi há muito tempo – respondeu ela, desencorajando-o.

- Bem, tenho que ir. – Despediu-se, um tanto desapontado.

- Adeus, e obrigada pela ajuda. Você foi maravilhoso.

Rin permaneceu na porta até Setsuna sumir de vista. Sua mente, porém, não estava na infância e sim no homem que conhecera mais recentemente e a quem era incapaz de esquecer.


Nem bem chegaram ao quarto de Yahiko, Akemi-sama desatou a chorar. O filho tentava consolá-la, mas foi necessária a interferência do marido:

- Calma, querida! Desse jeito você vai derreter o gesso e vão ter que levá-lo de volta para a sala de cirurgia.

Akemi sorriu e enxugou as lágrimas no lenço de Sadao.

- Desculpem-me pela cena! É que fiquei tão aflita quando Rin me telefonou e disse que Yahiko tinha sofrido um acidente...

- Você está ótimo, meu filho – Sadao falou, beijando-lhe a testa. Aparentemente, esquecera-se de todas as brigas que tivera com a ovelha negra da família.

Num impulso, Rin se levantou e afastou-se de Yahiko. Talvez aquela fosse a hora de os três se entenderem sem sua interferência.

Foi para a janela e ficou olhando para o céu. Era tarde, e uma tempestade se aproximava. Ela estava quase chorando, mas esforçava-se para reprimir as lágrimas. Sempre ficava daquele jeito quando pensava em Sesshoumaru e quando se recordava de seus gestos, de seu olhar, de sua voz. Setsuna era maravilhoso, porém não era por ele que seu coração batia mais forte. Precisava de Sesshoumaru, do conforto de seus braços...

Lembrava-se do som dos pingos da água batendo na janela da casa enquanto faziam amor. No entanto, era tudo tão difícil! Podia ver na chuva também o reflexo de sua própria angústia, e quase não conseguiu controlar as lágrimas.

Porém, fazendo um esforço sobre-humano, conteve-se, e quando seu pai se aproximou para falar-lhe já se sentia novamente calma.


- Você voltou à caverna? – Yahiko perguntou a Rin no dia seguinte, quando os dois ficaram sozinhos pela primeira vez depois do acidente.

- Claro que não. Só entrei lá para atirá-lo.

- Eu lhe entreguei alguma coisa?

- Como isto aqui? – ela indagou, tirando as pepitas da sacola.

- Existem mais dessas na mina.

- Sim, mas você não vai voltar lá – advertiu Rin, alarmada.

- Vou sim. Tem mais quatro sacolas cheias dessas pepitas lá. E também dois velhos mineradores, Rin.

- Dois mineradores? – repetiu ela, admirada.

- Dois esqueletos. Acredito que alguém os matou para em seguida ir buscar o ouro, porém não teve tempo de fazê-lo. Devia haver seis sacolas.

- Talvez uma pedra tenha obstruído a passagem.

- Se fosse assim, o caminho estaria livre quando éramos crianças.

- Talvez mais tarde alguém o tenha aberto outra vez. No entanto, isso não tem importância. O importante é você perceber que é impossível cavar naqueles túneis.

- Não pretendo voltar a cavar lá. Só quero aquelas sacolas para voltar para a faculdade. Não posso viver a sua custa pelo resto da vida.

- Faculdade? Que faculdade? – quis saber Rin, espantada.

- Arqueologia. É isso que quero estudar. Quando descobri os dois esqueletos, foi como se uma luz me iluminasse. Sempre gostei de cavar e achar coisas, desde pequeno. Tesouros de faz-de-conta, ovos de Páscoa, qualquer coisa, recorda-se?

- Sim, seria perfeito pra você! – Rin concordou, entusiasmada. – Você pode morar comigo e estudar em Osaka.

- Sinto muito, mas vou pra Universidade de Kyoto. Um amigo meu me falou que o currículo...

Passaram o resto da tarde fazendo planos.

- Otosan falou que garante a passagem, mas quero pagar tudo do meu próprio bolso. A única coisa que me preocupa é que você pegou esse emprego por minha causa, e agora está comprometida.

- Não tem problema. O contrato dura até março, e logo chegamos lá. Depois vou procurar outra coisa pra fazer.

- O quê?

- Não sei. – ela disse, rindo.

- Vá para a faculdade comigo. Pode fazer mestrado, ou diplomar-se em arqueologia, também.

- Não sou fã de cadáveres. – ela riu.

- Está certo. Você notou alguma mudança nos velhos? – indagou Yahiko, mudando de assunto.

- Sim, eles estavam realmente preocupados com você. Creio que o amam, mas não consigo imaginar o por quê – brincou.

Pouco depois, Rin deixou Yahiko com seus planos para o futuro e partiu para Daisetsu. Tinha que entregar a correspondência e, principalmente, resolver um assunto muito sério, de natureza particular.


Na sexta-feira seguinte ao acidente, Rin já estava em dia com a correspondência e psicologicamente preparada para enfrentar Sesshoumaru. Dera um jeito de ficar livre no final da semana, e assim, dependendo de como fosse a conversa entre eles, talvez ficasse lá para o fim de semana.

Logo após aterrissar, dirigiu-se à casa de Sesshoumaru com os nervos tensos, porém com o queixo erguido. Ele teria de dizer o que realmente sentia por ela para que ela continuasse com sua vida: se Sesshoumaru a amasse, ficariam juntos; se não, ela tentaria tirar aquele homem para sempre de sua cabeça!

Bateu na porta da frente, mas ninguém atendeu. Num instante pôde constatar que não havia viva alma na casa, e que os móveis se achavam cobertos com lençóis. Tudo tinha um ar de abandono.

Rin correu para a caixa de correio, onde encontrou um bilhete que dizia:

"Aceitei o emprego que a firma de construção do Yamanaka-sama me ofereceu.

Poderia ficar com a minha correspondência até eu saber meu novo endereço?"

Rin levou uns minutos para entender o significado. Tinha que enfrentar a verdade. Sesshoumaru se fora.

Ela olhou para o alto das montanhas e só viu escuridão. Era como se de súbito uma tempestade tivesse tomado conta de seu coração.

Sentando-se na soleira da porta, deixou seus pensamentos voarem em companhia das abelhas que haviam feito uma colméia no canto do telhado.


Setembro logo chegou. Rin terminou de entregar a correspondência na sexta-feira e voltou para seu apartamento. Não tinha nenhum plano especial. Pensara em visitar os pais, mas não mostrava muito entusiasmo pela idéia.

Assim que entrou em casa, o telefone tocou. Ela correu para atender:

- Moshi-moshi?

- Rin, aqui é Sesshoumaru.

Naquele instante, Rin recordou-se do dia em que o conhecera. Num flash, veio-lhe à mente a imagem daquele homem forte e alto, dos raios de sol pintando mechas brilhantes em seus cabelos...

- Você está aí? – Sesshoumaru indagou, trazendo-a de volta ao presente.

- Sim, estou. Que bom que você ligou! – exclamou, de modo formal e distante.

- Estou lhe telefonando para convidá-la pra visitar o projeto em que estou envolvido. Pretendo sair amanhã bem cedo. Podemos explorar a área, pescar um pouco e voltar no domingo... Se você estiver livre, claro... – murmurou ele.

Rin tinha mil razoes para dizer "não" e apenas uma só para aceitar o convite. Queria vê-lo.

- Sim, eu vou – respondeu, procurando soar fria e controlada.

- Ótimo! Apanho você às oito.

- Estarei a sua espera.

Desligado o telefone, ficou por muito tempo ao lado do aparelho perguntando-se por que Sesshoumaru a convidara. Ele lhe parecera educado, mas distante. Balançando a cabeça, foi apanhar sua sacola de viagem.


Na manhã seguinte, tão logo acordou, Rin correu para a janela. O tempo estava quente e ensolarado. Rapidamente, ela tomou banho, vestiu-se e terminou de fazer a mala. Para provar a si mesma que não estava nutrindo falsas esperanças, deixou de lado as camisolas de renda e optou por uma camiseta de dormir que lhe ia até os joelhos.

Sesshoumaru chegou pontualmente às oito. Vestia um pulôver vermelho e calça esporte bege-clara. Estava maravilhoso, e Rin não pôde evitar um pequeno descompasso no ritmo do coração.

- Está linda, como sempre – disse ele, ao vê-la.

- Obrigada – agradeceu, omitindo o comentário de que ele era o único que a via daquela forma. – Aonde vamos exatamente?

- Para além do rio Daisetsu, perto de Hokkaido. Fica a menos de cem quilômetros em linha reta, mas a estrada até lá é tão ruim que vai levar umas quatro horas para chegarmos. Trouxe o almoço para comermos no caminho.

- É seu? – perguntou, apontando para o carro esporte conversível, último tipo.

- Sim. E novo em folha, gosta?

- Sim. É mais alto do que os outros carros. Dá certa sensação de superioridade.

Sesshoumaru riu, deu a partida e seguiu em frente.


A manhã passou depressa. Um pouco depois das onze horas, Sesshoumaru parou o carro no acostamento e telefonou para ver se o mestre-de-obras precisava de alguma coisa e para avisá-lo de que em breve chegaria.

Ótimo, pensou Rin. Assim não ficaria a sós com ele. Evidentemente, Sesshoumaru apenas a convidara para mostrar o quanto estava bem. Não precisava se preocupar com suas intenções.

Uma hora mais tarde entraram na clareira, aonde a terra mal principiara a ser remexida.

- A nova estrada começará aqui – Sesshoumaru esclareceu-lhe, indicando um ponto.

Rin examinou o local. Um pouco além, uma ponte tomava corpo. Evidentemente, a rodovia teria início no lugar onde a ponte terminava. Era um projeto gigantesco, pois na realidade a estrada percorreria uma boa parte das montanhas da região.

- Que maravilha! – exclamou ela, ao tomar conhecimento da grandiosidade do projeto.

- Vou trabalhar aqui durante cinco anos. Portanto, terei cinco anos de vida difícil, quase no meio do nada.

- Mas que pode ser divertida também.

- Você acha?

Seus olhos se encontraram e, naquele momento, o coração de Rin bateu mais rápido.

- Não crê que a vida aqui é um pouco dura para uma mulher ou uma família? Às vezes, terei que ir para a sede da firma, em Tóquio.

- Onde sua família vai morar? – indagou ela, com um nó na garganta. Provavelmente, Sesshoumaru se reconciliara com a noiva e agora iria se casar.

- Venha cá que vou lhe mostrar.

Sesshoumaru guiou Rin para uma clareira, onde se encontravam estacionados vários trailers. Um deles servia de escritório, e os demais eram para os trabalhadores da obra. O maior de todos era a casa de Sesshoumaru.

Ele abriu a porta para ela. Rin entrou. O trailer era simples e limpo. A cozinha ficava no meio, a sala à esquerda e o quarto com banheiro à direita.

Sesshoumaru detalhou seus planos:

- Estava pensando em comprar uma casa aqui perto, para ter um lugar mais amplo onde passar os fins de semana.

- Seria uma ótima idéia.

A esposa e os filhos poderiam ficar na cidade, enquanto ele trabalhava, ela supôs. Contudo, só de pensar em Sesshoumaru com outra mulher ficava maluca. Por que se submetera à tortura que era ver aquele homem de novo? No fundo, só viera porque tinha esperança de ouvi-lo dizer que a amava e a queria para si.

- Você pode dormir aqui, dormirei no sofá – Sesshoumaru especificou, levando a mala de Rin para o quarto.

- Pode ficar com a cama. Você vai ficar com metade do corpo para fora do sofá – ela ponderou, olhando-o de cima a baixo.

- Não, quero que você fique no quarto. Assim pode trancar a porta durante a noite.


Sesshoumaru realmente estava muito bem, Rin pensou, ao vê-lo de longe conversando com o mestre-de-obras. Enquanto ele trabalhava, resolvera examinar os mapas e as plantas. Sesshoumaru fizera um trabalho genial, eliminando todas as curvas perigosas do trajeto. Sabia que não tinha o direito, mas estava orgulhosa dele. Provavelmente ele fizera algum esforço para conquistar a confiança se seus subalternos, porém agora parecia não estar tendo mais nenhuma dificuldade. Todos o olhavam com respeito e admiração.

- Ei, olhem o que o chefe trouxe com ele da cidade! – um dos homens gritou para os outros, quando fizeram uma pausa no serviço. – Não é à toa que ele quis limpar tudo por aqui antes de partir.

Rin riu ao ver Sesshoumaru corar. Avaliando o canteiro em volta, ela sorriu para ele e sussurrou:

- Você fez um belo serviço.

- Obrigado.

Sesshoumaru apresentou-a a um grupo de homens, dizendo seu nome sem maiores explicações. Ela sabia que os trabalhadores iam fofocar muito a respeito de sua presença ali e que esperariam Sesshoumaru estar longe para começarem a tirar conclusões.

À noite, os homens se dispersaram pelos trailers ou foram para a cidade mais próxima, onde as esposas ou namoradas os esperavam. Rin e Sesshoumaru seguiram para o trailer, e ali Sesshoumaru preparou um Koi Koku (sopa de carpa).

Logo após o jantar, os dois ouviram musica, e Sesshoumaru contou a Rin sobre seu trabalho. Depois de três horas de conversa, ele terminou:

- Bem, era tudo isso que queria lhe contar. Você é uma boa ouvinte, pois nunca falei tanto em minha vida...

- Foi interessante – afirmou ela, com sinceridade.

- Acredita que uma mulher concordaria em viver aqui?

- Não posso responder por todas as mulheres, mas com certeza gostaria de estar com meu marido onde quer que ele estivesse. Se tivesse filhos em idade escolar, seria outra questão. Teria que levá-los em consideração – Rin ponderou cautelosamente.

- Concordo com você.

Em seguida, Sesshoumaru ficou pensativo, e não conversaram mais.

Rin ressentia-se do fato de ele usá-la para fazer uma idéia do que sua noiva acharia dos planos. Não era justo.

Sesshoumaru olhou para Rin e a viu sorrindo. Levantando-se, foi até ela, a camisa semi-aberta deixando à mostra o peito másculo. Naquele momento, Rin desejou afagá-lo, enfiando os dedos para dentro da camisa. Desviou os olhos. Ele era muito perigoso.

Sesshoumaru sentou-se no braço da cadeira de Rin e, fazendo com que o fitasse, murmurou:

- Pensei que pudesse ficar longe de você, mas não posso.

Então lhe cobriu os lábios com os seus, a língua invadindo possessivamente todos os recantos da boca de Rin. Era um beijo ansioso, esperado e profundo, que fez com que ela tremesse de paixão.

Rin levantou-se para abraçar Sesshoumaru. Sentira mais falta dele do que imaginara. Era o seu homem. E, quanto mais profundo ficava o beijo, tanto mais difícil se tornava a racionalização de suas emoções. Só conseguia pensar no prazer e na felicidade que poderia obter.

Sesshoumaru buscou-lhe os seios, abrindo a camisa para acariciar a pele sedosa. Emitiu um ruído rouco, ao qual ela respondeu com um suspiro de felicidade.

- Sesshy... – sussurrou, querendo mais dele.

Naquele instante ele se afastou, aparentemente zangado consigo mesmo, e falou:

- Desculpe-me, Rin! Não queria que isso acontecesse. Isso não vai se repetir, eu prometo. Vá para a cama agora e tranque a porta do quarto.

Sesshoumaru sorriu forçado e saiu do trailer, deixando Rin atordoada.

Seguindo os conselhos dele, ela se preparou para dormir e foi para a cama. No entanto, não via a hora de estar na segurança de sua própria casa.


Rin se levantou às seis horas da manhã, no domingo. Um nevoeiro baixo e denso cobria o vale, o que indicava que o dia ficaria bonito mais tarde.

Tomou banho e se vestiu num instante. Quando foi para a cozinha, Sesshoumaru já se encontrava ali, fritando linguiça. Ela se serviu de café.

- Bom dia – ele cumprimentou, sério, sentando-se à mesa.

- Bom dia – ela respondeu, sorrindo.

Durante a noite, Rin pensara muito e chegara à conclusão de Sesshoumaru a queria. Tudo ficara claro quando ele a beijara. Mas também gostava dela como amiga, o que complicava um bocado.

Ele nunca quisera se envolver com ela, e sempre fora sincero. Não podia obrigá-lo a amá-la. Só restava uma coisa a fazer.

- Você está quieta esta manhã – murmurou ele.

- Você prefere conversar?

- Prefiro qualquer coisa que não seja o silencio. Está zangada comigo por causa de ontem à noite?

- Não – respondeu, sincera.

- Rin, gostaria que fôssemos amigos. Sei que nosso relacionamento tem sido problemático, mas gostaria que começássemos tudo de novo. Concorda?

Rin assentiu, sem força para falar mais. Enfim, só queria ter um bom dia.

Sesshoumaru levou-a para pescar em seu lugar favorito. Conseguiram pegar cinco trutas, três das quais foi Rin quem fisgou. Cozinharam os peixes para o almoço, antes que ele a levasse de volta para casa, no final da tarde. Falaram sobre trivialidades durante todo o dia, evitando assuntos pessoais.

- Gostaria de jantar comigo? Sei de um espaguete... – Sesshoumaru sugeriu, ao deixá-la em casa.

- Sinto muito, mas estou cansada. Terei um dia duro amanhã. Aceita um café? – ofereceu educadamente. Precisava ter coragem de falar com ele. Tinha de participar sua decisão.

- É melhor que eu vá embora logo. As estradas ficam perigosas depois que escurece – Sesshoumaru respondeu, com a voz subitamente áspera. – Olhe, creio que vai dar pra vir à cidade no próximo fim de semana. Vamos a um cinema?

Ela meneou a cabeça negativamente:

- Prometi visitar meus pais. – fez uma pausa e acrescentou: - Estive pensando bem e acho melhor não nos vermos mais.

Finalmente falara, embora sofresse só de pensar. Sesshoumaru a olhava como da primeira vez em que a vira, zangado e frustrado. Rin ficou ainda mais furiosa. Será que achava que ela estaria sempre a sua disposição? Ela vivia sua própria vida, ele que vivesse a dele.

- Não quero vê-lo mais, Sesshoumaru.

- Por que não? – ele quis saber.

- Não vejo necessidade. Você tem sua própria vida, eu tenho a minha.

- E nunca devemos nos encontrar?

- Sim.

- Sendo assim, agora que não preciso mais de sua ajuda, está me dispensando. É como você vê nossa situação?

- Não é isso! – ela exclamou, exaltada.

- É como eu vejo. Que tal um beijo de despedida, então?

Antes que pudesse contestar, Sesshoumaru a agarrou e colou os lábios aos dela, procurando-a ansiosamente. Beijou-a até que Rin ficasse sem fôlego, e naquele momento ela o desejou mais do que nunca na vida. Abraçou-o e correspondeu ao beijo com toda sua força, toda sua paixão. Quando Sesshoumaru a soltou, olhou-a profundamente por um longo momento:

- Como você sempre consegue me deixar louco? Nosso relacionamento mal começou... – ele sorriu, soltando-a.

- Para mim, já acabou há muito tempo – Rin atalhou, entrando e fechando a porta.

Estava mais zangada do que poderia imaginar. Daquele minuto e diante decidiu que Sesshoumaru jamais entraria em sua vida novamente.