Descobertas.
Harry observou-a terminar de comer. A garçonete viera, levara seus pratos, e lhe trouxe uma xícara de café; preto, sem açúcar. Tomou metade enquanto continuava observando Pansy terminar de comer. Sabia que ela estava pensando na cidade, nas coisas que veria, nos últimos meses livre. Harry tinha plena idéia de que ela poderia contar tudo após ir presa; oque mais ela teria a perder? Mas ele também não tinha muito a perder. Para ele, se ela contasse tudo, as pessoas apenas iriam dizer que ele agira de forma benevolente. Elas acabam esperando algo assim dele, algo digno de um herói. E Harry sabia que não era. Não era herói algum, era na verdade, um nada.
"Satisfeita?" Perguntou ao vê-la terminar a refeição, porém, Parkinson levantou uma sobrancelha, sorrindo de lado. Ela aprendera aquilo com Malfoy. "Podemos ir?"
Viu-a assentir, levantando-se e sorrindo para dois caminhoneiros que falaram algo sobre o corpo dela. Olhou-os. Voltou os olhos para ela, que andava alguns passos à frente. Pansy já aproveitava os últimos dias de liberdade. Porém, Harry tinha plena noção de que estava apenas no começo.
Saíram da lanchonete, ela parou do lado de fora da porta, o casaco na mão, fechando os olhos, respirando fundo e sentindo o sol. Observou-a. Ela era algo estranho, não era Parkinson que lhe ofendera, lutara e conhecera antes. Não. A Guerra mudou-a também, a Guerra a tinha feito ser uma das vítimas; aquelas que ficavam vivas ao fim para sofrer as consequências. Viu-a abrir os olhos, virando o rosto na sua direção, olhando-o com a sobrancelha esquerda erguida, questionando.
"Vamos achar um lugar pra ficar."
Primeira.
Pansy levou horas para processar as coisas que seguiram-se após deixarem a lanchonete. Nada poderia prepará-la para aquilo, nem mesmo a tinta que fora usada para queimar sua pele no braço esquerdo. Porque se o herói do mundo bruxo, o maldito Garoto-Que-Sobreviveu-E-Matou-Voldemort, o queridinho de Dumbledore tinha feito o que tinha feito, tudo que Pansy fizera na vida, não valerá de nada. Tudo que Pansy acreditava ser real, era pura mentira. Respirou fundo, encostando-se na cabeceira da cama, observando o sol abaixar-se por detrás das árvores, esconder-se do mundo e deixar Liberty brilhante, tingida de vermelho-alaranjado.
Horas antes, quando seguiu Potter para dentro da cidade, com pessoas olhando-os como se fossem dois estranhos demais para a cidade, Pansy notou que ele tentava o máximo esconder a cicatriz na testa, abaixando a cabeça. Sorriu. Potter não mudava. Porém, Pansy enganou-se, ao chegarem ao centro da cidade, Potter anunciou em alto e bom som quem era, fazendo com que várias pessoas viessem conversar com ele, várias pessoas viessem lhe oferecer coisas. Ouviu-o perguntar sobre algum pensão, e Pansy repousou o casaco no braço esquerdo, escondendo a Marca Negra, escondendo seu passado.
"Vamos."
Foi a única palavra que ele lhe dirigiu quando as pessoas apontaram algumas pensões e um hotel mais afastados. Seguiram a pé, os olhos dele colados ao chão e os de Pansy em tudo ao redor. Observou a cidade, as pessoas, as árvores, os monumentos, paisagens; tudo. Era estranho estar no lugar onde fotos apenas chegavam em suas mãos por estranhos, os lugares lindos e paradisíacos que sempre quis ver, agora ao seu alcance. Sorriu outra vez. Alguns minutos depois, Potter achou uma pousada ao fim de uma rua sem saída. Ficou de pé ao lado dele ao vê-lo assinando o livro de hóspedes, colocando apenas o nome dele. Um quarto, duas camas.
"Não confia em mim?" Perguntou no ouvido dele, baixo o suficiente para que somente ele ouvisse; entretanto a atendente a mirava como se a reconhecesse de algum lugar. Sorriu maliciosa.
"Não."
Andaram pelo corredor, Pansy atrás de Potter, vendo-o parar a porta 05. Viu-o abrir a porta e deixá-la passar, entrando em um quarto com duas camas de casal, uma grande janela ao fundo. Ouviu fechar, trancar e lacrar a porta com magia. Virou-se. Pansy observava novamente aquele homem que estava com ela no ônibus, aquele mesmo homem que a segurava com força excessiva, aquele mesmo homem que a empurrara no banco com violência; aquele que não era Harry Potter.
"Eu não vou fugir."
"Eu sei." Cruzou os braços. Pansy sentia que algo estava estranho. Tivera toda as razões para sentir isso. "Eu não quero que ninguém entre."
Viu Potter jogar sua bolsa e o casaco na primeira cama. Observou, quase em câmera lenta, Potter levantar a varinha e apontá-la para si, ameaçando-a.
"Onde estão os outros?"
"Outros?"
"Death Eaters."
Medo. Pela primeira vez, desde que fora marcada, desde que vira Voldemort e a tinta fora queimada em seu braço, Pansy sentiu medo. Um medo de temer pela vida. Medo de não responder e morrer, e de responder e ter o mesmo fim. A ponta da varinha dele encostou-se em seu pescoço, levantando seu rosto. Era a primeira vez que sentia medo, de verdade, de Harry Potter.
Machucado.
Harry sabia que ela estava com medo, aprendera a ver aquilo dentro dos olhos dos outros. Aprendera a causar aquilo. Era uma das coisas que as pessoas diziam em que ele mudara; medo. Pois se não há medo, não há verdade. E Harry queria a verdade. Forçou a varinha novamente contra a artéria do pescoço dela, vendo-a engolir em seco. Pansy Parkinson poderia ser apenas uma aprendiz de Death Eater, mas era uma. E por mais que Harry quisesse acreditar que ela não tinha nada com aquilo, estava lhe dando a escolha de deixar de mentir. De contar a verdade, fosse qual fosse.
"Parkinson..."
"Não sei onde eles estão, Potter."
A mão dela levantou-se rápido e Harry a viu, porém, não impediu, permitiu que ela afastasse a varinha do pescoço, e virasse; talvez a intenção fosse correr, fugir. Ele sabia que o medo ocasionava tentativas de fuga. Mas, então, para onde ela iria? Segurou-a pela cintura, puxando-a para si, empurrando-a na cama mais próxima e olhando-a seriamente enquanto a via passar a mão no rosto afastando os fios negros que cairam na frente dos olhos. As íris escuras eram puro ódio e medo.
"Se tentar fugir mais uma vez, vou levá-la para o Ministério. Não verá primavera alguma."
"Leve!" Viu-a levantar-se, viu-a furiosa vir para cima de si. A raiva deixava as pessoas mais fortes, Harry conhecia isso. E quando o corpo dela bateu de encontro ao seu, levando ambos ao chão, para ele não foi surpresa alguma. "Leve, deixe de bancar a porra do santo, Potter. Prenda-me de uma vez!"
As mãos fechadas dela machucaram seu peito, os olhos deixavam lágrimas de ódio escorrerem em seu rosto e o corpo dela fazia peso contra o seu. Virou-se. Empurrou-a pelos ombros no chão, machucando-a. Ouvindo um gemido de dor ao prendê-la ali. Olhou-a dentro dos olhos. Medo leva à verdade, e ele estava próximo a arrancar a verdade de Pansy.
"Estou lhe dando uma escolha." Abaixou o tom de voz, vendo-a abrir os olhos baços de lágrimas, a boca ainda aberta do gemido de dor. Forçou as mãos nos ombros dela, machucando-a mais. "Pode ver a primavera ou o eterno inverno. Escolha."
Cobiça.
"Primavera." Sua voz fora apenas um sussurro. Ele não era Harry Potter. Aquelas lágrimas não eram de dor. Aquela escolha não fora por medo. Respirou fundo, vendo-o olhá-la sério. Pansy ainda estava - horas depois - tentando entender o que acontecera. Potter a machucara, Potter a ferira para descobrir algo; algo que ela não sabia. E ela sabia que a verdade descobre-se pelo medo. E ela estava com medo naquele momento. Muito medo. "Eu não sei, Potter. Eles não me disseram nada. Nada."
O corpo dele deixou de fazer peso por sobre o seu, as mãos dele deixaram de fazer dor em seu ombro. Pansy levantou-se, jogou-se na cama, chorou de raiva enquanto o ouvia sair do quarto, deixando-a sozinha. E Pansy quis morrer, mas a primavera em Liberty era a última coisa que queria ver; ainda não poderia morrer. Ainda não.
O sol se pôs, escondeu-se por definitivo por detrás das árvores e Pansy observou como o quarto ficou escuro, silencioso, frio. E combinava com o que aprendera. Potter não era o mocinho, ele era o vilão. Estava enganada quando dissera que ele era o nada, ele era algo. Algo que usava o que ela queria, para ter o que ele queria. Algo que usava força para descobrir a verdade, que usava o medo para descobrir a verdade. Pansy nunca sentira isso antes, medo de algo novo. Voldemort não era algo novo, sentira medo dele por saber que todos sentiam. Mas Potter? Não, Potter era o bom moço, o samaritano, o filho da puta do herói, quem teria medo dele? A porta abriu-se, a respiração de Pansy travou na garganta. Ela. Ela tinha medo de Potter.
Ele lhe entregou algo, um vidro. Puxou o fio e ligou o abajur para ver o que era.
"Para a dor." Mirou-o, enquanto ele sentava-se na cama oposta, os olhos observando-a com cuidado. Verdes, calmos, quentes. Quem era aquele homem, e o que acontecera com ele? Deixou o frasco de remédios no criado-mudo junto do abajur, ainda com os olhos em Potter, vendo-o deixar a varinha junto do casaco que ele jogara horas antes na cama. Poderia pegar a varinha, matá-lo, fugir, desaparecer. "Você fez uma escolha, Parkinson, não arrependa-se agora."
"Não me arrependo de nada." Sua voz era ácida.
"Malfoy."
"Não tocaria nesse assunto se fosse você." Levantou-se, dando as costas para ele, parando na janela, a noite cobrindo Liberty.
As luzes da cidade acenderam-se, o brilho tornou-se forte e Pansy sorriu, apenas para parar de sorrir no segundo seguinte. Potter estava transformando tudo em um inverno eterno. Ouviu mover-se. Viu-o pelo reflexo do vidro da janela, entrando no banheiro do quarto, a luz acesa. Virou-se, a varinha ainda estava na cama. Sua chance. Sorriu sarcástica para si mesma; era incrível como o medo a fazia pensar em absurdos. Virou-se para encarar a cidade novamente, os passos dele pelo banheiro ecoando no quarto silencioso, frio, ainda parcialmente escuro.
"Vou poder sair?"
"Não. Hoje não."
"Quero sair, Potter."
Não ouviu resposta, não ouviu mais nada. Observou o reflexo, ele a mirava pelo espelho do banheiro. Os olhos verdes, baços e distorcidos pelo vidro, a olhavam sérios. Talvez ele soubesse de seu medo. Talvez entendesse sua situação. Entretanto, percebeu que não faria a menor diferença, ele não a deixaria sair. Desviou os olhos do reflexo, vendo o céu ficar mais e mais escuro, e algo vinha pelo céu.
"Sua coruja."
Avisou e afastou-se da janela, vendo-a abrir-se sozinha segundos depois e Potter sair do banheiro. Ficou minutos observando-o com o pássaro, que lhe trouxera uma mala de viagem cheia de roupas e uma carta. Tinha certeza que era da amiga dele, preocupada. Sorriu pelo canto da boca. Ao menos alguém temia o que ela poderia fazer com ele.
"Potter, inferno, quero sair." A cabeça dele inclinou-se para o lado, mirando-a, sério. Pansy sabia que não deveria provocá-lo. Mas seu sangue Slytherin gritava com ela. Ela não deveria ter medo dele, ele deveria ter medo dela. Ela era a vilã, ela era uma Death Eater, maldita partidária de Voldemort. Ele deveria temê-la, não o contrário. "Eu quero sair, e você disse que eu tinha uma escolha. Você disse que eu poderia ver Liberty."
O corpo dele aproximou-se devagar, a carta escorregando dos dedos dele, a mala também e a coruja desapareceu na noite. Os olhos verdes queimaram contra os seus, e Pansy sentiu medo outra vez. Não moveu-se, esperou o corpo dele estar completamente próximo ao seu, sentindo a respiração dele batendo em seu rosto.
"Parkinson, vai ver Liberty, mas não hoje."
"Você..."
"Não!"
A voz dele elevou-se e Pansy mordeu o lábio inferior querendo gritar de volta. "Quando você grita, você perde a razão." Malfoy lhe dissera uma vez quando gritou com ele; aprendeu isso rápido dessa vez. Não gritou. Não disse mais nada. Se Potter queria guerra, ele teria. Infernizaria a vida dele até ter o que queria. Pois era isso que ele estava fazendo.
Castanho.
Dormiu horas depois que ela dormira. Parkinson não dissera mais nenhuma palavra após ter gritado com ela. Viu-a pegar a mala, ouvi-a tomar banho, viu-a sair do banheiro, deitar-se, se cobrir e dormir. Estava sentado na cama, o quarto no mais total escuro. Seu corpo doía, sua mente girava. Aquilo era sua escolha. Ele permitira que ela ficasse ali, permitira que ela tivesse a escolha de ver a tão desejada primavera ou ir direto para o inverno eterno de Azkaban; ele lhe deu alternativas. Qual teria sido a última vez que ela tivera alternativas? Malfoy. Sua mente voltava ao loiro, sua mente voltava no que acontecera entre... respirou fundo. Ouviu-a virando-se no colchão. O quarto começava a clarear, já estava acordado fazia alguns minutos. Ela descobriu-se e Harry viu o braço esquerdo. A Marca Negra. Mirou-a por minutos seguidos. Parkinson tivera a escolha de recusar a marca, a tinta que desgraçara sua vida. Era a Marca ou a morte? Ela teria escolhido a morte?
Balançou a cabeça. Parkinson nunca escolheria a morte. Olhou pela janela, Liberty iluminando-se pelo sol que ainda começava a surgir ao longe. Passou a mão pelos cabelos, jogando-os para trás. Não estava frio, ainda era outono. E teria o Inverno. E só então a primavera de Parkinson. A primavera que ela escolhera. Voltou os olhos para a morena, vendo-a acordada. Os olhos castanhos sérios e com medo, observando-o.
"Bom dia."
"Dia."
Viu-a levantar-se. O corpo dela à mostra. Cicatrizes? O que eram aquelas marcas que desciam as costas de Parkinson como linhas? A camisola dela era fina, as meias brancas destoavam do tecido da camisola. Observou-a cambalear até o banheiro. Pensou em quanto tempo levaria para o próximo acesso de raiva dela. Passou a mão no pescoço. Quando ela lhe derrubara no dia anterior, Harry sentira a dor antiga no pescoço voltar, e comprara dois frascos de remédio para dor. Procurou com os olhos pela sua cama sua camiseta, dormira sem ela. Aparentemente o feitiço para deixar o quarto mais quente, estava funcionando bem demais. Levantou-se, pisando no chão frio, ouvindo a porta o banheiro abrir-se e Parkinson saiu. Olhou-a nos olhos, vendo-a mirá-lo com os olhos semi-cerrados.
"Está com fome?"
"Só comi ontem de manhã, o que acha?"
Ignorou isso. Ele não era uma boa pessoa de manhã, Parkinson também não. Respirou fundo, olhando-a, vendo os olhos castanhos dela descerem por seu corpo, franzindo o cenho em questionamento.
"O que foi?"
"Quem lhe marcou assim?"
Sabia que ela falava das cicatrizes. Tinha várias cicatrizes de batalhas, lutas, escapadas por lugares difíceis. Ganhara algumas cicatriz ao longo dos anos em Guerra. Ganhara outras nos anos perseguindo Death Eaters.
"A Guerra."
"A vida você quer dizer."
Não respondeu. Parkinson era a pessoa mais teimosa que já conhecera. Virou-se, entrando no banheiro, mas disse antes de fechar a porta. "Foi a vida que lhe marcou?"
Sangue.
O sangue ferveu com a pergunta dele. Odiava que lhe perguntassem sobre suas cicatrizes. Virou-se para sua cama, pegando a mala no chão. Buscou algo para vestir e seus óculos escuros. Sabia que hoje não haveria motivos para Potter lhe impedir de sair. Hoje ele tinha que lhe deixar ver Liberty. Virou o rosto para a janela, vendo a cidade começando a ser iluminada pelo sol. Torres, árvores, praças, comércios, tudo acordava na cidade com o brilho do sol de outono. Respirou fundo. Achou sua calça jeans, sua blusa e os óculos. Respirou fundo, ouvindo a porta do banheiro abrir-se e Potter sair. Viu-o mirando-a, como se esperasse algo dela. Olhou-o, vendo-o sério. Sentiu medo do que poderia vir dele agora.
"Quem lhe marcou?"
Não respondeu.
"Quem lhe marcou, Parkinson?"
"Por isso deveria interessar a você? A resposta não vai lhe ajudar a pegar os outros." Virou-se para sua mala, observando que estava sem meias, apenas mais um par. Os dedos gelados dele fecharam-se sobre seu braço, o aperto doeu onde ele já havia machucado-a antes. Seu sangue ferveu, sua mente gritava novamente que ele deveria temê-la, não ela a ele. Olhou-o dentro dos olhos verdes, frios. Medo.
"Quem?"
"Malfoy. Satisfeito?"
Ele não a soltou. Ele continuou a fechar os dedos contra o braço dela, ferindo-a.
"Por quê?"
Puxou o braço. Aquilo não era de interesse dele. Aquilo não traria resposta sobre os Death Eaters. Aquilo já não importava. Por que maldição Potter queria aquela resposta? Medo. Sentiu mais medo de que ele poderia conseguir arrancar aquela resposta de si. O rosto dele aproximou-se do seu, o corpo dele - quente - colocou-se ao seu, mas os dedos marcavam seu braço. Dor. Sentia dor com o aperto dele.
"Por quê?"
Puxou o braço novamente. Ele não a soltou. Levantou a outra mão, querendo acertá-lo, fazê-lo se afastar. Ele a segurou no ar. A raiva deixa as pessoas mais fortes, e Pansy desconhecia o quão forte Potter conseguia ser. Na verdade, Pansy desconhecia Potter. Respirou fundo, o punho da mão esquerda começando a ficar marcado com os dedos frios dele.
"Porque eu não obedeci." Um sussurro, os dentes cravando no lábio inferior. A confissão que lhe retirara sangue do lábio, pois para não chorar após dizer aquelas palavras, Pansy mordera o lábio. A força cortara a pele, o sangue tocou devagar sua língua, os olhos verdes de Potter observaram com atenção o feito. "Satisfeito?"
Suas palavras eram borradas de sangue. Gotas. Apenas gotas. Mas eram borradas de sangue. Potter não soltou o braço direito, apenas o esquerdo, e com essa mão, Pansy viu como o dedo dele tocou sua boca. Medo. Teve medo do que ele pudesse fazer. Sentiu-o pegar a gota que escorrera de seu lábio, limpando o caminho do sangue e só então afastando-se. Não sabia quem ele era, mas descobriria quem matara Harry Potter e quem era esse homem que estava ali.
Sozinha.
Sentaram-se na mesa mais próxima ao rio, as pessoas passavam perto deles, olhando para Harry. Tinham saído da pousada, Parkinson sorriu por vários minutos com isso. Os óculos escuros lhe tampavam quase todo o rosto. Harry nunca a tinha visto sorrindo de felicidade. Harry, na verdade, percebera que não conhecia Parkinson. Lembrou-se de Hermione e Ginny. As únicas mulheres presentes constantemente em sua vida. Elas em nada se pareciam com Parkinson. A morena vestia saltos, calças coladas ao corpo, blusas decotadas - as cicatrizes à vista - maquilagem, brincos de argola; nunca vira Ginny com brincos de argola. Acharam uma padaria que tinha mesas ao céu aberto. Sentaram-se do outro lado da rua, Parkinson vira a cabeça para os lados, vendo tudo. Sorrindo. Pediram o café. Comeram. Ela não lhe dirigiu uma palavra. Olhou-a recostar-se na cadeira, os óculos de sol impedindo-o de ver para onde os olhos dela apontavam. Esperou. Ela logo falaria algo.
"Quero passear pela cidade."
"Vá." A palavra pareceu não fazer sentido. "Você não fugiria, Parkinson, fez uma escolha, lembra?"
"Confiante, não?" As palavras dela pareciam ácido.
"Não, apenas sei."
Viu-a levantar-se, virando-se e começando a andar pela calçada. Ela voltaria. Harry não precisava preocupar-se. Além das autoridades da cidade saberem sobre ela, o feitiço que ele colocara nela impediria que ela saíssem da cidade sem que ele soubesse. Parkinson fizera uma escolha e Harry faria com que ela continuasse a querer o que escolhera. Fosse como fosse.
continua...
