Pansy.
Harry sabia que era proibido. Errado. Sujo. Proibido. A noite passou e o dia já tinha começado fazia horas. Ele ainda estava na cama. Pansy ainda estava deitada com ele. O corpo dela moldava-se ao seu. Os cabelos negros dela estavam caídos pelas costas dela. O rosto no travesseiro. A respiração calma. Parkinson não tinha mais medo de si e Harry já sabia porque. Ela já tinha contado tudo. Toda a verdade escapara pelos lábios dela e agora o medo dele se fora. Observou-a. Quem iria lhe dizer que Pansy Parkinson estaria dormindo em seu braço? Quem diria que ela lhe enfrentaria e depois deixaria de fazê-lo? Harry conversara com Hermione no dia anterior. Contara para ela que ainda estava seguindo Parkinson, observando o que ela estava fazendo. Harry sabia, porém, que Hermione não acreditou em nenhuma palavra. E ele também sabia porque. Fora esse o começo de Ron. E o fim dele também.
Errado sentir com a ponta dos dedos as cicatrizes dela. Sujo que tivesse deitado e dormido com ela. Proibido porque Parkinson aceitara tudo isso. Observou-a novamente. A respiração acelerou um pouco, o corpo dela movendo-se e encontrando o seu logo atrás. Os olhos castanhos dela abriram-se, o sol - já alto - brilhando dentro das íris. Ela os fechou, as mãos tampando-os. Harry viu a marca que fizera na pele clara demais dela. Esperou que ela dissesse algo.
"Já é primavera?"
"Não."
"Me acorda quando for?" Sorriu. Seu sorriso era triste, sem emoção. Não conseguia sorrir de verdade fazia alguns anos. Desde Ron. Ela virou-se. Ficando de frente pra si, olhando-o com os olhos semi-cerrados. "Por que ainda está aqui?"
"Você quer ver a primavera." Respondeu vendo-a afastar os cabelos do rosto. O corpo próximo demais ao seu.
"Não na cidade, Potter, na cama. Comigo." Errado. Sujo. Proibido.
Harry sabia disso e ouvi-la falar deixava tudo pior. Mas era tarde. Era bem tarde. Harry tinha idéia de que importava-se com Pansy. Que ligava para o que ela dizia. Que queria vê-la sorrir, ao menos uma última vez, e que o mundo poderia ficar em espera por alguns meses. Seu sorriso morreu. Fora exatamente como Ron. Tinha certeza de que fora exatamente como Malfoy. Não respondeu. Apenas continuou a observá-la. Olhá-la com atenção, mas então ela moveu-se. Harry viu-a fechar os olhos, encostando a cabeça no travesseiro.
"Vou voltar a dormir."
E Harry fechou os olhos. Dormindo segundos depois. Achando incrível, horas depois, que seu sono ao lado dela fosse fácil como nunca fora antes.
Harry.
Pansy abriu os olhos, sabendo que veria Potter a sua frente. E os olhos verdes dele estavam fechados, mas ele estava acordado; sabia disso. Observou-o. Potter era e não era o que imaginara. Potter nunca seria ele mesmo, não perto dela, não com ela. Mas então, o que era aquilo? O assunto proibido deles viera à tona. Os machucados que ele lhe fizera ainda eram visíveis. Pansy observou-o mover-se sem abrir os olhos. Não moveu-se, apenas o olhou. Apenas ficou a vê-lo. Porque ele, Harry Potter, o herói do mundo bruxo, o Garoto-Que-Sobreviveu-Novamente-E-Matou-Voldemort estava ali, perto dela, deitado com ela, havia machucado seus braços, havia corrido a língua por sua cicatriz, tocado as cicatrizes de suas costas com as pontas dos dedos gelados. Potter. Por que nunca o temera antes? Por que o temera quando ele lhe pressionara pela verdade? E por que agora já não temia?
Nenhuma resposta. Pansy não sabia a resposta para nenhuma daquelas perguntas. Porque na verdade, as respostas só viriam no fim. Talvez no fim da primavera. Talvez no fim de sua vida. Ou no fim da vida dele. Quando foi que deixou de pensar em pegar a varinha dele para matá-lo? Para machucá-lo, deixá-lo desacordado e então fugir? Sorriu. Nunca deixara de pensar, mas deixara de tentar fazer. Viu a íris verdes, agora abertas, mirá-las. Continuou sorrindo. Seu sorriso não tinha emoção há tempos. Não teria agora. Nem nunca mais.
"Potter?"
"Sim, Parkinson?"
"Por que continua aqui?" Pansy já tinha visto que era de noite. Eles passaram o dia ali. Ela passara o dia deitada com ele. Simplesmente.
"Porque quero."
"Ótima resposta, Potter. Mas não responde merda alguma."
Afastou-se, virando-se. Pansy tentou sentar-se na cama, mas sentiu Potter segurá-la, deitando-a e fazendo com que o olhasse. Observou as íris dele contar que ele voltaria naquele assunto. Proibido. Por quê?
"Ron contou-me que... era feliz com ele." Engoliu em seco, Malfoy havia lhe contado a mesma coisa. Pansy sentiu os olhos arderam. Mas não iria chorar. Prometera ser feliz. Mesmo que não fosse, ou não estivesse tentando cumprir. "Eu não tentei ser feliz depois disso. Ron foi feliz. E Malfoy o levou até o fim."
"Seu amigo fez o mesmo com Draco." Pansy sentiu a garganta arranhar. Falar de Draco doía fisicamente. Por que Potter sempre voltava nesse assunto? Ele era proibido, ele sabia.
"Eles quiseram isso. Sabiam... eles sabiam que isso não daria certo." Apenas assentiu. Ela também achava que ambos sabiam, talvez mais Malfoy do que Weasley, que não haveria um bom fim daquilo. "Talvez não soubessem que o fim..."
"Potter." O alertou. Era proibido. Eles já haviam passado por aquele assunto. Por que ele estava voltando? "Qual o propósito disso?"
"É a resposta para a sua pergunta."
Pansy entendeu. Pansy compreendeu a resposta dele. Observou-o continuar a olhar dentro de seus olhos. Os verdes estavam frios outra vez, mas ali não fazia diferença. Naquele momento, não fazia a mínima diferença. Engoliu em seco. Quando o ódio e medo haviam transformado-se em afeição e aceitação? Pansy não sabia. Pansy não queria saber.
Amanheceu. Pansy não lembrava-se de ter dormido. Sua cabeça girou. Seu corpo implorou por comida. Sentiu Potter. Abriu os olhos, mirando o travesseiro. O rosto de Potter estava encaixado por cima de sua cabeça. Sua boca estava a milímetros do pescoço dele. Quando seu corpo encaixara-se ao dele perfeitamente? Quando as mãos dele deixaram de ser frias e tornaram-se quentes? Moveu-se devagar, ouvindo a respiração dele mudar.
"Bom dia." Não respondeu. Afastou o rosto do pescoço dele, olhando-o nos olhos. "Por favor, Parkinson, não comece."
Sorriu. Sem emoção alguma, como sempre. Algo em seus olhos entregara que começaria a falar algo sobre estarem deitados juntos, abraçados. Quem eram eles para fazerem aquilo? O que eles eram para ficarem daquele jeito?
"Por favor, apenas... cale a boca." Ele lhe disse, e Pansy sabia porque ele lhe mandara calar a boca.
Eles.
Respirou fundo. Harry estava com fome. Seu corpo doía de ter ficado mais de vinte e quatro horas deitado; porém, ali, não importava. Aquele momento era a quebra. Quebrava as promessas que fizera a si e aos outros. Tinha certeza que para Pansy era a mesma coisa. Correu a mão para o cabelo dela, segurando-o com força, os fios negros entrelaçando-se por entre seus dedos. Os olhos dela fecharam-se, a boca abriu-se e uma expressão de dor postou-se no rosto dela. As unhas dela cravaram-se em seu braço esquerdo e Harry apenas apertou o aperto nos cabelos dela. Sentiu-a mover-se para trás, afastando-se. Soltou os cabelos dela, vendo-a levantar.
"Eu não... não posso."
Observou-a correr para o banheiro, fechando a porta atrás dela. Fechou os olhos. Harry havia decidido o fim disso. Não havia volta, não havia outra escolha. Ele não era o herói, ela não era a vilã. Eles eram dois condenados a terem o mesmo fim de Malfoy e Ron. Talvez não o mesmo fim, mas o mesmo caminho. Passou a mão no rosto, colocando os óculos e levantando-se da cama. Harry não deixaria que Pansy ferrasse tudo. Abriu a porta, vendo-a de costas, apenas de renda negra. Observou as costas marcadas dela. As cicatrizes eram extensas, ocupavam as costas dela por inteiro. Linhas que corriam em várias direções. Cortes.
Harry puxou a camiseta do próprio corpo, jogando-a no chão frio do banheiro. Viu o rosto dela virar-se, observando-o com os olhos castanho-escuro por cima do ombro, sérios. Viu-a segurando os seios, escondendo-os. Ela entrou no box, ligando o chuveiro. Apenas observou-a por um tempo. Apenas mirou-a. Viu quando ela colocou a cabeça debaixo d'água, as gotas escorrendo por seus cabelos negros. Encostou-se na pia, olhando-a. Harry não tinha idéia do que faria. Harry apenas a observou. Viu o rosto dela virar-se em sua direção, as mãos no azulejo à frente dela. Harry não lembrava-se de apreciar algo assim há anos.
O corpo de Ginny não tinha as curvas do dela. O de Hermione não tinha o volume do corpo dela. Abaixou a cabeça, ainda observando-a. Viu-a encostando-se na parede, ficando de frente para ele. Harry respirou fundo. A água quente começava a deixar o banheiro com vapor. Nublando tudo. Quando em sua vida Harry poderia divisar aquele fim? Quando em sua vida Harry vira tantos sentimentos cortarem um ser humano? Balançou a cabeça; ele fora cortado por todos sentimentos na Guerra. E após, mais nenhum lhe ocorrera. Até agora. Seguiu com os olhos como as mãos dela moveram-se, escondendo os seios novamente, como se agora percebesse que estava com eles à mostra.
Completamente.
Pansy sentia as cicatrizes em contato com o azulejo frio. Suas mãos escondiam seus seios. Seu corpo estava quente da água, que ainda corria. E via Potter parado à sua frente. Fora do box. Encostado na pia. Olhando-a. E mirou-o. Ele não dissera nada. Mas estava ali por um propósito. E Pansy continuava a esperar. Era inevitável. Sabia que deveria ser assim quando Weasley e Draco começaram. Fora inevitável; tinha quase certeza. Mordeu o lábio, onde a primavera escondia-se? Por que demorava tanto tempo? O fim deles estava próximo, mas ela queria ver a primavera antes. Precisava ver a primavera.
Ele aproximou-se, e para Pansy tudo passou-se devagar demais. Viu-o entrar debaixo do jato quente de água, parando milímetros de seu corpo. As mãos dele tocaram o rosto de Pansy, e ela estremeceu. Continuou segurando, escondendo os seios. As costas ainda tinham o toque frio do azulejo. A boca dele encontrou-se com a sua e Pansy estremeceu novamente. A boca dele era quente, a língua dele era doce. E Pansy gemeu de dor quando os dedos dele seguraram novamente com força seus fios negros. Sem cuidado. Sem carinho. Não haveria isso. Eram dois erros a caminho do desastre.
Beijou-o de volta. Suas mãos correram para o corpo dele. Cravando as unhas nos ombros dele, puxando-o para si. Pansy quis mais. Mais pele. Mais corpo. Mais vida. Mais força. Mais violência. E gemeu de dor novamente, ele tinha apertado a mão em seus cabelos, arrebentado fios, ferindo seu coro cabeludo. Forçou seu corpo contra o dele, a mão dele espalmando-se em um dos seus seios. Pansy gemeu, os dedos dele apertavam seu seio. Gemeu, ouvindo-o gemer quando desceu as unhas pela pele dele, arranhando-o. Pegou a cabeça dele devagar, o beijo tornando-se desesperado. A água caia entre eles, atrapalhava na respiração, atrapalhava o beijo. Deslocou sua boca pelo maxilar dele, suas mãos abrindo a calça dele, abaixando-a.
Desceu o corpo, a mão dele nunca deixou seu cabelo. Pansy gemeu quando ele apertou ainda mais a mão contra seus fios. Ele sabia o que ela faria. Ela queria fazer. Beijou a barriga dele, vendo-o tencionar todos os músculos. Mordeu a pele. Tirou sangue. Ele gemeu de dor. Ela sorriu satisfeita. Pansy abaixou a calça dele, vendo-o sair do jeans ensopado e pesado. Mordiscou-o no baixo ventre, sentindo-o empurrar sua cabeça na direção que ambos queriam que ela fosse. Baixou a boxer branca. Deixou-o livre. Respirou fundo, tocando-o com uma das mãos, a outra estava cortando a pele com a unha na barriga dele, próxima de onde sua boca havia marcado e tirado sangue.
Olhou para cima, seus olhos castanhos observando Potter com uma das mãos na parede fria do azulejo, dando suporte. A água caia pelo corpo dele e sua mão movia-se rápida. Cravou mais as unhas, arrancando outro gemido de dor e mais sangue. Sorriu novamente, vendo-o olhar para baixo. Os olhos verdes, frios, estavam quentes, vivos; Pansy sabia qual fora a mudança. Voltou seus olhos para sua mão, respirando fundo e empurrando o corpo dele para fora da água. E ele estava quente. O gemido dele fora alto quando sua boca o tocou. E Pansy sentia a dor da mão dele segurando com força seus cabelos, mas os gemidos e o gosto dele lhe fizeram esquecer aquilo.
Ficou minutos ali. Ajoelhada, com Potter entre seus lábios. O gosto dele decorado pela sua língua, que corria por todo ele. A mão dele lhe dava assistência; não que precisasse. E ele gemeu mais alto, empurrando-a com força para longe. Caiu sentada no chão frio, suas mãos espalmadas no piso gelado. Pansy olhou-o parado na parede, observando-a. Sabia que ele quase perdera o controle com ela chupando-o; sorriu. Ele engoliu em seco várias vezes antes de ajoelhar-se, ficando entre suas pernas. E Pansy não esperava por carinho. Pansy pouco esperava que ele fizesse o mesmo por ela. Mas então, Potter não era como ela esperava.
"Deite."
A voz dele estava tão rouca que Pansy ficou alguns segundos observando os olhos dele, vendo se o verde havia voltado a ficar frio; mas estava quente. E deitou o corpo, sentindo-o correr as mãos por suas pernas, tirando sua renda. Seu corpo estava inteiro exposto pra ele. E a mão dele lhe tocou entre as pernas e Pansy sentiu-se desfalecer no chão frio. Parecia que tudo que esperava na vida - além da primavera - era aquele toque. Sem gentilezas. Sem carinho. Potter não esperou permissão para deixar um dedo deslizar para dentro dela. E Pansy gemeu alto em satisfação.
Perdidos.
O corpo dela movia-se no chão, e Harry não via como controlar-se. Precisava daquilo. Precisava vê-la assim. E precisava de mais. Desceu o rosto para onde sua mão estava, a água quente caindo em suas costas. Ouviu um gemido profundo dela ao tocá-la com a língua e ao ver as costas dela arqueando do chão, quase veio. Afastou o rosto, olhando-a. Viu Pansy abrir os olhos negros, dilatados, e mirá-lo séria. Era isso. Colocou seu corpo por cima do dela, olhando-a nos olhos e sentiu a mão quente e pequena dela lhe envolver. Afastou o quadril daquilo, mas ela voltou a tocá-lo. Não entendia. Continuou a mirá-la e Harry quase se desfez na mão dela. Porém, Parkinson apenas o guiou para dentro dela. E enterrou-se de uma só vez, gemendo junto dela. Sentindo-a lhe apertar.
Harry moveu o quadril. Estocadas fortes. Secas. A água quente batia em suas pernas agora. As pernas de Pansy o seguraram pelo quadril. A boca dela se abria a cada vez que enterrava-se no corpo dela. Mais força. Ela gemia de dor e de prazer. Harry não sabia qual deles o deixava ainda mais sedento por ela. Abaixou o corpo, envolvendo-a com os braços, levantando o quadril para conseguir ir mais fundo. Ela beijou seu maxilar. Sua boca encontrou a curva do pescoço dela e seus dentes cravaram na pele.
O gosto metálico do sangue apenas lhe ajudou. Derramou-se dentro de Pansy em um frenesi absurdo, gemendo, mordendo, arrancando mais sangue dela; Pansy ainda movia o corpo pedindo por mais contato. Deslizou uma mão por entre eles, tocando-a. Ainda sem sair de dentro dela, levou-a ao limite com a mão. Não tirou o rosto do pescoço dela. Não parou de mordê-la, arrancando-lhe cada vez mais sangue. E as unhas dela cravaram-se em suas costas, machucando-o. A sentir Pansy apertando-se envolta de si, quase o matou. O corpo dela estava quente e frio. Os gemidos dela ecoavam por todo o cômodo e Harry afastou a boca do machucado.
Levantou o rosto, observando-a. Ela tinha a expressão séria, mas satisfeita. Teve a impressão de que ela via a mesma expressão em seu rosto. Soltou-se dela, sentando-se encostado na parede ao fundo, perto do jato de água. Olhou-a nos olhos. Harry viu-a sentar-se no chão frio, as pernas juntas, os joelhos erguidos e o queixo encostado neles. Ela parecia uma adolescente daquele jeito. Viu o sangue escorrer do pescoço dela, sumindo pelo corpo. Ela parecia não importar-se.
"Por que me permitiu fazer isso?"
"Porque você quis."
"Poderia ter me impedido."
"Poderia ter escolhido não fazer."
Harry ficou em silêncio. Ele fizera uma escolha. Que arcasse com as consequências. Assim como ela já fazia isso. Continuou encostado na parede ao fundo, vendo-a ajoelhar-se a sua frente, entre suas pernas. Viu-a ficar debaixo do jato, gemendo de dor quando a água quente bateu no pescoço ferido. Passou as costas da mão na boca, e Harry viu que seus lábios ainda estava sujos de sangue. Sentiu os dedos dela limparem sua boca e queixo, tirando os vestígios de sangue. Olhou-a nos olhos. Castanho-escuro contra verde. Harry sentiu-se extremamente satisfeito com o que fizera.
Inverno.
Estava deitada de costas na cama. Seu corpo não sabia o que era roupa a dias. Pansy sentia-se livre. O inverno estava dando espaço para a primavera a Pansy sabia que logo tudo acabaria; tudo. Talvez fosse esse fim que Malfoy lhe dissera que teria. Quando ele lhe fizera prometer que seria feliz, era sobre isso que ele falava. Não a felicidade plena, porque para Pansy, isso não existia. Mas a felicidade. A felicidade em que os poucos e pequenos momentos medíocres que a vida lhe dá. Respirou fundo quando Potter entrou no quarto. Olhou-o. Já fazia dias que Potter a tomava em toda e qualquer ocasião. Não saíra mais do quarto. Pansy não tinha vontade de sair dali. Ele buscava comida, ele lhe trazia notícias do mundo. Mas o mundo não interessava. Ela havia colocado o restante em pausa, apenas esperando a primavera. E após isso, deixaria correr. Fosse como fosse.
"Quero você dentro de mim, Harry."
"Você sempre quer, Pansy."
Viu-o deixar as coisas na cama vazia. O café que ele trouxera caindo e se esparramando pelo edredon. Ele pouco importou-se e Pansy apenas esperou por ele. Segundos após vê-lo sumir por suas costas, Pansy o sentiu subir na cama. Sentiu o corpo dele sem roupa cobrir o seu, e sentiu a respiração acelerada dele em seu pescoço. Pansy gemeu quando ele cravou os dentes em sua cicatriz mais nova; na curva do pescoço. Sentiu-o abri-la novamente, sentiu o sangue escorrer. E levantou o quadril, enquanto ele enterrava-se dentro de si. Para Pansy, aquela espera pela primavera tornava-se cada dia mais feliz. Entretanto, não a felicidade plena. Nunca felicidade plena.
Primavera.
Beijou-a. Harry queria sentir o gosto da boca de Pansy na sua boca. Queria vê-la pela última vez antes do fim. A primavera chegara em uma manhã quente e florida. E o corpo dela estava virado para a janela. Ela sorria. Ela estava sorrindo desde que abrira os olhos. Correu a boca pelo pescoço dela, ficando atrás daquele corpo que fora seu por tantos dias. Abraçou-a. As cicatrizes nas costas dela raspando em seu peito. Respirou fundo. Apertou-a contra si, sentindo-a empurrar-se para trás, juntando mais seus corpos.
"Pronta?"
"Sim."
A voz dela era feliz e Harry entendia o por quê. Amava Pansy com tanta força que machucava fisicamente. E então, fechou a mão. Sua boca colocou-se ao ouvido dela, enquanto a sentia cravar as unhas em seu braço que a segurava pela cintura, mantendo-a no lugar. Beijou o maxilar dela, sentindo-a estremecer. Fechou mais as mãos, sentindo com as pontas dos dedos os ossos frágeis da garganta dela começarem a ceder. Não apertou mais, apenas continuou segurando. Ela movia-se e Harry apenas a segurava, impedindo-a de escapar. Ela pedira naquela noite por aquilo. Harry ainda escutava as palavras dela: Não espere, apenas me mate quando a primavera chegar. E ele lhe prometera a morte. Ele lhe prometera o fim. Minutos antes Harry tinha tomado goles de água com mais de cinco bagas¹ de beladona amassadas. Sentia os efeitos. Sentia a boca secar, o coração acelerar sem razão. E Harry sentiu quando Pansy parou. Quando o corpo dela relaxou em seu braço. Soltou a garganta dela, deitando com a cabeça no travesseiro. Sabia que a última visão dela fora a primavera. A sua última Harry não saberia qual seria, por isso apenas fechou os olhos. Ele prometera não ser mais feliz. Não fora. Não seria. E Pansy prometera para Malfoy que seria. E Harry sabia que, de algum modo, ela fora. Liberty na primavera fora a felicidade dela. E agora ficaria para Hermione e Ginny, que receberam ao mesmo tempo recados com a escrita de Harry: "Quarto 05, Pousada Liberty. Liberty, na primavera.", guardarem o segredo e não falarem naquele assunto proibido.
Fim.
¹: Todas as partes da planta contém alcalóides. As bagas possuem perigo maior devido serem atrativas, negras, brilhantes e terem sabor adocicado. A ingestão de quantidades superiores a 5 bagas pode ser mortal.
As bagas são as pequenas 'frutas' da planta. Amassando as bagas ou amassando a raíz se tem um líquido. Mortal se ingerido em grande quantidade.
