Saímos do café, e Castiel havia desaparecido.

- Parece que não resistiu ao meu traseiro.

- Cala a boca.

(...)

Naquela mesma noite eu já me encontrava na casa onde eles moravam por enquanto, mudavam-se constantemente de acordo com as "aparições" do que quer que eles caçavam. Eu tentava evitar, mas não conseguia deixar de acompanhá-los nas caçadas. Mesmo que odiasse a atitude de Dean comigo, não podia deixar de me mover cada vez que algo o ameaçava, era uma resposta natural do meu corpo. Castiel explicou que eu tinha pequenas premonições, algo que eu chamei de meu "sensor aranha".

Aproximei-me muito de Sam. Combinávamos já que ambos éramos calmos e tínhamos que controlar Dean. Foi natural. Dean era... Impossível, mas incrivelmente atraente, toda e qualquer atitude dele comigo me acelerava o coração e fazia minha cabeça girar, preferia me manter afastada dele.

Quando senti a necessidade do cigarro, me dirigi à varanda, não queria obrigá-los a sentir o cheiro da fumaça, eu escolhi fumar, eles não.

- Isso vai te matar qualquer dia desses.

Dean apareceu ao meu lado. Era raro que ele se aproximasse de mim, talvez porque eu passava tempo demais absorta em conversas com Sam.

- Eu sou a Protetora do Receptáculo de Miguel, que, por acaso, está tentando impedir o Apocalipse, eu vou morrer de qualquer jeito.

Traguei novamente. Castiel estava certo, eu estava tentando me matar. O cigarro, o Valium, a bebida. Tudo me atacava lentamente.

- Se alguém vai morrer sou eu, não você.

- Não seja idiota, você não vai morrer enquanto eu estiver aqui.

Ele deu um meio sorriso e eu quase derrubei o cigarro quando vi. Ele tinha esse efeito sobre mim, era algo que eu evitava ao máximo me mantendo o mais distante possível.

- Acha que eu vou ver minha família quando eu morrer?

Era algo que me assaltava a mente a todo o segundo. Ver minha família. Meus pais, minha irmã. Meu marido e minha filha. Todos.

- Acho que sim. É nisso que pensa cada vez que sai conosco?

- Quando não estou me arriscando por você, sim. Quando sinto que você está em perigo, salvá-lo é a única coisa que me passa pela cabeça.

- Isso não soa um pouco sacana?

Eu ri. Não tinha um outro jeito. Estar ali, com ele, fazia parecer que tudo era normal.

- Não posso evitar. O "sensor aranha" não me deixa em paz enquanto eu não correr, rolar e atirar.

- Também não gosto disso.

Nós nos olhamos e eu não senti a urgência de salvá-lo. Pela primeira vez eu estava pensando nele em algo a mais do que o Receptáculo. Naquela hora, eu não era a Protetora, eu era Irine. Pura e simplesmente Irine.

E Irine tinha o impulso de segurá-lo, beijá-lo. Nunca mais deixá-lo ir. Foi quando Sam apareceu. Ele parecia enfurecido e minha intuição logo se alarmou. Ele não estava em seu normal.

- Sam?

Sam me empurrou para o lado, com força, eu bati no alabastro e caí. Minha arma escorregou para longe do meu alcance. Ele golpeou Dean com força, várias vezes, e ele bateu na murada, depois, ergueu um punhal, quando Dean o socou e o outro cambaleou. Juntei força para levantar e usei o alabastro como impulso. Eu agarrei o punhal pela lâmina, senti quando ela se cravou na minha carne, mas a apertei ainda mais, tentava puxá-la para mim. Dean o acertou novamente e eu consegui pegar o punhal. Mesmo assim, Sam o segurou e bateu com ele na porta de vidro, quebrando-a.

Bater em Sam doía em mim, mas ele não estava em si, era algo que eu tinha certeza. Ele se virou para mim e me golpeou no rosto, eu cairia se Dean não tivesse me segurado. Vê-lo ali, me segurando, lutando por mim quando eu deveria lutar para ele, me deu forças. Acertei um soco na altura das costelas de Sam e quando ele recuou eu girei o corpo e lhe acertei um chute na cabeça, ele caiu desacordado.

A minha mão latejou e eu vi que ainda apertava o punhal contra minha própria carne, o soltei imediatamente. O sangue escorria do grande corte na palma da minha mão. Meu supercílio também sangrava. Dean tinha o lábio partido, seu rosto machucado também sangrava. Havia esse grande caco de vidro preso em seu braço direito e outro em sua perna esquerda. Eu o levantei, com toda a força que restava em mim o levei até o sofá.

- Espere.

Carregando Sam em meus ombros, eu o amarrei à uma cadeira e logo voltei para perto de Dean, carregando o kit de primeiros socorros.

- Sua mão.

- Vai ficar bem, ao contrário do seu braço.

Eu tentei ser delicada ao retirar o pedaço de vidro, mas com delicadeza ou não, ele sentiu toda a dor. Despi a blusa dele e logo me voltei para o grande corte em seu braço. Era profundo. Limpei a ferida com um antisséptico. Cortei um pedaço de suas calças, para repetir o tratamento com a ferida da perna. Não senti vergonha, não vi malícia, apenas o queria bem. Deixei que se vestisse enquanto cuidava de meus próprios ferimentos.

- O que aconteceu com ele?

Eu fazia um curativo em minha mão. Não poderia manejar a pistola por algum tempo.

- Acho que Sam está possuído.

Possessão, é claro. Mesmo estando com eles durante dois meses, não conseguia me acostumar a termos como aquele. Demônios, possessão, fantasmas... Tudo ainda me era estranho, mesmo que eu não ligasse. Mesmo que eu não acreditasse.

- Por que acha isso? Por que ele está destinado a ser o receptáculo do Diabo?

- Também. Sam sempre foi mais... Suscetível.

- Claro, o irmão sensível e o irmão machão.

- Não. Sam errou tentando ajudar.

O despertar de Sam nos desviou de nossa conversa.

- Dean? Renie? Ah, não. - Ele olhou as amarras que fiz, um trabalho bem feito, diga-se de passagem. - Aconteceu, não é?

- Você sabia que isso aconteceria?

Eu estava surpresa, ele nunca me contou nada.

- Sim. - Mas foi Dean que me respondeu. - Ele sabia.

- Vocês têm que ir embora, não podem ficar perto de mim.

- Não seja ridículo, Sam! Não vamos deixar você aqui, vamos Dean? Dean?

Eles se encaravam. Senti-me suja, como se visse algo que eu não deveria ver. Uma conversa entre irmãos deveria ser particular. Saí da sala, resolvi ir fumar em algum outro lugar. Mesmo na varanda, eu conseguia ouvir a calorosa discussão entre eles, tentava não prestar atenção com todas as minhas forças, mas não conseguiria não ouvir, se eu não fosse surda, é claro. Sam insistia que fôssemos embora, Dean insistia para que ficássemos ao lado dele, e eu estava com Dean nisso. Sam era meu amigo, meu melhor amigo, algo que eu não pensava há anos que pudesse existir, e eu não queria deixá-lo. Ainda mais depois deste episódio, sentia que deveria acolhê-lo debaixo de minhas asas, ajudá-lo como fosse possível, era uma pena, entretanto, que eu seja designada para proteger Dean, quando amo tanto Sam. O irmão que eu nunca tive.

Eles gritavam, suas vozes cada vez mais e mais exaltadas. Apenas acendi mais um cigarro, não sentia urgência. Mesmo quando Dean saiu e bateu a porta, mesmo quando ele entrou no carro e saiu acelerado, fazendo os pneus cantarem; eu não senti urgência. Apenas observei as estrelas e, ao terminar meu cigarro, entrei e confortei Sam. Ele estava horrível, me doeu, não queria que sofresse, mas não queria deixá-lo, mesmo que Dean tivesse decidido pelo contrário. Decisão que suspeito ter sido amargamente mastigada durante as horas que ele passou fora. No dia seguinte, partimos, eu a contra gosto, Dean calado e irritadiço. Sam, entretanto, não quis nos ver partir.