Acordei em uma cama, estava em um hospital. Não via ninguém ao meu redor, nenhum médico, nenhuma enfermeira. Eu retirei a agulha em meu braço, a que me fornecia o soro e remédios, e levantei, não senti nenhuma dor, então o que quer que tenham feito comigo naquele hospital deu certo. Comecei a andar pelos corredores. Logo, uma enfermeira me parou, estávamos no corredor, e me fez voltar ao meu quarto.
- Como cheguei aqui?
- Um homem a trouxe.
Com uma seringa, ela injetou algo no meu soro e olhou, com o cenho franzido, para as minhas feridas nas costas.
- Isso estava... - Ela desistiu e sorriu para mim. - Logo vou voltar, temos muitos pacientes, está um verdadeiro caos aqui.
Caos. Aquela mulher, não sabia o verdadeiro significado daquela palavra. Eu vi o caos de perto, enquanto passeava por Detroit e levava famílias inteiras para o abrigo que eu havia ajudado a construir. Eu vi o caos de perto quando lutei contra demônios e fui ferida. Um hospital cheio não conhecia o caos.
- Espere! Que homem veio me trazer até aqui?
Mas ela apenas sorriu e me deixou na cama, enquanto minhas pálpebras insistiam em se fechar, dormi novamente. Quando acordei, lembrava brevemente da enfermeira e do que ela havia dito sobre um homem haver me trazido para cá. Um homem. Não disse quem, também ninguém veio me visitar. Não me lembro da última vez que vi Dean. Uma hora após eu ter acordado, um médico veio até mim e me disse que queria examinar minhas feridas, ele parecia estar, de alguma maneira, espantado.
- Qual o seu nome?
- Irine. Walsh, Irine Walsh.
Ele me olhou novamente e anotou algo na prancheta que carregava, depois, sorriu para mim.
- Você tem a mínima ideia do que tinha acontecido com você?
Balancei a cabeça negativamente, eu não lembrava.
- Bom, é um milagre que você ainda esteja viva. Encontramos nas suas feridas uma bactéria resistente aos antibióticos que estava necrosando as suas costas, não conseguíamos fazer nada e em pouco dias, quando essa necrose chegasse ao seu coração, você estaria morta. Quando a enfermeira me contou o que aconteceu, eu tive que vir e conferir com meus próprios olhos. Sou muito grato a você, Irine.
- A mim? - Eu estava confusa, ao meu ver, alguma coisa tinha infeccionado e quase me matado e ele me salvou, eu deveria ser grata, não é?
- Você salvou a minha família e a mim também. Nos levou para o abrigo.
- Bem, estamos quites, você também salvou a minha vida.
Ele sorriu.
- Eu, não. Nada poderia ter matado aquela bactéria, só um milagre.
Em um segundo, eu entendi tudo. Milagre. Um homem me trouxe ao hospital. Castiel havia salvado a minha vida, mas por quê? Sempre o odiei, deixava isso claro, mas mesmo assim, ele salvou a minha vida. Eu não estava morta. Ele havia interferido, já não estava tão certa se a morte me beneficiaria.
Deixei o hospital no dia seguinte, ninguém havia me visitado, nem Dean, nem Bobby ou Castiel. Decidi voltar para minha casa, em Portland, voltaria para a minha vida patética. Talvez fosse hora de construir uma nova família. Eu recolhi as minhas coisas e saí do hospital. Na frente dele, encostado no seu Impala, estava Dean, ele me olhava apreensivo. Meu coração batia descompassado, eu queria correr, mas minhas pernas tremiam demais para que eu pudesse sequer andar, apenas fiquei parada, na frente do hospital, o encarando, sorrindo feito boba. Pensei que ele andaria até a mim, mas eu mesma tive que superar o tremor em minhas pernas e ir até ele.
- Dean!
Eu o abracei, ele estava perfeito, sem uma ferida sequer, seu rosto não exibia um único inchaço ou corte.
- Por onde andou?
- Eu fui visitar Lisa.
Lisa, a mulher da vida dele. A mãe do menino que ele considerava seu próprio filho. Meu sorriso vacilou, eu havia sido tão tola! Burra, na verdade, ao pensar que ele ficaria comigo, que eu seria sua companheira pós-Apocalipse.
- Oh. E como Ben está?
- Ótimo.
Ficamos em silêncio, ele me observava enquanto eu já não tinha ânimo para iniciar uma conversa. Ele ficaria com ela, ficaria com Lisa.
- Bem, acho que já vou.
- Espera, não vai querer uma carona?
Eu o analisei bem antes de responder.
- Não, Dean, obrigada.
- Você vai para casa? Posso te levar.
- É, eu vou voltar para casa, mas não precisa se incomodar. Há pessoas esperando por você, você tem uma família agora, aproveite-a.
Tentei dar um sorriso, mas falhei consideravelmente, apenas dei-lhe as costas e comecei a andar. Como chegaria em casa, era um verdadeiro mistério para mim, não possuía dinheiro ou um carro.
- Pretende voar até lá? Vamos lá, uma carona não vai te matar, sabe?
- Ah, vai sim.
- Irine...
- Dean, olha, não precisa se sentir culpado por aquele beijo. Na verdade, eu que te beijei e entendo claramente. Fomos dominados pela emoção e pela adrenalina, não culpo você.
- O quê? Não seja idiota. - Ele abriu a porta do carro para mim. - Vamos ter muito tempo para conversar até chegarmos em Portland.
Eu entrei no carro, era mais do que eu podia resistir, seriam dias inteiros de viagem. Naquela noite, paramos perto da estrada, dormiríamos no carro e voltaríamos a viajar pela manhã.
- Dean? Está dormindo?
- Não estou mais.
- Desculpe. Você ama Lisa?
Ele se virou para trás e me olhou, ele estava dormindo no banco do motorista e eu havia me ajeitado no banco de trás.
- Como é que é?
Eu já havia me arrependido de ter perguntado.
- Se você a ama, você não é vazio.
- Renie.
- Eu ouvi quando te chamaram de vazio, aquele demônio, eu sei que você ficou magoado. Não deveria, você ama ela e Ben, você não é vazio.
- Obrigado. Você pretende ter uma nova família? - Ele me olhava.
Eu me sentei no banco e o chamei para se sentar comigo.
- Não sei, talvez.
Ele se recostou no banco, olhando para o teto do carro.
- Eu a amo, acho que sempre a amei.
Aquelas palavras doíam, talvez mais do que as facadas dos demônios, talvez mais do que toda a dor que suportei protegendo-o.
- Você amava seu marido?
Estava espantada, não costumava falar de mim, não gostava de falar do meu passado.
- Sim, mas mesmo que o amasse como nunca amei ninguém, não consigo me lembrar dele a não ser que veja uma foto. Não me lembro de suas manias, nem de como ele me chamava.
- Por quê?
- Eu não sei, na verdade. Acho que reprimi minhas memórias, costumava passar tempo demais vivendo no passado, eu mesma me proibi de fazer isso.
- Sei.
Novamente senti uma louca vontade de beijá-lo, era algo sem sentido, mas cada vez mais que o conhecia, mais essas vontades me assaltavam. Lembrava-me nitidamente das sensações de quando nos beijamos aquela vez. Nunca mais faríamos isso de novo.
- Você sabe quem me levou para o hospital?
- Eu levei. Você desmaiou enquanto eu te abraçava e Cas disse que você estava muito fraca, eu te coloquei no carro e te levei pro hospital.
- Obrigada, Dean.
Ele se virou para mim.
- Você se machucou tanto por minha causa. - Ele deu de ombros. - Achei que isso fosse compensar você de alguma maneira.
- Bem, Cas me impressionou. Eu estava morrendo e ele me salvou.
- Como é?
- O médico disse que eu estava com algum tipo de necrose e que eu estava morrendo, mas que me curei como se fosse um milagre.
Dean sorriu.
- Ele pode mesmo surpreender a gente, não é?
- Acho que sim.
- O que vai fazer quando voltar para casa?
- Bem, acho que vou arranjar um emprego. E parar de fumar, definitivamente.
- Isso é bom.
- É.
Novamente ficamos em silêncio, virei-me para a janela, eu senti o olhar de Dean me perfurar, mas não o olhei de volta. Eu senti a mão dele no meu ombro, mas não me virei. Seu toque era suave, só sentia o calor que emanava dele.
- Renie?
- O que é?
- Você pode se virar para mim?
- Acho que não seria uma boa ideia, Dean.
Eu vi pelo reflexo da janela que ele estava sorrindo.
- Renie?
- Sim?
- Vire-se.
- Não, eu...
Antes que eu pudesse terminar de falar, ele segurou meu queixo e me virou para ele, logo depois, ele pressionou seus lábios contra os meus. Uma sensação de calor me invadiu, mas eu não conseguia me mexer. Não conseguia pensar. Ele se afastou, continuava segurando meu queixo, e me encarou.
- Er, boa noite.
Eu tentei me afastar dele, mas novamente suas mãos me seguraram e seus lábios se apertaram contra os meus, fazendo meu coração acelerar loucamente. Desta vez não consegui resistir a ele, deslizei meus dedos pelo seu cabelo castanho e o beijei de volta. Ele me deitou no banco do carro, seu corpo pesando sobre o meu produzia uma gostosa sensação de prazer, que se espalhava por todo o meu corpo. O segurava pela nuca, ainda nos beijávamos. Seus beijos eram calorosos, selvagens e tenros ao mesmo tempo. Ele afastou sua boca da minha por poucos segundos, o suficiente para que o torpor me deixasse.
- Dean, você ama outra mulher. Isto não é certo.
Eu não queria que ele me deixasse, mas não queria compartilhar um momento tão íntimo com ele enquanto pensava na Lisa. Não era o meu ideal de uma noite romântica. Ele me olhou e logo se mudou para o banco do motorista.
- Boa noite.
Eu não dormi logo, só conseguia pensar como tinha estragado uma noite que poderia ser perfeita.
Acordei com o sol batendo na janela, o carro já estava em movimento e Dean tinha um copo de café nas mãos.
- Bom dia. Este é pra você.
Ele apontou um copo de café grande no porta copos, o peguei e experimentei. Estava sem açúcar.
- Eu não quis te acordar, então comprei um igual ao meu.
- Obrigada.
Eu não passei para o carona, preferia manter uma distância segura dele, eu já estava saindo bem machucada dessa empreitada, não gostaria de piorar o que já estava bem ruim. Ocasionalmente, Dean me encarava pelo espelho, eu preferi fazê-lo pensar que eu não estava notando, mais um dia e estaríamos em Portland.
- Ouça, quanto à ontem... Eu...
- Não precisa se explicar.
- Na verdade, eu gostaria de tentar. Pode se sentar ao meu lado?
Eu pensei por alguns segundos antes de pular para o banco da frente, bem, não podia me fazer mal uma conversa adulta.
- É só que... Você está certa, eu amo a Lisa e fazer sexo com você nesse carro seria errado.
Eu ignorei o uso da palavra "sexo", preferia pensar em outro termo.
- Mas... - Ele me olhou antes de continuar falando, senti um arrepio me percorrer a espinha. - Você, eu... Renie, eu não tenho certeza do que eu sinto por você.
- É só confusão, Dean. Você passou por maus bocados, eu passei tudo aquilo com você, é natural você se afeiçoar a mim e eu a você, mas tenho certeza de que quando você voltar para a Lisa...
- Será que você pode parar de falar na Lisa por um segundo? - Ele me interrompeu bruscamente, logo me calei e lhe encarei. - Estamos falando de nós dois.
- Certo.
Ele olhou para a estrada por alguns segundos, estava muito sério. Eu só havia visto ele daquele jeito duas vezes, exceto esta.
- O que eu quero falar para você é que eu realmente gosto de você. Você não tinha medo de se sacrificar por mim e eu te agradeço, mesmo. Não, eu ainda estou falando. - Eu havia aberto a boca para falar, mas me calei novamente. - E quando você entrou na frente do golpe do Sam... Me fez pensar em tudo o que você fez, ao contrário do que você disse, você pode evitar, mas nunca fez isso. E quando Lúcifer disse que você se apaixonou por mim, eu não acreditei. Até aquele dia sempre pensei que você me odiasse. Quando ele te ameaçou, Miguel entendeu os meus sentimentos, ele sabia que nós deveríamos te salvar. Todos sabiam, Renie, o que eu sentia por você, menos eu.
- Dean, eu... - Eu não conseguia pensar, ainda não tinha entendido.
- Quando você me beijou, eu senti que não poderia evitar você. Você também sentiu isso, eu sei. E ontem... Você foi tão carinhosa que me deixou desconcertado, porque eu não tenho certeza do que eu sinto por você. E você falou da Lisa, eu fiquei totalmente envergonhado.
- Oh, meu Deus. Me desculpa, eu não queria bagunçar a sua vida desse jeito!
Ele me olhou irritado.
- Você não tem que pedir desculpas!
- Mas, Dean, se não fosse eu você poderia viver uma vida tranquila ao lado da sua família!
- Não seja idiota. - Ele bufou. - A culpa não é só sua.
Ficamos em silêncio por vários minutos, um posto de gasolina se aproximava, ambos descemos, ele iria abastecer o carro e eu iria até o banheiro. Eu ainda não havia digerido toda aquela informação e o que ele havia dito de algum jeito me deixou mais ansiosa e deprimida, logo ele voltaria para Cicero e ficaria com sua mulher e seu filho.
Fui até a loja e comprei alguns biscoitos e um refrigerante, eu já estava com fome.
- Quer? - Logo que ele entrou eu lhe ofereci um pacote de batatas chips. Ele pegou o pacote sem dizer nada.
Alguns minutos depois ele me olhou, indignado.
- Refrigerante?
- Enquanto você está dirigindo é só isso que você vai beber. Depois de Cas ter me salvado eu decidi que não quero perder a minha vida tão cedo.
Eu o olhei por algum tempo e logo desviei o olhar quando ele me pegou encarando-o.
- O que é?
- Eu estava pensando em tudo o que você me disse.
- Ah.
- É tudo verdade, não é?
Ele voltou seus olhos verdes para mim.
- É.
- Bem, eu me apaixonei por você desde o momento que te vi com o chupa cabras. E preferi me manter afastada porque não queria me machucar de novo, se você morresse, eu só sofreria mais e se você sobrevivesse e mesmo assim não me escolhesse como parceira, eu iria definhar do mesmo jeito. Não quis me envolver por puro medo.
Ele sorriu para mim.
- Eu sei como é.
- Oh, não. Você não sabe. Eu só amei um único homem em toda a minha vida, eu quase definhei quando ele morreu. Não sei se aguentaria ser dispensada, sabe? Conheço a sua fama.
- Fama?
- De mulherengo.
Seu olhar era indagador, eu apenas sorri para ele.
Naquela noite, nos sentamos e contemplamos as estrelas, não sabia por quanto tempo pode ter sido por horas ou segundos, apenas posso dizer que era tranquilizador ter tantas estrelas acima de nós, como se nos protegesse.
Me aproximei de Dean e encostei a cabeça em seu ombro, ele era quente, acolhedor e me senti protegida, mesmo que o tivesse protegido desde que o conheci.
- Elas são tão pacíficas, me deixam relaxada.
- A mim também.
Ele virou a cabeça e me encarou, eu poderia derreter com seu olhar. Quando ele se abaixou, eu não esperei que tomasse a iniciativa e logo juntei meus lábios com os dele. Dean me segurou pelos ombros e logo passou um braço pela minha cintura, não deixamos de nos beijar nem por um segundo.
Nós entramos no carro e nossos corpos pareciam se encaixar perfeitamente. Seus beijos eram poderosos, meu corpo logo ficou mole e quente, como o das heroínas dos diversos romances que li quando ainda era uma adolescente, era uma sensação há muito esquecida. Logo senti meu coração acelerar, ele batia loucamente com os carinhos de Dean.
Ele se deitou no banco e eu me deitei sobre ele, sentia seu peito quente e desnudo contra a minha própria pele, que nesse instante pareceu fria demais para mim, eu precisava de calor, o calor que emanava dele. Suas mãos me seguravam pela minha cintura, as minhas mãos estavam trêmulas, incapazes de qualquer gesto, só pareciam querer segurar seu rosto, queriam apenas ficar como estavam.
Quando ele se sentou me tomou nos braços novamente, eu senti tudo que há muito não sentia: paixão, ternura, carinho, luxúria e, é claro, prazer. Eu não pensei em ninguém além de nós dois. Encaixei minhas pernas na cintura dele, enquanto ele beijava meu pescoço, minha pele estava arrepiada. Ofeguei quando o senti, o queria tanto, ele também me queria. Estávamos em sintonia.
Depois, quando me aconcheguei a ele e fechei os olhos, me senti plenamente viva. Senti que, finalmente, poderia seguir em frente. Finalmente, poderia ser uma pessoa inteira novamente, as tragédias de meu passado ficariam para trás, após o Apocalipse eu faria um futuro totalmente diferente do que eu havia imaginado alguns meses atrás: próspero e pacífico.
-FIM-
