Disclaimer: Isto é uma chatice. Porque é que a tia Jo há-de ter tudo só para ela? :'c
Silver Heart
Fanfic by Nalamin
Chapter 3 - The Conversation
Quando o despertador tocou na manhã seguinte, julguei que alguém me estivesse a picar a cabeça com um sem número de agulhas. Já estava habituada àquela sensação. Significava que os treinos para a primeira volta das Olimpíadas Interescolares tinham começado.
Eu sei que Theodore fez bem em puxar por mim logo no primeiro dia. As primeiras eliminatórias eram em Novembro na Academia de Beauxbatons, e eu precisava de recuperar, em apenas algumas semanas, os três meses que estivera sentada a ver o Tamisa pela janela da cozinha/sala de jantar/quarto.
Mas enquanto as minhas colegas se levantavam e vestiam ainda ensonadas, eu deixei-me ficar no quentinho dos cobertores, gozando a descontracção, o que elas, claramente, notaram.
- Não te levantas?
- Só tenho a primeira aula às segundas-feiras. Por causa dos treinos e das aulas de Astronomia à tarde e à noite durante a semana.
Resmungando sobre a minha sorte em ter as primeiras duas horas da manhã livres e em ter Theodore como meu professor particular, as minhas colegas dirigiram-se em rebanho para a casa de banho. Infelizmente, algumas decidiram cantar, o que me fez levantar da cama e pôr a cabeça de fora da janela, para ver o céu completamente azul e os animais matutinos e para abafar o som.
- Vens connosco para o salão, Kyrianne?
Suspirando, voltei para dentro e comecei a vestir o uniforme, desta vez do meu tamanho. Decidi não usar o pulôver, estava demasiado quente lá fora. E também deixei a capa no dormitório, o que suscitou mais uns olhares, que, eventualmente, acabei por captar.
- O quê, não me digas que é obrigatório levar a capa?
- Não é obrigatório, mas é recomendável. – encolhi os ombros.
- Pelo que ouvi sobre o professor Casper – O fantasminha! Ahaha, devia ter-me lembrado daquela mais cedo! –, não creio que ele se importe muito com o que eu levo vestido. – respondi, penteando os meus cabelos e segurando as mechas da frente na parte de trás da cabeça com um gancho.
- Ele chama-se Binns. Mas hoje temos Transfiguração de novo. É a McGonagall que dá essa aula, se bem te lembras.
- Não estou preocupada. Não creio que me vá chatear por causa da roupa. Afinal, e tal como te disse ontem, eu tenho muitas espadas e sou muito talentosa a usá-las. – disse, apertando a gravata, arregaçando as mangas da camisa e pondo a mala à tiracolo.
Cacarejando indignadas sobre a minha nova saia a que elas chamavam 'de velha' porque me batia três centímetros acima do joelho e não dez como as delas, saímos do dormitório e da sala comum rumo ao salão. Estava esfomeada e a sentir um desejo selvagem por scones. E café. E sim, tenho perfeita noção de que estou na terra do chá das cinco. E das seis, e das sete, e das oito…. Esta gente bebe muito chá. Bom, antes chá que vodka, como em Durmstrang.
- Kyri! – exclamou uma voz, andando rapidamente na minha direcção, vinda de um corredor da esquerda.
- Theodore! A que devo tamanha honra, tão cedo pela manhã? – Jennifer e Karen tinham parado a meu lado e enchiam o mármore de baba.
Por Zeus, Ted nem estava nada de especial naquela manhã. Na verdade, estava perfeitamente normal, o que para Theodore significa que se parecia com ele próprio: tinha os olhos e os cabelos castanhos com que nasceu, o nariz pequeno e os lábios carnudos, e vestia umas calças escuras e uma camisa azul clara por baixo de um pulôver sem mangas cinzento. Agora olhando bem, nem sequer percebia porque é que ele mudava de aparência o tempo todo. Era muito mais bonito au naturel.
- Sei que não estás habituada a receber correio via coruja, por isso quis falar-te pessoalmente. – olhou para as raparigas a meu lado com um sorriso. – E vejo que já fizeste amigas.
- Oh sim, a Kyrianne é fantástica! – disse Jennifer, agarrando-se ao meu braço direito.
- Simplesmente adoramo-la! – exclamou Karen logo a seguir, roubando o meu braço esquerdo. Loucas. Perfeitamente loucas. Por alguma razão, Ted riu.
- Estou a ver que sim.
- Podem ir andando para o salão que eu já lá vou ter. – disse eu, sacudindo-as. Não resultou. Estavam tipo lapa. – Jennifer, larga-me.
- Oh, desculpa, Kyri. – disse ela, lançando um olhar sedutor a Theodore. – Vemo-nos por aí, professor Lupin.
- Sim, adeus professor. – acrescentou Karen, acenando e começando a afastar-se com Jennifer. Só tornei a falar quando elas já estavam a uma distância considerável.
- Duas idiotas. Têm serradura a ocupar o lugar onde deveria estar um cérebro.
- Não sejas má, Kyri. Pareceram-me gostar muito de ti. – olhei-o, entediada.
- Não, Theodore, elas gostam muito de ti. Acredito que já tenham casamentos e luas-de-mel planeadas para vocês os três. – ele gargalhou.
- Podes culpar-me por ser irresistível?
- De todo. Posso culpar-te por seres jactancioso, no entanto.
- Inglês, Kyri, usa inglês.
- Foi o que fiz. Podes culpar-me por falar melhor a tua língua que tu? – ele riu e abanou a cabeça. Nunca percebi essa reacção. É um oximoro. Concorda-se mas discorda-se? - Mas afinal, o que me querias dizer?
- Ah sim, já me esquecia: hoje vamos fazer metade dos treinos lá fora e a outra metade cá dentro. Os Gryffindor reservaram o campo de Quidditch.
- Tudo bem. Mais alguma coisa? – ele coçou a cabeça.
- Victoire escreveu. Está tudo bem com os pais e a tia. Tem muitas saudades e pede que diga olá a Rose e a todo um comité de primos. – franzi o sobrolho.
- Quem é Rose?
- Rose Weasley. É prima de Victoire. E minha também, de certa forma. – Ergui as sobrancelhas, não só por aquela Rose ser a Rose de que Jennifer e Karen tanto falavam, mas também pela afirmação que ele fizera.
- Então se tanto tu como Victoire são primos de Rose, isso faz de vocês aparentados. Por Zeus, Theodore, estás noivo de uma prima em sei lá que grau? Nojento. – gracejei, mas fazendo uma enorme cara de nojo e começando a andar em direcção ao salão.
- Kyri, não é nada disso! – assegurou ele, perseguindo-me pelo corredor.
- Nunca pensei que fosses capaz de cometer incesto, Ted. – Quase que ri a ver a sua cara de chocado. O seu cabelo até ficou de um castanho mais pálido. Ali estava a paga por me ter arranjado um uniforme defeituoso.
- Compreendeste tudo mal. E eu não estou noivo de Victoire!
- Não? Bom, seja como for, é melhor não dizeres isso muito alto. Jennifer pode ouvir-te, criar uma árvore genealógica falsa e dizer que é tua irmã. E depois aí, devido à tua natureza incestuosa, terás de te casar com ela, já que irmã sobrepõe-se a prima em quinquagésimo grau. – A sério, eu deveria escrever um roteiro. Caramba, tinha mesmo saudades de ir ao cinema.
- Kyrianne! – exclamou ele, quando já estávamos a apenas uns paços do salão. Parei e olhei para ele. Estava branco como a cal, o cabelo quase loiro. Sorri levemente.
- O facto de eu não ser tão entusiasmada quanto gostarias, não significa que sou desprovida de sentido de humor, Theodore. Estava só a brincar. – ele olhou-me durante uns segundos mas depois suspirou de alívio. Vi a cor voltar à sua face e aos seus cabelos.
- Bom, deixaste-me definitivamente assustado.
- És demasiado bonzinho, Ted. Bons meninos não vão longe, sabes. E não se safam com incesto. – comentei, rindo e entrando no salão.
- Vai haver vingança, Kyri. – garantiu-me ele, caminhando a meu lado.
- Mal posso esperar. Vou fazê-lo sentada, no entanto. E a tomar o pequeno-almoço. – respondi, voltando-lhe costas e dirigindo-me à minha mesa.
- Não queres vir conhecer Rose? – voltei-me para o olhar.
- Há alguma relevância nesse acto? – ele encolheu os ombros.
- Nunca fizeste nada só por fazer?
- Não. – ele agarrou-me pela mão e puxou-me atrás dele.
- Então parece que esta vai ser a tua estreia.
Suspirando resignada, deixei que me levasse até à mesa dos Ravenclaw. Olhei para a minha mesa para ver Jennifer e Karen de bocas abertas em completo espanto – e, suponho, alguma inveja -, e aquele rapaz a olhar para mim, o mesmo que nem sequer notara a minha presença no dia anterior, quando toda a gente estava à espera da decisão daquele chapéu bafiento. Ele era dono de uns magníficos olhos cinzentos que me fixavam com uma intensidade que eu não sabia ser possível. Senti os pelos dos meus braços ficarem eriçados, aviso de que um arrepio ameaçava percorrer-me a espinha. O que, no entanto, nunca chegou a acontecer, porque o aperto da mão de Ted me trouxe de volta à realidade.
- Kyrianne, esta é Rose Weasley. Rosie, apresento-te Kyrianne Argyris, minha amiga e aluna. – Rose olhou para mim, ligeiramente corada.
- Muito prazer. – disse ela, apertando a minha mão suavemente.
- Bom dia, Rose. – respondi eu, sorrindo de volta.
- Importas-te que nos sentemos contigo?
- Não, claro que não!
Portanto, foi isso que fizemos e eu pude, finalmente, alimentar-me com os meus scones. Mas tive de me contentar com sumo de abóbora, porque as escolhas resumiam-se a isso e leite e eu simplesmente abominava leite.
E durante todo o pequeno-almoço a conversa fluiu bastante bem. Rose era muito eloquente e articulada e eu estava a dar graças aos deuses por ter conhecido uma pessoa com capacidades de formular frases com sentido. Falámos sobre o quanto eu não sabia sobre Hogwarts e muita da história da magia e ela ofereceu a sua ajuda, que eu aceitei rapidamente. Disse até que, já que também não tinha o primeiro tempo, podíamos ir juntas até à biblioteca. Assim ela mostrava-me onde era e ia-me explicando algumas coisas.
- Acho que é muito boa ideia. – disse eu, acabando de comer. – Não tens algum sítio para onde ir ensinar, Theodore? – acrescentei, levantando-me e sendo imitada por Rose.
- Nem por isso. Os treinos de toda a gente são sempre de tarde.
- Então podias ir falar com quem quer que seja que tens de falar sobre o botão de transporte para eu ir passar o Natal a casa. Não me consigo desmaterializar daqui para outra ilha a milhares de quilómetros de distância.
- Sou treinador de atletas de alta competição, Kyri, não o teu moço de recados. – sorri e inclinei-me para ele, falando ao seu ouvido e imaginando a cara de Karen e Jennifer a olharem para mim.
- Nesse caso é melhor que esta noite tenhas cuidado com a fechadura do quarto. - sussurrei, lentamente, seguindo depois o meu caminho com Rose no meu encalço e deixando Theodore para trás com um olhar espantado no rosto.
- Então finalmente conheço a famosa Miss Argyris. Teddy falava muito de ti quando ia jantar lá a casa. – comentou Rose, enquanto andávamos devagar rumo à biblioteca.
- Ah, imagino o que ele dizia de mim. – Rose sorriu.
- Falava sempre optimamente de ti. Exaltava as tuas capacidades para a esgrima e dizia que, contra as suas expectativas, revelaras-te uma óptima pessoa e uma boa amiga.
- Ah, Theodore. Um sentimental. – respondi, sorrindo. Ela olhou para mim.
- Deduzo, portanto, que o sentimento é mútuo. – Assenti.
- Apesar da sua terrível memória, aprecio genuinamente a companhia de Theodore.
- Sim, creio que Teddy apenas não se esquece da sua própria cabeça porque está agarrada ao corpo.
- Ele mencionou que são primos. – disse eu, depois de uma pequena pausa.
- Bom, eu sou prima de Victoire. Como ele namora com Victoire e é afilhado dos meus tios, suponho que sim, podemos dizer que somos primos. – ela olhou-me. – Perguntavas-te onde estavam as parecenças? Com certeza sabes que Teddy é Metamormago. Nunca se parece com ninguém.
- Há pouco estava parecido com ele mesmo. – ela anuiu.
- Também reparei. Mas a maior parte das vezes olho para o braço esquerdo dele quando preciso de ter a certeza. – comentou ela, rindo.
- Eu também. A cicatriz, certo?
- Exacto. Foi James quem lha fez, há alguns anos, durante um jogo de Quidditch. – olhei-a, confusa.
- James?
- Filho dos padrinhos de Teddy, os meus tios Harry e Ginny. É capitão da equipa de Quidditch dos Gryffindor. Joga como keeper.
- Vocês têm uma família enorme. – ela encolheu os ombros.
- Todas as famílias de feiticeiros que descendem de puros-sangues são numerosas. Estão todas interligadas. Os ancestrais do meu pai e do tio Harry eram, provavelmente, aparentados.
- Não consigo entender como é que vocês se casam com pessoas da vossa família, ainda que afastadas. Não faz sentido na minha cabeça.
- É uma espécie de tradição dos feiticeiros.
- Prefiro manter as minhas tradições, por muito muggles que sejam. – comentei eu, deixando-a entrar na biblioteca à minha frente.
Não falámos durante um momento, enquanto ela dizia qualquer coisa à bibliotecária e eu olhava em volta. Aquela biblioteca era bastante maior do que a que tínhamos no Instituto e parecia-me, sem dúvida, muito mais organizada. Estava praticamente vazia, já que àquela hora eram poucos os alunos que, tal como eu e Rose, não tinham aulas, e por isso as janelas altas por detrás de algumas mesas deixavam ver os jardins lá de fora. Estava um dia magnífico, e prometi a mim mesma ir para os treinos daquela tarde mais cedo só para me poder deitar na relva e apreciar o sol.
- Kyrianne! – chamou Rose, fazendo-me sinal para a seguir. Acompanhei-a até a uma das mesas entre estantes e encostei-me a uma delas. – Então? O que é que achas da nossa humilde escola, até agora?
- Definitivamente melhor que Durmstrang, pelo menos em termos de instalações e comida. – ela riu.
- A falar assim, até parece que eles vos davam a comer palha lá no norte.
- A comida era razoável, mas os quartos deixavam um pouco a desejar.
- Tinhas um quarto só para ti, suponho, dado que eras a única rapariga. – abanei a cabeça.
- Não, dividia uma camarata, tal como vocês aqui. Mas com dois rapazes. – ela abriu a boca, espantada. Suspirei. – Tal como expliquei a Jennifer e Karen, em Durmstrang eu era tratada como qualquer rapaz. Dormia, comia, ia às aulas e treinava sempre ao mesmo nível que eles.
- Então mas e se quisesses levar algum rapaz para o teu quarto? Com os outros dois lá seria simplesmente estranho. – Ri e olhei para ela.
- Tínhamos algumas regras quanto a isso. Porque é que perguntas, Rose? Queres comparar técnicas?
- Não não! Não é nada disso. Não é mesmo nada disso. – ela suspirou e apoiou a cabeça nas mãos. – Eu nunca sequer tive um rapaz para levar para o quarto.
- Não percebo porquê.
- Quando te acenei, ontem, reparei que estavas sentada ao lado de Jennifer Cox e de Karen Ward. Deduzo que já te tenham contado sobre mim: que sou a menina dos professores, que não tenho amigos e que toda a gente me odeia.
- Tudo o que sai da boca delas é, obviamente, lixo.
- Não deixa de ser verdade, no entanto. – abanei a cabeça.
- Recuso-me a acreditar nisso.
- Vais poder ver por ti mesma. Temos História da Magia juntas na próxima hora.
- Pensava que estavas no sexto ano.
- Mas estou no programa avançado, por isso tenho algumas disciplinas com os alunos mais velhos. – assenti, em compreensão.
- Seja como for, não podes dar ouvidos a essas coisas. São só fofocas de gente com vidas desinteressantes.
- Eu tento, mas às vezes é complicado. – fez uma pausa. – Bom, mas vamos parar de falar de mim. Há alguma coisa que queiras saber sobre Hogwarts? Talvez te possa explicar.
Pensei por um momento. No que dizia respeito ao castelo em si, não queria tirar dúvidas. Ia passar ali um ano, teria de aprender os caminhos por mim mesma. Quanto às aulas a que eu atendia, essas eram basicamente as mesmas que eu tinha no Instituto, à excepção de História da Magia. Mas como eu não sabia praticamente nada sobre isso, não podia fazer Rose explicar-me os cinco anos de aulas que eu perdera. Lembrei-me então de uma coisa que no dia anterior quisera descobrir.
- Quem é aquele rapaz loiro de olhos cinzentos, dos Slytherin? – ela franziu uma sobrancelha.
- Pálido e inexpressivo?
- Esse mesmo.
- É o Malfoy. Scorpius Malfoy. – Ah, então era dele que Karen falara naquela manhã. Bom, pela primeira vez desde que a conhecera, ela tinha razão. – Por que é que queres saber?
- Curiosidade. Ele e outro rapaz foram os únicos e não olhar embasbacados para mim ontem, enquanto eu estava a ser seleccionada. Pareciam nem sequer reparar que eu estava presente. – sorri. – Esse é o género de pessoas que eu gosto.
- Scorpius parece não reparar em ninguém o tempo todo. Acredito que ele seja ligeiramente depressivo.
- Emo, portanto. Bom, enganou-se na cor de cabelo. E faltam os piercings. E a lâmina atrás da orelha. – ela olhou-me, completamente confusa. Está bem, admito que divaguei ligeiramente.
- Desculpa?
- Nada, esquece. Algaraviada muggle.
- Pois é, tu descendes de muggles, como a minha mãe. És grega, certo?
- Bom, neste momento tenho tripla nacionalidade, mas sim, nasci grega.
- Gosto do teu nome, condiz contigo. Argyris significa prata, certo? Dado que praticas esgrima, é apropriado. Não que os floretes sejam feitos de prata, claro. É apenas simbólico. Uma metáfora. – disse ela, rapidamente. Sorri.
- Os meus antepassados lidavam com jóias. Daí o apelido.
- E Kyrianne?
- Era o nome da minha mãe. – ela fitou-me tristemente.
- Já não é viva?
- Morreu a dar-me à luz.
- Lamento muito. – disse, suavemente, pegando na minha mão. Fiquei espantada. Os britânicos não eram grandes adeptos deste tipo de gestos. Mas Rose revelava-se uma agradável surpresa.
- Não te preocupes. Não ter mãe fez com que, em vez de apenas um pai, eu tivesse seis ou sete. – comentei, rindo. – E de onde vem Rose?
- Da flor. E porque os meus pais queriam que os filhos tivessem as suas iniciais. O meu irmão chama-se Hugo. Está nos Gryffindor, no quarto ano. Não tens irmãos, pois não?
- Sou filha única, mas considero Dragan e Nikolai, os amigos que deixei em Durmstrang, meus irmãos. Foram os meus primeiros amigos verdadeiros.
- Conheço a sensação. Sinto o mesmo em relação aos meus primos, embora não seja a mesma coisa, dado que eles são família. – fez uma pausa e olhou-me, sorrindo. – E mesmo sem te conhecer bem, começo a sentir o mesmo contigo.
- Bom, isso resolve-se facilmente. Pergunta o que quiseres saber. Posso dizer, sem receio, que não possuo quaisquer segredos.
- A sério?
- A sério.
- Bom, então comecemos com o básico. Data e local de nascimento? – inquiriu, divertida. Sentei-me na cadeira à sua frente antes de lhe responder.
- Quatro de Outubro de 2003 em Anáfi, uma das Kykládhes gregas.
- Coisas que adoras?
- Esgrima, cinema muggle e deixar Theodore assustado. – ela riu.
- Coisas que odeias?
- Pessoas idiotas e qualquer coisa que seja demasiado problemática. – respondi, com um suspiro.
- És mesmo assim tão entediada quanto pareces?
- Sou mais. Theodore corroborará esta afirmação. – acrescentei, olhando para a cara de espanto dela. – Só acho que não devo preocupar-me demasiado com coisas que não interessam. Prefiro viver a vida calmamente, sem grandes expectativas ou emoções demasiado fortes.
- Muito bem, aceito. Sonhos?
Sorri, lembrando-me daquele que sempre fora o meu único sonho. Agora que era adulta, parecia-me tão idiota! Cavaleira! Quem é que se lembraria de sonhar com uma profissão do tempo do Rei Artur? Eu, aparentemente. Claro que agora já nem sequer pensava nisso. Já esquecera esse sonho de menina há alguns anos. O problema é que ainda não o substituíra por outro.
Independentemente da minha vontade de ser cavaleira, que foi como tudo começou, a minha vida sempre girou à volta de uma coisa: a esgrima. A escola sempre foi, a meu ver, secundária. Não me interpretem mal. É claro que eu achava a educação importante. Não acabei de dizer a Rose que odeio pessoas idiotas, ignorantes? Não era brilhante, porque passava muito tempo a treinar e a competir, mas era bastante satisfatória. Mas fossem quais fossem os meus resultados académicos, nunca me passara pela cabeça seguir uma profissão que não tivesse a ver com aquilo que me trouxera até ali e que era a minha única paixão.
- Esgrimir até não poder mais. – respondi finalmente. Bom, era a mais absoluta das verdades. Não creio que fosse o que ela estava à espera, mas enfim.
- Interessante. – foi o comentário que recebi.
- Na verdade, acho que até é bastante óbvio e pouco original.
- Sim, é óbvio. O que acho interessante é fazeres a tua vida, todos os aspectos dela, funcionarem como a Terra, a Lua e o Sol. – olhei-a, espantada, e cruzei os braços.
- Explica-me esse raciocínio, por favor.
- Admitamos que o tempo, o espaço, as circunstâncias, as pessoas, tudo aquilo que faz parte da vida, é o sol. Admitamos também que a esgrima é a Terra e que tu és a Lua. Ora, se tomarmos estas premissas como verdadeiras, ficaremos com o seguinte: tu giras em volta da Terra que, por sua vez, gira à volta do Sol. Por outras palavras, tu és constantemente condicionada pela esgrima: pelos treinos, pelas competições, pelo tempo que passas a descansar entre e depois de ambos. E a esgrima, que envolve os ditos treinos e competições, é condicionada pela vida, por datas e horas específicas, pessoas e lugares particulares. – Caramba. Como eu adoro falar com pessoas inteligentes!
- Magnificamente formulado, cara Miss Weasley. – ela riu e fez uma dramática vénia.
- Obrigada, Miss Argyris. Deixa-me apenas acrescentar que creio que é por isso, por fazeres funcionar a tua vida desta maneira peculiar, que padeces de tanto e constante tédio. Penso que ainda não encontraste nada que te apaixone tanto quanto a esgrima. Estou correcta? – ri-me.
- Em cheio na mouche, Rose. Já cogitaste em seguir carreira de psicanalista?
- Não faço a menor ideia de que profissão é essa, mas gostava de trabalhar no Gabinete dos Aurors, como profiler. Embora, agora que não há ameaças, não creio que seja uma profissão com futuro. – fez uma pausa. – Mas não desviemos a atenção para a minha pessoa. Estávamos a falar de ti. Posso continuar a minha análise?
- Por favor, longe de mim interromper esse fantástico fluxo de pensamento.
- Onde é que eu ia? Ah sim: é realmente verdade que ainda não te deparaste com nada que te seduza, por assim dizer, tanto quanto o desporto que amas. Mas acredito ser também verdade que a razão por que isso acontece é porque tu, como Lua, estás sempre a girar na órbita da Terra, que anteriormente definimos como sendo a esgrima. Sempre à mesma velocidade, dando sempre o mesmo número de voltas por ano, etc. O que é que concluímos disto, Kyrianne?
- Que sou um satélite natural com muito amor ao seu planeta? – ela riu.
- Também, mas onde eu queria chegar era ao seguinte: o facto de nunca saíres da órbita da Terra faz com que não consigas ver o que há para além dela. Admito que até sejas capaz de vislumbrar alguns contornos de outros planetas, estrelas ou luas, mas a verdade é que não sabes absolutamente nada sobre o que há para lá da Terra. Por outras palavras, a Terra, no caso esgrima, puxa-te para ela com tal intensidade que tu não te consegues soltar e perceber que existe muito, muito mais por descobrir. E tanto quanto sabemos, o Universo é infinito. – terminou ela, com um encolher de ombros e um sorriso.
Ela conseguira criar uma metáfora absolutamente fabulosa para a minha vida. E conhecia-me há menos de uma hora. Estava a começar a sentir uma ligação especial com aquela rapariga, diferente daquelas que tivera com Nikolai, Dragan ou até Ted. Ela era mesmo inteligente, articulada, eloquente e um prazer de se ouvir falar. Comecei a perceber realmente porque é que os professores a apreciavam. E porque é que as minhas desmioladas colegas de equipa achavam que ela não pertencia nem nunca pertenceria à elite.
Entendera também o que ela quisera dizer. Abrira-me um pouco os olhos. Eu sempre tomara o meu tédio constante como parte da minha personalidade, característica que se enraizara em mim quando me vira em Atenas, entre desconhecidos e sem nada que me estimulasse verdadeiramente o intelecto. Mas agora, em toda a sua sabedoria, Rose referira que, para além de apenas um traço de personalidade, talvez fosse também algum medo do desconhecido, alguma falta de coragem de me soltar daquilo que achava habitual e seguro e de ir em busca de coisas diferentes.
- Isto faz sentido para ti? – perguntou ela, depois de uns minutos em silêncio. Sorri-lhe.
- Mais do que eu poderia imaginar.
- Miss Weasley. – chamou a bibliotecária, à minha direita. – Faltam vinte minutos para a próxima aula.
- Obrigada, Madame Pince. – Rose começou a pegar nas coisas dela. - Vamos?
- Vamos. – respondi, imitando-a e saindo atrás dela da biblioteca.
N/A: Para o pessoal do Brasil que lê a minha fic: por amor de deus, vocês têm de tentar ressuscitar o Rock In Rio no Rio de Janeiro. O de Lisboa começou ontem e eu estive lá. Foi uma das melhores noites de sempre. A Mariza foi a primeira e cantou-nos o nosso fado, a Ivete veio a seguir e pôs o pessoal a dançar e aos saltos (LEVANTOUUUU POEEEIIRRAAAA!), o John Mayer (o meu futuro marido :p) tocou guitarra como se a vida dele dependesse disso e a Shakira terminou a noite com a Hips Don't Lie e era tudo a gritar. LINDO LINDO!
Pronto, agora que já expressei o meu agrado com a noite de ontem, aqui têm mais um capítulo. As metáforas de astronomia voltaram e acho que são uma coisa que está impregnada em quase tudo o que escrevo. Ah, e só por curiosidade: eu e Kyrianne partilhamos o mesmo dia de aniversário (apenas o dia, eu nasci uma dúzia de anos antes dela xP)
Bom, continuem a ler, sim? Eu vou ver se estudo um bocadinho para os exames --'
Love,
~Nalamin
