Disclaimer: Isto é uma chatice. Porque é que a tia Jo há-de ter tudo só para ela? :'c
Silver Heart
Fanfic by Nalamin
Chapter 6 - Iron Will
- Ontem à noite falei com o tal Scorpius. – disse a Rose, de repente.
Estava uma tarde de sábado bastante agradável e por isso eu e Rose decidíramos levar os trabalhos de casa para os jardins. Encontráramos sombra à beira de uma grande árvore perto do campo de Quidditch e ficáramos por lá alternando o nosso olhar entre a matéria de Transfiguração e os treinos de Quidditch dos Gryffindor. Mas dado que a nossa rapidez de pensamento era bastante elevada, os ditos ficaram feitos em pouco tempo e, então, naquele momento, eu lia um livro enquanto Rose se divertia a fazer tranças no meu cabelo.
- Quando saíste do salão?
- Sim.
- E então?
- Ele é bastante…perturbado. Não percebi bem a razão. Pareceu-me que era qualquer coisa a ver com o pai. Ele estava mesmo a começar a tresloucar.
- Claro que é. – retorquiu ela, como se fosse óbvio. A minha expressão interrogativa devia ser óptima, porque ela sorriu e tornou a falar. – Às vezes esqueço-me de que não és uma feiticeira vulgar.
- Sim, goza com a minha falta de educação bruxa. – ela riu.
- Então prepara-te para a aula da tarde, Kyrianne. Vou-te fazer um pequeno resumo.
- Estou pronta. – disse eu, fechando o livro.
- Sabes quem foi Voldemort, certo?
- Uma criatura megalómana que queria adquirir poder absoluto sobre os feiticeiros e defendia a supremacia dos puro-sangues?
- Exactamente. Houve uma batalha aqui em Hogwarts, no ano em que Teddy nasceu. Os meus pais participaram nela, assim como os meus tios, os meus avós, os pais do Teddy, que faleceram nesse confronto, e o pai de Scorpius, Draco Malfoy – entre, claro, muitos outros. Mas Draco Malfoy combateu do lado de Voldemort.
- Estou a ver.
- Felizmente, não magoou ninguém naquela noite e os seus remorsos sobre o que fizera eram genuínos, por isso, ao contrário de todos os Devoradores da Morte, não foi condenado. Mas Scorpius é uma fotocópia do pai. Suponho que cada vez que as pessoas olham para ele, vêem Draco e não Scorpius. Não conseguem sequer conceber que o filho não é a mesma pessoa que o pai e, portanto, provavelmente não fará as mesmas coisas ou cometerá os mesmos erros.
- Agora faz sentido aquilo que ele disse. Compreendo, até certo ponto, a sua reacção. – fiz uma pausa. – Bom, seja como for, mais tarde ele desculpou-se pelo seu comportamento. Sorriu até. E foi bastante educado.
- É possível que ele sofra de dupla personalidade. – comentou ela, encolhendo os ombros.
- Não creio. Penso que é apenas mais uma mente torturada não só por ele saber o que o pai fez, mas também por toda a gente ter noção disso e nunca o deixar esquecer desse facto. Imagino que deve acarretar imensa vergonha.
- E desapontamento. A desilusão deve ser enorme.
- É por isso que ele parte logo para o ataque, como fez comigo. Ódio é muito mais fácil de lidar do que amor, especialmente se for amor desiludido. Daí eu gostar do meu modo de viver. – ela sorriu.
- Já alguma vez te desiludiram, Kyrianne?
- Só é possível sermos desiludidos quando temos expectativas irreais em relação a alguma coisa. Eu não possuo expectativas de todo. Simplesmente deixo as coisas acontecerem.
- E já alguma vez te apaixonaste?
- Não creio. Mas obviamente que já tive namorados por quem me sentia imensamente atraída.
- Já alguma vez sentiste uma emoção forte? Uma descarga de adrenalina, profundo medo, fantástica alegria? – gargalhei.
- Não sou uma sociopata, Rose. Eu consigo sentir. Mas pessoas não são o meu forte. E respondendo à tua pergunta, sim, muitas vezes.
- Eu sei que consegues, é por isso que tento fazer ver o que estás a perder devido à tua apatia. Então dá-me um exemplo de cada.
- Vejamos…sinto a adrenalina a correr-me nas veias sempre nos minutos antes de entrar em competição e senti profunda alegria quando Kostas me esculpiu a minha primeira espada de madeira. Quanto à tristeza…creio que apenas senti muitas saudades do meu pai e da minha cidade quando parti para o continente para esgrimir. E também as sinto agora, mas é óbvio que à medida que fui crescendo ficaram mais fáceis de gerir. – ela suspirou.
- Creio que vou recorrer de novo à metáfora de astronomia. – disse, fazendo-me rir. – Reparaste que todos os exemplos que me deste estão ligados à esgrima? Nem num momento de descontracção como este, em que estamos a ter uma conversa banal e não há qualquer menção à esgrima, a floretes, a Olimpíadas, ou a treinos, tu te desvias da tua órbita e de desprendes do teu planeta. O teu subconsciente está tão ou melhor treinado do que tu. Vai imediatamente agarrar-se à única coisa que conhece verdadeiramente e que o conforta: a esgrima. E porque é que isso acontece?
- Porque eu não me permito descobrir outra coisa que me encante tanto quanto a esgrima. – respondi, como se estivesse na aula. Ela assentiu aprovadoramente.
- Tens de ter um espírito mais aberto, Kyrianne. Tens de te deixar perder na beleza simples de uma flor, ou na forma magnífica como um livro é escrito. Não podes encarar tudo como factos. Sê alegre, livre, espontânea! – suspirei.
- Eu sou, mas apenas com aquilo que gosto verdadeiramente. Com certeza que já reparaste que tendo a sorrir mais quando Ted está por perto, por exemplo. Ou quanto estou contigo. Ou quando me lembro de casa. É a minha maneira de ser. Este tédio fixou-se em mim enquanto vivi em Atenas e, ao longo dos anos, habituei-me e até gosto dele.
- És um caso perdido. – Ri.
- A sério, Rose. Espero que possas assistir às minhas provas nas Olimpíadas. Porque a pessoa que vais ver em cima do estrado não é a mesma quem estás a fazer penteados esquisitos. E se me visses na minha casa, em Anáfi, naquelas praias magníficas…Talvez possas visitar-me, no Verão.
- Creio que vai ser possível, as provas de xadrez são logo pela manhã. E gostaria muito de poder visitar-te.
- Mi casa, su casa. A minha porta está sempre aberta.
- Se eu fosse a ti não diria isso muito alto, os balneários são mesmo aqui e James está por perto.
- Aí está uma pessoa que nunca passaria da ombreira da porta.
- Pronta?
A voz de Theodore ecoou pelo balneário vazio de Beauxbatons, onde apenas eu me encontrava a acabar de vestir o facto protector. Chegáramos à Academia há dois dias e eu passara a maior parte deles simplesmente relaxando, principalmente porque Ted estava ocupado com as equipas de Quidditch e não tinha tempo para me obrigar a atacar marionetes.
Eu já visitara a Academia antes, noutras Olimpíadas, e por isso sentia-me bastante confortável em competir ali, ainda para mais porque este ano seria o primeiro em que a única pressão em cima dos meus ombros para que eu atingisse a vitória era apenas feita pela minha própria pessoa. Já não havia os conselheiros ou treinadores de Durmstrang a dizer que eu deveria elevar o nome da escola que me dera abrigo e me educara, que era minha responsabilidade 'retribuir o favor'.
Por isso, antes de responder a Theodore, fiz o que sempre fazia antes de entrar em competição: tirei o meu colar de conchas do saco, fi-lo dar três voltas na minha mão e pu-lo finalmente ao pescoço, escondendo-o dentro do fato. Peguei na viseira e no florete e olhei para Ted.
- Pronta. Qual é o meu grupo? – perguntei, saindo dali com ele a meu lado.
- É o C. O que foi aquela coisa com o colar?
- Cada uma daquelas conchas foi apanhada por pessoas da minha cidade. Deram-me aquele colar quando parti para Atenas. Para dar sorte. – ele sorriu.
- Lá no fundo, Kyri, és uma sentimental.
- Isso faz-te sentir melhor?
- Sem dúvida.
- Professor Lupin! Professor Lupin!
Seria capaz de reconhecer as vozes que entoavam aquele chamamento em qualquer parte do globo e independentemente da qualidade acústica do local onde me pudesse eventualmente encontrar. Virei-me lentamente para trás para ver Jennifer e Karen a correrem na nossa direcção, vestidas com uns fatos saia-casaco pretos com listras quase imperceptíveis de dourado, vermelho, azul e verde, as cores de Hogwarts. O que só podia significar uma coisa.
- Não acredito que as trouxeste como assistentes.
- Ora, precisávamos de gente para as águas e as toalhas, e não havia muitos voluntários. Além disso, elas praticamente me imploraram para que as trouxesse. Tive um bocado de pena.
- Louvaria a tua compaixão, Theodore, se não estivéssemos a falar de Jennifer e Karen. – suspirei. - Diz-me, pelo menos que elas não são as minhas assistentes.
- É claro que não. Pu-las com James e a equipa de Quidditch. Pode ser que o consigam manter afastado de ti. – respondeu, rindo. Ponderei por uns momentos.
- Essa até é capaz de ser uma ideia bastante boa. Estou impressionada.
- Bom, eu diria 'obrigado', se não tivesses dito isso como se fosse alguma espécie de milagre.
- Professor Lupin, finalmente encontrámo-lo!
- Corremos o complexo à sua procura. – Karen olhou para mim. – Oh, olá Kyrianne.
- Boa tarde. – respondi, calmamente.
- E então, que me queriam?
- Bom, dado que as provas de Quidditch já acabaram por hoje, acha que poderíamos ficar por aqui e…
- Não. – disse eu, rapidamente, cortando a palavra a Jennifer.
- Kyrianne já tem os seus assistentes, mas se quiserem assistir à prova mais de perto, posso deixar-vos ficar na zona deles. Mas têm de prometer estar em silêncio, claro. – acrescentou, num tom sedutor que me fez revirar os olhos e as deixou completamente pelo beicinho.
- Claro que sim, Professor, não se preocupe.
- Espero bem que as faças cumprir aquela promessa, Theodore. – disse-lhe, enquanto nos afastávamos delas e seguíamos para a zona de espera dos atletas. Ele riu.
- Prometo que vou tentar.
As tentativas de Theodore foram vãs. A meio da prova sugeri um feitiço, mas ele limitou-se a lançar-me um olhar irritado. Tinha-o feito eu mesma se não estivesse de florete na mão a tentar ganhar o ponto à minha adversária. Na verdade, o barulho que Jennifer e Karen faziam a falar e a dar gritinhos de incentivo não me perturbava de todo. Estou habituada a abstrair-me de tudo o que não for importante e a concentrar todos os meus sentidos no florete que seguro e nas várias maneiras possíveis de o levar a tocar em qualquer parte do corpo das minhas adversárias. Mas nunca me acontecera aquilo. Acho que até o atleta mais concentrado do mundo se teria distraído, ainda que por nanossegundos, tal como aconteceu comigo.
A certa altura da minha prova, já bastante perto do fim, o duelo estava renhido. Parecia que as francesas tinham andado a treinar durante o Verão (ao contrário de mim) e tinham evoluído bastante. O que eu achava óptimo, na verdade, porque, normalmente, era bastante fácil ganhar-lhes. Mas mesmo que a minha adversária naquele momento não fosse tão boa esgrimista quanto eu, iria ganhar aquele ponto em particular. Porquê? Permitam-me então que passe a explicar.
Enquanto eu e a francesa nos debatíamos florete a florete no estrado, ao lado dele Jennifer e Karen passavam de me lançar gritos de incentivo para se lançarem uma à outra, gritando várias coisas incompreensíveis intercaladas com o nome de Theodore. Até aí tudo bem, por mim até se podiam atirar ao chão e rebolar por ali puxando os cabelos uma à outra que, naquele momento, não me iria fazer diferença. O problema foi que elas decidiram fazer exactamente isso demasiado perto do estrado. Conclusão? Uma delas acabou por cair tão perto do dito que um dos seus braços acabou à frente do meu pé esquerdo. Espantada com a situação, desconcentrei-me e voltei a cara para ela por segundos. E foi num desses segundos que a minha adversária, provavelmente também em choque, lançou o florete na minha direcção, acertando-me primeiro no peito – o que a fez ganhar o ponto -, mas continuando depois a subir até à minha face, entrando pelo lado direito da máscara e causando-me imediatamente um corte debaixo do olho.
O colar de conchas não me servira para nada naquele momento, certo? Enfim. O árbitro reparou no que acontecera, cedeu-lhe o ponto, e declarou um intervalo de cinco minutos para que eu pudesse mudar de fato. Quando ele fez essa afirmação – a qual, a princípio, não entendi -, olhei para baixo para verificar que grossas gotas de sangue caíam para a brancura casta do meu fato protector. Tirei rapidamente a viseira e voltei para o meu posto, a mão direita cobrindo o meu rosto ensanguentado.
- Kyrianne! Por Merlin, o que aconteceu? – a voz de Rose chegou-me do lado esquerdo, vinda do nada.
- O florete entrou dentro da viseira. – expliquei rapidamente, deixando Theodore tirar a minha mão do ferimento e apontar-lhe a varinha. – Não disseste que as ias controlar, Ted? Eu avisei-te, devias ter-lhe lançado um feitiço, era a coisa inteligente a fazer.
- Nem todos possuímos a tua incrível mente, Kyrianne. – disse ele, rudemente.
- Eu é que estou ferida pelas assistentes que trouxeste, e tu é que vens com a atitude? – respondi-lhe, irritada.
- Não te devias ter desconcentrado. – retorquiu, colocando um grande penso no meu rosto que Rose lhe passara.
- Não achas que era ligeiramente impossível dado que estava um braço no estrado!
- Foram aquelas duas megeras? Só podia. – comentou Rose, fazendo-me olhar para as duas histéricas levantando-se e fugindo a correr dali.
- Veste-te. – disse Ted, entregando-me uma outra parte de cima. – E rápido.
Bufando de frustração, arranquei-lhe a vestimenta da mão e rapidamente a troquei pela que tinha vestida. Quando terminei, verifiquei as calças, os atacadores e a viseira e deitei um olhar chateado a Ted. Ora, eu avisara-os de que a Kyri entediada que eles estavam habituados não era a mesma que esgrimia nas competições.
- Mais alguma recomendação inútil, treinador?
- Apenas que tens de fazer o teu trabalho. Foi para isso que vieste para Hogwarts. – respondeu ele, venenoso. O que me deixou bastante furibunda.
- Sabes Ted, eu fiquei em paz com o facto de que toda a gente nesta porcaria de escola está um nadinha acima da morte cerebral, e de que todas as pequenas regalias que recebo são em troca de não vos tratar a todos de modo violento. E, normalmente, isso não me incomoda, mas hoje, fartei-me.
E, colocando a viseira com força, tornei a dar meia volta, esperei pelo apito do árbitro e, em menos de dez segundos ganhei a ronda. A minha adversária congratulou-me pelos meus nervos de ferro, disse que tinha sido uma honra e que iria tentar destronar-me na segunda volta, em Março. Retribuí-lhe o cumprimento e o árbitro anunciou o resultado.
- Vencedora das eliminatórias das provas de esgrima de séniores femininos….Kyrianne Argyris!
N/A: A Kyri é capaz de ser a minha personagem preferida de todas as que já criei :'D
Segunda feira posto mais um capítulo, sim?
Keep reading (:
Lots of love,
~Nalamin
