Disclaimer: Isto é uma chatice. Porque é que a tia Jo há-de ter tudo só para ela? :'c


Silver Heart
Fanfic by Nalamin

Chapter 7 - Return to Neverland

- Miss Argyris, importa-se de ficar?

Acedi ao pedido da Directora e esperei que todos os meus colegas de equipa saíssem da sala de Transfiguração antes de me dirigir à sua mesa, por detrás da qual ela se encontrava sentada, com as mãos pousadas no colo e um olhar sério no rosto.

- Estou em apuros, professora?

- De todo, Miss Argyris. Queria apenas congratulá-la pela sua prestação exemplar nas primeiras provas das Olimpíadas. – Suspirei imperceptivelmente. A bajulação podia dar jeito de vez em quando, mas a maior parte das vezes era apenas cansativa.

- Tentei dar o meu melhor.

- E quanto às suas férias de Natal, fico feliz por lhe dizer que terá um botão de transporte disponível na manhã do primeiro dia de férias. E, obviamente, terá outro para voltar na noite que precederá o primeiro dia de aulas do próximo período. – Sorri. Aquela era a primeira boa notícia que recebera desde que chegara a Inglaterra!

- Obrigada, professora.

- Não tem de quê, Miss Argyris. Pode ir, está dispensada.

Agradecendo novamente, pus a minha mala à tiracolo e saí da sala, contente com a certeza de que iria voltar a casa em breve depois de uma ausência tão prolongada.


- Kyrianne? Podemos falar contigo? – perguntou Jennifer, perturbando o meu tranquilo jantar.

- Adiantará de alguma coisa se eu disser que não?

- A sério, Kyrianne, tens de nos deixar falar contigo. – corroborou Karen. Suspirei.

- Não creio que possa fazer nada para vos impedir.

- Nós queríamos pedir desculpa, sabes.

- Sim, por a nossa discussão te ter causado isso. – disse a primeira, apontando para o meu arranhão, que sarara quase completamente.

- Não foi de propósito.

- Eu sinto-me mesmo muito culpada por ter começado aquela discussão.

- E eu por ter caído em cima do estrado.

- A nossa intenção não era mesmo estragar-te a prova.

- Foi um acidente.

- E então, perdoas-nos?

- Achas que és capaz de nos desculpar?

- Mas é claro que sim! – respondi, sarcástica.

- A sério? – perguntou Karen, extasiada. Jennifer, ligeiramente mais perspicaz, suspirou.

- Não, não é a sério, Karen. Isso foi muito engraçado, Kyrianne. – encolhi os ombros.

- Uma pergunta ridícula merecia uma resposta ridícula.

- Não te sabia assim tão orgulhosa. – comentou Jennifer, com desdém.

- Não o sou normalmente. Apenas no que diz respeito à esgrima.

- Então não vais aceitar as nossas desculpas. Foi inútil termos vindo falar contigo porque já tinhas ideias de nunca nos perdoar porque não gostas de nós desde o primeiro dia. – disse ela.

- Jennifer! – exclamei, com falso entusiasmo, levantando-me da mesa. – Conseguiste finalmente efectuar um raciocínio. Bem-vinda ao fim do processo de pensamento! Isto é óptimo. Tenho de fingir começar a preocupar-me.

E começando a encaminhar-me para fora do salão, deixei Jennifer e Karen para trás, provavelmente rogando-me pragas até à última geração dos Argyris. Esperava sinceramente que elas tivessem agora aprendido a lição e deixassem de falar comigo de uma vez por todas. Porque aturar a estupidez delas a perturbar a minha existência pacífica e tranquila era uma coisa.

Mas vê-las a prejudicar a minha esgrima era outra.


- Scorpius?

A noite estava muito fria e por isso espantei-me que outra pessoa que não eu estivesse ali fora, principalmente porque já passavam das quatro da madrugada. Embrulhei-me ainda mais na capa que vestia e avancei na direcção dele, que estava sentado numa rocha à beira do lago.

- Por aqui a esta hora, Miss Argyris? A hora de recolher já passou há muito.

- Insónias. – expliquei, sucintamente, vendo-o afastar-se ligeiramente para o lado para que eu me pudesse sentar, o que fiz rapidamente. – E a ti, o que é que te traz aqui?

- O mesmo. Costumo ter problemas em adormecer. – fez uma pausa, voltando o olhar cinzento para mim. – Parabéns pela vitória na primeira ronda.

- Obrigada. E retribuo o cumprimento. Os Slytherin também se portaram bastante bem.

- O professor Lupin têm-nos ajudado bastante.

- Sim, ele é um bom no que faz.

- Arranjou-nos umas estratégias óptimas. Foi assim que conseguimos vencer até os Gryffindor, que são campeões invictos há quase vinte e cinco anos.

Tirei uns segundos para pensar no que ele havia dito. Estratégias? Theodore e estratégias? Não podia ser verdade. Ted era muito bom no que fazia, é verdade. Era um exímio treinador, sabia motivar os seus alunos e fazê-los dar o seu melhor a cada fôlego. Mas a sua área de especialidade era a parte física. Porque eu já jogara xadrez com ele e, deixem-me dizer-vos, apesar de toda a minha racionalidade e relativa inteligência, eu sou horrível nesse jogo. Mas Theodore conseguia ser pior e nunca me vencera. Por isso, não conseguia compreender como é que, de repente, Ted se tornara um estratega de qualidade tal que levara os Slytherin a vencer os campeões de há duas dezenas de anos.

- Passa-se algo? – perguntou Scorpius, fazendo-me retomar a concentração nele.

- Não, estava só a pensar.

- É por isso que venho para aqui. Ajuda-me a aclarar as ideias.

- Porquê?

- Não sei. Suponho que pela água. Olhar para o lago acalma-me. – Sorri.

- Percebo exactamente o que queres dizer.

- Percebes? – Assenti.

- E tenho saudades de sentir o mesmo.

- O quê, calma?

- Uma maior clarividência, sabedoria. – ele riu.

- Pareces-me já bastante clarividente e sábia.

- E sou. Mas isso é algo que nunca se tem em demasia.

- E modéstia também não. – foi a minha vez de rir. – Tens um sorriso bonito. Devias sorrir mais vezes.

- Não te atires a mim, Scorpius.

- Não estava a fazer tal. Não vou matar a primeira amostra de amizade verdadeira que tenho em alguns anos. – respondeu, olhando o chão. Coloquei a minha mão no seu ombro.

- Não é uma amostra. Não acredito em meias medidas.

- Obrigado, Kyrianne. Mas tenho de perguntar… - começou ele, olhando para mim. – Se não acreditas em meias medidas, como é que podes ser tão solitária? Raramente te vejo com alguém.

- Solitária? De todo, caro Scorpius. Apenas tenho gosto à minha privacidade.

- Permites-me discordar?

- É claro.

- Nesse caso, vou continuar a optar pela opção a), solitária.

- Mas qu'é'q vocês 'tão aqui a fazer? – exclamou o enorme guarda dos campos, encontrando-nos sentados na rocha.

- Insónias. – dissemos, simplesmente.

- Madame Pomfrey tem r'médios p'ra isso. 'Bora, toca a voltar p'ró castelo.

Sem escolha, eu e Scorpius trocámos um olhar resignado e seguimos aquele ser descomunal para dentro das quatro paredes marmóreas do castelo.


Encontrei Rose exactamente onde sabia que ela estaria a um sábado de manhã: na biblioteca, a fazer os trabalhos de casa da semana anterior e a adiantar os da semana seguinte. Era bastante cedo e eu desconfiava que eu, ela e a bibliotecária éramos as únicas pessoas a pé. Em primeiro lugar porque era sábado, e em segundo lugar porque lá fora a chuva grossa caía torrencialmente.

- Rosie. – murmurei, sentando-me a seu lado na mesa que ela ocupava.

- Kyri. – respondeu ela, com um sorriso, sem desviar o olhar do que estava a fazer. – Como estás hoje?

- Com sono, mas bem. E tu?

- Óptima. Precisas de alguma coisa?

- Nada de especial. Mas tive a pensar numa coisa e queria questionar-te acerca disso. – ela pousou rapidamente a pena com que escrevia e olhou com toda a atenção para mim.

- E que questão seria essa?

- És tu que andas a elaborar as estratégias para os Slytherin, certo? – ela suspirou e abanou a cabeça.

- Theodore disse-me que eram só 'conversas hipotéticas'. – ri.

- De hipotéticas têm pouco. Levaram os Slytherin à vitória na semana passada.

- Bom, isso é simplesmente desapropriado. Eu sou Ravenclaw.

- Isso só significa duas coisas: que és muito inteligente e que a cor que deves de usar no uniforme é o azul. – ela pareceu considerar o meu argumento por uns segundos.

- Ainda assim, pouco ético.

- Eu gostaria que o continuasses a fazer, no entanto. – Rose fixou-me, chocada.

- Estás a brincar, certo?

- Não. Estou a falar a sério.

- Mas…porquê?

- Por Scorpius. – agora é que ela me encarava completamente atónita.

- Pelo Malfoy! De novo, porquê!

- Gosto dele. – o esgar de compreensão dela fez-me perceber que entendera mal o que eu queria dizer. – Não dessa maneira. Isso sim, seria desapropriado. Na verdade, seria abuso de menores. – Sim, eu não planeava, de todo, fazer de Scorpius a minha Lolita.

- De todas as pessoas nesta escola, estabeleceste uma ligação com Scorpius Malfoy? – sorri.

- Acho as pessoas como ele extremamente interessantes.

- Ao afirmar 'pessoas como ele' o que queres dizer é 'pessoas estranhas e perturbadas'?

- Ora, é preciso uma pessoa estranha para reconhecer outra.

- Kyri, tu não és estranha.

- Rose, tu não és mentirosa.

- Pronto, admito que podes ter alguns problemas na área das relações interpessoais. Mas quer dizer, para teres uma amizade com Scorpius assim de repente, também não podes ser assim tão má.

- Sou má e tu sabes. Mas, de qualquer forma, essa não é a questão. – ela suspirou.

- Gostava muito de aceder ao teu pedido, Kyri, mas não sei se será correcto. – Sorri e levantei-me.

- Então vou deixar-te pensar no assunto e descobrir por quanto tempo mais Theodore planeia fazer greve de silêncio. – disse, revirando os olhos e saindo da biblioteca.


Quando entrei na sala que, supostamente, albergaria o meu treino dali a meia hora, esta estava vazia e escura. A grande janela do lado esquerdo tinha as cortinas abertas, mas o céu estava escuro como breu e a chuva caía em enormíssimas catadupas e, portanto, nenhuma luz entrava por ali. Pegando na varinha, acendi as velas espalhadas pela sala uma a uma, que estavam ali dispostas exactamente para imprevistos daquele tipo. Quando terminei, puxei a cadeira onde normalmente pousávamos os casacos e levei-a para junto da janela, onde me sentei a olhar o dilúvio lá de fora, pensando.

Faltavam menos de quarenta e oito horas para eu partir para Anáfi. O meu botão de transporte estaria pronto na segunda-feira, às nove da manhã. Eu mal podia esperar para me ver livre de todo aquele mármore e tornar a ver a cal branca das paredes da minha casa. Mas não queria partir estando de maus termos com Theodore.

Ele nunca me vira a competir. Quer dizer, já me vira a competir, mas não como meu treinador, não de perto. Ele não fazia ideia do 'monstro' que eu me tornava quando pisava o estrado. E, por isso, devido a essa ignorância por parte dele, talvez eu tivesse sido demasiado dura nas palavras que proferira no dia da prova. Mas, por outro lado, porquê aquela raiva da parte dele? Porquê aquelas insinuações de que a culpa tinha sido minha quando, obviamente, tinha sido dele, que deixara aquelas duas histéricas perturbarem a prova, mesmo depois de eu lhe dizer que as devia calar, nem que fosse à força?

Aquele não era, de todo, o tipo de coisas com que eu me costumava preocupar. Não o facto de duas idiotas estragarem a minha prova, claro, porque com isso eu preocupava-me de sobremaneira, mas sim com o facto de uma pessoa estar, aparentemente, zangada comigo por uma coisa que não fora minha culpa. No entanto, parecia que se essa pessoa fosse Theodore, eu preocupava-me. O que me deixou ligeiramente desconcertada.

- Hey, Kyrianne! – a voz irritante de James Potter ecoou na divisão vazia e fez-me revirar os olhos.

- Potter.

- Estou a ver que não estás no melhor dos humores, Argyris. – comentou ele, andando até mim.

- Estou apenas cansada.

- Queres que te ajude a relaxar? – perguntou, sorrindo largamente. Sorri de volta.

- Não se deres valor à tua vida. – ele riu mas ergueu os braços em rendição.

- Ok, já percebi. Posso, no entanto, entregar a minha mensagem?

- Obviamente. De quem é a dita, já agora?

- De Teddy. Ele pede que te avise que os treinos só recomeçarão no próximo período e que te diga que tenhas umas óptimas férias de Natal. – Suspirei, agora percebendo menos a atitude de Theodore.

- Mensagem recebida. Obrigada, James. – respondi, levantando-me da cadeira e pegando no meu enorme saco, que continha os meus dois fatos e os floretes.

- Precisas de ajuda?

- Não, obrigada, estou habituada. – disse, começando a sair da sala. De repente, lembrei-me. – Mas há outra coisa que podes fazer por mim. – ele sorriu, contente.

- O quê?

- Diz a Theodore que eu não sei jogar este jogo. – ele pareceu confuso. – Ele vai perceber o que quero dizer.

E, sem mais, saí da sala e caminhei rumo ao meu dormitório, disposta a fazer as malas.


- Boa viagem, Kyri. – disse Rose, enquanto me abraçava.

- Para ti também. – respondi, quando ela me largou. Voltei-me para Scorpius.

- As cartas podem demorar um pouco a chegar a ti, mas tentarei responder a todas. – disse, abraçando-o também ao de leve, o que reparei que o deixou ligeiramente em choque. No entanto, retribuiu-me o abraço.

- E lembra-te do que disse a McGonagall: usa o pó de Flu se precisares de contactar rapidamente connosco. – recordou Rose, quando me soltei de Scorpius.

- Não me vou esquecer. – respondi, pegando no meu malão. – Festas felizes. – acrescentei, despedindo-me deles e caminhando na direcção do contínuo seboso, que esperava ao lado de um pequeno banco onde se encontrava um chinelo azul e que eu presumi que fosse o botão de transporte.

Theodore não aparecera para se despedir. O que me deixava cada vez mais confusa. Eu era péssima neste tipo de coisas, claro, mas ainda assim, achava que um mês era muito tempo para amuar devido aos acontecimentos daquelas provas. Suspirei para afastar isso da minha mente e aproximei-me do contínuo.

- Nome? – perguntou ele. Franzi o sobrolho. Ele sabia perfeitamente qual era o meu nome.

- Kyrianne Argyris.

- Identificação?

- Como assim, 'identificação'?

- Tens algo que prove que és Kyrianne Argyris? – disse ele, com desdém.

- Sim, três floretes na minha mala têm o meu nome gravado.

- Tanto quanto sei podias ter roubado isso da verdadeira Kyrianne Argyris. – revirei os olhos, exasperada.

- Por Zeus, esta escola parece a ala especial de um hospital psiquiátrico! – olhei-o, séria. – É preciso chamar a Directora ou lanço-lhe já um feitiço? E garanto-lhe três coisas: não serei benevolente, não serei expulsa por não o ser e não me importo absolutamente nada com o estado em que possa vir a ficar. – ele olhou-me, chocado. – Oh sim, acredite que a minha vontade de voltar a casa é assim tão grande.

Meio a medo, ele afastou-se ligeiramente da mesa, com aquela gata a passear-se-lhe por entre as pernas. Dando-lhe um último olhar, agarrando bem o meu malão e respirando fundo, toquei no chinelo e entrei imediatamente naquele vórtice que me levaria a casa.

Mas ainda fui a tempo de ver a cara aliviada do homem por me ver pelas costas.


N/A: A minha parte favorita deste capítulo é a referência à Lolita. Meu deus, o que eu me ri enquanto escrevia isto a imaginar Scorpius no papel principal x)

Anyways, espero que estejam a gostar. Eu sei que demoro um bocado a upar os capítulos, mas e só porque estou com bloqueios criativos no que diz respeito a escrita, e se esta fic acabar rápido, não tenho mais nada para postar aqui. E eu não gosto de deixar contas em hiatus por muito tempo :o

keep reading, will you?

Love,
~Nalamin