Disclaimer: Isto é uma chatice. Porque é que a tia Jo há-de ter tudo só para ela? :'c
Silver Heart
Fanfic by Nalamin
Chapter 8 - The Little Mermaid
- Boa tar…Kyrianne!
Foi esta saudação espantada, seguida de um longo abraço, que recebi quando, depois de aterrar ali perto, bati à porta da casa onde vivera durante os primeiros dez anos da minha vida. E depois de entrar no meu lar, de visitar o meu quarto e de me sentar durante algum tempo a falar com o meu pai sobre quem eu agora era e no que me tornara, ele levou-me rapidamente à porta ao lado, para cumprimentar Chryssa que, quando me viu, desatou a chorar de uma forma que eu não sabia ser humanamente possível. E depois de ver Chryssa e a sua família, tanto ela como o meu pai me arrastaram por toda a cidade o resto do dia, cumprimentado conhecidos (e desconhecidos), todos dizendo o quanto a minha ausência tinha trazido algum tédio à cidade. Ri com toda a ironia daquilo.
Kostas foi a última pessoa que tive oportunidade de visitar naquele dia porque o meu pai me tinha dito que, nos últimos tempos, ele não se andava a sentir muito bem. Quando eu o questionara relativamente à razão, ele apenas encolhera os ombros e respondera 'velhice'. Claro que não podia ser só velhice, mas se fosse algo mais complexo que uma constipação, apenas os médicos do continente poderiam detectar tal coisa.
Mas independentemente da doença de que poderia estar ou não a padecer, Kostas recebeu-me com um grande sorriso e de braços abertos, que me apertaram com força. E quando me largou, olhou para o colar de conchas que eu trazia ao pescoço e tocou na que lhe pertencia, congratulando-me em seguida por, apesar de estar longe, ainda me manter fiel às tradições dos antepassados e continuar a ser uma verdadeira filha daquela ilha.
Saí da casa de Kostas com um sorriso e a promessa dele de que iria comparecer à festa daquela noite. Quando o inquiri sobre isso, ele disse que a ilha, assim que soubera da minha chegada, começara imediatamente a preparar uma enorme festa em honra do meu retorno. E foi rindo que retornei a casa, para vestir algo mais confortável e apropriado do que aquele uniforme horrível que ainda nem tivera oportunidade de tirar.
A festa foi, como sempre em Anáfi, de arromba. Todos os habitantes da pequena ilha estavam presentes, e todos tiraram uns minutos para falar comigo. Eu estava verdadeiramente feliz por estar de volta a casa. Sentira tanto a falta de tudo aquilo, de toda aquela familiaridade que sempre faltou em todo o lado em que estivera desde que saíra dali há nove anos atrás.
O Natal chegou rápido e, apesar de muito modesto, foi agradável. Eu e o meu pai aproveitámos para pôr as novidades em dia e eu tirei dois ou três dias só para mim, para poder passear na praia e treinar o meu desporto na areia, como costumava fazer quando era mais nova. Mas, infelizmente, os tempos felizes acabaram na véspera de ano novo.
Toda a ilha estava reunida na praça principal, com a excepção de Kostas e do seu aprendiz (Kostas porque estava doente, e o seu aprendiz porque estava a cuidar dele). Faltavam escassos minutos para a meia-noite e Chryssa andava de um lado para o outro a distribuir pétalas de flores que deveríamos atirar ao bater das doze badaladas do relógio da igreja, para o qual estávamos todos voltados. A banda tocava junto ao adro, não muito alto, e foi por isso que conseguimos ouvir o grito dele.
A banda parou imediatamente a sua música e todos nos voltámos para ver o aprendiz de Kostas a correr na nossa direcção, lágrimas e suor a empaparem-lhe a face bonita e bronzeada. Quando Chryssa, que estava mais perto, o conseguiu acalmar e ouvir o que ele tinha para dizer, levou as mãos à boca e olhou na nossa direcção. Começando a chorar, correu até ao adro e colocou-se em frente à banda, onde toda a gente a podia ver. E depois, começou a falar. Nunca mais vou esquecer quando ela disse que Kostas abandonara este mundo; quando explicou que o aprendiz saíra por um momento para ir buscar água à fonte e que, quando voltara, o espírito de Kostas já abandonara o seu corpo idoso e cansado; quando as lágrimas começaram a correr e eu fiz a única coisa que era certa naquele momento: fugi para a praia.
Fiquei lá até aos primeiros raios de sol despontarem no horizonte. Só chorei. Pela primeira vez na minha vida, chorei como se não houvesse amanhã. Era a primeira pessoa que eu perdera realmente. Doía tanto! Era como se agora faltasse parte de mim. Finalmente percebi porque é que Rose me perguntara se alguma vez me tinham desiludido e porque é que me tinha dito que só me queria fazer ver o que eu andara a perder devido a toda a minha apatia. Agora percebia tudo. Compreendia que para se ser feliz até certo ponto, era preciso sofrer até certo ponto.
E que eu estava finalmente no caminho para ser feliz.
Suspirei de alívio quando entrei em casa e a encontrei vazia. O meu pai provavelmente andaria a ajudar a cidade com os preparativos para o funeral de Kostas. Dirigi-me então ao meu malão e tirei de lá um pequeno saco, despejando depois para a minha mão uma quantidade razoável de pó de Flu. Lancei-o em seguida para a lareira acesa e entoei o nome da professora McGonagall e a localização do seu gabinete em Hogwarts. Rapidamente a cabeça da professora apareceu nas chamas vivas à minha frente.
- Feliz Ano Novo, Miss Argyris. – desejou ela. Abanei a cabeça.
- Não para mim. Não posso voltar para Hogwarts amanhã, professora.
- Há algum problema?
- Um familiar faleceu ontem à noite.
- Lamento a sua perda, Miss Argyris. E com certeza, não necessitará de voltar para Hogwarts já amanhã. Crê que uma semana adicional é suficiente? – Assenti, agradecida pela cedência da Directora.
- É suficiente. Obrigada, professora McGonagall.
- Gostaria que avisasse Miss Weasley? Acredito que ela ficaria preocupada se não a visse em Hogwarts amanhã.
- Sim, por favor. E Theodore, também. – Se ele ainda se lembrasse de quem eu era, claro.
- Mas é claro. De novo, as minhas condolências, Miss Argyris. Esperamos vê-la daqui a uma semana.
- Estou-lhe muito grata, professora.
Ela assentiu e a sua face desapareceu, levando as chamas consigo. Voltei-me então para o malão e tornei a guardar o saco de pó de Flu, saindo de casa em seguida. Andei uns passos para a esquerda e bati à porta de Chryssa que, assim que me viu, me puxou para um abraço. Disse-me logo que sabia a minha razão de estar ali: faltavam-me as roupas apropriadas para o funeral de amanhã. Rapidamente me entregou uma camisola de manga comprida preta com um decote à barco, e com pormenores rendilhados enfeitando o dito. Desculpou-se imenso quando me entregou os calções negros de Tahlia, a filha mais velha. Tahlia tinha apenas doze anos e, por isso, os calções em mim iriam apenas parecer um fato de banho. Não que nenhuma de nós se importasse, não verdadeiramente. O importante era apenas trajar de preto e levar o véu a cobrir a cara e os cabelos, véu esse que Chryssa me entregou em seguida. E eu tinha a certeza que Kostas compreenderia o meu traje, onde quer que ele estivesse. Afinal, ele próprio dissera que eu era filha da ilha.
Depois de a deixar pentear os meus longos cabelos e me colocar o véu também rendilhado de modo a cobrir-me toda a extensão deles e a minha face sardenta, saímos, acompanhadas de Tahlia e dos pequenos. Chryssa ordenou que esperasse ali por uns minutos enquanto ia deixar as crianças com a tia. Assenti e vi-a desaparecer no rapidamente no ziguezague de ruas. Mas logo outra presença se materializou a meu lado, aterrando redonda em cima da pequena horta de Chryssa.
- Theodore! - Apressei-me na sua direcção e ajudei-o a levantar-se e a limpar os restos de couves da sua capa. - Ted, o que é que estás aqui a fazer? É Ano Novo, não deverias estar com a tua família?
- A McGonagall contou-me o que aconteceu. Vim assim que pude. Kyri, lamento tanto. – disse ele, já recomposto, pegando-me na mão.
- Eu também.
- Eu compreendo se quiseres que me vá embora, claro. – continuou, depois de uma pausa, quando já tínhamos saído do quintal de Chryssa e voltado à estrada. Suspirei.
- James entregou-te a mensagem? Porque ainda se mantém, Theodore. Não sei jogar este jogo. E, sinceramente, não possuo nenhuma paciência para isso no momento.
- Eu sei, desculpa. Estava a ser idiota. E estava zangado comigo, não contigo.
- Ah, então deixares de falar comigo faz todo o sentido.
- Não conseguia admitir que a culpa de te teres magoado era minha.
- E agora consegues? Foi preciso alguém de quem eu gosto falecer para que ficasses com pena e voltasses com o rabinho entre as pernas a pedir desculpa? Muito maturo, Theodore, sem dúvida.
- Não é nada disso, Kyri, e tu sabes.
Chryssa apareceu nesse instante, impedindo-me de responder. Trocámos umas palavras em grego e ela olhou de lado para Theodore antes de dizer uma última frase e caminhar rumo à praça principal.
- O que é que vocês disseram?
- Ela perguntou quem tu eras e se ias atender ao funeral. – respondi, começando a andar.
- E o que é que respondeste?
- Que te chamavas Theodore e que não sabia se ias ficar para o serviço fúnebre.
- É claro que fico. Não te vou abandonar quando mais precisas, Kyrianne. – olhei-o.
- Estou em casa. Tenho aqui tudo o que preciso. Se não quiseres ficar, certamente que não te vou levar a mal.
- Não há discussão. Vou ficar. – disse ele, terminantemente.
- Tudo bem. Terás de trocar de roupa. Apenas o preto é permitido em dias de luto. – ele rapidamente mudou a cor das suas vestes com um aceno de varinha. – Está bom.
- O que foi aquela última coisa que ela disse, antes de ir embora? – suspirei.
- Que eu deveria ir dormir um pouco, que estava com um aspecto terrível.
- Deverias seguir o conselho dela. – assenti, e olhei-o para o encontrar a fitar-me preocupado.
- É verdade. Mas não consigo. Não sozinha, isto é. – ele passou o braço direito pelos meus ombros.
- Não estás sozinha, Kyri. – sorri levemente.
- Eu sei, não foi isso que quis dizer, Theodore. – parei subitamente, apontando em frente. – Referia-me a isto.
Ted olhou em frente para se deparar com uma enorme praia completamente deserta. Os barcos de pesca estavam atracados perto da rampa de pedra que agora descíamos. Todos os pescadores tinham tirado o dia para prestar homenagem a Kostas. Andámos lentamente até meio do areal, onde eu me sentei e tirei o véu dos meus cabelos, abanando a cabeça para os soltar.
- É lindíssimo. – comentou Theodore, tirando a capa e sentando-se a meu lado.
- Ainda mais quando não está o céu cheio de nuvens, como hoje. – disse eu, deixando as minhas pernas nuas passearem-se pela areia fina.
Houve um momento de silêncio em que Theodore apreciava a beleza da minha ilha e eu me acalmava, deixando a areia passar-me entre os dedos e ouvindo os murmúrios do mar.
- Não há problema com o facto de eu ficar para o funeral, pois não? Dado que sou um estranho.
- Não és um estranho. Já toda a gente sabe o teu nome. – ele olhou-me espantado. Sorri. – Somos poucos. Somos família. As notícias correm rápido. – fiz uma pausa. – Como está Rose?
- Bem, mas ficou preocupada contigo quando soube. Pediu-me para te dar as suas condolências e para te dizer para ficares descansada que ela avisaria Scorpius. – ele riu ao pronunciar este último nome. – Tu e Scorpius?
- Não é o que tu pensas, Theodore. E já que estamos no tema Scorpius, que conversa é essa de roubares as estratégias a Rose e aplicares as ditas na equipa de Quidditch dos Slytherin? – ele corou.
- Só queria ver se resultavam mesmo.
- Não percebo porque é que duvidarias. Afinal, foram elaboradas por Rose.
- Bom, nem sempre se pode confiar na inteligência. – franzi-lhe o sobrolho antes de me deitar no areal.
- Sim, pode-se. – ele encolheu os ombros.
- Talvez, para mentes como as vossas.
- Não é como se tu fosses estúpido, Theodore. – respondi, olhando-o. Ele riu.
- Eu sei, por isso é que vou voltar a perguntar: tu e Scorpius? – disse ele, devolvendo-me o olhar.
- Somos amigos.
- Quão amigos? – revirei os olhos, fechando-os em seguida.
- Apenas amigos. Mas para quê o interrogatório, Theodore? Não és meu pai. – respondi, dando depois um bocejo.
- Gosto de estar informado. E não ia gostar de te ver com um qualquer. Mereces mais do que…
Theodore não acabou a frase, sorrindo apenas e colocando a sua capa sobre o meu corpo adormecido.
- Kyri, por favor, acorda. Estão aqui muitas pessoas a falarem grego.
O tom urgente da voz de Theodore convenceu-me finalmente a abrir os olhos. Estava deitada de costas no areal e, por isso, a primeira coisa que vi foi meia dúzia de pescadores, entre eles o meu pai, curvados e a discutirem entre eles, alternando os olhares entre mim e Ted.
- Papa, o que é que se passa? Estão todos aqui porquê? – perguntei, na minha língua materna, erguendo metade do meu corpo e esfregando os olhos.
- Estamos há uma hora à tua procura, Kyrianne. O funeral de Kostas começa daqui a vinte minutos.
Aquela resposta fez com que todas as réstias de sono que pudessem haver desaparecessem completamente. Mas se o que o meu pai estava a dizer era verdade, então eu dormira por mais de dez horas ali, na praia. Levantei-me imediatamente e disse ao meu pai que estaria na capela dali a dez minutos. Ele assentiu, disse para não me esquecer de colocar o véu, e saiu da praia com os outros pescadores.
Comecei então a sacudir a areia dos meus cabelos, mas era quase impossível, dado que eles eram bastante compridos e volumosos. Dado que não havia tempo a perder, entreguei o véu a Theodore e comecei a despir a camisola.
- Kyrianne, o que raio estás a fazer! – exclamou Ted de repente, fechando os olhos com força.
- Volto já, Ted. – respondi, andando rapidamente em direcção ao mar.
- Louca. És louca. – comentou Ted, enquanto subíamos rapidamente as ruas rumo à capela.
- Porque fui dar um mergulho? – perguntei, colocando o véu sobre os cabelos molhados enquanto andava.
- Em pleno Inverno.
- Eu vivi na Rússia, Theodore. O Inverno em Anáfi é uma tarde quente de Maio comparado com o gelo que eu senti lá no norte. – ele suspirou, claramente desaprovador.
- E deixam-te entrar na igreja assim vestida? Ou devo dizer, despida? – ri.
- Não te tomava por um puritano, Theodore. E isto é uma ilha piscatória. Todos nós, antes de aprendermos a andar, já sabíamos nadar. Ninguém vai notar. – fiz uma pausa. - E eu acho que Kostas ia gostar de me ver assim.
- Reparei que aqui não te importas de mostrar as pernas. – comentou ele, depois de uns momentos de silêncio, quando chegámos à praça principal. Encolhi os ombros.
- Sou como a Ariel.
- Ariel?
- É um conto de fadas. Ariel era uma sereia, mas quando conheceu Eric, um humano, apaixonou-se por ele e, por isso, decidiu pedir a Úrsula, uma polvo malvada, que lhe desse pernas durante um dia. Úrsula acedeu, na condição de que enquanto ela tivesse pernas, não teria voz. Ariel cantava muito bem e Úrsula tinha inveja e queria esse dom só para ela. Seja como for, Ariel concordou e acabou por ir a terra e estar com Eric. – olhei-o. - Eu sou como ela. Quando estou aqui tenho as barbatanas com que nasci. Quando saio daqui, tenho as pernas de uma humana, mas não tenho voz.
- Não percebi nada. – admitiu ele, deixando-me entrar na igreja à sua frente.
- Devias ler mais, Ted. Coisas muggles. Ensinam-nos muito mais em duzentas páginas do que o Binns alguma vez poderia em sete anos. – respondi, parando perto do último banco de madeira.
A igreja estava cheia. Já não havia qualquer lugar livre nos vários e enormes bancos de madeira escura que preenchiam o piso de mármore claro. As crianças tinham até optado por usar alguns confessionários e os púlpitos mais altos como lugar cativo. Mas era de esperar. Kostas era uma espécie de instituição em Anáfi, tão velho quanto a própria ilha, diziam os mais mentalmente desregulados. Ele era amado e respeitado, e era mais do que correcto que tivesse uma afluência daquelas ao seu funeral.
- Parece-me que viemos demasiado tarde para arranjar bons lugares. – disse Ted, ao meu ouvido. – Desculpa, foi desapropriado. – Sorri.
- É verdade. Mas eu conheço os cantos à casa, ainda há um lugar livre.
Fiz sinal a Ted que me seguisse e levei-o por umas pequenas escadas em caracol escondidas pela cortina atrás da pia baptismal, que levavam à plataforma por cima da entrada da igreja. O enorme órgão tubular encontrava-se imponente e já algo idoso à nossa direita, e começaria o seu queixume assim que o padre declarasse a cerimónia iniciada.
- Podes conjurar duas cadeiras? Não tenho a minha varinha comigo. – pedi a Ted, que acedeu imediatamente e, do nada, apareceram duas confortáveis cadeiras de costas altas e bancos forrados. – Obrigada.
- O que é que acontece agora? – inquiriu ele, baixinho, quando nos sentámos.
- É uma pequena cerimónia simbólica, onde rezamos pelo espírito de Kostas, para que faça boa viagem até ao outro mundo. Amanhã de manhã é que é o funeral, concretamente. As cinzas de Kostas serão lançadas ao mar.
- Não vi nenhum cemitério quando fomos para a praia ou quando subimos até aqui.
- Não temos um. Cremamos todos os nossos mortos. Pelo menos, todos aqueles que seguem as tradições da ilha. Muitas vezes os familiares que moram noutras ilhas ou no continente decidem tratar o corpo de modo diferente.
- E as cinzas?
- Lançadas no mar.
- Sempre?
- Sempre.
- Mas não fazia mais sentido enterrar o corpo? Assim a família poderia visitar a campa quando quisesse.
- Nós somos filhos do mar, Theodore. Consegues imaginar o que seria passar a eternidade em terra? Além disso, sempre que alguém se quiser lembrar de um pai, irmão ou amigo que faleceu, basta ir até à praia. – levei a mão ao peito, onde o colar de conchas repousava. – O mar não vai a lado nenhum. Eles nunca nos deixam, não verdadeiramente.
Fixei o olhar de Theodore durante um momento, tentando discernir o que ele pensava. No entanto, não descobri muito, porque atrás de nós o enorme instrumento começou a tocar ruidosamente, obedecendo aos dedos do acólito que o tocava e que continuou a fazê-lo até ao fim do serviço fúnebre. Eu e Ted permanecemos em silêncio porque mesmo que quiséssemos falar, não nos conseguiríamos ouvir por cima daquela barulheira.
Quando o acólito parou de tocar e desceu rapidamente as escadas, a igreja começou a esvaziar rapidamente. Seguiam-se agora as horas de luto, que deviam ser passadas a rezar ou em silêncio, e em que nenhuma comida ou bebida, à excepção de pão e água, era permitida. Apenas os mais velhos respeitavam ambas as regras. O resto de nós permitia-se ao luxo da fala com os outros, maioritariamente sobre as qualidades e defeitos do falecido. Era isto que eu explicava a Theodore quando finalmente saímos da igreja para a noite agora completamente negra.
- Costumes interessantes. – comentou ele, com uma cara esquisita. Ri.
- 'Estranhos' é a palavra que te vem à mente. Aprecio o uso do eufemismo, no entanto.
- Obrigado. Mas, e agora? – encolhi os ombros.
- Tu não tens de cumprir o luto, se é isso a que te referes. És apenas um convidado aqui. – ele abanou a cabeça.
- O que é que tu vais fazer agora?
- Cumprir o luto. Esperar pela aurora. – respondi, olhando bem para ele.
Fisicamente, estava parecido com ele mesmo. Olhava-me ligeiramente preocupado e eu conseguia ver dois semicírculos negros debaixo dos seus olhos castanhos. Aparentava óbvio cansaço, mas eu sabia que se lhe perguntasse, ele diria que estava bem. Suspirei.
- Devias voltar para casa, Theodore. Ainda é dia de ano novo, a tua família com certeza que apreciaria a tua companhia. E Victoire, claro, deve sentir a tua falta.
Ele aproximou-se de mim, tirou o véu da minha cara – pousando-o também sobre os meus cabelos -, e tomou as minhas bochechas nas suas mãos que estavam quentes, como sempre. Olhava-me profundamente nos olhos, o que me fez perceber que as orbes dele não eram completamente castanhas, possuindo pequenos salpicos de amarelo aqui e ali.
- Eu disse-te que não estás sozinha. Disse-te que ficava. É isso que vou fazer. – disse ele, sério. – E tenho a certeza que a minha família e Victoire compreendem. – Sorri.
- Nesse caso, obrigada. – ele retribuiu o sorriso e afastou-se.
- Não tens de quê.
- Kyrianne! – chamou uma voz aguda, atrás de mim. Tirei o véu enquanto me voltava para ver Tahlia a correr na minha direcção.
- Olá, Tahlia.
Ela deixou o seu olhar pendurar-se em Theodore durante um momento, riu-se, e fez uma pergunta à qual eu respondi negativamente. Ela tornou a rir, tornou a falar, apertou a minha mão e tornou a correr para fora dali.
- Tenho mesmo de aprender a falar grego. – comentou Theodore, seguindo Tahlia com o olhar. Ri.
- Ela perguntou se eras meu namorado. – esclareci eu, continuando a rir ao ver Ted corar. – Eu disse que não, ao que ela respondeu que eras muito bonito. Afirmação da qual eu, obviamente, não discordei.
- Vives para me constranger, Kyri. – respondeu ele, ainda mais vermelho.
- Theodore, tens de trabalhar em como aceitar um elogio. A má em sociabilidade aqui c'est moi.
- Não quando estás aqui. Nesta ilha pareces outra pessoa. – ele olhou-me de alto a baixo. – Pareces mais…mais leve. E muito menos entediada. – Ri.
- Aqui estou em casa, Ted. Sinto-me confortável. Ariel, lembras-te? Barbatanas e pernas humanas? – ele olhou-me, confuso. Suspirei. – Queres vir conhecer a cidade? Eu conto-te a história pelo caminho.
Ele assentiu e, enquanto saíamos da praça principal ainda cheia de gente, lancei-me numa longa explicação sobre sereias semi-humanas que aceitavam favores de polvos fêmea com segundas intenções e tinham como melhores amigos um peixe e um caranguejo chamados Flounder e Sebastião.
- Adeus, bom amigo. Que a tua alma descanse em paz por entre as ondas do mar infinito.
Foram as últimas palavras proferidas pelo padre antes de, um a um, os amigos mais chegados de Kostas levarem a mão à sua urna e tirarem parte das suas cinzas, dizendo depois as suas próprias orações e lançando-as finalmente no mar.
A minha vez chegou rapidamente. Theodore permaneceu a meu lado segurando a minha mão esquerda enquanto levei a direita à urna. Com a mão cheia das cinzas de um dos homens que me criara e me amara como se fosse sangue do seu sangue, fechei os olhos e disse uma pequena e simples prece. E quando senti a brisa fria da manhã fazer os meus cabelos voar, abri a mão e deixei que Kostas voasse com ela, em remoinhos, acabando por desaparecer no mar.
- Está na hora de voltar, Papa. – disse eu, acabando de fechar o malão e pegando na varinha.
- Eu sei, querida. Vamos ter muitas saudades.
- Eu também. Voltarei no Verão, prometo.
O meu pai assentiu e abraçou-me com força, acenando-me depois quando finalmente saí de casa. Theodore esperava-me mesmo à porta, e rapidamente apontou para uma bandeirinha da equipa de Quidditch dos Gryffindor que repousava em cima de uma rocha ali perto, indicando que aquele seria o nosso passaporte para Hogwarts. Despedi-me então mais uma vez do meu pai e caminhei com Ted para a bandeirinha.
- Vamos retomar os treinos assim que chegares a Hogwarts. Vamos passar a três horas por dia para compensar o mês que estiveste parada. – Revirei os olhos.
- Tens-te em demasiado alta consideração, Theodore. Julgas que só porque tu decidiste fazer birra durante um mês, eu parei de treinar?
- Bom…sim.
- Errado, meu caro. Quase tão errado quanto a sequela de Bloodrayne.
- Quanto o quê?
- Deixa estar, Theodore. Vamos? – ele suspirou, olhando de lado para mim.
- Vamos.
Agarrámo-nos então firmemente à bandeira e desaparecemos da ilha da qual eu era filha e de onde, se pudesse, nunca mais voltaria a sair.
N/A: Eu tentei postar ontem, mas fiquei embrenhada noutros projectos. Agora deu-me para me achar artista e andar a desenhar constantemente, o que é que se pode fazer x)
Anyway, aqui está mais um capítulo. Espero que te cure os sintomas da abstinência, Mica, porque até ao fim da tarde de domingo vou estar bastante ocupada e não sei se vai dar para vir postar. Seja como for, quanto àquilo que disseste na mensagem sobre querer saber quando é que coiso e tal, ainda vais ter de esperar um bocadinho. Provavelmente só depois de eu fazer os exames nacionais :o
Keep reading, will you?
Love,
~Nalamin
