Disclaimer: Isto é uma chatice. Porque é que a tia Jo há-de ter tudo só para ela? :'c
Silver Heart
Fanfic by Nalamin
Chapter 14 - Back To The Future
- Kyri, ainda demoras? Está quase na…Oh. Meu. Merlin.
A obviamente exagerada reacção de Rose à minha aparência ecoou pelas paredes da casa de banho vazia. Decidíramos prepararmo-nos ali para podermos fazê-lo juntas e sem suscitar comentários idiotas das nossas colegas de camarata. E devo dizer que, apesar de a princípio achar essa ideia algo descabida, todos aqueles enormes espelhos davam agora imenso jeito.
- Estás espantosa, Kyrianne. – acrescentou Rose, quando caminhei na sua direcção, saída da box onde me estivera a vestir. Sorri.
- Obrigada. Tu também estás muito bonita, Rose. Já alguma vez te disse o quanto adoro a cor do teu cabelo?
- Várias vezes. – ela tornou a olhar-me de alto a baixo. – Mas caramba, Kyri…és capaz de ser, neste momento, a pessoa mais bonita que alguma vez conheci.
Suspirei, lembrando-me das palavras que Theodore - que desde a final das Olimpíadas mantinha a sua conversação comigo ao mínimo dos mínimos - proferira há algum tempo atrás, num dos nossos treinos. Lembrei-me também da comparação com os ímanes, do néon a piscar e daquilo que me apercebera e, por isso, apressei-me a afastar aqueles pensamentos da minha mente.
- Não é a primeira vez que ouço isso, Rose. Concordas com o cabelo solto? – perguntei, dando uma última olhadela ao espelho.
- Concordo. E gosto imenso da pulseira.
- Era da minha mãe. A minha avó ofereceu-lha no dia em que se casou, assim como a avó dela lhe ofereceu a ela.
- É lindíssima.
- Hey, Kyr, estás pronta? Temos de ir vestir as capas para os discursos. – ecoou a voz de James, do outro lado da porta fechada. Olhei para Rose, como que pedindo autorização para ir ao encontro dele.
- Vai. Eu vou calçar-me e vejo-te lá, sim?
Assentindo, saí para o corredor para me deparar com James Potter vestido com elegância tal que me fez arregalar os olhos. Até o seu cabelo negro incrivelmente despenteado estava alinhado e perfeito. E, claro, o seu magnífico sorriso completava o look. Também ele me disse que eu estava linda e ofereceu-me o seu braço para me escoltar até ao salão, oferta que eu aceitei.
Não é o que estão a pensar. Eu não andava com dois rapazes ao mesmo tempo. O que eu tivera com Louis tinha sido uma coisa casual, do momento. Sentíramo-nos atraídos um pelo outro e resolvêramos essa questão por completo (se é que me entendem) no dia das finais das Olimpíadas. E James, apesar da sua perseguição à minha pessoa no início do ano, acabara por desistir desses intentos e contentar-se em ser apenas meu amigo. E dado que ambos éramos porta-vozes das nossas equipas e que nenhum de nós tinha par (eu porque Scorpius ia com Rose e Theodore não me falava, e ele porque dizia que nenhuma rapariga me poderia substituir), decidíramos ir juntos à cerimónia de formatura. Portanto, eu era apenas uma rapariga solteira a deixar um dos meus amigos ser visto a trazer ao baile a, aparentemente, rapariga mais bonita que duas pessoas alguma vez tinham visto.
- O muggle Padre António Vieira disse: para falar ao vento bastam palavras; para falar ao coração são necessárias obras. Não escrevi nem tenho comigo nenhuma obra, mas vou fazer de tudo para vos falar ao coração.
Comecei eu quando, depois de James efectuar o seu discurso, subi ao púlpito e olhei para as caras de todos os meus colegas e os seus familiares. Não perdi muito tempo a procurar por Rose no meio da multidão porque os cabelos cor de fogo dos Weasley destacavam-se ali perto, do lado esquerdo. Entre eles, e para meu espanto, porque desde que chegara ao salão ainda não o vira, encontrava-se Theodore. Quando os nossos olhares se cruzaram ele sorriu, em incentivo. Por isso, sorri de volta e continuei.
- No primeiro dia que pisei o mármore brilhante de Hogwarts, fiquei deslumbrada com tamanha beleza. Os quadros conversavam entre si, fantasmas passeavam pelos corredores, escadarias mudavam de sítio conforme o seu humor. Era tudo tão vivo! A maior parte de vocês, senão todos, desfrutaram desta experiência aos onze anos. Eu, há apenas nove meses.
"Devo admitir que a vinda para Hogwarts não me agradava, de todo, e não só porque me manteria longe dos meus amigos e da minha família. Eu estava obviamente assustada. Um país novo, novos costumes e, acima de tudo, pessoas diferentes. Tenho a certeza de que, de uma forma ou de outra, todos se conseguem relacionar com isso. E tenho a certeza que vocês, tal como eu, deixaram pessoas entrar na vossa vida que vos ajudaram a ultrapassar todas as adversidades e chegar aqui, onde estamos hoje; chegar ao final de uma etapa tremendamente importante nas nossas vidas e que ditará o nosso futuro. E o futuro é como o papel em branco em que podemos escrever e desenhar o que queremos.
"Por isso, em nome dos finalistas dos Hufflepuff e da nossa chefe de Equipa, Pomona Sprout, é com enorme orgulho que declaro que, todos nós, tendo durante os últimos sete anos preenchido totalmente a nossa folha em branco, arrancamo-la finalmente do bloco. Estamos preparados e ansiosos por poder voltar a pegar na pena e esperamos que todos vocês nos dêem o privilégio de escrever e desenhar a vosso lado. Obrigada.
As palmas rapidamente encheram o salão e eu desci do púlpito, dando lugar à Directora, que anunciava a representante dos que ostentavam o símbolo verde e prata.
- Bom discurso, Kyri. – disse James, o primeiro a falar-me quando desci os poucos degraus e me a ele a ao porta voz dos Ravenclaw. Sorri.
- Obrigada, James. Também gostei do teu. As metáforas do Quidditch estavam francamente boas.
Ele sorriu e ficámos em silêncio para ouvir a porta-voz dos Slytherin. Quando também ela se juntou a nós, a professora McGonagall disse algumas palavras, agradeceu a presença dos nossos familiares e amigos e indicou que a entrega dos diplomas iria começar. Portanto, James, eu e os outros dois porta-vozes juntámo-nos aos finalistas das nossas equipas e esperámos que os nossos nomes fossem chamados.
Os Gryffindor foram os primeiros. Enquanto o chefe de Equipa lhes entregava os diplomas, olhei em volta. Rose e a família estavam a uns metros de mim, com certeza esperando ansiosamente que James fosse chamado.
O nome de James foi finalmente proferido pelo seu chefe de Equipa e um clamor de assobios e palmas veio daquele grupo, fazendo-me rir. Depois dele seguiram-se os Ravenclaw. Esta foi uma entrega um pouco mais lenta, porque o pobre professor Flitwick tinha que estar constantemente a fazer pequenos feitiços de levitação para se poder erguer à altura dos alunos, de modo a que se pudesse tirar uma fotografia. Não obstante, foi divertidíssima. E, finalmente, chegou a vez dos Hufflepuff.
- Kyrianne Argyris!
Espantada por o meu nome ser logo o primeiro a ser chamado, caminhei até aos degraus e subi-os devagar, segurando a saia do meu vestido, para evitar quedas humilhantes. Sorrindo, aceitei o diploma e os parabéns da minha chefe de Equipa, posando de seguida para a fotografia. Ao sair do palco, pisquei o olho a Rose, que batia palmas entusiasticamente.
Esperei que todos os meus colegas recebessem o seu diploma para posarmos para a fotografia de grupo. Terminada a dita, caminhei em direcção a Rose, que me puxou para um abraço apertado e me congratulou, garantindo-me, num tom de voz mais baixo, que Scorpius também estava muito orgulhoso de mim e que tinha pena de não poder comparecer. Quando finalmente me largou, fez questão de me apresentar a todos os Weasleys presentes, contando com a ajuda de James, que a tomou como exemplo e me deu a conhecer aos seus pais e irmãos.
Só consegui chegar a Theodore quando a cerimónia já ia avançada. A música tocava suavemente e os professores andavam por ali a felicitar pais e formandos. Aproximei-me dele que, naquela noite, e tal como eu gostava mais, se parecia com ele próprio.
- Não pensei que viesses, Theodore. – comentei, parando ao lado da cadeira onde ele estava sentado e da qual se levantou quando ouviu a minha voz.
- E perder a oportunidade de te ver mais deslumbrante que nunca? Seria um idiota se faltasse. – respondeu ele, com um sorriso maroto.
- Ah sim, tínhamos estabelecido há algum tempo que era importante para ti não fazeres figura de parvo à minha frente. – ele riu. – Mas pensei que também tivesse ficado claro que eu não faço a menor ideia como jogar estes jogos, Theodore. – acrescentei, num tom mais sério. – Não percebo porque é que, por vezes, de súbito, decides deixar de falar comigo. – ele suspirou e olhou o chão. – Sinto a tua falta, Ted.
Ele voltou o seu olhar cor de mel para mim e fitou-me intensamente. Respirando fundo, deu um passo em frente e ficou bastante perto de mim. Mas, mesmo assim, ainda demoraram alguns segundos antes de ele tornar a falar.
- Kyri, eu e Victoire já não estamos juntos. – disse ele, num tom grave. Olhei-o, espantada, e coloquei a mão no seu braço, pensando no quão insensível tinha sido por ter dito o que acabara de dizer estando ele certamente triste.
- Oh Ted, lamento por isso. E lamento por ter dito isto agora. – ele sorriu e abanou a cabeça.
- Não lamentes. Ainda bem que disseste. – fez uma pausa, na qual eu o fitei, confusa. – Não foi por causa do fim do meu relacionamento com Victoire que eu, muito estupidamente, admito, deixei, mais uma vez, de falar contigo.
- Não? Então qual foi o motivo?
Ele pegou na minha mão que ainda repousava no braço dele e apertou-a suavemente, nunca deixando o seu olhar desviar-se do meu. Naquele momento, o tal néon tornou a piscar na minha mente. E eu só consegui pensar numa coisa: que não podia deixar aquilo tornar-se real, não o podia deixar falar. Porque se ele dissesse o que eu pensava que ele ia dizer, as coisas mudariam. E apesar do irritante néon, eu não tinha a certeza se queria ver, de novo, a minha vida a levar um rumo que eu não tinha a certeza se era o melhor para mim.
- Kyri, a verdade é que… - ia-me preparar para o interromper quando alguém o fez por mim.
- Ah, Miss Argyris, finalmente! Leonidas Caro, da G.I.F.T. Perdoe-me a interrupção, minha cara, mas, Miss Argyris, poderia emprestar-me alguns minutos do seu tempo para discutirmos negócios? – exclamou energicamente um homem de meia idade, bem parecido, olhando de mim para Theodore. – Prometo que a trago de volta sã e salva. Vamos?
- Ted, eu… - ele sorriu e largou a minha mão.
- Posso esperar mais uns minutos. Vai.
Assenti e deixei o homem indicar-me um canto mais sossegado, longe de ouvidos curiosos. Ainda era capaz de ver Theodore do sítio onde me sentara. Cumprimentava alegremente James e, provavelmente, falavam sobre o seu futuro. Tal como aquele homem - ainda que eu não soubesse isso quando me sentei a seu lado - estava ali para falar do meu.
- Antes de mais, Miss Argyris, parabéns pela conclusão da sua carreira académica. Deve estar muito orgulhosa do que conquistou este ano. – Sorri.
- Obrigada. E sim, estou bastante satisfeita com os resultados que obtive.
- E tem alguma ideia do que planeia fazer a seguir? Alguma profissão que queira seguir?
- Acho que a pergunta 'qual a profissão dos seus sonhos?', Mr. Caro, tem uma resposta bastante óbvia no meu caso, como deve saber. – respondi, olhando-o. Ele sorriu.
- E por que saberia tal coisa? – ergui uma sobrancelha.
- Mr. Caro, o senhor sabia o meu nome, portanto com certeza sabe tudo sobre mim. Ainda para mais sendo grego. – Ele riu.
- Pensei que o meu apelido italiano não me denunciasse. – foi a minha vez de sorrir.
- Como não poderia? O seu nome conta uma história. Além disso, Leonidas é o nome do meu pai. – fiz uma pausa. – Vai dizer-me o que deseja de mim, Mr. Caro?
- Por favor, chame-me Leo. E, tal como lhe disse há pouco, estou aqui como representante do G.I.F.T.
- Está a supor que eu sei o que essa sigla significa, Leo. – ele fitou-me, falsamente indignado.
- Desilude-me, Miss Argyris. Nascida e criada em Anáfi e nunca ouviu falar de nós? G.I.F.T é a sigla para Greek Islands Fencing Team. – olhei-o, sinceramente espantada.
- Existe uma equipa de esgrima das Kykládhes?
- Minha cara, quem acha que a levou para Atenas em primeiro lugar? - Não consegui evitar abrir a boca, tal não era o meu espanto.
- Existe alguma razão para não me terem contado isto mais cedo? – perguntei, quando me recompus. Ele encolheu os ombros.
- Nenhuma. Quando chegou a nós era demasiado nova para compreender toda a burocracia, e quando fez treze anos partiu para a Rússia. Tentámos arranjar-lhe um tutor para que pudesse ficar mais perto de casa, dado que era a única feiticeira nas imediações sem posses para frquentar a Academia ou Durmstrang. Mas quando a oferta de uma bolsa de estudos foi posta em cima da mesa decidimos, como seus tutores, e para o bem da sua educação mágica, da qual nada sabíamos, aceitá-la.
- Vocês são muggles, portanto. – ele assentiu.
- Noutras circunstâncias, jamais viria ter consigo fazer-lhe esta proposta. Mas, em primeiro lugar, a Kyrianne, se me permite chamá-la assim, foi treinada connosco. E mesmo quando partiu para o Instituto, nunca deixámos de a observar. Recebíamos todos os registos dos seus treinos e provas e também as suas avaliações escolares. E em segundo lugar, segundo essas mesmas avaliações, os seus professores afirmavam que, apesar do inegável talento para a esgrima e de uma razoável aptidão mágica, a Kyrianne parecia não abandonar a muggle que há em si. – ri.
- Theodore disse o mesmo no dia em que cheguei a Hogwarts.
- Por isso pensámos que, quando terminasse a escola, provavelmente seria do seu desejo continuar a esgrimir. – continuou ele, sorrindo e ignorando o meu comentário.
- É claro que sim.
- E como parece que a sua natureza mágica é, para si, apenas um extra que não muda a sua maneira de ser nem a prejudica na esgrima, gostaríamos de a convidar a aceitar um patrocínio da nossa parte. Competirá com as cores da nossa equipa e, se em algum ano não se qualificar – o que duvido – ou se simplesmente quiser descansar durante algum tempo, teremos todo o gosto em colocá-la a treinar os mais jovens. Temos grupos fabulosos que dariam tudo para ser treinados pela campeã. – concluiu ele, fazendo-me sorrir largamente.
Afinal, não estava tudo perdido! Eu poderia continuar a praticar o meu desporto, a competir, e a ensinar os mais novos, até! Com mais alguns minutos de conversa, Leonidas explicou-me todos os pormenores: durante o primeiro ano, começando em Setembro e acabando em Maio, a equipa iria numa tour pelo globo, competindo em vários países, em vários escalões, e em vários tipos de competições, e seríamos pagos por isso (dependendo, claro, dos nossos resultados). Findado esse ano, cabia-me a mim escolher o meu futuro: podia ficar na Grécia a ensinar, participando em competições quando elas existissem ou, se me fosse feita uma oferta melhor, poderia deixar a G.I.F.T e subir a bordo de outra equipa. E, claro, existia sempre a hipótese de desistir de tudo e voltar a Anáfi.
- Não precisa de decidir neste preciso momento, Kyrianne. – disse ele, quando todas as explicações terminaram. - Mas, infelizmente, estamos num prazo apertado. Existem ainda muitos esgrimistas que tenho de visitar e aspectos da nossa pequena tour que tenho de acertar. Ficarei em Hogwarts até ao fim desta cerimónia. Pensa que me poderá dar uma resposta aí?
- Penso que sim. – respondi sorridente. – Obrigada por esta oportunidade.
- Não tem de quê, minha cara. Não seria o mesmo sem si. – respondeu ele, apertando a mão que eu estendera e olhando por cima do meu ombro. – Permite-me que lhe faça uma pergunta pessoal? – acrescentou, quando largou a minha mão e tornou a olhar para mim.
- Permito.
- No que diz respeito a família directa, só lhe resta o seu pai, correcto? E ele vive em Anáfi.
- Exactamente. – ele sorriu.
- Eu vim aqui com o intuito de a convencer a aceitar a minha oferta. Mas quero que me deixe dizer-lhe algo, que não sei se vai ou não influenciar a sua decisão: aceite o que lhe propus apenas se tiver a certeza de que será capaz de suportar a distância e ausência de tudo – e mais importante, de quem! – vai deixar para trás. E não me estou a referir ao seu pai. – terminou ele, fazendo sinal com a cabeça para algo atrás de mim e afastando-se em seguida.
Voltei-me então para ver Theodore a rir com o pai e o tio de Rose, enquanto esta última dançava de modo algo desajeitado com James uns metros mais ao lado. Sorri. Eles eram muito importantes, disso não havia dúvida. Theodore especialmente, apesar da maneira pouco eficaz que eu tinha desenvolvido para mandar essa confissão para um qualquer recanto da minha mente desde a lembrança daquela estúpida teoria dos ímanes.
Mas, apesar disso, era da minha vida que estávamos a falar, do meu futuro. Tinha-me sido oferecida a oportunidade de ganhar dinheiro a fazer aquilo que eu amava. O dinheiro não era, para mim, o mais importante, apesar de não me importar de poder dar uma vida um pouco melhor ao meu pai. Não, o que eu não sabia era se iria ter uma oportunidade daquelas de novo. E no que dizia respeito a Rose – e Scorpius também -, eu sabia que, apesar da distância, a amizade deles seria sempre constante. Sabia que se eu estivesse mesmo mal, eles seriam capazes de dar a volta ao mundo só para me reconfortar. E quanto a Theodore…
Nunca daria certo. Quer dizer, olhem para mim. Não, não me refiro à minha parte física porque, segundo opinões, parece ser perfeita. Pensem bem: como que é que um espírito livre, gentil e leal como Theodore iria alguma vez querer ficar com uma pessoa entediada e algumas vezes, admitamos, imodesta, convencida e sabe-tudo irritante? Já para não falar no obstáculo 'idade'.
Foi por isso que tomei a decisão que tomei. Por mais que eu tivesse noção de que, se o tivesse deixado acabar o que ia dizer há minutos, ele diria que gostava de mim daquela maneira, também sabia que não estava pronta para ouvir isso. Porque por muito que eu adorasse Theodore – e, acreditem, eu adorava -, amava mais a esgrima.
Respirando, olhei em volta procurando Leonidas. Encontrei-o perto da mesa do ponche, conversando alegremente com o professor Flitwick. Segurando a saia do meu vestido, caminhei na sua direcção e, depois de pedir desculpa pela interrupção, confirmei a minha aceitação da sua proposta. Ele garantiu-me que perto do fim do verão iria a Anáfi acertar as últimas pontas soltas comigo e que depois fazíamo-nos à estrada, por assim dizer.
- Está na hora de ir dar as boas novas aos seus amigos, Miss Argyris.
Assenti, percebendo o que ele queria dizer. Com mais um agradecimento e um pedido de desculpas ao professor Flitwick por ter interrompido a conversa, virei costas e segui até ao clã Weasley, disposta a revelar aos meus melhores amigos a nova pena que usaria para escrever na folha imaculada que era o meu futuro.
- Estás muito calada, Rosie. – disse Theodore, alguns minutos depois de Kyrianne aceitar o convite de James para dançar, deixando-os a processar tudo o que lhes contara.
- Estava só a pensar. – respondeu a ruiva, olhando para ele.
- Estás feliz por ela? – inquiriu, passados alguns segundos.
- É claro que sim! – exclamou Rose, sorrindo. - Não nego que vou ter saudades, mas é a oportunidade de uma vida. Por muito boa atleta que ela seja, não temos como saber se uma oferta destas apareceria de novo. – fez uma pausa. – Mas não era apenas sobre a ida de Kyri para longe que eu estava a pensar. – acrescentou, percebendo toda a extensão da pergunta de Theodore.
- Queres partilhar?
- Não vais compreender.
- Não sou completamente desprovido de cérebro, Rose.
- Não foi isso que quis dizer. – Rose suspirou. – Estava a pensar em como tu e Kyri serão o gato de Schrödinger.
- O quê? – ela gargalhou.
- Eu avisei-te de que não ias compreender. Ainda para mais, é uma coisa muggle. – ele revirou os olhos.
- Explica-me, então. Em inglês, de preferência.
- O gato de Schrödinger é experiencia básica de mecânica quântica. – Theodore fitou-a, confuso. – Vamos simplesmente fingir que sabes o que é mecânica quântica, está bem?
- Começo mesmo a ficar irritado com o vosso amor a coisas muggles.
- Adiante. – continuou ela, ignorando-o. – A experiência consistia em colocar um gato numa caixa lacrada, juntamente com uma cápsula radioactiva e um frasco de veneno letal. Se um contador, também inserido na caixa, detectar radiação, então o frasco é quebrado, libertando o veneno que mata o gato. Compreendes até aqui?
- Que experiência mais bizarra. Os muggles são loucos.
- Não deixam, no entanto, de fazer descobertas fantásticas. – fez uma pausa. – Seja como for, a mecânica quântica sugere que depois de um tempo o gato está simultaneamente vivo e morto, porque só saberemos que ele está uma ou outra coisa se abrirmos a caixa. Vocês são o gato, Ted. Estão dentro da caixa e só saberão se sobrevivem ou não quando a dita se abrir. – ele suspirou.
- E quando é que isso vai acontecer?
- Só te sei dizer quando não vai acontecer: hoje.
- Perfeito! - comentou Ted, sarcasticamente.
- Não vale a pena chorar sobre poção derramada, Theodore. – respondeu Rose, colocando o braço por cima dos ombros de Theodore. - Resta apenas que te perguntes uma coisa: queres correr o risco e seres tu a abrir a caixa, ou queres esperar pacientemente que ela se abra sozinha?
N/A: Inserir o gato de Schrödinger numa fic era uma ideia que já estava há algum tempo a formar-se na minha cabeça, principalmente porque expressava, na minha mente (perturbada) um sentimento em particular. Bom, finalmente pu-la em prática. Eu sabia no que é que a experiência consistia e sabia explicá-la em termos leigos, mas, como sempre, a Wikipedia foi a minha melhor amiga.
Só por curiosidade, tanto a sigla G.I.F.T quanto o nome do seu representante não foram ao acaso. Acho que passei mais tempo à volta desses dois pormenores do que a escrever grande parte do último capítulo x). Eu sou agnóstica, mas não se costuma dizer que Deus está nos detalhes? :p
Vem aí o último capítulo. Mais uma viagem que termina em breve :')
Love,
~Nalamin
