Capítulo 1
O fim de semana antes das provas finais era sempre o mesmo caos. Pessoas terminando trabalhos, pegando livros, estudando em grupos. Era insuportável estudar na Biblioteca da Letras, e era exatamente por isso que Ginny costumava pegar todos os livros de que precisava e ir estudar na Biblioteca do Direito. Os alunos de lá eram riquinhos que compravam seus próprios livros, de qualquer forma. Muitos deles nem sabiam que a biblioteca existia.
Ela se instalou numa mesa no canto, longe de um casal que parecia não estar muito interessado em realmente estudar. Tirou o muito entediante volume de Poética, de Aristóteles, de dentro da bolsa e o abriu na página marcada.
Tentou bravamente se concentrar no livro, mas era simplesmente impossível. Não importava quanto Red Bull ela tinha tomado antes de entrar na biblioteca, seus olhos não pareciam muito dispostos a continuar abertos. Ela suspirou, marcou a página novamente e guardou o livro na bolsa. Levantou, resolvendo que iria dar uma volta entre as estantes antes de decidir se ia embora ou se ia tentar estudar mais um pouco.
Quando voltou, o casal tinha sumido, mas, na mesa ao lado da deles, um rapaz louro digitava o que parecia ser um trabalho sobre Direito Penal - esse, pelo menos, era o tema dos vários livros que ele tinha sobre a mesa. Ela tinha a sensação de que o conhecia de algum lugar, mas não tinha certeza. Se ele ao menos virasse de frente para ela...
Suspirou. Descobrir de onde o conhecia não era de vital importância. Tinha que ir pegar a bolsa e sair dali para arranjar um lugar um pouco menos calmo para estudar - o gramado na frente da Letras subitamente pareceu o lugar perfeito, e ela se perguntou por que não tinha pensado nisso antes.
Não conseguiu evitar ler o que o rapaz estava digitando quando passou atrás dele para sair da biblioteca. Percebeu que ele estava revisando o tal trabalho, e, ainda assim, a primeira frase na tela parecia um anúncio em néon, por uma simples razão: ele havia conseguido quebrar umas cinco regras sobre o uso de vírgulas em duas linhas de texto.
- Ahn, desculpa, mas... essa frase tá errada - ela disse, se esforçando para parecer segura de si. Por sorte, ela pelo menos não tinha soado como se tivesse feito uma pergunta.
O rapaz se virou, lançando-lhe um olhar de superioridade, e ela imediatamente o reconheceu. Era o carinha que ela tinha conhecido na festa um mês antes. Tinha apostado com as amigas que conseguiria ficar com ele, e tinha perdido a aposta quando achava que ela já estava ganha.
Os lábios de Draco se curvaram em um sorriso malicioso. Então, tinha reencontrado a professorinha? O rosto era bastante diferente sem maquiagem, mas os longos cabelos ruivos eram inconfundíveis.
Não. Não iria pensar nisso. Não iria pensar na noite em que a conhecera. E, com certeza, não iria pensar em quanto adorava ruivas. Não. De jeito nenhum. Tinha que terminar de revisar aquele maldito trabalho logo, e não podia se dar ao luxo de se distrair com fantasias que não lhe fariam absolutamente bem nenhum.
De fato, seria mais seguro fingir que não a conhecia.
- E quem é você pra me dizer isso?
- Hm, eu por acaso faço Letras - ela respondeu, constrangida com o olhar que ele lhe lançou ao ouvir isso. Era aquele desprezo supostamente velado, tão típico de quem fazia outros cursos. Como se fazer Letras significasse que ela era incapaz de entrar em qualquer outro curso.
- Bom pra você. Eu faço Direito.
- Isso não muda o fato de que essas vírgulas estão fora do lugar.
- Problema delas. Enquanto você está aí preocupada em aprender essas regras estúpidas, eu estou ocupado fazendo alguma coisa útil para os cidadãos desse país. Agora, com licença. Eu tenho um Código Penal para estudar.
- Desculpa, mas eu não levaria a sério um profissional que sequer sabe escrever, senhor Advogado.
- Acabou o discurso em defesa dos que não conseguiram fazer nada melhor da vida? Ou você ainda tem mais um milhão de coisas gramaticalmente corretas e irrelevantes pra me dizer?
- Isso não é irrelevante!
A bibliotecária lhes lançou um olhar severo. Mesmo que só houvesse mais uma menina ali e que essa menina estivesse usando fones de ouvido, Ginny tinha falado um pouco alto demais para passar impune.
Draco fechou o notebook e o enfiou na mochila, decidindo que iria se fechar numa das salas de estudos. Tinha três horas para entregar aquele trabalho, e não queria mais interrupções.
- Foda-se - sibilou. - Divirta-se dando aulas. Eu vou estudar para ganhar dinheiro de verdade - lançou-lhe um sorriso maldoso.
- Isso é tão típico - resmungou. - Por que é que vocês agem como se fossem melhores que todo mundo só porque podem dizer "eu faço Direito"?
- Porque nós somos melhores que todo mundo? - ele respondeu, como se fosse óbvio. - E, se não estivesse tão ocupada bancando a defensora dos fracos e oprimidos, iria admitir isso e me deixar em paz.
Ginny revirou os olhos. Não iria sequer perder tempo pensando numa resposta para dar àquela declaração absurda. Simplesmente deu meia-volta e começou a andar na direção da saída.
- Não me deixe falando sozinho! - ele a puxou pelo braço.
- Você tem algum tipo de esquizofrenia, né? - ela tentou se desvencilhar, sem sucesso. - Não queria que eu te deixasse em paz? Então, me solta! - mandou. Draco hesitou. - Me. Solta. Agora!
A bibliotecária mandou que eles fizessem silêncio, e Draco decidiu que era melhor obedecer a garota. Não querida ser expulso da biblioteca quando "só" tinha mais vinte páginas pela frente.
- Satisfeita, Ginny?
Ela o olhou, abrindo um sorriso malicioso, e Draco percebeu seu erro. Não tinha decidido fingir que não a reconhecia?
- Você é o cara da festa, não é? - ela perguntou, como se só naquele momento tivesse percebido com quem estava falando.
- Por que a pergunta? Passou a noite pensando em mim?
- Não. Eu só queria entender o que o senhor Advogado-Fodão-Melhor-Que-Você estava fazendo numa festa da Letras. Flertando com uma garota da Letras, caso você não lembre.
- Infelizmente, só os alunos da Letras fazem festa numa noite no meio da semana. Os outros sabem que têm uma coisa chamada aula no dia seguinte.
- Ainda não explica por que você estava flertando comigo.
- Porque a minha namorada tinha terminado comigo por um cara que não é nem metade de mim. E você pode até não ser exatamente gostosa, mas pelo menos eu sabia que você queria dar pra mim.
- Eu não queria dar pra você! Era só uma aposta!
Ele riu, sarcástico. Mas, no fundo, aquilo fez com que ele mudasse um pouco o que pensava dela. Ela era linda, ruiva, temperamental, o que era absolutamente sexy, mas ele não sabia ao certo o que sentia sobre a idéia de ter sido apostado. Por um lado, pensar que ela talvez não tivesse nenhum interesse real nele era meio ruim para sua auto-estima. Por outro, isso lhe garantia que ele estava lidando com o tipo de pessoa que ele próprio era: alguém que venderia a alma ao Diabo se fosse ganhar muito com isso.
- Uau, ruiva, você realmente sabe fazer bem pro ego de um cara.
- Vai se foder, Draco.
- Isso é tudo o que eu tenho feito no último mês, Ginny. Que tal se eu foder você, em vez disso?
- Você não faria isso, Draco. Eu sou só a garota irritante da Letras, lembra?
- Não duvide de mim - respondeu, pegando a mochila e jogando-a nos ombros. - Estou avisando. Nunca diga que eu não faria alguma coisa. Agora, por favor. Desapareça.
E, dizendo isso, ele saiu andando e entrou numa das salas individuais. Fechou a porta, deixando a garota parada, confusa, no meio da biblioteca.
